Ambrosia ou ambrósia? Os “puristas”, novamente, estavam errados

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O certo é ambrosia ou ambrósia? Como se vê em qualquer bom dicionário atual, as duas palavras existem, mas significam coisas diferentes: a comida, o manjar dos deuses, é ambrosia – com sílaba tônica no “si“. Já ambrósias são plantas.

Ambrosia era o nome dado pelos gregos à comida dos deuses, que conferiria imortalidade, e popularmente designa também diferentes doces – no Brasil, designa, por exemplo, uma sobremesa feita com ovos, leite e açúcar.

Há, porém, diversos livros, tanto no Brasil quanto em Portugal, que trazem o “ensinamento”  (errado) de que a pronúncia “certa”, mesmo para a comida, deveria ser ambrósia. Tal afirmação se encontra, por exemplo, no Vocabulário de Rebelo Gonçalves, autor português, e mesmo no dicionário Houaiss – que afirma, quase como um lamento, que, para a comida, “a prosódia ambrósia seria a recomendável, mas ambrosia parece imposta pelo uso“. Errou o português, e erra o Houaiss.

Erram ambos, porque – além de ser a única pronúncia existente para a comida, tanto em Portugal quanto no Brasil – é ambrosia, com sílaba tônica no “si”, a pronúncia original grega. O manjar dos deuses, entre os gregos, era mesmo ambrosía – cuja pronúncia em grego se pode inclusive ouvir aqui.

De onde tiraram tanto o brasileiro Houaiss quanto o português Rebelo Gonçalves (e outros tantos) a afirmação errada? Como aqui já tantas vezes vimos, o que mais fazem os dicionaristas e muitos autores de livros de gramática é copiar uns aos outros, em geral acriticamente, o que faz que erros como esse se perpetuem ao longo de séculos como se verdade fossem.

No caso da errada “ambrósia” como pronúncia mais correta, é possível traçar o erro ao menos até Cândido de Figueiredo, português, autor de um dos mais vendidos dicionários da língua (primeira edição de 1899, republicada numerosas vezes até 1996) – mas que, ao longo da carreira, foi autor e propagador de centenas de “falsos erros” de português e criador, ele próprio, de erros de culpa sua, como o da “ambrósia” grega. Na tentativa de corrigir à força o que ele achava serem erros da língua, acabou sendo responsável por vários erros por ele criados – alguns dos quais repercutidos até recentemente, acriticamente, por gramatiqueiros, dicionaristas e professores pouco desconfiados.

Esse exemplo, como outros, mostra que nossos autointitulados “puristas” erram, erravam e erravam muito, e que não poucas vezes, quando teimavam que o “certo” era de um jeito, e não do jeito que todo o povo falava, a boa análise etimológica e histórica acabou provando que era o povo, e não os puristas, quem tinha razão.

O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

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Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado“. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto também abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

É também oxímoro, com acento, a grafia encontrada nos dicionários de Antenor Nascentes, Celso Luft, Estraviz e em todos os dicionários feitos por Aurélio enquanto vivo.

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. Mas o próprio dicionário informa que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona.

Some-se a isso o fato de oxímoro ser a única forma que se ouve nas faculdades de Letras e demais círculos em que de fato se usa a palavra. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, colhidas de usos reais por métodos técnicos, também só traz “oxímoro“, acentuada.

É uma grande contradição, portanto, o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra indicaria uma pronúncia proparoxítona (e que de longe é a pronúncia mais corrente ), mas ainda assim registrarem a palavra sem nenhum acento.

É um erro mais do Houaiss (e dos dicionários que, desde a publicação do Houaiss, não fazem mais que copiá-lo acriticamente). Como sempre insistimos: o Houaiss é um dos melhores e maiores dicionários já feitos em qualquer país de língua portuguesa, mas, como toda obra dessa magnitude, não pode ser tomada como verdade absoluta, pois tem muitos erros.

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“Quórum”, em português, tem acento (como fórum)

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Um dia a Folha de S.Paulo aprende: quórum em português tem obrigatoriamente acento.

Em português, as palavras paroxítonas terminadas em -um precisam de acento: fórumquórumultimátum.

Se uma palavra em português termina em -um e não leva acento, é obrigatoriamente oxítona, como é o caso de algumnenhumzunzumvacumcomum.

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Pronomes de tratamento (“Vossa Senhoria”, “Sua Excelência”) nunca levam crase

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Não se usa crase antes de pronomes de tratamento. São incorretas, portanto, construções como “à Sua Excelência”; o certo é sempre “a Sua Excelência”. O mesmo vale para Vossa Excelência, Vossa Senhoria, Sua Senhoria, Vossa Santidade, Sua Alteza, etc.

