O plural dos nomes compostos

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Sabemos que, em português, os nomes sempre têm plural, tanto os prenomes quanto os sobrenomes. Mas como se faz o plural de prenomes compostos, ou de sobrenomes compostos?

Com base no uso de nossos melhores escritores e as recomendações de nossos bons gramáticos, as regras que se observam para a formação do plural de nomes compostos são:

  • Se o composto inclui a preposição “de” (do, das, dos, das), só se pluraliza o que vem antes dela: as Marias do Carmodois Ataídes de Azevedo; os de Sá Ribeiroos Limas de Azevedo; os Paes de Andrade; as Joanas d’Arc; muitos Vascos da Gama.
  • Se o composto é ligado por “e“, só se pluraliza o que vem após o “e“: os membros da família “Sousa e Silva” são “os Sousa e Silvas“.

Nos casos de compostos sem elemento de ligação entre os nomes, o uso dos autores clássicos variava entre as duas possibilidades que a gramática oferece:

  • Pluralizam-se ambos os nomes: as Marias Quitérias; os Pedros Paulos; os Castros Alves; os Ruys Barbosas; os Pedros Arcanjosos Zés Marias; os Pedros Miguéis; os Miguéis Ângelos; ou:
  • O composto é tratado como uma unidade, pluralizando-se apenas o segundo elemento: as Maria Quitériasos Ruy Barbosasos Joaquim Nabucosos Pedro Paulos; os Castro Alves; os Ruy Barbosasos Pedro Arcanjosos Zé Marias; os Pedro Miguéisos Miguel Ângelos.

 

Em português, os sobrenomes têm plural

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Ao contrário do que diz o jornal Diário de Notícias, não foi a cadela dos Obama que mordeu uma visitante na Casa Branca – foi a cadela dos Obamas.

Em português, os nomes, inclusive os nomes de família (sobrenomes), sempre tiveram plural como qualquer substantivo da língua portuguesa: uma das obras-primas de Eça de Queiroz (por muitos considerado o maior escritos português) foi aquela chamada “Os Maias” (e não *Os Maia); os membros daquela família imperial eram os Braganças, e não *os Bragança; e uma das famílias mais conhecidas da televisão mundial é a dos Simpsons (e não *os Simpson).

Assim, não há por que falar em “os Obama“, “dos Obama” – o certo é “os Obamas“, “dos Obamas“.

Os nomes próprios (tanto prenomes quanto sobrenomes) portugueses seguem as mesmas regras de formação dos substantivos comuns: o Raul, os Rauiso Benjamim, os Benjamins; o Cabral, os Cabraisa Ester, as Esteres; o Mateus, os Mateusa Raquel, as Raquéiso Rafael, os Rafaéis.

Já os nomes estrangeiros normalmente recebem plural, em português, pela adição de um “s”: os Amins, os Bismarcks, os Clintons, os Husseins, os Isaacs, os Kennedys, os Kirchners, os Lafers, os Medvedevs, os Müllers, os Rousseffs, os Sarkozys – com a exceção daqueles já terminados em “s” ou “z”, que permanecem invariáveis: os Chávez (como os Chaves), etc.

“Estão melhor” ou “estão melhores”?

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Será que o jornal acima traduziu corretamente o que disse Obama? Terá dito ele que “os EUA estão melhores do que há oito anos” ou que “os EUA estão melhor do que há oito anos“?

Existe o adjetivomelhor“, que significa “mais bom” e tem plural (melhor amigo, melhores amigos); e existe o advérbio “melhor”, que significa “mais bem” e que, como todo advérbio, não tem plural.

Estaria perfeitamente correta, portanto, a frase “Os Estados Unidos estão melhor do que há oito anos” (isto é, os EUA estão “mais bem” do que estavam oito anos atrás). O que provavelmente ocorreu foi que quem fez a tradução cometeu uma hipercorreção: tentou corrigir algo que já estava certo, por achar que estava errado.

Do jeito que saiu no jornal, a frase (“Os EUA estão melhores do que há oito anos“) acabou significando que os “EUA estão ‘mais bons’ do que há oito anos” – não se pode dizer que esteja errada, mas definitivamente a forma sem o plural (“os EUA estão melhor“) era, além de mais natural, a mais apropriada no caso.

Ipuiuna ou Ipuiúna? A grafia de Ipuiuna, Minas Gerais

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Ipuiuna ou Ipuiúna? Um leitor mineiro pergunta se o nome da cidade de Ipuiuna, em Minas Gerais, deve ser escrito com ou sem acento agudo. Diz que, nos seus dicionários (Aurélio e Houaiss), encontra, no verbete ipuiunense, o nome acentuado (Ipuíuna), mas que não concorda com a necessidade desse acento.

O leitor está correto: Ipuiuna não leva acento. A grafia Ipuiúna, com acento, é a grafia antiga – até o Acordo Ortográfico atual entrar em vigor, era acentuado, no Brasil, o “u” tônico seguido de ditongo: feiúra, baiúcaBocaiúva, etc., que, na nova ortografia, se escrevem feiurabaiucaBocaiuva, sem acento. Foi uma boa mudança da reforma ortográfica – não havia necessidade daqueles acentos.

