O significado de cricri (cri-cri): perfeccionista, minucioso, chato

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No Brasil se usa muito a expressão cricri para se referir a uma pessoa demasiadamente detalhista, excessivamente criteriosa, exigente demais.

Parece óbvia a origem do termo: uma pessoa cricri é aquela que, por detalhes, fica incomodando, perturbando – como um grilo a cricrilar. Sempre me pareceu óbvia essa origem, que é também a defendida no Dicionário Brasileiro de Insultos.hqdefault

Mas o Houaiss traz outra etimologia – que, de tão absurda, parece piada. De acordo com o nosso maior dicionário, uma pessoa cricri (que o Houaiss, e ninguém mais, escreve cri-cri) seria alguém “que só fala de coisas sem nenhum interesse” e a expressão viria do fato de algumas dessas pessoas só falarem de “crianças e criados“. “Cricri” (ou “cri-cri”), segundo essa teoria, seria uma redução de “crianças + criados”.

É, obviamente, uma viagem completa.

Voltando no tempo, descobre-se que a teoria de Houaiss, além de pouco crível, sequer é original. Na primeira edição do Aurélio, lia-se que uma pessoa cricri era uma pessoa maçante, e só; na segunda edição, Aurélio alterou o verbete para incluir a história do “crianças + criados“. O Houaiss copiou-a acriticamente. É difícil saber qual dos dois fez pior.

A palavra cricri, usada em abundância em notícias, tuítes, crônicas e romances, é bem definida pelo Dicionário Michaelis de Gírias: “pessoa exageradamente perfeccionista, detalhista ao extrema“. Uma variante da gíria, bem lembrada pelo Michaelis, é crica.

Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

Num voo para Santa Catarina, a aeromoça pergunta à senhora ao meu lado se deseja gelo em sua bebida, a que a senhora responde que, se o suco já não estiver gelado, a aeromoça “pode ponhar umas duas pedrinhas.”

A naturalidade com que a senhora usou aquele verbo que me soava tão alienígena me fez rapidamente tirar o Aurélio eletrônico do bolso… E, de fato, o bom e velho Aurélio nunca nos deixa na mão:

Ponhar: verbo, usado nas regiões Sul e Centro-Oeste do Brasil, popular: O mesmo que pôr.

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Jogando a palavra no Twitter, vê-se que o verbo ponhar é, sim, usado. E muito (cliquem aqui para ver).

É obviamente uma forma popular, e, como tal, de se evitar em contextos não íntimos, a menos que não se importe com o julgamento de terceiros. Há, é claro, os que não se importam, para quem “pus” é muito mais feio e ambíguo do que o simpático “ponhei”.

O interessante é notar que sequer tinham essas formas de ser necessariamente populares: em galego, língua da qual veio a nossa (sim, ao contrário do que ensinam, muito simplificadamente, nas escolas, o português não veio diretamente do latim; veio do galego antigo), existe hoje o verbo ponher (ver aqui), considerado sinônimo perfeito do verbo pôr.

A criação brasileira de “ponhar” nada mais é, portanto, que uma tentativa lógica de “regularizar” o verbo em concordância com diversas de suas conjugações, como “eu ponho”, “que eles ponham”, etc. – que nada mais são que derivados diretos de ponher, forma antiga do verbo, que, com a evolução da língua (e a tendência dos falantes a reduzirem palavras e comerem sílabas), acabou reduzida a “pôr“.

“No aguardo” está errado? Não acredite em tudo que lê na Internet…

“Ficar no aguardo” ou “estar no aguardo” de algo são expressões corretas, autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos. Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo o qual a expressão “no aguardo” não existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português há mais de um século e é corretíssima.

A Internet é terreno fértil para notícias falsas – de todos os tipos, inclusive linguísticas. Exemplo disso é a falsa afirmação, espalhada por sites na Internet e postagens em Facebook, de que a expressão “no aguardo” seria errada.

“No aguardo é expressão gramaticalmente correta, e a que registram os dicionários brasileiros desde o século passado. Vide, por exemplo, já na primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete ou o da Porto Editora) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas apenas como “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecias no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc. Em resumo, não sabem o que dizem. “No aguardo” é corretíssimo.

Qual o dicionário de português com mais palavras?

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Após termos feito, anteriormente, uma lista com os maiores dicionários da língua portuguesa para responder qual é o maior até hoje, diversos leitores enviaram-nos os números atualizados de alguns dos dicionários mencionados. A própria Priberam nos deu a honra de comentar na publicação, informando que o Dicionário Priberam já passa das 115 mil palavras. Obtivemos, ainda, os números exatos de verbetes dos dicionários de Laudelino Freire, da Academia Brasileira de Letras e daquele que já tínhamos identificado, corretamente, como o maior dicionário até hoje já publicado. Para que esteja sempre atualizada, a publicação em questão se tornou uma página fixa, acessível pelo menu aqui acima (ou simplesmente clique aqui).

