Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos típicos outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo -, ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, pratos nipônicos que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental para a qual são transcritas: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhado de vegetais, molhos e temperos, servida num pão árabe (chamada shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão) só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Regra de português: usa-se G (e não J) antes de E e I nas palavras vindas do árabe

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Na minha edição (de 2010) da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, imortal da Academia Brasileira de Letras, leio, na parte sobre a história da língua portuguesa, a palavra héjira – que, na verdade, se escreve hégira, como se pode ver em qualquer dicionário brasileiro ou português – inclusive no VOLP da Academia Brasileira de Letras e no dicionário do próprio Bechara.

Um errinho bobo, que serviria apenas para recordar-nos que mesmo os melhores gramáticos às vezes erram, mas que reforça a necessidade de recordarmos as regras seculares da ortografia portuguesa, que explicam por que se escreve hégira, e não *héjira.

Por alguns considerada arbitrária, a ortografia portuguesa é na verdade bastante coerente e tem algumas regras fixas, estabelecidas há séculos. Uma delas, que por razões misteriosas nenhuma gramática moderna traz e mesmo os nossos melhores linguistas parecem desconhecer (mas que, se conhecida, evitaria erros como escrever “héjira“) é a de que sempre se usam as sílabas “ge” e “gi”, e não “je” e “ji”, nas palavras portuguesas de origem árabe.

É uma lição que se podia ler já nas primeiras gramáticas da língua portuguesa, dos anos 1500 – quando o “g” e o “j”, aliás, se pronunciavam de forma levemente distinta; e por isso se convencionou o uso do “g”, antes de “e” e “i”, para representar a pronúncia árabe do som.

Mas isso não será uma regra que, passados tantos séculos, caiu em desuso? Não, de modo algum; basta olhar para qualquer palavra portuguesa de origem árabe com som “je” ou “ji”: álgebraalgemaalgeroz, algezira (ilha), algibeira, algibebeabencerrage, alfageme, auge, Argel, Argélia, gengibre, gergelimgibeiraginetagirafa, gizNégedeRígel, sagena.

Assim sendo, é bom notar que, na recém-lançada versão atualizada da gramática de Bechara, a palavra héjira já aparece devidamente corrigida para hégira.

Marrakesh em inglês, Marrakech em francês: Marraquexe em português

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Em português, o nome da cidade marroquina que recebe o maior número de turistas é Marraquexe. Marraquexe? Sim, em português, Marraquexe – grafia incluída no Vocabulário de Nomes Próprios da Academia Brasileira de Letras (fotos abaixo) e usada nas boas enciclopédias brasileiras e portuguesas.

Como a maioria das grandes cidades históricas, internacionalmente conhecidas desde a antiguidade (como Londres, Roma, etc.), a cidade marroquina tem grafias tradicionais em diferentes línguas: em francês, seu nome é Marrakech; em inglês, Marrakesh (com a troca do “ch” francês pelo “sh” inglês, que representa o mesmo som); em alemão, Marrakesch (com “sch”, que representa em alemão o som do “sh” inglês ou do “ch” francês); em polonês, Marrakesz, pela mesma razão; em africâner, Marrakesj; em grego, Μαρακές; em basco, Marrakex – e, em português, Marraquexe – como se lê nas boas enciclopédias e dicionários de nomes próprios 

Sem títuloSó poderia ser Marraquexe em português, porque é uma regra da ortografia portuguesa que se usa a letra “x” (e não o dígrafo “ch“) para representar o som chiado, de “sh” (/ʃ/, no alfabeto fonético internacional), em todos os aportuguesamentos vindos de línguas que não usam o nosso alfabeto – o que inclui as palavras de origem árabeafricana, hebraica, persatupiturca.

São exemplos de palavras de origem tupi: abacaxi, guaxinimmacaxeirapixaimxamã, xaráde origem africana: xingarmaxixemuxoxoxaráquixima (poço d’água), orixá; de origem árabe: almoxarifado, xadrez; oxalá; xerife; xarife; xeque; xeiquexarope; de origem persa: (antigo rei da Pérsia ou Irã); xale (manto); xador, etc.

Além da regra ortográfica, sempre foi esse o uso: é Marraquexe, com xis, que se acha em boas enciclopédias portuguesas e brasileiras, como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira; a Enciclopédia Melhoramentos (foto abaixo); a Encicloplédia Brasileira Mérito; em dicionários que trazem nomes de cidades, como o Dicionário Inglês-Português Webster (foto abaixo).

