“Collant”, em português, se escreve colã

 

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Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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Mezanino (não mesanino) não tem nada a ver com mesa

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Mesaninomezanino ou mezzanino? Há quem escreva “mesanino”, por analogia com mesa, mas a palavra não tem nenhuma relação com mesa: o certo, em português, é mezanino, forma já aportuguesada do italiano mezzanino. 

Um mezanino é um andar intermediário, um meio andar, situado entre dois pavimentos principais. Também se chama mezanino, por exemplo, às primeiras fileiras de camarotes na plateia de um teatro, logo acima do palco. A palavra italiana mezzanino é o diminutivo de mezzano, “mediano”, “intermediário”.

O aportuguesamento e a pronúncia de bunker / búnquer

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Um búnquer (do alemão Bunker) é um abrigo fortificado subterrâneo. Há quem pronuncie a palavra, hoje em dia, como bânquer ou bãnquer, supostamente à inglesa; pura besteira: a palavra Bunker não nos veio do inglês, mas sim do alemão – língua em que o “u” tem o mesmo som do nosso “u”.

A palavra adquiriu em alemão o sentido de abrigo fortificado debaixo da terra já durante a Primeira Guerra Mundial; foi na Segunda Guerra Mundial, porém, que o sentido alemão dada à palavra se espalhou pelo mundo; prova da origem germânica dessa acepção é que, nos primeiros anos durante e após a Segunda Guerra, a palavra ainda era escrita, em jornais ingleses e americanos, com aspas, como um estrangeirismo.

A origem da palavra alemã Bunker é incerta, assim como da inglesa bunker e das homólogas nas diversas línguas europeias; o registro mais antigo de qualquer termo da família é “bunke“, em sueco – língua em que também o “u” soa como o nosso “u”.

Nada justifica, portanto, a pronúncia, em português, de bunker à inglesa – tanto mais que a palavra já se encontra devidamente aportuguesada e dicionarizada sob a forma búnquer, bem formada, na qual, obviamente, o “u” só pode ter o som de “u”.

O plural de búnquer em português é, como só poderia ser, búnqueres.

Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos outrora típicos vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo -, ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, pratos nipônicos que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental para a qual são transcritas: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhado de vegetais, molhos e temperos, servida num pão árabe (chamada shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão) só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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“Rattan” (ou “rotang”) em português é ratã

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O Brasil aderiu a um fórum internacional sobre a preservação do bambu e o ratã – como bem escreve o nosso Congresso. Já na imprensa tradicional, às vezes se vê, em vez de ratã, a grafia inglesa rattan (por exemplo aqui).

O ratã é, à semelhança do bambu, uma espécie de palmeira asiática usada para fazer bengalas, móveis como cadeiras, etc. Outro nome em português do ratã é rotim.

Se escrevemos “bambu”, em vez de “bamboo“, também se deve, obviamente, escrever ratã em português, e não “rattan“.

Além de já estar em todos os dicionários, o aportuguesamento ratã obedece às regras ortográficas da língua portuguesa: como diz o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que pode ser lido na íntegra aqui), na “Base VI”: “Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, representa-se a nasalidade pelo til, se essa vogal for “a”: afã, grã, Grã-Bretanha, lã, órfã

É por essa razão que o anglicismo “fan” (fanático) virou, em português, ; e que o anglicismo clan deu, em português, clã; que a dança francesa cancan virou aqui cancã; que o país internacionalmente conhecido como Iran (a antiga Pérsia) é, no Brasil, chamado Irã;  que a palavra bataclan dos franceses deu bataclã em português; e por que o antigo bairro do Butantan, em São Paulo, passou a chamar-se Butantã.

Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

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O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto lá quanto aqui, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.