Pronúncia: Manchéster ou Mânchester?

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O recente atentado terrorista em Manchester, na Inglaterra, fez que o nome dessa cidade inglesa fosse citado ao longo da semana em todos os principais telejornais. Pouco habituados a tratar da cidade em outras situações, os repórteres brasileiros se referiram a ela com a pronúncia “Mânchester“, proparoxítona.

Em português, porém, o nome da cidade inglesa tradicionalmente sempre se pronunciou Manchéster – uma paroxítona, como a maioria das palavras portuguesas e aportuguesadas.

Era a lição, por exemplo, de Silveira Bueno, que em sua gramática, trazia o nome da cidade como exemplo de palavra paroxítona:

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Como prova da pronúncia tradicional paroxítona em português, o nome da cidade aparecia mesmo acentuado (“Manchéster”) em obras de renome como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na compilação Obras de Eça de Queiroz, e mesmo em outras gramáticas antigas.

Terá sido sem dúvidas a popularidade do time de futebol da cidade – conhecido internacionalmente, inclusive em português, por seu nome original em inglês, Manchester United – o que fez que a pronúncia à inglesa, proparoxítona (“Mânchester“) tenha se disseminado no Brasil.

Uso do artigo definido com nomes de países – lista de países

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Por que é que se diz “no Brasil”, “do Brasil”, mas “em Portugal”, “de Portugal”? Por que se diz “na Alemanha”, “na Áustria”, “na Hungria”, mas “em Angola” ou “em Singapura”? Nesses casos, infelizmente, não há explicação para cada caso. No que tange ao uso de artigo definido com o nome de países, a regra, em português, é seguir o uso e a tradição da língua.

Em regra geral, o normal é que os nomes de países levem artigo definido em português. Por isso, não se deve dizer que algo ocorreu “em Gâmbia“, ou “em Zâmbia“, ou “em Benim” (ou, pior ainda, “em Benin“), ou “em Brunei“, “em Malawi“, “em Papua Nova Guiné“, “em Serra Leoa“, “em Guiné-Bissau“, etc.

O certo, nesses casos citados, é usar o artigo: na Gâmbia, na Zâmbia, no Benim, no Brunei, no Malawi, na Papua Nova Guiné, na Serra Leoa, na Guiné-Bissau, etc.

Essa regra geral se aplica à maioria dos países do mundo. Assim, do mesmo modo que se diz “o Brasil”, “a Argentina” e “o México”, diz-se também: o Afeganistão, a África do Sul, a Albânia, a Alemanha, a Arábia Saudita, a Argélia, a Argentina, a Austrália, a Áustria, o Azerbaijão, as Bahamas, o Barém (ou Bahrein), a Belarus, a Bélgica, o Benim, a Bolívia, o Botsuana, o Butão, os Camarões, o Camboja, o Canadá, o Cazaquistão, o Chade, o Chile, a China, a Colômbia, as Comores, o Congo, a Coreia, a Costa do Marfim, a Costa Rica, a Croácia, a Dinamarca, a Dominica, o Egito, o Equador, a Eritreia, a Eslováquia, a Eslovênia, a Espanha, os Estados Unidos, a Etiópia, as Filipinas, a Finlândia, a França, o Gabão, a Gâmbia, a Geórgia, a Grécia, a Guiné, a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, o Haiti, a Hungria, o Iêmen, as Ilhas Cook, as Ilhas Marshall, as Ilhas Salomão, a Índia, a Indonésia, o Irã, o Iraque, a Itália, a Jamaica, o Japão, a Jordânia, o Kiribati, o Kosovoo Kuwait, o Laos, o Lesoto, a Letônia, o Líbano, a Libéria, a Líbia, o Liechtenstein, a Lituânia, a Macedônia, o Malawi, as Maldivas, o Mali, a Moldova, a Papua Nova Guiné, o Quênia, o Quirguistão, as Seicheles, o Senegal, a Serra Leoa, a Sérvia, a Síria, a Somália, o Sri Lanka, a Suazilândia, a Suécia, a Suíça, o Sudão, o Suriname, a Tanzânia, o Tajiquistão, o Togo, a Tunísia, o Turcomenistão, a Turquia, a Ucrânia, o Uruguai, o Uzbequistão, o Vaticano, a Zâmbia, o Zimbábue, etc.

