“Apelido”, em Portugal, é sobrenome (como “apellido” em espanhol)

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Um casal de brasileiros no exterior teria preenchido, no campo “Apelido” na página de compras de uma companhia aérea europeia, os apelidos carinhosos com que chamam um ao outro: “Amorzão” e “Princesona“. Que acabaram saindo impressos nas passagens, no lugar dos sobrenomes.

Aos que duvidaram: sim, a história é real, e Amorzão e Princesona  até conseguiram embarcar, no fim das contas (ver aqui).

Assim que a história passou a ser divulgada, muita gente supôs que Princesona e Amorzão tivessem feito a compra numa página em espanhol.

De fato, em espanhol “apellido” significa sobrenome, nome de família. Mas não foi o caso: em viagem pela Europa, o casal fez a compra na versão em português da página de uma companhia holandesa… que estava, naturalmente, em português europeu – isto é, português de Portugal.

Similarmente ao “apellido” espanhol, em Portugal o sentido mais usual de “apelido” é o de sobrenome, nome de família.

Já para o sentido mais usual no Brasil de apelido – o usado por “Amorzão” e “Princesona”, por exemplo -, os portugueses usam sobretudo o termo alcunha.

 

A origem da palavra “samba”

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Uma leitora pergunta-nos quando surgiu, em português, a palavra samba.

O mais antigo registro escrito de “samba” em português data de 1837 – décadas antes de o ritmo vir a ser conhecido no Sudeste ou no Sul do Brasil. Na edição de 22 de novembro de 1837 do jornal Carapuceiro, da cidade do Recife,  o padre Lopes Gama, o padre e editor do jornal afirma, acerca das jovens do Recife, que:

a mor parte das nossas Matutinhas tem gostos análogos aos usos e costumes do campo. Esta inclina-se a Sr. Janjão da pinguela, porque é insigne amansador de potros; aquela tem cativo o coração a Sr. Quinquim do riacho, porque este zangarreia em uma viola o samba, o coco e o minuete rasteiro.

Na edição de 12 de novembro de 1842 do mesmo jornal, novamente se encontra a palavra, em versos ali publicados:

Aqui pelo nosso mato?
Qu’estava então mui tatamba?
Não se sabia outra coisa?
Senão a dança do samba

A origem da palavra não é certa. Há especulação de que seja uma adaptação da palavra africana “semba“, de origem bantu, que teria o sentido de “umbigada” (encontrão do umbigo de uma pessoa com o umbigo de outra, no que seria um passo típico de danças afro-brasileiras).

O português dos deputados brasileiros

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Todas as emissoras de televisão brasileiras (bem, exceto uma) passaram as últimas doze horas exibindo ao vivo a sessão em que cada um dos deputados federais brasileiros se manifestou acerca do prosseguimento do processo de impeachment de Dilma Rousseff. As mais de 500 justificativas de votos foram uma verdadeira amostra do que é o português brasileiro contemporâneo real.

Eis uma pequena amostra de termos usados hoje por nossos deputados:

  • essa ladroeira toda“: parece errado? Parece. Mas o deputado estava certíssimo: a palavra “ladroeira” de fato existe – e, como mostra o dicionário Priberam, é de fato um sinônimo de ladroagem e de ladroíce;
  • é um sacripanta“: o deputado acertou; sacripanta (cujo significados são patifeindigno ou falso beato) não tem “s” no singular; a variante “um sacripantas“, que por vezes se ouve, está incorreta;
  • “em nome da indústria fumageira“: para a surpresa de muitos, o adjetivo fumageiro existe: como ensina o Michaelisfumageirofumageira são de fato adjetivos referentes à produção do fumo;
  • um dia paroxístico“:  podia parecer criação de deputado, mas não, a palavra está correta: paroxístico é o que apresenta paroxismos – que, por sua vez, são agonias, ou um ápice, o auge de algo, ou uma crise
  • pelegagem“: condição, estado ou comportamento típico de quem é pelego – que, como ensina o Michaelis e outros, é como se chama no Brasil aos sindicalistas que disfarçadamente trabalham contra os interesses dos demais sindicalizados, em favor do patrão ou do governo – e, por extensão, é termo usado para se referir a todo aquele que é servil aos poderosos;
  • presidenta” e “membra: parece incrível, mas, em 2016, ainda tem quem nos pergunte se existe mesmo a palavra “presidenta” – correto feminino de presidente, como ensinam o Michaelis, o Aurélio, o Houaiss, o professor Pasquale, o Priberam, a FLiP, etc., e que está devidamente registrado em dicionários portugueses desde pelo menos o ano de 1812. Mais aceitável é que ainda nos perguntem se a forma “membra”, mais recente, usada hoje pelo presidente da Câmara dos Deputados, está correta – e a resposta é que também essa está, como se pode ver no Priberam ou no Dicionário Houaiss;
  • os deputados indecisos têm sido tietadoscomo ensina os dicionários, tietar é verbo que se usa só no Brasil, onde significa “ser puxa-saco”, “demonstrar ostensivamente admiração incondicional”;
  • seria fácil tergiversar“: outrora um termo culto e de uso relativamente raro, o verbo “tergiversar” caiu nas graças dos políticos brasileiros, que agora a usam todo o tempo em substituição do popular “enrolar“: ser evasivo, usar de subterfúgios;
  • é um processo inecsorável“: por soar chique, muita gente adora usar a palavra “inexorável”, que significa “incontornável”, “implacável”, etc. O que muitos não sabem é que, na pronúncia padrão, o “x” de inexorável tem em português som de /z/, e não som de /cs/. Escreve-se, sim, inexorável, mas, como em tantas palavras portuguesas (como exatoexaurir), a pronúncia recomendada pelos dicionários é inezorável, e não inecsorável;
  • o que nós vimos onte“: há quem ache que “onte” é um erro de português, mas a verdade é que “onte” (assim mesmo, sem o “m”) está nos dicionários (videHouaiss, o dicionário Aulete, o dicionário Priberam, etc.) como forma histórica do advérbio ontem, usada e registrada desde o século XIII, ainda viva regionalmente;
  • eu não vou conivir com isso“: o suposto verbo “conivir” foi o caso que mais me chamou a atenção, por ser a única das palavras aqui listadas que oficialmente não “existe” – isto é, não está nos dicionários. Ou melhor, está em um: o DicionárioInformalfeito com contribuições diretas da população. O interessante é notar que a lógica da deputada, e de todas as (aparentemente muitas) pessoas que usam a palavra, faz sentido: se existe o adjetivo “conivente“, o “lógico” seria existir um verbo do qual viesse a palavra. O raciocínio é perfeito – a língua portuguesa é que não o é; como toda língua natural e imperfeita, apenas o adjetivo do latim adaptou-se ao português; o verbo latino, do qual o adjetivo se originara, não entrou em nossa língua. Mas, a continuar o processo de sua “invenção” (ou “ressurreição” – ou, melhor ainda, “reencarnação”) forçada, é provável que num futuro tenhamos oficialmente um verbo para “ser conivente” na língua portuguesa. Há que esperar para ver.

“Acessar” existe em português desde antes de você nascer

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Pergunta:  Consideram certo o uso da palavra “acessar”, em lugar de “aceder”? Já rendeu polêmicas no Ciberdúvidas (aqui). Eu não diria ‘aceder a um sítio’, para não ser taxado de pedante, mas, como não gosto de “acessar”, digo “visitar uma página de internet”.

Resposta: Na nossa opinião, não existe nenhuma polêmica quanto a “acessar” – o Ciberdúvidas é que criou uma confusão ao dar uma resposta limitada ao português europeu contemporâneo a um falante de português brasileiro. Em português europeu, não há polêmica, porque lá todos usam “aceder”, sem nenhum desconforto. Em português brasileiro, tampouco há polêmica: usa-se “acessar”, com o sentido de “ter acesso a”, há no mínimo uns 70 anos – desde antes mesmo, portanto, da invenção da Internet.