É, ainda, a forma usada pelo governo de Portugal e pelo governo brasileiro (incluída a imprensa nacional e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil); e a única forma aceita de acordo com o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que traz os nomes de países, cidades e estados em língua portuguesa:

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Enciclopédia Melhoramentos:
Enciclopédia Melhoramentos (1)

Dicionário Inglês-Português Webster:Webster's Portuguese-English dictionary (1)

Por que o palmito é juçara, e não jussara?

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Até a década de 1990, o Brasil destacava-se como exportador de palmito do tipo juçara, considerado de primeira qualidade, oriundo do Centro-Sul do país e encontrado também na Argentina e no Paraguai. A ameaça de extinção da palmeira de juçara em meio natural fez que se proibisse no Brasil a comercialização desse palmito, com exceção daqueles provenientes de replantio. Com isso, o palmito-juçara (ou simplesmente juçara) foi substituído, no mercado nacional e no internacional, por variedade alternativa de palmito, menos cara mas também menos graúda, chamada palmito-pupunha (ou simplesmente pupunha).

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Embora seja comum ver juçara escrito, por erro, jussara, o nome da palmeira e de seu palmito é mesmo com “ç” – assim como açaí, variedade de palmito hoje mais conhecida pelos alimentos produzidos pela poupa de seus frutos, de forte cor roxa, oriundo da Amazônia, no norte da América do Sul (em oposição ao juçara, proveniente da Mata Atlântica).

A razão pela qual se escreve juçara (e não jussara) é simples: é convenção ortográfica que se usa o “ç”, e não o “ss”, na grafia das palavras em português provenientes do tupi-guarani e de outras línguas indígenas do Brasil: é por essa mesma razão que se escrevem: açaíIguaçucupuaçu, jaçanãparaguaçu (e tudo que termina em -açu, sufixo tupi-guarani que significa “grande”), paçocapiaçaba, etc.

Convenções ortográficas desse tipo, referentes a línguas sem tradição escrita, facilitam muito a vida dos lusófonos. A regra de usar “ç” no lugar de “ss” aplica-se também, por exemplo, aos aportuguesamentos da língua árabe: é por essa razão que escrevemos muçulmano, moçárabe, Moçambique (o nome do país também vem do árabe), açudeaçafrãoaçougue ou mesmo açúcar.

Semelhante ainda é o uso da letra “x”, que, para facilitar a vida de todos os que usamos o português, foi sistematizada como obrigatória, no lugar de “ch”, em palavras de origem tupi-guarani ou árabe – como já explicamos em artigo anterior, sobre o porquê de se escrever cabelo pixaim, não pichaim (clique aqui para reler).

 

Abaia: vestido árabe

Mais uma para a série “palavras que faltam em dicionários“: abaia, substantivo feminino.

O Aulete registra “abaia” como uma “espécie de gabão ou manto árabe”, e só. Aurélio é igualmente lacônico. O Houaiss e outros sequer trazem a palavra.

A abaia é uma vestimenta feminina árabe – é, mais que isso, o traje feminino tradicional, quase universal, nos países árabes do Golfo: Arábia Saudita, Dubai e os demais Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã, etcétera. A abaia é um longo vestido negro, que se estende até os pés, e que é vestimenta obrigatória para mulheres adultas em público em alguns países muçulmanos, como a Arábia Saudita.

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A abaia é a túnica ou vestido longo, quase sempre preto, usado por mulheres muçulmanas em países árabes do Golfo. Além da abaia, que é apenas o vestido, as mulheres também cobrem a cabeça – seja apenas com um véu (cobrindo apenas o cabelo, como na foto abaixo), seja combinado com o uso do nicabe, peça que cobre todo o rosto, com exceção dos olhos. 

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É importante notar que a abaia não é o mesmo que o xador (manto negro, que se usa sobre o restante da roupa, precisando ser segurado pela usuária – em geral preto, é mais usado no Irã) nem que a burca (vestimenta completa, que cobre todo o corpo, inclusive a cabeça e o rosto; deixando apenas os olhos à mostra – ou às vezes nem os olhos, que são encobertos por um tecido rendado).

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À esquerda, duas mulheres usando o xador, no Irã. À direita, três mulheres usando burcas, no Afeganistão.

