Ramallah, em português: Ramala, e não Ramalá

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O governo palestino tem como sede a cidade de Ramallah, na Cisjordânia (região da Palestina). Essa – Ramallah – é a grafia oficial da cidade em caracteres latinos – usada em árabe quando escrito com nosso alfabeto, e também em inglês, francês, alemão, italiano, etc. Pode também ser usada em português, já que a tendência atual é manter na forma original nomes estrangeiros sem aportuguesamentos tradicionais, como fazemos com Tel Aviv, Washington, Freetown, Buenos Aires, Kuwait (conforme indicado pelo Acordo Ortográfico) e tantas outras.

A pronúncia, porém, é Ramala, paroxítona, e esse é o aportuguesamento possível do nome da cidade – e não *Ramalá. A pronúncia errada advém da interpretação equivocada, que por vezes fazem brasileiros e portugueses, de que um “h” final em qualquer língua significa um acento agudo em português. Em línguas como o árabe e o hebraico, não é o caso: pense-se no nome Sarah, que se pronuncia Sara, ou Abdallah e Abdullah, aportuguesados (e pronunciados) como Abdala e Abdula.

Ramala corresponde à pronúncia do nome da cidade em árabe (e em hebraico, espanhol, inglês, português, etc.) e é a forma aportuguesada oficialmente usada pelo governo brasileiro, que tem um Escritório de Representação em Ramala.

O governo português usa a grafia Ramallah.

O aportuguesamento Ramala é também a forma mais usada pela imprensa brasileira – e portuguesa, angolana

É também Ramala a forma correta de escrever e pronunciar o nome dessa cidade palestina em espanhol, como se vê neste consultório linguístico espanhol, assessorado pela Real Academia Espanhola:

Ramala

¿Cuál es la grafía más correcta en español de esta ciudad palestina? También tengo dudas sobre su acentuación.

La escritura recomendable en español es Ramala y se pronuncia como se escribe, es decir, como palabra llana (paroxítona).

Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos  outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já há muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo; e ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

É uma regra do aportuguesamento de palavras árabes que o som transliterado como “sh” em inglês, como “ch” em francês e como “sch” em alemão seja escrito sempre com “x” em português. Há dezenas de vocábulos vindos do árabe que exemplificam o processo – almoxarifado, enxaqueca, xadrez, xeique, xeque, xerife, xiita…

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhada de vegetais, molhos e temperos servida num pão, a que se chama shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão, só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Regra de português: usa-se G (e não J) antes de E e I nas palavras vindas do árabe

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Na minha edição (de 2010) da Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara, imortal da Academia Brasileira de Letras, leio, na parte sobre a história da língua portuguesa, a palavra héjira – que, na verdade, se escreve hégira, como se pode ver em qualquer dicionário brasileiro ou português – inclusive no VOLP da Academia Brasileira de Letras e no dicionário do próprio Bechara.

Um errinho bobo, que serviria apenas para recordar-nos que mesmo os melhores gramáticos às vezes erram, mas que reforça a necessidade de recordarmos as regras seculares da ortografia portuguesa, que explicam por que se escreve hégira, e não *héjira.

Por alguns considerada arbitrária, a ortografia portuguesa é na verdade bastante coerente e tem algumas regras fixas, estabelecidas há séculos. Uma delas, que por razões misteriosas nenhuma gramática moderna traz e mesmo os nossos melhores linguistas parecem desconhecer (mas que, se conhecida, evitaria erros como escrever “héjira“) é a de que sempre se usam as sílabas “ge” e “gi”, e não “je” e “ji”, nas palavras portuguesas de origem árabe.

É uma lição que se podia ler já nas primeiras gramáticas da língua portuguesa, dos anos 1500 – quando o “g” e o “j”, aliás, se pronunciavam de forma levemente distinta; e por isso se convencionou o uso do “g”, antes de “e” e “i”, para representar a pronúncia árabe do som.

Mas isso não será uma regra que, passados tantos séculos, caiu em desuso? Não, de modo algum; basta olhar para qualquer palavra portuguesa de origem árabe com som “je” ou “ji”: álgebraalgemaalgeroz, algezira (ilha), algibeira, algibebeabencerrage, alfageme, auge, Argel, Argélia, gengibre, gergelimgibeiraginetagirafa, gizNégedeRígel, sagena.

Assim sendo, é bom notar que, na recém-lançada versão atualizada da gramática de Bechara, a palavra héjira já aparece devidamente corrigida para hégira.