Há, porém, um número reduzido de países cujos nomes não admitem artigo definido em português. É o caso de Portugal, por exemplo. Não existe uma explicação satisfatoriamente lógica quanto a por que Portugal e outros países não levam artigo, enquanto a maioria leva. Nesses casos, a regra é seguir o uso e a tradição. Assim, é errado dizer, por exemplo, “na Angola”, “da Angola”, porque a tradição em português é não usar artigo com Angola: o correto é “em Angola”, “de Angola”.

(No caso de Angola, além da própria tradição da língua há o fato de que se trata de um país cuja língua oficial é o português – e o nome oficial do país, em português, é República de Angola, não “da Angola”. Do mesmo modo, Timor-Leste, também um país em que o português é língua oficial, rejeita o artigo: seu nome oficial é República Democrática de Timor-Leste, e seus habitantes, assim como os portugueses, dizem sempre “em Timor”, “de Timor”, “em Timor-Leste”).

Usam-se, assim, sem artigo: em Angola, em Antígua e Barbuda, em Belize, em Cabo Verde, em Chipre, em Cuba, em El Salvador, em Granada, em Honduras, em Israel, em Madagascar, em Malta, em Moçambique, em Myanmar, em Nauru, em Niue, em Omã, em Palau, em Santa Lúcia, em São Cristóvão e Névis, em São Vicente e Granadinas, em São Tomé e Príncipe, em Singapura, em Taiwan, em Timor-Leste, em Tonga, em Tuvalu, em Vanuatu.

Como se vê, são, em grande parte, ilhas (Cuba, Malta, Niue, Singapura, Tuvalu…), mas há exceções, de modo que a única regra que se pode estabelecer é a do uso tradicional na história da língua.

Há ainda alguns países cujo uso é discrepante entre o Brasil e Portugal – são países com que os portugueses usam o artigo, e os brasileiros não:

  • portugueses dizem “nas Honduras”, “nas Fiji”, “no Gana”, “no Ruanda”, “no Uganda”‘, “no Luxemburgo”, “no Mónaco”, “no Montenegro”, “na Maurícia“;
  • enquanto os brasileiros dizem “em Honduras”, “em Fiji”, “em Gana”, “em Ruanda”, “em Uganda”, “em Luxemburgo”, “em Mônaco”, “em Montenegro”, “em Maurício“.

No caso de Marrocos, ocorre o contrário: os portugueses dizem “em Marrocos”, enquanto no Brasil se diz “no Marrocos”.

E há, por fim, alguns poucos nomes que, em Portugal, tal como em português antigo, podem ocorrer sem artigo quando regidos por preposição: em Espanha, em França, em Inglaterra, em Holanda, em África, e outros poucos mais. No Brasil, usam-se hoje sempre com artigo: na Espanha, na França, na Inglaterra, na Holanda, na África.

“Também” exige próclise – em Portugal e no Brasil, em textos formais e informais

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Todo brasileiro e todo português sabe que uma das marcas mais características do português brasileiro, que o difere do português lusitano, é a prevalência, no Brasil, de próclises – pronomes colocados antes do verbo. Assim, todo brasileiro diz “Me dá”, “Nos vimos”, “Me queixei” – enquanto os portugueses dizem “Dá-me”, “Vimo-nos”, “Queixei-me”. Desde o século passado, nossos melhores cronistas, poetas, músicos, etc. usam próclises à brasileira. O mesmo não ocorre, porém, com os jornalistas, que se obrigam a usar ênclises, à portuguesa, em casos em que nenhum brasileiro naturalmente as usa na fala espontânea.

