O significado de cricri (cri-cri): perfeccionista, minucioso, chato

istock_000003119607xsmall

No Brasil se usa muito a expressão cricri para se referir a uma pessoa demasiadamente detalhista, excessivamente criteriosa, exigente demais.

Parece óbvia a origem do termo: uma pessoa cricri é aquela que, por detalhes, fica incomodando, perturbando – como um grilo a cricrilar. Sempre me pareceu óbvia essa origem, que é também a defendida no Dicionário Brasileiro de Insultos.hqdefault

Mas o Houaiss traz outra etimologia – que, de tão absurda, parece piada. De acordo com o nosso maior dicionário, uma pessoa cricri (que o Houaiss, e ninguém mais, escreve cri-cri) seria alguém “que só fala de coisas sem nenhum interesse” e a expressão viria do fato de algumas dessas pessoas só falarem de “crianças e criados“. “Cricri” (ou “cri-cri”), segundo essa teoria, seria uma redução de “crianças + criados”.

É, obviamente, uma viagem completa.

Voltando no tempo, descobre-se que a teoria de Houaiss, além de pouco crível, sequer é original. Na primeira edição do Aurélio, lia-se que uma pessoa cricri era uma pessoa maçante, e só; na segunda edição, Aurélio alterou o verbete para incluir a história do “crianças + criados“. O Houaiss copiou-a acriticamente. É difícil saber qual dos dois fez pior.

A palavra cricri, usada em abundância em notícias, tuítes, crônicas e romances, é bem definida pelo Dicionário Michaelis de Gírias: “pessoa exageradamente perfeccionista, detalhista ao extrema“. Uma variante da gíria, bem lembrada pelo Michaelis, é crica.

Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

Num voo para Santa Catarina, a aeromoça pergunta à senhora ao meu lado se deseja gelo em sua bebida, um suco de laranja. Ao que a senhora responde: “Se não estiver gelado, pode ponhar umas duas pedrinhas.”

A naturalidade com que a senhora usou aquele verbo que me soava tão alienígena me fez rapidamente tirar o Aurélio eletrônico do bolso… E, de fato, o bom e velho Aurélio nunca nos deixa na mão:

Ponhar: verbo, usado nas regiões Sul (que, na velha definição do Aurélio, inclui São Paulo) e Centro-Oeste do Brasil, popular: O mesmo que pôr.

IMG_2179

Jogando a palavra no Twitter, vê-se que o verbo ponhar é, sim, usado. E muito (cliquem aqui para ver).

É obviamente uma forma popular, e, como tal, de se evitar em contextos não íntimos, a menos que não se importe com o julgamento de terceiros. Há, é claro, os que não se importam, para quem “pus” é muito mais feio e ambíguo do que o simpático “ponhei”.

O interessante é notar que sequer tinham essas formas de ser necessariamente populares: em galego, língua da qual veio a nossa (sim, ao contrário do que ensinam, muito simplificadamente, nas escolas, o português não veio diretamente do latim; veio do galego antigo), existe hoje o verbo ponher (ver aqui), considerado sinônimo perfeito do verbo pôr.

O processo que levou os galegos modernos a “inventarem” o verbo “ponher” após a separação do português do galego deve ser o mesmo processo que fez que, no interior do Brasil, se criasse em português moderno o verbo “ponhar” – uma possível analogia com as formas conjugadas, como “eu ponho”. A única diferença é que, no galego, decidiu-se que a variante é legítima e correta; no português, decidiu-se que é uma forma popular e, portanto, evitável.

 

“No aguardo” está errado? Não acredite em tudo que lê na Internet…

“Ficar no aguardo” ou “estar no aguardo” de algo são expressões corretas, autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos. Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo o qual a expressão “no aguardo” não existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português há mais de um século e é corretíssima.

A Internet é terreno fértil para notícias falsas – de todos os tipos, inclusive linguísticas. Exemplo disso é a falsa afirmação, espalhada por sites na Internet e postagens em Facebook, de que a expressão “no aguardo” seria errada.

“No aguardo é expressão gramaticalmente correta, e a que registram os dicionários brasileiros desde o século passado. Vide, por exemplo, já na primeira edição do Dicionário Aurélio:

FullSizeRender (4)

O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete ou o da Porto Editora) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas apenas como “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecias no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc. Em resumo, não sabem o que dizem. “No aguardo” é corretíssimo.

Qual o dicionário de português com mais palavras?

image_thumb5b95ddicionario-da-lingua-portuguesa-laudelino-freire-1957-5-vol-229211-MLB20511396991_122015-FDicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911

Após termos feito, anteriormente, uma lista com os maiores dicionários da língua portuguesa para responder qual é o maior até hoje, diversos leitores enviaram-nos os números atualizados de alguns dos dicionários mencionados. A própria Priberam nos deu a honra de comentar na publicação, informando que o Dicionário Priberam já passa das 115 mil palavras. Obtivemos, ainda, os números exatos de verbetes dos dicionários de Laudelino Freire, da Academia Brasileira de Letras e daquele que já tínhamos identificado, corretamente, como o maior dicionário até hoje já publicado. Para que esteja sempre atualizada, a publicação em questão se tornou uma página fixa, acessível pelo menu aqui acima (ou simplesmente clique aqui).

image (2) image20-20cc3b3pia-thumb-600x813-9099dicionario-universal  14905

Dindim é dinheiro, mas também é geladinho, sacolé ou gelinho

Untitled (2)

Todo brasileiro conhece a palavra “dindim”, forma reduzida de dizer, num contexto informal, “dinheiro”. É surpreendente, assim, que, até poucos meses atrás, nenhum dicionário de português registrasse o substantivo masculino dindim. E é irônico o fato de o primeiro dicionário a registrar a palavra dindim ser não um dos excelentes dicionários brasileiros – como o Aurélio, o Houaiss ou o novo Aulete -, mas o portuguesíssimo Dicionário Priberam (dindimsubstantivo masculino; origem onomatopeica; brasileirismo: Dinheiro). Ponto para o Priberam.