A célebre décima edição (atualizada por dicionaristas portugueses) do célebre Dicionário de Moraes, publicada em 1948,  lá trazia: “Acessar: Ter acesso. O mesmo que aceder.

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O verbo acessar já estava registrado, ademais, na primeiríssima edição do Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e consta de todos os dicionários de português. Não só podem como deve, portanto, ignorar-se solenemente qualquer pessoa que diga que “acessar” não existe, que não é “bom português” ou que é um “neologismo” na língua portuguesa (a menos que a tal pessoa tenha mais de 70 anos).

Quitar um carro: uma coisa no Brasil, outra em Portugal

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“Quitar o carro”:  uma expressão corriqueira que põe em evidência o oceano que separa o português do Brasil do português lusitano.

No Brasil, quitar o carro significa pagar de uma vez todas as prestações remanescentes; em outras palavras, quitar um carro (ou um apartamento, etc.), no Brasil, significa pagá-lo.

Já em Portugal, como ensinam o Priberam e a Porto Editora, quitar significa “alterar ou melhorar as características originais (de um veículo ou aparelho)”.

A definição lusitana de quitar (um carro ou eletrônico) é, portanto, equivalente do neologismo brasileiro tunar, que os dicionários brasileiros definem como “praticar alterações mecânicas e/ou estéticas e/ou introduzir alterações e aprimoramentos, com o fito de personalizar ou melhorar o aspecto, desempenho, etc.” de um veículo ou eletrônico.

No Brasil, assim, são chamados carros tunados aqueles que sofrem intervenções mecânicas, eletrônicas ou estéticas (processo chamado, em inglês, tuning), como o rebaixamento da suspensão e a troca de peças e itens – o  que em Portugal qualificaria os chamados carros quitados.

E, do mesmo modo que, no Brasil, quitar só mantém seus sentidos originais (como o de livrar-se de uma dívida), em Portugal tunar só conserva o sentido original da palavra, também registrado em dicionários brasileiros: “andar à toa; vadiar”.

Não nos esqueçamos de gelinho, flau, laranjinha e chope

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Previamente, comentamos o fato de os dicionários brasileiros estranhamente não registrarem a palavra dindim – que é, muito bem, registrada pelo português Priberam -, nem no sentido de dinheiro (bufunfa, pratas, pilas, cascalho, etc.), nem no sentido desse refresco congelado aí da foto acima – que recordamos ser também chamado, em diferentes partes do Brasil, geladinho sacolé.

Leitores e leitoras escreveram-nos desde então para “reclamar” do fato de termo-nos “esquecido” de mencionar os nomes usados em suas respectivas regiões.

Como mostra a série de respostas à consulta, abaixo – e corrigidas as grafias -, há, além das já dicionarizadas geladinho (usado na Região Sul e em parte de SP), sacolé (no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), dindim (típico de Brasília e do Norte e Nordeste) e refresco (em Mato Grosso), as seguintes formas, também usadas de forma significativa em diferentes partes deste país-continente que é o Brasil:

  • gelinho (usado na cidade de São Paulo),
  • flau (nas regiões Nordeste e Norte),
  • laranjinha (em Goiás e interior de Minas Gerais),
  • chupe-chupe (Santa Catarina, Minas Gerais e litoral de São Paulo) e
  • chope (usado no Pará).

Confira o resultado da enquete:

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Caiçara, habitante do litoral: com “ç”, por vir do tupi

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No Brasil, 15 de março é o dia do caiçaraCaiçara designa o praiano habitante tradicional do litoral, sobretudo, de São Paulo, do Rio de Janeiro e do Paraná. Na definição de Bechara (em seu dicionário escolar), é o “matuto praiano, geralmente pescador“. Na definição de Houaiss, é o “habitante do litoral, que vive de modo rústico, especialmente da pesca ou de atividade próxima” ou, em sentido mais geral, “natural ou habitante de localidade litorânea; praiano“. Para o Aulete, é o “habitante do litoral fluminense e paulista que vive especialmente da pesca” – embora especificações geográficas como essa tendam a ser incompletas: a despeito do que diz o Aulete, o termo caiçara também é usado, por exemplo, pelos habitantes do litoral do Paraná.

