A pronúncia de waffle: uáfol (ou uófol), não uêifol

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Um leitor quis saber qual é a pronúncia correta de waffle, a massa doce da foto à esquerda, acima, depois de ter muitas vezes ouvido brasileiros que a pronunciam “uêifel” / “uêifol”. Essa pronúncia está errada; mesmo em inglês (e em holandês, língua original da palavra), esse “a” de waffle  ou wafel tem mesmo o som de “a”. Em outras palavras, a pronúncia adequada da primeira sílaba, em português, é mesmo ““, e não “uei“.

Em inglês, a pronúncia pode chegar a soar-nos como “uófol“, pois a vogal exata usada não existe em português – é uma intermediária entre o nosso “a” e o nosso “ó”. É, por exemplo, a mesma vogal da palavra inglesa mother. Como pronúncia aportuguesada, portanto, serve tanto dizer “uáfol” quanto “uófol” (ou “uáfel” / “uófel”, “uáfou” / “uófou”, etc.. já que os sons finais também não têm correspondência exata em português). O que não faz nenhum sentido, nem em português nem em inglês (nem em holandês), é pronunciar a primeira sílaba como “uêi“.

Quem pronuncia “uêifel” pode estar fazendo confusão com os biscoitos sequinhos da foto acima à direita – as wafers -, em que a primeira sílaba de fato é pronunciada “uêi“.

Duplas negativas são corretas em português: “Não cometeu nenhum ilícito” é melhor do que “Não cometeu qualquer ilícito”

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Na gramática do português (assim como nas das demais línguas neolatinas), não há absolutamente nenhum inconveniente (nem nunca houve) em usar, numa mesma frase, mais de um marcador negativo. É corretíssimo, em português, dizer “Não veio ninguém“, “Não comi nada“.

Por confusão com a gramática da língua inglesa – língua em que dois negativos resultam num positivo -, muitos brasileiros cultos têm cometido hipercorreções, tentativas de “corrigir” o que já estava certo: por acharem que duplas (ou triplas) negativas são incorretas ou ambíguas, têm evitado formas corretíssimas e tradicionais portuguesas, como “Não vi ninguém”, “Não cometeu nenhum crime”, “Não recebeu nenhuma vantagem”, substituindo-as por traduções infelizes do inglês, como “Não vi qualquer pessoa“, “Não cometeu qualquer crime“, “Não recebeu qualquer vantagem ilícita“.

Evite essas hipercorreções, que não são nem mais corretas, nem mais elegantes do que as formas tradicionais portuguesas, em que os elementos que se seguem ao não também se apresentam na negativa: “Não cometeu nenhum crime”Não recebeu nenhuma vantagem ilícita”.

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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“Rattan” (ou “rotang”) em português é ratã

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O Brasil aderiu a um fórum internacional sobre a preservação do bambu e o ratã – como bem escreve o nosso Congresso. Já na imprensa tradicional, às vezes se vê, em vez de ratã, a grafia inglesa rattan (por exemplo aqui).

O ratã é, à semelhança do bambu, uma espécie de palmeira asiática usada para fazer bengalas, móveis como cadeiras, etc. Outro nome em português do ratã é rotim.

Se escrevemos “bambu”, em vez de “bamboo“, também se deve, obviamente, escrever ratã em português, e não “rattan“.

Além de já estar em todos os dicionários, o aportuguesamento ratã obedece às regras ortográficas da língua portuguesa: como diz o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que pode ser lido na íntegra aqui), na “Base VI”: “Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, representa-se a nasalidade pelo til, se essa vogal for “a”: afã, grã, Grã-Bretanha, lã, órfã

É por essa razão que o anglicismo “fan” (fanático) virou, em português, ; e que o anglicismo clan deu, em português, clã; que a dança francesa cancan virou aqui cancã; que o país internacionalmente conhecido como Iran (a antiga Pérsia) é, no Brasil, chamado Irã;  que a palavra bataclan dos franceses deu bataclã em português; e por que o antigo bairro do Butantan, em São Paulo, passou a chamar-se Butantã.

Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

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Oficialmente, os jogos se chamam “Jogos Paralímpicos“. Mas a Folha de S.Paulo diz que vai insistir em “paraolímpico”, por considerar essa forma mais correta. Se a ideia é “corrigir” nomes próprios, a Folha deveria passar a grafar “Têmer” – ou poderia começar corrigindo o erro de pontuação no nome oficial do próprio jornal.

E mesmo que a ideia fosse “corrigir” nomes próprios, a “lógica” linguística da Folha está errada: paralímpicos” não surgiu do prefixo latino “para-” + “olímpico“, como chutam, sem verificar a etimologia da palavra. O nome na verdade veio da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, quando se criam palavras por esse processo de amálgama (como portunhol, estagflação ou informática), a regra é justamente que a segunda palavra unida perca seu início.

Por fim, o professor Pasquale argumenta (como se isso argumento fosse) que o Dicionário Houaiss não traz as grafias paralímpico paralimpíada. Alguém precisa urgentemente dar um Houaiss atualizado para o professor:

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Em artigo hoje, a Folha de S.Paulo (a mesma que ainda escreve tríplex Cingapura) tenta justificar por que é dos únicos jornais que insistem nas grafias “paraolimpíadas”/ “paraolímpicos”, com “o“, mesmo após a padronização internacional das formas sem “o” (paralympics em inglês, paralimpíadas em espanhol, jeux paralympiques em francês, jogos paralímpicos nos demais países lusófonos, etc.). Primeiramente, o Pasquale tenta usar um argumento de autoridade: diz que “os cânones da língua” recomendam a forma paraolimpíada. Mentira.