Fica faltando, porém, um sentido de dindim – provavelmente o mais usual, se confiarmos na busca do Google Imagens (ver aqui): em partes do Brasil, dindim é o nome mais usual disto que se vê na foto abaixo: um “suco em geral com sabor artificial de fruta, congelado dentro de um saquinho plástico circular, semelhante a um picolé cilíndrico e esticado, porém sem pauzinho; também chamado geladinho, sacolé ou gelinho“.

768d55710b_media

 

Tsunâmi: em português, com acento

IMG_1894

O Dicionário Aulete é o mais recente dicionário a incorporar a palavra “tsunâmi”, substantivo masculino, em sua versão aportuguesada, com acento. A versão portuguesa do nome japonês para uma onda gigante e destrutiva foi a única grafia da palavra incluída no recém-lançado dicionário ilustrado Caldas Aulete (foto acima). A palavra tsunâmi, aportuguesada, já fora incluída nos dicionários mais vendidos respectivamente em Portugal (o da Porto Editora, conforme link aqui) e o do Brasil – o Aurélio, conforme foto a seguir:

IMG_1879

As palavras portuguesas ou aportuguesadas terminadas em “i” são, via de regra, oxítonas: caqui, vivi, comi, aqui, ali, frenesi, sambaqui, tucupi, bebi, fugi. Para indicar que a palavra não é oxítona, portanto, as regras ortográficas do português obrigam a colocação de um acento – por exemplo em táxi, cáqui, suázi, beribéri. Por essa razão, a palavra tsunâmi obrigatoriamente levará acento em português.

Pode-se, naturalmente, usar a palavra em sua versão estrangeira, “tsunami” – mas, nesse caso, as regras da língua recomendam destacar a palavra, seja com aspas, seja pelo uso de letras em itálico (ou, ainda, sublinhadas):

“Governo alerta para possibilidade de tsunâmi após terremoto desta madrugada.”, ou:

“Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.”, ou ainda:

Governo alerta para possibilidade de tsunami após terremoto desta madrugada.

Atualização: menos de três horas após termos publicado o texto acima, o sempre ágil Dicionário Priberam também incluiu a palavra “tsunâmi“, aportuguesada e com acento.

Cuidado! O “dicionário do aurélio” da Internet não é o “Dicionário Aurélio”

O verdadeiro Dicionário Aurélio não tem versão gratuita na Internet. O tal “Dicionário do Aurélio (dicionariodoaurelio.com) é um site vergonhosamente ruim, sem qualquer relação com o verdadeiro Dicionário Aurélio, que tenta se passar pelo verdadeiro Aurélio – mas, em termos de qualidade, é pior do que os piores microdicionários. Quem procura um dicionário de português grátis na Internet pode acessar o Dicionário Aulete (aqui) ou o Dicionário Priberam (aqui) – estes, sim, realmente bons.

image_thumb5b95d

Originalmente publicado em 1975 por Aurélio Buarque de Hollanda, o Dicionário Aurélio – atualmente em sua quinta edição – é até hoje o dicionário de português mais vendido na História, o dicionário de referência no Brasil (onde “estar no Aurélio” é sinônimo de “estar [uma palavra] correta”, “existir”) e é, até hoje, um dos maiores dicionários de português jamais feitos, com 143 387 palavras definidas.

Por tudo isso, é triste que muita gente venha caindo no golpe do criminoso “dicionário do aurélio“: um site “.com“, internacional (e que, por isso, os advogados do verdadeiro Dicionário Aurélio no Brasil e em Portugal têm tido dificuldade em tirar do ar), que se aproveita da fama do mais famoso dicionário da língua portuguesa para lucrar ao enganar o público, fazendo-se passar pelo verdadeiro Dicionário Aurélio, mas apresentando verbetes e definições de péssima qualidade, roubados da primeira edição (à época, bastante incompleta) de outro dicionário virtual, o Priberam.

Assim, não se deixem enganar: diferentemente do Priberam, do Michaelis e do Aulete (que têm, sim, versões grátis, abertas, na Internet), o Dicionário Aurélio não têm versão para consulta grátis na Internet. Se estiver atrás de um bom dicionário de português gratuito na Internet, suas opções são o Priberam (clique aqui), o Michaelis (aqui) e o Aulete (aqui). Apenas para português de Portugal, há também o dicionário da Porto Editora.

O Dicionário Aurélio de verdade, atualizado, tem aplicativo virtual para celulares e para Windows, com todo o conteúdo do dicionário, mas que só pode ser acessado se for comprado; fora isso, o Aurélio “em papel” está à venda nas livrarias.

312523096824756

Eis as capas das edições em papel da versão completa (o “Aurelião”) do verdadeiro Dicionário Aurélio:

18453841y2x2bvbfol-_ac_ul320_sr274320_novo-diccionario-aurelio-da-lingua-portuguesa-edicao-de-luxo-831601-mla20345721164_072015-f285938_722dicionario-aurelio-onlineimage_thumb5b95d

Clique aqui para acessar a página do DicionárioeGramática