O problema disso? É que, justamente por estarem simplesmente tentando imitar uma colocação pronominal que não lhes é natural e que não dominam, o que mais se vê nos jornais brasileiros hoje são ênclises erradas – mesmo pela gramática portuguesa. E assim, chovem casos como o da foto acima, em que o jornalista escreve “também manteve-se” – uso que é duplamente errado, pois viola a gramática tradicional portuguesa  (que determina que, diante de advérbios como “também”, deve ocorrer a próclise, e não a ênclise) e não reproduz o uso natural de nenhum falante, nem português, nem brasileiro.

Em suma, os jornalistas incorrem no pior tipo de erro, pois acertariam se escrevessem exatamente como falam (usando a brasileiríssima próclise), mas, tentando parecer chiques e seguindo a concepção ignorante de que “se eu falo assim, deve estar errado” e de que “quanto mais diferente da fala, mais correto deve ser”, acabam criando ênclises inexistentes em Portugal e em qualquer norma culta da língua portuguesa.

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O mesmo ocorre com orações com a palavra “que“, ou “onde“, entre outras: a gramática portuguesa tradicional obriga, nesses casos, que se use o pronome antes do verbo (como fazemos sempre no Brasil); todo português escreve “que se deu”, “onde se viu”; mas alguns brasileiros, querendo parecer chiques, acabam inventando construções erradas como “que deu-se“, “onde viu-se” – absolutamente risíveis, por não corresponderem nem ao português brasileiro, nem ao português de Portugal. Em outras palavras: se não quer passar vergonha, na dúvida, não invente e escreva do modo que lhe soar mais natural, do jeito que falaria. Quase sempre, estará certo.

“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

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O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

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É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

Papua Nova Guiné: com ou sem hífen?

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Uma boa mudança trazida pelo novo Acordo Ortográfico foi uma maior sistematização no uso dos hifens. O caso da Papua Nova Guiné, país situado ao norte da Austrália, era emblemático da confusão: embora o nome do país, em português, fosse “Papua-Nova Guiné“, era comum encontrar, em fontes sérias, grafias como “Papua Nova-Guiné“, ou mesmo “Papua-Nova-Guiné“.

Com o novo Acordo Ortográfico, não há dúvidas: como regra geral, determina o Acordo, os topônimos (nomes de lugares: países, estados, cidades, etc.) não levam hífen. Escreve-se, portanto, sempre sem hifens: Papua Nova Guiné.

 

Quem fica impotente broxa, não “brocha”

Num esforço para dissuadir a população do hábito do tabagismo, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária anunciou que passará a imprimir mensagens ainda mais enfáticas nos maços de cigarros, como a de que “Você brocha (se consumir este produto)”. O problema? De acordo com o dicionário Aurélio, o dicionário da Academia Brasileira de Letras, o professor Pasquale, dicionários de Portugal, etc., a grafia correta para “ficar impotente” é broxar, com xis – e não brochar, que tem outro significado.

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Com o sentido de “não conseguir ter uma ereção“, “ser ou estar sexualmente impotente“, “ficar desanimado, sem forças“, a grafia correta é broxar, com x. Algo desanimador é algo broxante, também com “x” . É assim (com “x”) que o Dicionário Aurélio e os dicionários da Academia Brasileira de Letras e da Academia das Ciências de Lisboa – assim como os dicionários de Aulete, Luft, Bechara, Michaelis, Priberam, e do Professor Pasquale  escrevem as palavras “broxa”, “broxar”, “broxado” e “broxante”, em seus sentidos ligados à impotência sexual.

Existem os substantivos broxa e brocha, nomes de dois objetos diferentes: brocha, com ch, é um tipo de prego curto; enquanto broxa, com x, é um pincel pequeno.

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Já desde o século retrasado, sempre se fez diferença, em português, entre broxa e broxar com “x”  e brocha e brochar com “ch”; e foi sempre a forma com “x” a usada com o sentido informal de impotência sexual, disfunção erétil.