A palavra caiçara, proveniente do tupi (língua em que originalmente significava o tipo de cerca ou paliçada construído por esses habitantes), escreve-se, naturalmente, com “ç”, e não caissara – pelo mesmo motivo pelo qual o palmito é juçara, e não jussara: por convenção ortográfica, é sempre o cê-cedilha, e nunca os dois “ss”, que se usa em palavras portuguesas de origem tupi. É o mesmo caso de paçoca, açaí, cupuaçu, Iguaçu…

“Me deixem escrever português como brasileiro”

Um texto para ser discutido. Professor da Universidade de Brasília, doutor em filologia e linguística, tradutor há décadas, ganhador do maior prêmio de literatura do Brasil, acaba de enviar o seguinte desabafo:

“Deixem eu ser brasileiro!
Sempre fico irritadíssimo quando recebo textos de revisores e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de “correções” que representam a obsessão paranoica de expurgar do texto escrito qualquer “marca de oralidade” (como se isso fosse possível), qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever. É sistemático, é premeditado. Todos os “num” e “numa” que uso são insuportavelmente esquartejados em “em um” e “em uma”, como se essas contrações, presentes na língua há mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com “nesse”, “nisso” ou com “no” e “na”: não seria lindo ver “em a”, “em o”, “em esse”? Não, seria um nojo! Por que essa perseguição estúpida ao “num”, “numa”? 
O mesmo acontece com o uso de “tinha” na formação do mais-que-perfeito composto: “tinha visto”, “tinha dito”, “tinha falado” são implacavelmente transfiguradas em “havia visto” etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo haver, no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais… Por que não fazem o mesmo com “tenho visto”, “tenho dito” e “tenho falado”? Já pensaram que vomitivo seria ler “hei visto”, “hei dito”, “hei falado”?
Por que não me deixam escrever “o fato do homem ser mortal” se até o conservador Evanildo Bechara já abonou e abençoou essa contração, visto que falar ou escrever de o é de uma artificialidade mais feia que novela de época?
E quando querem convencer o resto do universo de que existe alguma diferença entre este e esse? Uma diferença que a pesquisa linguística brasileira já mostrou que não existe há mais de um século! Ou que é preciso sempre distinguir onde e aonde (vão ler o Aurélio, por favor!).
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse fundamentalismo retrógrado consciente é a putrefacta, abjeta, torva e torpe colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo principal, é veementemente combatida, enxovalhada, humilhada, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos para nós. Isso já era afirmado em textos de João Ribeiro, em 1920! O combate é tão furibundo e insano que até mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como “não conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”, esses filhotes teratológicos da hipercorreção. Isso para não mencionar a pré-cambriana mesóclise, que muitos desses necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação pronominal, desprezando o fato de que se trata de um fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos brasileiros faz séculos (se é que jamais foi usada entre nós!).
Só me resta, então, apostrofar:
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, por favor! Consultem os seus calendários: estamos no século 21, e não nos brumosos anos de 1500! Consultem seus mapas: estamos no Brasil, e não em alguma esquina úmida e enevoada da (lindíssima) cidade do Porto! Vão estudar um pouco, um pouquinho só, larguem sua religião e pratiquem um pouco de ciência, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever “assisti o filme” ou “deixa eu ver”, que a forma “entre eu e você” não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos “eu custo a crer”, que óculos é substantivo singular, que meia é advérbio flexionado etc. etc. etc.! Esqueçam o que dizem esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz tapado e dos olhos com viseiras! Compulsem o Houaiss, o Aurélio, o novíssimo Aulete! Leiam Luís Fernando Veríssimo, Fernanda Torres e Antônio Prata, nossos melhores prosadores na nossa melhor língua! Ouçam os apelos, que ecoam no tempo, de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, rogam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e ideias! Deixem eu ser brasileiro!”
Opiniões? Comentários? O que pensam a respeito?

