Pronúncia: Manchéster ou Mânchester?

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O recente atentado terrorista em Manchester, na Inglaterra, fez que o nome dessa cidade inglesa fosse citado ao longo da semana em todos os principais telejornais. Pouco habituados a tratar da cidade em outras situações, os repórteres brasileiros se referiram a ela com a pronúncia “Mânchester“, proparoxítona.

Em português, porém, o nome da cidade inglesa tradicionalmente sempre se pronunciou Manchéster – uma paroxítona, como a maioria das palavras portuguesas e aportuguesadas.

Era a lição, por exemplo, de Silveira Bueno, que em sua gramática, trazia o nome da cidade como exemplo de palavra paroxítona:

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Como prova da pronúncia tradicional paroxítona em português, o nome da cidade aparecia mesmo acentuado (“Manchéster”) em obras de renome como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na compilação Obras de Eça de Queiroz, e mesmo em outras gramáticas antigas.

Terá sido sem dúvida a popularidade dos times de futebol da cidade – conhecidos internacionalmente, inclusive em português, por seus nomes originals em inglês, Manchester United e Manchester City – que fez que a pronúncia à inglesa, proparoxítona (“Mânchester“), tenha se disseminado no Brasil.

A pronúncia de waffle: uáfel (ou uáfol, ou uófol), mas não uêifol

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Qual é a pronúncia correta de waffle, a massa doce da foto à esquerda?

Muitos brasileiros pronunciam “uêifel” ou “uêifol”. Essas pronúncias estão errada; mesmo em inglês (e em holandês, língua original da palavra), esse “a” de waffle  ou wafel tem mesmo o som de “a”. Em outras palavras, a pronúncia adequada da primeira sílaba, em português, é ““, e não “uei“.

Em inglês, esse “” pode chegar a soar-nos como ““, pois a vogal exata usada em inglês nessa palavra não existe em português: é uma intermediária entre o nosso “á” e o nosso “ó”. É, por exemplo, a mesma vogal da palavra inglesa mother. Como pronúncia aportuguesada, portanto, serve tanto dizer “uáfol” quanto “uófol” – ou, melhor ainda, “uáfel”, já que essa é a pronúncia do termo original: wafel, em holandês.

Tanto o alemão Waffel quanto o inglês waffle são adaptações do holandês wafel.

[É também por essa razão, aliás, que, já que não há aportuguesamento para a palavra e que de qualquer modo se usará um termo estrangeiro, faz mais sentido usarmos em português a grafia wafel, a original holandesa, do que a forma inglesa waffle].

O que não faz sentido nenhum em língua nenhuma é pronunciar a primeira sílaba como “uêi“.

Quem pronuncia “uêifel” pode estar fazendo confusão com os biscoitos sequinhos da foto acima à direita – as wafers -, em que a primeira sílaba de fato é pronunciada “uêi” em inglês.

[Em inglês, existe uma “regra” para saber por que wafer se pronuncia uêi- mas waffle se pronuncia uá-: é a regra das consoantes duplas versus consoantes simples. Antes de consoante simples, como o f de wafer, a vogal se pronuncia em sua forma longa – no caso do “a”, essa forma longa é o “ei”. Quando, porém, a vogal está antes de duas consoantes (como em “waffle”), a vogal se pronuncia em sua forma “curta” – isto é, “a” mesmo.]

Expresso ou espresso? O certo é espresso ou expresso?

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O café é espresso ou expresso? Nos cardápios de cafeterias, é normal encontrar duas grafias diferentes para o tipo de café preparado individualmente sob pressão em máquina elétrica, servido numa xícara pequena – espresso e expresso. Qual forma está correta?

Basicamente, a resposta é que ambas as palavras existem: espresso é a grafia original, em italiano, enquanto expresso é a palavra em português.

Para descrever um navio ou um trem rápido, em português, a única grafia correta é com “x”: expresso.

Já em cafeterias, é normal encontrar a grafia italiana (espresso), usada internacionalmente, do mesmo modo que se usam nesses ambientes várias outras palavras estrangeiras: cappuccino, frappuccino, mocha, macchiatocroissant

Em outras palavras, a diferença entre espresso e expresso é a mesma que entre croissant ou croassã, ou entre crêpe (em francês) e crepe (em português), ou entre hot-dog e cachorro-quente, ou entre mozzarella (em italiano) e mozarela/muçarela (formas aportuguesadas).

Em italiano, espresso é o particípio de esprimere, verbo que pode significar tanto “espremer” quanto “expressar”, de modo que “espresso“, em italiano, pode significar tanto espremido quanto exprimido, expressado ou expresso. Os italianos batizaram esse tipo de café de espresso justamente por ser ele feito sob pressão, sendo espremido/pressurizado em sua elaboração.