É mentira rasteira, pois de difícil verificação – afinal, quem seriam os tais cânones da língua? -, mas mentira completa: nenhum daqueles que, sob qualquer ponto de vista, são considerados os “cânones” da língua jamais abordaram a questão das palavras paralimpíadas e paraolimpíadas. E nem poderiam: até poucos anos atrás, nem umas nem outras – nem as formas com “o”, nem sem “o” – existiam em nenhum dicionário de português.

Ao invocar os “cânones” da língua, o Pasquale faz supor que a forma “paraolímpicos” remontaria a Camões – mas a verdade é que nenhuma gramática jamais tratou desses neologismos. Nenhuma boa gramática do século passado ou deste – de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima a Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida ou Celso Luft – jamais defendeu uma forma ou outra. Nossos dois maiores dicionaristas, Aurélio e Houaiss, morreram sem que nenhuma dessas palavras (nem paralímpico, nem paraolímpico) ainda tivessem estreado em qualquer dicionário da língua portuguesa. A primeira aparição de paraolímpico em dicionários de português deu-se já neste século, em 2001. E a primeira aparição de paralímpico em dicionários foi em 2009, segundo o Houaiss.

Erra também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Quem afirma isso parece desconhecer os outros processos existentes de criação de palavras em português – como o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, se une o início de uma palavra ao fim de outra.

E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

Tudo isso posto, o fato de se tratar de nome próprio deveria ser suficiente para a Folha entender por que ficou praticamente sozinha nessa posição tão boba: é como se o jornal passasse a escrever Têmer, com acento, para “corrigir” a grafia do nome do novo mandatário brasileiro. Por coerência, deveriam corrigir também os nomes de todos os jogadores de futebol; e mesmo siglas que não se pronunciam como se escrevem, como “Mercosul”.

Irônico é que a correção do nome próprio dos jogos, uma marca registrada, venha justamente de um jornal cujo nome oficial – “Folha de S.Paulo” – atenta contra regras do bom português ao “engolir” o espaço que seria obrigatório entre “S.” e “Paulo“.

Por fim, se a argumentação de alguém para definir se uma palavra existe ou não na língua se resume à presença ou não da palavra em dicionários, esse alguém deveria pelo menos adquirir dicionários atualizados nesta última década – pois fica feio rematar um artigo com a afirmação de que o Dicionário Houaiss sequer aceitaria as grafias paralimpíada e paralímpico, quando, na verdade:

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Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.

Em português, bugue e minibugue

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Isso na foto acima, todo brasileiro sabe, é um bugue. Existem também, é claro, as versões menores – os minibugues. Mas nenhum dicionário brasileiro registra nenhuma das duas palavras com esse sentido.

A maioria dos jornais e revistas não vê problema em não encontrar a palavra nos dicionários, e usa-as mesmo assim – a Veja usa bugue (e bugueiro, nome dado no Nordeste aos condutores profissionais de bugues de passeio) hoje (ver aqui), como já usava minibugue desde pelo menos 1993 (ver aqui).

Já o Correio Braziliense de hoje, como tem uma consultora “linguística” que acredita piamente piamente que só existe na língua o que está no VOLP da Academia Brasileira de Letras, preferiu não usar bugue, que não achou, mas foi no que encontrou – bugre: “O veículo foi solicitado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) – responsável pela administração da área –, que também disponibilizou quatro picapes, quatro quadriciclos, dois bugres e três barcos para as buscas.

Bugre, segundo os dicionários, é um indígena brasileiro. Já bugue é o aportuguesamento de buggy, que, por enquanto, por ironia, só o dicionário Priberam registra, como registra também minibugue e bugueiro – todas adicionadas após sugestão da equipe do DicionarioeGramatica.

Onlaine, aportuguesamento de on-line/online, no Vocabulário Ortográfico Atualizado

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Na mais recente edição (2014) do seu Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, a Academia das Ciências de Lisboa – análoga portuguesa da Academia Brasileira de Letras – acolheu, como palavra portuguesa, a palavra onlaine – corretíssimo (e mais que bem-vindo) aportuguesamento do inglês on-line, também escrito online.


onlaine

Adjetivo
on.lai.ne, comum de dois gêneros

  1. situado e acessível na Internet
    • Eles oferecem uma suporte técnico onlaine aos usuários.
    • Ela fica o dia inteiro onlaine.
    • Qual o melhor dicionário onlaine que você conhece?

Etimologia
Do inglês online.


 

Supõe-se que um falante competente da língua portuguesa, com boa cultura, deve ser capaz de expressar-se em sua própria língua sem precisar recorrer todo o tempo a palavras estrangeiras. A completa aversão e repúdio ao uso de toda e qualquer palavra estrangeira, por outro lado, revela ignorância talvez até maior, por ser óbvio que a língua portuguesa nada mais é, em essência, que uma grande amálgama de vocábulos estrangeiros e deturpações da sua base originária, o latim vulgar. Não há sentido abominar o uso da expressão inglesa online, universalmente utilizada por sintetizar um conceito até recentemente inexistente; e, após anos de insistência (por exemplo, pela Porto Editora, com seus dicionários “em linha”), fica claro que não há versão “portuguesa” da expressão que tenha condições de vingar no uso comum; “em linha”, por exemplo, sequer seria um grande remédio, pois criaria ambiguidade com o sentido que já tem – de “ao telefone”.

A solução, portanto, é o aportuguesamento, que a Academia portuguesa fez à perfeição. Sendo bem-formado, e tão útil, já passamos a usá-lo – e inclusive já o colocamos em nossa lista de aportuguesamentos recentes (que também inclui neologismos de outras origens).

Agora é esperar que a palavra se popularize: quanto tempo levará para ser acolhida por algum dicionário – seja um em papel, seja um dicionário onlaine?