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Dindim é dinheiro, mas também é geladinho, sacolé ou gelinho

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Todo brasileiro conhece a palavra “dindim”, forma reduzida de dizer, num contexto informal, “dinheiro”. É surpreendente, assim, que, até poucos meses atrás, nenhum dicionário de português registrasse o substantivo masculino dindim. E é irônico o fato de o primeiro dicionário a registrar a palavra dindim ser não um dos excelentes dicionários brasileiros – como o Aurélio, o Houaiss ou o novo Aulete -, mas o portuguesíssimo Dicionário Priberam (dindimsubstantivo masculino; origem onomatopeica; brasileirismo: Dinheiro). Ponto para o Priberam.

Fica faltando, porém, um sentido de dindim – provavelmente o mais usual, se confiarmos na busca do Google Imagens (ver aqui): em partes do Brasil, dindim é o nome mais usual disto que se vê na foto abaixo: um “suco em geral com sabor artificial de fruta, congelado dentro de um saquinho plástico circular, semelhante a um picolé cilíndrico e esticado, porém sem pauzinho; também chamado geladinho, sacolé ou gelinho“.

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Tsunâmi: em português, com acento

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O Dicionário Aulete é o mais recente dicionário a incorporar a palavra “tsunâmi”, substantivo masculino, em sua versão aportuguesada, com acento. A versão portuguesa do nome japonês para uma onda gigante e destrutiva foi a única grafia da palavra incluída no recém-lançado dicionário ilustrado Caldas Aulete (foto acima). A palavra tsunâmi, aportuguesada, já fora incluída nos dicionários mais vendidos respectivamente em Portugal (o da Porto Editora, conforme link aqui) e o do Brasil – o Aurélio, conforme foto a seguir:

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As palavras portuguesas ou aportuguesadas terminadas em “i” são, via de regra, oxítonas: caqui, vivi, comi, aqui, ali, frenesi, sambaqui, tucupi, bebi, fugi. Para indicar que a palavra não é oxítona, portanto, as regras ortográficas do português obrigam a colocação de um acento – por exemplo em táxi, cáqui, suázi, beribéri. Por essa razão, a palavra tsunâmi obrigatoriamente levará acento em português.

Pode-se, naturalmente, usar a palavra em sua versão estrangeira, “tsunami” – mas, nesse caso, as regras da língua recomendam destacar a palavra, seja com aspas, seja pelo uso de letras em itálico (ou, ainda, sublinhadas):

“Governo alerta para possibilidade de tsunâmi após terremoto desta madrugada.”, ou:

“Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.”, ou ainda:

Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.

Atualização: menos de três horas após termos publicado o texto acima, o sempre ágil Dicionário Priberam também incluiu a palavra “tsunâmi“, aportuguesada e com acento.

Cuidado! O “dicionário do aurélio” da Internet não é o “Dicionário Aurélio”

O verdadeiro Dicionário Aurélio não tem versão gratuita na Internet. O tal “Dicionário do Aurélio (dicionariodoaurelio.com) é um site vergonhosamente ruim, sem qualquer relação com o verdadeiro Dicionário Aurélio, que tenta se passar pelo verdadeiro Aurélio – mas, em termos de qualidade, é pior do que os piores microdicionários. Quem procura um dicionário de português grátis na Internet pode acessar o Dicionário Aulete (aqui) ou o Dicionário Priberam (aqui) – estes, sim, realmente bons.

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Originalmente publicado em 1975 por Aurélio Buarque de Hollanda, o Dicionário Aurélio – atualmente em sua quinta edição – é até hoje o dicionário de português mais vendido na História, o dicionário de referência no Brasil (onde “estar no Aurélio” é sinônimo de “estar [uma palavra] correta”, “existir”) e é, até hoje, um dos maiores dicionários de português jamais feitos, com 143 387 palavras definidas.

Por tudo isso, é triste que muita gente venha caindo no golpe do criminoso “dicionário do aurélio“: um site “.com“, internacional (e que, por isso, os advogados do verdadeiro Dicionário Aurélio no Brasil e em Portugal têm tido dificuldade em tirar do ar), que se aproveita da fama do mais famoso dicionário da língua portuguesa para lucrar ao enganar o público, fazendo-se passar pelo verdadeiro Dicionário Aurélio, mas apresentando verbetes e definições de péssima qualidade, roubados da primeira edição (à época, bastante incompleta) de outro dicionário virtual, o Priberam.

Assim, não se deixem enganar: diferentemente do Priberam, do Michaelis e do Aulete (que têm, sim, versões grátis, abertas, na Internet), o Dicionário Aurélio não têm versão para consulta grátis na Internet. Se estiver atrás de um bom dicionário de português gratuito na Internet, suas opções são o Priberam (clique aqui), o Michaelis (aqui) e o Aulete (aqui). Apenas para português de Portugal, há também o dicionário da Porto Editora.

O Dicionário Aurélio de verdade, atualizado, tem aplicativo virtual para celulares e para Windows, com todo o conteúdo do dicionário, mas que só pode ser acessado se for comprado; fora isso, o Aurélio “em papel” está à venda nas livrarias.

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Eis as capas das edições em papel da versão completa (o “Aurelião”) do verdadeiro Dicionário Aurélio:

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