A abaia também é peça de vestimenta de uso obrigatórios nos territórios atualmente dominada pelo Daexe (o autointitulado “Estado Islâmico”, havendo relatos de mãe e filha que foram condenadas por suas abaias terem sido consideradas “justas demais“.

O tagine (e não a tajine): prato marroquino

Em francês, chama-se tajine ou tagine a um prato tradicional do Marrocos, bem como ao tipo de panela de barro em que o prato é preparado e servido. É palavra masculina: un tagine, não “une“. Em português, pela etimologia, deve ser escrito com a letra “g” (e não com jota): o correto em português será “o tagine“, “um tagine“.

Como ensina Rebelo Gonçalves – considerado um dos “pais” da moderna ortografia da língua portuguesa – já em seu clássico “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa”: em português, “em palavras de origem arábica se não faz uso de j, mas de g, antes de e ou i– enquanto o jota, por sua vez, é de rigor nas palavras de origem ameríndia (tupi, guarani, etc.) e nas palavras de origem latina (por isso “majestade” e “jeito”, e não *magestade ou *geito). A mesma observação já se encontra na mais antiga gramática da língua portuguesa que se conhece: na Orthografia da Lingoa Portuguesa, publicada em 1576, Duarte Nunez do Lião afirma que o uso do “g” com som de jota (de “i consoante”) antes das vogais e & i é “alheia dos gregos e latinos, e própria dos mouros, de quem a recebemos”.

Eis exemplos de palavras de origem americana (indígena), em que se usa a letra j): ajeru (papagaio), canjerê, canjica, jecoral, jenipapo, jequitibá, jerimum, jiboia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti, jitirana, mucujê, pajé.

É o contrário do que ocorre com as palavras de origem árabe ingressadas na língua portuguesa – em que sempre se usou, para representar o mesmo fonema, a letra g: alfageme, álgebra, algema, algeroz, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Argel, Argélia, auge, gengibre, gergelim, geringonça, gesso, Gibraltar, Gidá, ginete, girafa, gíria, hégira, Tânger…

O nome do cozido marroquino feito em geral com carne de frango ou de cordeiro e com legumes, bem como o nome do recipiente de terracota em que o referido cozido é preparado e em geral servido, pode ser escrito, em francês ou inglês, indiferentemente “tagine” ou “tajine” – neste caso, devendo-se grafar, num texto em português, a palavra em itálico, sublinhada ou entre aspas, para se deixar claro estar-se usando um estrangeirismo. Aportuguesada, a palavra só poderá ser escrita tagine, substantivo masculino.

ISIS, Estado Islâmico, Daesh ou Daexe?

O grupo terrorista “Estado Islâmico” tem muitos nomes: na imprensa brasileira, há uma salada de siglas – os jornais usam EI; EII; EIIL; ou EIIS. Telejornais brasileiros (e a presidente Dilma Rousseff) dizem “ISIS“. Barack Obama chama-os “ISIL” (pronunciado “Áicel”), mas seu secretário de Estado usa “Daesh” – em sintonia com o presidente da França, que usa exclusivamente “Daech”. Afinal, por que tantos nomes e siglas para um mesmo grupo terrorista?

O grupo radical foi fundado com o longo nome (em árabe) “O Estado Islâmico no Iraque e na Síria”.

Assim, num primeiro momento, a maioria dos meios de comunicação usaram a tradução “Estado Islâmico no Iraque e na Síria” – em inglês, Islamic State in Iraq and Syria, abreviada como ISIS (pronunciada aproximadamente, em inglês, “Áices”). A tradução letra a letra ao português (assim como ao francês ou ao espanhol) resultaria na sigla EIIS, que, por não ter a mesma sonoridade que ISIS, acabou não ganhando popularidade. No Brasil, consagrou-se mesmo a pronúncia “Ísis” (idêntica à do nome feminino).

Logo houve, porém, vozes a apontar que a tradução que vinha sendo usada em inglês podia não ser a mais apropriada, uma vez que a última palavra do nome do grupo, “Síria” (Xam, em árabe) podia não significar aquilo que a maioria da população ocidental supunha.

A rigor, Xam de fato significa literalmente “Síria”. A questão é que “Síria” pode significar (não apenas em árabe, mas mesmo em português) tanto o país atual, cuja capital é Damasco, quanto toda a chamada região da “Síria histórica” ou da “Grande Síria” – região que abrange não apenas a atual Síria, mas países ao redor, como Jordânia, Líbano, Israel e Palestina.