Marrakesh em inglês, Marrakech em francês: Marraquexe em português

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Em português, o nome da cidade marroquina que recebe o maior número de turistas é Marraquexe. Marraquexe? Sim, em português, Marraquexe – grafia incluída no Vocabulário de Nomes Próprios da Academia Brasileira de Letras (fotos abaixo) e usada nas boas enciclopédias brasileiras e portuguesas.

Como a maioria das grandes cidades históricas, internacionalmente conhecidas desde a antiguidade (como Londres, Roma, etc.), a cidade marroquina tem grafias tradicionais em diferentes línguas: em francês, seu nome é Marrakech; em inglês, Marrakesh (com a troca do “ch” francês pelo “sh” inglês, que representa o mesmo som); em alemão, Marrakesch (com “sch”, que representa em alemão o som do “sh” inglês ou do “ch” francês); em polonês, Marrakesz, pela mesma razão; em africâner, Marrakesj; em grego, Μαρακές; em basco, Marrakex – e, em português, Marraquexe – como se lê nas boas enciclopédias e dicionários de nomes próprios 

Sem títuloSó poderia ser Marraquexe em português, porque é uma regra da ortografia portuguesa que se usa a letra “x” (e não o dígrafo “ch“) para representar o som chiado, de “sh” (/ʃ/, no alfabeto fonético internacional), em todos os aportuguesamentos vindos de línguas que não usam o nosso alfabeto – o que inclui as palavras de origem árabeafricana, hebraica, persatupiturca.

São exemplos de palavras de origem tupi: abacaxi, guaxinimmacaxeirapixaimxamã, xaráde origem africana: xingarmaxixemuxoxoxaráquixima (poço d’água), orixá; de origem árabe: almoxarifado, xadrez; oxalá; xerife; xarife; xeque; xeiquexarope; de origem persa: (antigo rei da Pérsia ou Irã); xale (manto); xador, etc.

Além da regra ortográfica, sempre foi esse o uso: é Marraquexe, com xis, que se acha em boas enciclopédias portuguesas e brasileiras, como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira; a Enciclopédia Melhoramentos (foto abaixo); a Encicloplédia Brasileira Mérito; em dicionários que trazem nomes de cidades, como o Dicionário Inglês-Português Webster (foto abaixo).

É, ainda, a forma usada pelo governo de Portugal e pelo governo brasileiro (incluída a imprensa nacional e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil); e a única forma aceita de acordo com o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que traz os nomes de países, cidades e estados em língua portuguesa:

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Enciclopédia Melhoramentos:
Enciclopédia Melhoramentos (1)

Dicionário Inglês-Português Webster:Webster's Portuguese-English dictionary (1)

Por que o palmito é juçara, e não jussara?

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Até a década de 1990, o Brasil destacava-se como exportador de palmito do tipo juçara, considerado de primeira qualidade, oriundo do Centro-Sul do país e encontrado também na Argentina e no Paraguai. A ameaça de extinção da palmeira de juçara em meio natural fez que se proibisse no Brasil a comercialização desse palmito, com exceção daqueles provenientes de replantio. Com isso, o palmito-juçara (ou simplesmente juçara) foi substituído, no mercado nacional e no internacional, por variedade alternativa de palmito, menos cara mas também menos graúda, chamada palmito-pupunha (ou simplesmente pupunha).

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Embora seja comum ver juçara escrito, por erro, jussara, o nome da palmeira e de seu palmito é mesmo com “ç” – assim como açaí, variedade de palmito hoje mais conhecida pelos alimentos produzidos pela poupa de seus frutos, de forte cor roxa, oriundo da Amazônia, no norte da América do Sul (em oposição ao juçara, proveniente da Mata Atlântica).

A razão pela qual se escreve juçara (e não jussara) é simples: é convenção ortográfica que se usa o “ç”, e não o “ss”, na grafia das palavras em português provenientes do tupi-guarani e de outras línguas indígenas do Brasil: é por essa mesma razão que se escrevem: açaíIguaçucupuaçu, jaçanãparaguaçu (e tudo que termina em -açu, sufixo tupi-guarani que significa “grande”), paçocapiaçaba, etc.

Convenções ortográficas desse tipo, referentes a línguas sem tradição escrita, facilitam muito a vida dos lusófonos. A regra de usar “ç” no lugar de “ss” aplica-se também, por exemplo, aos aportuguesamentos da língua árabe: é por essa razão que escrevemos muçulmano, moçárabe, Moçambique (o nome do país também vem do árabe), açudeaçafrãoaçougue ou mesmo açúcar.