Jogo de bocha em cancha de carpê (carpê, plural carpês: sinônimo de carpete)

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]

Nem só do pimbolim é feita a cultura lúdico-desportiva do Sul do Brasil: a região é provavelmente pioneira no mundo na organização de campeonatos oficiais de bocha em cancha com carpê. Cidades paranaenses e catarinenses (como MatelândiaBalneário CamboriúGeneral Carneiro e  Marechal Candido Randon) têm campeonatos municipais e mesmo regionais de bocha em carpê.

A bocha, como bem explica o Michaelis, é um jogo “popular na Itália e nas zonas aonde afluiu a imigração italiana, jogado entre duas ou mais pessoas com nove bolas, uma pequena e oito maiores, de madeira dura. Joga-se na pista a pequena, que serve de alvo, e os jogadores tentam jogar, cada um, as bolas que lhe cabem o mais perto possível desse alvo”.

Já uma cancha, como explica o Aulete, é, no Brasil, um sinônimo de quadra (de esportes): o campo preparado especialmente para a prática de certos esportes, como futebol, tênis ou basquete.

E, por fim, carpê: essa é a forma que se usa nos estados brasileiros de Santa Catarina e Paraná para “carpete” (o revestimento atapetado que é afixado no chão, cobrindo inteiramente o piso de um cômodo).

(Em tempo, convém notar, como bem fazem Aurélio, Houaiss e o Priberam, que carpete, em Portugal, significa outra coisa: um tapete grande, porém solto – isto é, não afixado nem colado ao chão; diferente, portanto, do significado brasileiro de carpete – ou carpê.)

Não nos parece que carpê tenha sido um aportuguesamento feliz: em francês a palavra é “carpette”, com o “t” obrigatoriamente pronunciado; mas a palavra chegou ao Brasil pelo inglês carpet – também com o “t” pronunciado. Terá sido possível, porém, que, ao chegar ao Sul do Brasil, o vocábulo inglês tenha sido tomado como francês – e que um erro de hipercorreção tenha levado à pronúncia pretensiosamente afrancesada “carpê” (em suposta consonância com carnê, do francês carnet; guichê, do francês guichet, etc.).

Ainda que malformada, o fato é que a palavra carpê existe há décadas – e é a única forma usada em parte significativa do Brasil – conforme registros que fazemos a seguir. Não deixa de causar estranheza, portanto, que até hoje carpê não conste de nenhum dicionário.

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]

Em Um gato e um grito, de 1983, Luiz Carlos Pagnozzi fala dos mil passos que pisaram o carpê cor de creme de um corredor, e posteriormente revela já ter queimado o carpê da sala.

A catarinense Casa do Carpê tem êxito na revenda de carpês para todo o Brasil, já há três décadas.

Livro da Fundação Cultural de Curitiba, de 1996, registra um quiproquó referente a uma infestação de pulgas na Fundação e ao decorrente pedido de troca de carpê.

Em Florianópolis, é comum anunciar serviços de limpeza de veículos, carpê incluído.

Na obra póstuma de Franz Hertel, publicada em 1996, encontramos: “E estapearam-se as duas, o sangue manchando o carpê bege da sala.”

Em Enigma, de 2013, o autor também fala em sangue em um carpê.

Em suas Nervuras do Silêncio, Lindsey Rocha fala não saber se um certo recinto “tem lareira”; se terá “o fogo aceso”; “se tem carpê vermelho”.

Se os brasileirismos bochacancha entraram nos dicionários brasileiros e mesmo portugueses, não há, de fato, justificativa mais que o esquecimento para não ter ainda nenhum dicionário acolhido a variante carpê.

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]

“Caneta” no futebol: o que significa “dar uma caneta” ou “passar uma caneta”?

No jargão futebolístico brasileiro, dar uma caneta (ou passar uma caneta) é o ato de passar a bola entre as pernas de um adversário.

Ausente de dicionários portugueses, essa acepção do substantivo feminino “caneta” pode ser encontrada no Houaiss (“finta em que um jogador faz a bola passar entre as pernas de um adversário”) e no Aurélio (“ato de passar a bola entre as pernas do adversário”).