Como logo ficou claro que o grupo terrorista não planejava se limitar aos territórios do Iraque e da Síria moderna – e com vistas a tentar “facilitar as coisas” para seus espectadores e evitar possíveis ambiguidades -, alguns jornalistas e analistas tomaram a liberdade de começar a traduzir o Xam do nome do grupo não mais como “Síria” (ou “Grande Síria”), mas como “Levante” – termo que, embora não seja tradução correta de Xam, tem significado próximo o suficiente para “quebrar o galho”, com a vantagem de ser mais conhecido do público ocidental.

Ganhou, assim, popularidade a tradução “Estado Islâmico no Iraque e no Levante” – em inglês, Islamic State in Iraq and the Levant (abreviado como ISIL – ou, em português, espanhol e francês, EIIL).

No início de 2015, o próprio grupo terrorista mudou oficialmente de nome: segundo anunciado pelos próprios criminosos, o grupo passava a chamar-se apenas “Estado Islâmico”, sem qualquer complemento – numa clara evidência das aspirações universalistas do grupo.

Desde logo, muitas vozes em todo o mundo árabe (e em todo o mundo) se opuseram ao uso do nome “Estado Islâmico” – adotá-lo, diziam, seria atender a um pedido dos próprios terroristas; e, ademais, seria legitimá-los, ao tratá-los como um “Estado” de fato (algo que nenhum país do mundo reconhece). Ademais, estar-se-ia corroborando uma associação incorreta entre os terroristas e a religião islâmica (ou muçulmana), ao chamar “islâmico” ao grupo terrorista, rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos do mundo.

No lugar de “Estado Islâmico”, vem ganhando então popularidade a alternativa “Daesh” – transliteração inglesa da sigla pela qual o grupo terrorista é chamado em árabe. O presidente da França, François Hollande, e o equivalente a ministro das Relações Exteriores dos EUA, o Secretário de Estado John Kerry, passaram a referir-se oficialmente aos terroristas como “Daesh” ou “Daech”.

Daesh” nada mais é, porém, que “ISIS” em árabe – ou seja, a sigla formada pelas quatro iniciais das quatro palavras principais do nome “Estado Islâmico no Iraque e na Síria (ou no Levante)”.

A sigla, na verdade, é “D.A.E.Sh“: “Estado” em árabe é “Dawla” (de onde vem o “D”);  o adjetivo “islâmico” no nome é escrito “al-islāmiya” (do qual vem o “A”); em árabe, “Iraque” pode ser pronunciado com “I” ou com “E” inicial – donde vem a letra “E” da sigla; e do nosso já mencionado Xam, que significa Síria (seja a Síria moderna, seja a Grande Síria histórica) em árabe, vem a última letra – em inglês representada por duas letras (sh), razão pela qual a sigla, que, só tem quatro letras em árabe, acaba transliterada em inglês com cinco: DAESH. Em francês, da mesma forma, o som representado em inglês por “sh” é escrito com um dígrafo: “ch” – razão pela qual os franceses escrevem Daech, com ch em vez de sh.

Por não existir um método oficial ou único de escrever, com o alfabeto latino, palavras árabes, é comum encontrar várias outras grafias tanto em francês quanto em inglês – Daish, Daich, Da’ich, Da’ish, Da’es, etc.

Da mesma forma, não faria sentido adotar em português a transliteração da língua inglesa (Daesh), ou a francesa (Daech), ou a alemã (Daesch), etc. Em português, a letra que inicia a palavra Xam sempre foi grafada com o nosso “x”. Pela mesma razão que em inglês se escreve sheikh e em francês, cheikh, o título árabe chamado xeique ou xeque em português – ou pela qual escrevemos xiitas, enquanto franceses escrevem chiites e os ingleses, Shias – é que a adaptação, ao português, do nome árabe do grupo Estado Islâmico (Daesh em inglês, Daech em francês) é, em português, Daexe.

É essa, aliás, a forma corretamente usada pela União Europeia, que, ao traduzir para cada uma de suas suas 23 línguas oficiais uma “Proposta de resolução do Parlamento Europeu sobre o perigo do Daexe na Turquia” usou, corretamente, o aportuguesmento Daexe.

A questão, porém, é: por que é melhor (ou mais “politicamente correto”) chamar os terroristas pelo nome de Daexe ou Daesh, e não de “Estado Islâmico”?