Como a mudança é relativamente recente, ainda se encontra de vez em quando a grafia antiga (Ipuiúna), mas cada vez menos. Os jornais e órgãos públicos ipuiunenses já usam a forma sem acento, Ipuiuna (fora alguns resquícios de conteúdos antigos).

O Houaiss em papel, de fato, ainda traz Ipuiúna com acento, erradamente; mas a versão eletrônica do Houaiss, atualizada na Internet, já traz a forma correta:

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O fato de mesmo dicionários de renome como o Aurélio e o Houaiss trazerem o nome de uma cidade escrito errado não deveria surpreender: em diferentes textos anteriores aqui na página, tratamos de casos de cidades cujos nomes vêm escritos de forma errada nos principais dicionários brasileiros – Bagé, Lages, Joinville, Chuí, Mogi das Cruzes, ParatyMassaranduba, Pirassununga, etc. Foi por essa razão que criamos a página Dicionário de gentílicos brasileiros, feita para ser o que até então não havia – uma fonte confiável dos nomes de cidades brasileiros e seus gentílicos, devidamente verificados e confirmados mediantes fontes oficiais.

E a página tem dado resultado: desde a publicação deste texto, do ano passado, em que apontamos grafias erradas constantes dos principais dicionários brasileiros, o dicionário Houaiss já fez a correção, em sua versão eletrônica, de quase todas essas formas que estavam escritas incorretamente e que haviam sido apontadas aqui na página (Bagé, Lages, Joinville, Chuí, Mogi das Cruzes, Paraty, Massaranduba, Pirassununga)… além da já mencionada Ipuiuna.

A expressão “no aguardo” está correta? Existe “aguardo”? (Claro que sim.)

“Ficar no aguardo” e “estar no aguardo” são expressões corretas, existentes em português desde o século retrasado e autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos da nossa língua.

Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo os quais a expressão “no aguardonão existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português desde o século retrasado e é corretíssima.

Veja-se, por exemplo, já a primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete, o da Porto Editora, etc.) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas que é “apenas” um “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecia no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no dicionário do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Dicionário Aulete, versão portuguesa

O  mesmo já se via, aliás, no dicionário de Moraes:

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Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc.

Em conclusão: é correto e antiga em português o substantivo aguardo, em português, com o sentido de espera, e também a expressão no aguardo é absolutamente correta.

Concertina, um tipo de acordeão

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A concertina é um tipo de acordeão menor e com forma de hexágono ou octógono. É instrumento musical com papel relevante na tradição musical de vários países – Alemanha, Reino Unido, Portugal, partes do Brasil (sobretudo o estado do Espírito Santo), Argentina (onde deu origem ao bandoneón), etc.

Mas a linda concertina da foto acima não é uma concertina para os nossos principais dicionários: para os brasileiros Houaiss, Aulete e Michaelis e para os portugueses Priberam e Porto Editora, uma concertina tem de obrigatoriamente ter formato hexagonal. Errados, todos eles.

Quem se salva são o Aurélio (que nada fala do formato da concertina) e o Estraviz (“Instrumento musical de fole e palheta livre, de caixa poligonal, do grupo dos acordeões“).

Em espanhol, a Real Academia também acerta: “concertina: acordeón de forma hexagonal u octogonal“.

Apenas em português, concertinas são também as espirais do arame farpado, como as da foto a seguir:

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Sediar ou sedear? A diferença entre sediado e sedeado

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O certo é sediar ou sedear? Diz-se sedeado ou sediado?

Até existe o verbo “sedear“, com “e”: é um verbo antigo cujo significado é limpar ou lustrar com seda, ou com escova de seda, etc.

O verbo que se usa com o sentido de receber um evento, hospedar, ser sede (séde) de algo é sediar, com “i”, como sabemos todos (e como ensinam todos os dicionários portugueses e brasileiros). Sabemos todos, exceto alguns dos criadores de caso de sempre (por exemplo, aqui e aqui), que dizem que, se vem da palavra sede, o verbo deveria ser sedear (e o adjetivo, sedeado), e não sediar/sediado.

A “lógica” é simplesmente furada: existe em português a produtivíssima terminação “-iar”, que faz que, de chefe, se tenha criado o verbo chefiar (não *chefear); de lume, o verbo alumiar; de abade, o verbo abadiar; de judeu, o verbo judiar; de apreçoapreciar; de presençapresenciar, etc.

E, para variar, além de precisarem corrigir todos os dicionários brasileiros, portugueses (e até galegos), os sabichões precisariam corrigir a história da língua portuguesa: ao menos desde a década de 1930 se encontram exemplos de sediarsediado em decretos e textos oficiais – como o decreto-lei brasileiro 457, de 1938, pelo qual o então presidente Getúlio Vargas autorizou a doação de fazendas, a fim de “nelas sediar o novo quartel das forças federais“, ou o Boletim de 1934 do Ministério da Agricultura, que se referia aos “encarregados de postos sediados em zonas de caça“.