Brocha (com ch) é um tipo de prego, enquanto broxa, com x, é tanto o nome do tipo de pincel quanto um jeito informal de se referir a um “indivíduo sem potência sexual”. Aurélio, Caldas Aulete, Celso Luft, Evanildo Bechara, Michaelis, o Professor Pasquale e os dicionários da Academia Brasileira de Letras registram, assim, também o verbo broxar, com os seguintes significados: 1. pincelar, pintar; 2. perder a potência sexual; 3. (por extensão) perder o entusiasmo, desanimar.

O Dicionário Aurélio traz também o adjetivo broxante: 1. que torna alguém broxa (sexualmente impotente); 2. cansativo, importuno.

As formas com “x” são as únicas aceitas pelo Dicionário Aurélio, pelos Dicionários da Academia Brasileira de Letras e por todos os demais principais dicionários brasileiros – com a única exceção do Dicionario Houaiss – que, apesar de ser um dos melhores, maiores e mais completos dicionários da língua, tem, justamente por ser tão grande, muitos erros – como já vimos aqui.

E um dos erros do Houaiss é misturar broxas com brochas, contrariando toda a história da palavra na língua portuguesa. Todos os dicionários brasileiros do século XIX e XX que registraram a palavra o fizeram com “x”; mesmo na colossal Décima Edição do Grande Dicionário de Moraes, considerada o mais completo dicionário da língua portuguesa até hoje, encontram-se os sentidos de “pincel” e “sexualmente impotente” como significados de “broxa”, e não de “brocha“.

O mais recente Dicionário (o de 2009) da Academia Brasileira de Letras confirma o que sempre se ensinou: brocha, com “ch”, é só um prego; “broxa”, com “x”, é um pincel ou alguém impotente; e broxar é “ficar impotente”:

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Também o Dicionário da Academia portuguesa faz exatamente a mesma distinção: “broxar”, somente com “x”, é que significa “ficar impotente”, “desanimar”:

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Que broxa, como sinônimo de impotente, se escreve com x (e não com “ch”) é o que ensinam ainda os dicionários de Silveira Bueno (“broxar: perder a ereção; perder o interesse, o estímulo; broxante: que faz perder o estímulo ou interesse“), os de Celso Luft, os de Sacconi, o Michaelis, o Caldas Aulete, o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa (da Enciclopédia Britannica), o Dicionário de Usos do Português do Brasil (2002), de Francisco Borba, e (foto a seguir) o Dicionário do Professor Pasquale (2009):

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Dicionário de Português Comentado pelo Professor Pasquale – 2009

Em seção em que inclui casos de “erros comuns da língua” e “dicas de português”, o Manual de Redação da Folha de S.Paulo menciona expressamente: “Broxa, com x, significa pincel grande e indivíduo sem potência sexual. Brocha, com ch, significa, entre outras coisas, prego curto de cabeça chata.

O Aulete, aliás, disponibiliza hoje livre acesso ao texto “original” de sua primeira versão, o que atesta que em 1881 em Lisboa (data e local de publicação do primeiro Aulete) já se registrava o uso de broxar, com “x”, com o significado de “Mostrar-se sexualmente impotente.

Também o Dicionário de Usos do Português do Brasil (DUPB), de Francisco Borba – o único dicionário brasileiro a usar um córpus técnico, de ocorrências efetivas de cada palavra na língua escrita, para escolher as palavras que definiria – traz broxarbroxantebroxada, todos apenas com “x”, nos sentidos que remetem a impotência sexual, com exemplos retirados da imprensa brasileira: “Nunca uma interrupção para o tempo técnico foi tão broxante.“; “Foi uma broxada que dei com uma amiga“; etc. Já o verbo brochar sequer aparece entre as 65 mil palavras mais usadas no Brasil registrada pelo DUPB; apenas o substantivo “brocha” aparece, mas em seu sentido próprio, de prego (também abonado por exemplo tirado da imprensa brasileira): “Veio a crise mexicana e o governo brasileiro, mais uma vez, viu-se pendurado na brocha.