A razão é simples: a crase ocorre, em regra, quando se dá a junção de duas vogais idênticas – quando dizemos “dei o livro à menina”, há crase porque o “à” ali representado vale por dois: a preposição “a” (equivalente a “para”) e o artigo feminino “a”.

Como os pronomes de tratamento não levam artigo definido (não se diz “A Vossa Excelência chegou”, “O pai da Vossa Alteza”, e sim “Vossa Excelência chegou”, “O pai de Vossa Alteza”), nunca há, antes de pronomes de tratamento, os dois “aa” necessários para que surja uma crase.

Assim, escreva sempre sem crase: “dirigiu-se a Suas Senhorias”; “falou a Sua Excelência”; etc.

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Em português, “burquíni”, não “burkini”

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O traje de banho cujo nome mistura burca com biquíni fez notícias nos últimos dias, com a polêmica de sua proibição em praias francesas. Os veículos de comunicação que usaram a palavra, porém, dividem-se em dois grupos: aqueles que, como sói ocorrer, limitaram-se a copiar e colar a grafia tirada das notícias em inglês – burkini – e aqueles poucos que sabem que uma palavra não precisa estar nos dicionários para ter uma grafia correta em português – que, neste caso, só pode ser burquíni, com “qu” e com acento agudo.

Burquíni” precisa de acento pela mesma razão que “biquíni“: porque é uma regra de acentuação que as palavras paroxítonas terminadas em “i” precisam de acento – como também são o caso de táximartínicáqui (a cor), etc. Isso para diferenciá-las das palavras oxítonas terminadas em “i”, que, em português, não levam acento: aquialicaqui (o fruto), daiquiri, tupiguarani, Sacivivicomibebidesapareci.

Siriguela, seriguela? O certo é ciriguela

A pequena frutinha da foto acima, de cor avermelhada e sabor muito doce, vem ganhando popularidade no Brasil nos últimos anos. Mas, embora esteja na boca de cada vez mais brasileiros, pouquíssimos são os que escrevem sem titubear o nome da tal fruta: será siriguela, seriguela, ceriguela ou ciriguela?

Resposta rápida: a forma correta de escrever o nome da fruta é ciriguela, com “ci-“.

A escrita correta (isto é, a ortografia) de uma palavra é definida por sua etimologia (isto é, pela origem da palavra). E o nome dessa fruta, como a própria fruta, nos veio da América  hispanófona, onde a fruta é chamada de ciruela (originalmente, o nome da ameixa em espanhol). A intrusa letra “g“, não etimológica, já apareceu no próprio espanhol (língua em que é normal a aparição dessa letra antes de ditongos começado por “u”), como mostram o uso da variante cirgüela no Méxicoem Honduras, no Equadorna Colômbia, no Chile, etc.

Não há espaço sequer para duplas grafias, portanto: nem seriguela, nem siriguela, nem ceriguela. A única grafia etimologicamente aceitável, em português, é com “ci” como primeira sílaba – o certo é ciriguela, portanto – forma, aliás, já recolhida no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras e nos bons dicionários.

O acento de oxímoro: mais um erro do Houaiss

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Na televisão, um político diz que o tal “golpe legislativo” que, alardeiam setores do governo, estaria em curso no Brasil seria um perfeito oxímoro.

Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado”. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.”

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. O próprio Houaiss explica, porém, que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona – que é a única forma que se ouve nas faculdades de letras e outros círculos em que de fato se usa a palavra.

Não só eles – o Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, também só traz “oxímoro”, acentuada – que também é a única palavra que consta dos dicionários feitos por Aurélio em vida (como se vê na primeira e na segunda edições do “Aurelião”).

E por falar em contradições (nem todas as quais são oxímoros), uma contradição (que não chega a ser um oxímoro) é justamente o fato de o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra justificaria uma pronúncia proparoxítona – de longe a pronúncia mais corrente -, mas mesmo assim não registrar a forma com acento. Ou talvez seja simplesmente um erro.

O Dicionário Aulete, salomônico, registra ambas numa só entrada:

oxímoro, oximoro

1. Ret. Figura em que se combinam palavras contraditórias, mas que no contexto reforçam uma ideia (p.ex.: O mito é o nada e é o tudo, Fernando Pessoa, Ulisses, in Mensagem); “(…) conspiração conservadora é um oximoro, minha outra palavra difícil do mês.” (Luis Fernando Verissimo, in O Globo, 04.08.05); PAROXISMO

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