Semelhante ainda é o uso da letra “x”, que, para facilitar a vida de todos os que usamos o português, foi sistematizada como obrigatória, no lugar de “ch”, em palavras de origem tupi-guarani ou árabe – como já explicamos em artigo anterior, sobre o porquê de se escrever cabelo pixaim, não pichaim (clique aqui para reler).

 

Abaia: vestido árabe

Mais uma para a série “palavras que faltam em dicionários“: abaia, substantivo feminino.

O Aulete registra “abaia” como uma “espécie de gabão ou manto árabe”, e só. Aurélio é igualmente lacônico. O Houaiss e outros sequer trazem a palavra.

A abaia é uma vestimenta feminina árabe – é, mais que isso, o traje feminino tradicional, quase universal, nos países árabes do Golfo: Arábia Saudita, Dubai e os demais Emirados Árabes Unidos, Catar, Omã, etcétera. A abaia é um longo vestido negro, que se estende até os pés, e que é vestimenta obrigatória para mulheres adultas em público em alguns países muçulmanos, como a Arábia Saudita.

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A abaia é a túnica ou vestido longo, quase sempre preto, usado por mulheres muçulmanas em países árabes do Golfo. Além da abaia, que é apenas o vestido, as mulheres também cobrem a cabeça – seja apenas com um véu (cobrindo apenas o cabelo, como na foto abaixo), seja combinado com o uso do nicabe, peça que cobre todo o rosto, com exceção dos olhos. 

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É importante notar que a abaia não é o mesmo que o xador (manto negro, que se usa sobre o restante da roupa, precisando ser segurado pela usuária – em geral preto, é mais usado no Irã) nem que a burca (vestimenta completa, que cobre todo o corpo, inclusive a cabeça e o rosto; deixando apenas os olhos à mostra – ou às vezes nem os olhos, que são encobertos por um tecido rendado).

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À esquerda, duas mulheres usando o xador, no Irã. À direita, três mulheres usando burcas, no Afeganistão.

A abaia também é peça de vestimenta de uso obrigatórios nos territórios atualmente dominada pelo Daexe (o autointitulado “Estado Islâmico”, havendo relatos de mãe e filha que foram condenadas por suas abaias terem sido consideradas “justas demais“.

O tagine (e não a tajine): prato marroquino

Em francês, chama-se tajine ou tagine a um prato tradicional do Marrocos, bem como ao tipo de panela de barro em que o prato é preparado e servido. É palavra masculina: un tagine, não “une“. Em português, pela etimologia, deve ser escrito com a letra “g” (e não com jota): o correto em português será “o tagine“, “um tagine“.

Como ensina Rebelo Gonçalves – considerado um dos “pais” da moderna ortografia da língua portuguesa – já em seu clássico “Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa”: em português, “em palavras de origem arábica se não faz uso de j, mas de g, antes de e ou i– enquanto o jota, por sua vez, é de rigor nas palavras de origem ameríndia (tupi, guarani, etc.) e nas palavras de origem latina (por isso “majestade” e “jeito”, e não *magestade ou *geito). A mesma observação já se encontra na mais antiga gramática da língua portuguesa que se conhece: na Orthografia da Lingoa Portuguesa, publicada em 1576, Duarte Nunez do Lião afirma que o uso do “g” com som de jota (de “i consoante”) antes das vogais e & i é “alheia dos gregos e latinos, e própria dos mouros, de quem a recebemos”.

Eis exemplos de palavras de origem americana (indígena), em que se usa a letra j): ajeru (papagaio), canjerê, canjica, jecoral, jenipapo, jequitibá, jerimum, jiboia, jiquipanga, jiquiró, jiquitaia, jirau, jiriti, jitirana, mucujê, pajé.

É o contrário do que ocorre com as palavras de origem árabe ingressadas na língua portuguesa – em que sempre se usou, para representar o mesmo fonema, a letra g: alfageme, álgebra, algema, algeroz, algibebe, algibeira, álgido, almargem, Argel, Argélia, auge, gengibre, gergelim, geringonça, gesso, Gibraltar, Gidá, ginete, girafa, gíria, hégira, Tânger…

O nome do cozido marroquino feito em geral com carne de frango ou de cordeiro e com legumes, bem como o nome do recipiente de terracota em que o referido cozido é preparado e em geral servido, pode ser escrito, em francês ou inglês, indiferentemente “tagine” ou “tajine” – neste caso, devendo-se grafar, num texto em português, a palavra em itálico, sublinhada ou entre aspas, para se deixar claro estar-se usando um estrangeirismo. Aportuguesada, a palavra só poderá ser escrita tagine, substantivo masculino.