Os Grandes Dicionários da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras trazem “brochar” como “costurar as páginas de um livro; pregar com brochas (pregos curtos)”. “Broxar”, com “x”, a Academia Brasileira de Letras define, por sua vez, como “mostrar-se sexualmente impotente”- conforme fotos a seguir:

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Em resumo: desde seu “nascimento” na língua portuguesa (o que ocorreu, conforme registros, antes de 1875), as palavras “broxa” e “broxar”, no sentido de “(ficar) impotente”, sempre se escreveram com “x” em português.

Quando usar “num” ou “em um”? “Numa” ou “em uma”?

Sans titreMachado de Assis (acima, em Memórias Póstumas de Brás Cubas), como todos os nossos bons escritores, sempre usou numnuma.


Há um tipo de pergunta sobre a língua que sempre me assusta – especialmente por chegar com alguma frequência: “quando posso usar “num” em lugar em “em um”?“; “existe mesmo a palavra “numa”?“; etc.

É, aparentemente, mais uma dessas “lendas urbanas” linguísticas dos tempos que correm: uma falsa ideia de que a contração “num” (ou, no feminino, “numa“) no lugar de “em um” (ou “em uma“) seria informal ou a ser evitada. Pois bem, não é verdade: da mesma forma que, em português, “em + o” dá “no”, “em + este” dá “neste”, etc., a preposição “em” seguida da palavra “um” resulta, em português culto, na forma contraída “num“.

A palavra num (e suas variantes numanunsnumas) são portanto formas corretas, históricas e formais – basta ler Machado de Assis (trecho acima) ou qualquer outro de nossos bons autores, brasileiros ou portugueses. Em Portugal, aliás, sempre se escreve “num” e “numa”, e essa obsessão por “desmanchar” todo num em em+um já é até vista como uma mania tipicamente brasileira e moderna (mas sem  justificativa gramatical, nem mesmo linguística, uma vez que, na fala, continua-se a dizer “num”).

Mas o fato é que, hoje, na imprensa brasileira, cada vez mais a contração “num” é substituída por “em um”, como se fosse mais “chique” escrever assim, separadamente. Pois bem, para que não fiquem dúvidas: não é; não é nem mais chique, nem mais elegante, nem mais formal escrever que alguém está “em um” lugar do que escrever que a pessoa está “num” lugar.

Pelo contrário, esse “desmanche” da contração, que hoje se vê no que se escreve no Brasil, nada mais é que uma clara hipercorreção – uma consciente e forçada tentativa de “corrigir” o que já estava absolutamente correto, achando, com isso, estar mais distante da língua falada e, portanto, mais próximo da língua culta.

Um grande erro, portanto, já que, como já dito, basta abrir nossos melhores textos de nossos melhores autores, de qualquer período, para ver que estes sempre usaram muito mais numnuma do que em umem uma.

Separar todos os nunsnumas, como parece ser a norma em certos jornais brasileiros, nada mais revela, portanto, que uma certa cafonice e uma insegurança linguística, ao inventar uma norma antinatural e que não é recomendada por nenhuma gramática ou bom autor.

A ironia é que, embora fujam sempre do “num” e “numa”, esses mesmos falantes inseguros não pensam em substituir “naquele” por “em aquele”, “neste” por “em este”, “nas” por “em as”.

(Isso leva a supor que o “medo” do num tenha uma origem diferente: pode ser o fato de que, popularmente, muitos brasileiros dizem num em vez de não – “eu *num quero“, o que é socialmente estigmatizado; talvez tenha sido o “medo” de deixar escapar um desse “num” (variante popular de não) que tenha feito que algum inseguro falante tenha optado por, pessoalmente, nunca mais usar num nenhum na escrita…)

Em resposta, portanto, à pergunta inicial – quando se pode usar “num” em lugar de “em um”, ou “numa” em lugar de “em uma” -, a resposta é: sempre. As formas contraídas num numa são as tradicionais da língua portuguesa, são de longe as mais usadas por nossos melhores escritores e não têm absolutamente nada de menos elegante, menos formal ou menos culto do que as menos naturais formas separadas “em um” e “em uma”.