Não há diferença entre “Daexe” e a já popular “ISIS” em termos de significado: ambas significam exatamente o mesmo, sendo ambas siglas que usam o nome original do autointitulado “Estado Islâmico” – com a diferença de que esta é o aportuguesamento, já popularizado, da sigla inglesa, enquanto aquela seria um aportuguesamento, ainda a ser divulgado, da forma árabe.

Nos EUA e na Europa vem ganhando, porém, força o argumento de que convém usar as formas Daesh/Daech/etc. porque os próprios terroristas supostamente detestariam o nome – e porque a palavra, em árabe, seria um trocadilho, uma vez que “Daexe” soaria similar à palavra árabe Daes, com sentido pejorativo.

De fato, a palavra árabe Daes significa “pisotear”, “esmagar ou triturar pisando em cima”. “Daesh“, assim, soaria parecido com “pisoteador(es)”, “esmagador(es)”. Ainda assim, diz a imprensa internacional, o próprio grupo terrorista “detestaria” a sigla, e teria ameaçado “cortar a língua” de quem o utilizasse.

A verdade, porém, é que todos os artigos e notícias que defendem o uso de “Daesh” com base na teoria de que os terroristas “detestaria” esse nome remetem a uma mesma fonte com a história da suposta ameaça dos terroristas de cortar línguas de quem o usasse – sem que exista, porém, qualquer comprovação ou sequer evidência de que a história seja real (até porque, sejamos honestos: ser conhecidos como “esmagadores” não parece ser algo realmente pejorativo para um grupo famoso por decapitar, queimar ou jogar do alto de edifícios suas vítimas).

O que sim é provável é que os terroristas não gostem de ser chamados de Daesh/Daech/Daexe – tanto quanto não devem gostar de ser chamados de ISIL, EIIL, etc. -, por duas razões muito mais simples.

Em primeiro lugar, porque qualquer uma dessas siglas – Daexe ou Daech, ISIS ou ISIL – se referem ao nome antigo, que ainda fazia referência à limitação gegráfica do grupo ao Iraque e à Síria, e seu uso mesmo após o grupo ter dito que seu nome atual é apenas “Estado Islâmico” pode ser interpretado como um rechaço ao novo nome pelo qual querem ser chamados e um desafio a sua autoridade.

E em segundo lugar porque – esse é um fato que a maioria dos jornalistas e articulistas ocidentais têm falhado em explicar – o fato é que a língua árabe, diferentemente das línguas ocidentail, normalmente não usa siglas – em inglês, português, francês, etc., é normal chamar os EUA de “os EUA”, e  a ONU de “a ONU”; em árabe, não há essa tradição – não há, na língua, a tradição de se criar palavras novas (como “ONU”), com sons próprios, de modo que toda e qualquer sigla usada como uma palavra simplesmente “soa” mal aos ouvidos tradicionalistas árabes. Ser chamado por uma “palavra inventada”, que não significa nada, é o que mais provavelmente desagrada aos terroristas.

É importante notar, porém, que, por essa lógica, absolutamente nenhuma diferença faz que o termo usado seja Daesh/Daexe ou ISIL/EIIL.

De fato, não há qualquer razão para que Barack Obama pare de usar ISIL ou ISIS e passe a usar Daesh, para que François Hollande pare de usar as siglas em favor de Daech, nem para que qualquer falante de português passe a falar e escrever Daexe apenas por achar que essa é uma forma que desagrada aos próprios terroristas. O que os terroristas querem é ser chamados de “Estado Islâmico” – qualquer sigla que se use é considerada desrespeitosa por eles, inclusive pela falta de tradição de uso de siglas na cultura árabe. Se a sigla Daexe ou Daesh significa, porém, exatamente o mesmo que ISIS, não há por que deixar de usar, no Brasil e em Portugal, a forma com a qual já nos habituamos: “o  ISIS” (pronunciado “Ísis”) – além de já ser a forma popularizada, ISIS tem ainda um “extra” – afinal, não há como negar que “pisoteadores” deve desagradar menos a um grupo de terroristas que subjugam mulheres e odeiam todas as outras religiões do que serem chamados pelo nome de uma antiga deusa egípcia.

Assim que, ao menos por aqui, continuaremos a usar ISIS.

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Ísis, deusa dos antigos egípcios