Há quem defenda exclusivamente o uso da grafia italiana (“espresso“) sob o argumento de que a palavra portuguesa “expresso” tem outro significado, o de feito rapidamente, às pressas. Embora a palavra portuguesa de fato tenha também esse sentido, a verdade é que, como muitas palavras, expresso tem vários significados distintos em português, e um deles (incluído em dicionários brasileiros, como o Houaiss, e portugueses, como o Priberam) é justamente o de café feito sob pressão.

Ou seja: tanto é correto chamar o café de expresso (forma aportuguesada) quanto usar a forma original (italiana) “espressoÉ questão de gosto.

“Collant”, em português, se escreve colã

 

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Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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Mezanino (não mesanino) não tem nada a ver com mesa

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Mesaninomezanino ou mezzanino? Há quem escreva “mesanino”, por analogia com mesa, mas a palavra não tem nenhuma relação com mesa: o certo, em português, é mezanino, forma já aportuguesada do italiano mezzanino. 

Um mezanino é um andar intermediário, um meio andar, situado entre dois pavimentos principais. Também se chama mezanino, por exemplo, às primeiras fileiras de camarotes na plateia de um teatro, logo acima do palco. A palavra italiana mezzanino é o diminutivo de mezzano, “mediano”, “intermediário”.

O aportuguesamento e a pronúncia de bunker / búnquer

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Um búnquer (do alemão Bunker) é um abrigo fortificado subterrâneo. Há quem pronuncie a palavra, hoje em dia, como bânquer ou bãnquer, supostamente à inglesa; pura besteira: a palavra Bunker não nos veio do inglês, mas sim do alemão – língua em que o “u” tem o mesmo som do nosso “u”.

A palavra adquiriu em alemão o sentido de abrigo fortificado debaixo da terra já durante a Primeira Guerra Mundial; foi na Segunda Guerra Mundial, porém, que o sentido alemão dada à palavra se espalhou pelo mundo; prova da origem germânica dessa acepção é que, nos primeiros anos durante e após a Segunda Guerra, a palavra ainda era escrita, em jornais ingleses e americanos, com aspas, como um estrangeirismo.

A origem da palavra alemã Bunker é incerta, assim como da inglesa bunker e das homólogas nas diversas línguas europeias; o registro mais antigo de qualquer termo da família é “bunke“, em sueco – língua em que também o “u” soa como o nosso “u”.

Nada justifica, portanto, a pronúncia, em português, de bunker à inglesa – tanto mais que a palavra já se encontra devidamente aportuguesada e dicionarizada sob a forma búnquer, bem formada, na qual, obviamente, o “u” só pode ter o som de “u”.

O plural de búnquer em português é, como só poderia ser, búnqueres.

Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos  outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já há muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo; e ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

É uma regra do aportuguesamento de palavras árabes que o som transliterado como “sh” em inglês, como “ch” em francês e como “sch” em alemão seja escrito sempre com “x” em português. Há dezenas de vocábulos vindos do árabe que exemplificam o processo – almoxarifado, enxaqueca, xadrez, xeique, xeque, xerife, xiita…

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhada de vegetais, molhos e temperos servida num pão, a que se chama shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão, só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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“Rattan” (ou “rotang”) em português é ratã

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O Brasil aderiu a um fórum internacional sobre a preservação do bambu e o ratã – como bem escreve o nosso Congresso. Já na imprensa tradicional, às vezes se vê, em vez de ratã, a grafia inglesa rattan (por exemplo aqui).

O ratã é, à semelhança do bambu, uma espécie de palmeira asiática usada para fazer bengalas, móveis como cadeiras, etc. Outro nome em português do ratã é rotim.

Se escrevemos “bambu”, em vez de “bamboo“, também se deve, obviamente, escrever ratã em português, e não “rattan“.

Além de já estar em todos os dicionários, o aportuguesamento ratã obedece às regras ortográficas da língua portuguesa: como diz o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que pode ser lido na íntegra aqui), na “Base VI”: “Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, representa-se a nasalidade pelo til, se essa vogal for “a”: afã, grã, Grã-Bretanha, lã, órfã

É por essa razão que o anglicismo “fan” (fanático) virou, em português, ; e que o anglicismo clan deu, em português, clã; que a dança francesa cancan virou aqui cancã; que o país internacionalmente conhecido como Iran (a antiga Pérsia) é, no Brasil, chamado Irã;  que a palavra bataclan dos franceses deu bataclã em português; e por que o antigo bairro do Butantan, em São Paulo, passou a chamar-se Butantã.

Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

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O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto em Portugal quanto no Brasil, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.