Depois de Gandulla, apanha-bolas virou gandula

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No Brasil, como sabe todo mundo desde criancinha, a pessoa que busca as bolas chutadas para fora do campo de futebol tem um nome específico: é o gandula. O que não muitos sabem é que essa é uma palavra relativamente recente, usada apenas no Brasil, e derivada de um nome próprio: veio do nome deste simpático rapaz aqui acima: o jogador argentino Bernardo Gandulla, famoso goleador da década de 1940 do Boca Juniors, de Buenos Aires.

O substantivo “gandula” não existe, porém, em espanhol – na Argentina, quem busca bolas é chamado “recogepelotas” – o que dá no mesmo que “apanha-bolas”, como até hoje são chamados os gandulas em Portugal. Foi durante uma breve passada do jogador pelo Brasil, contratado pelo Vasco da Gama, que o apelido foi criado: assim que Gandulla regressou ao Boca após poucos meses jogando no Brasil, os demais jogadores precisavam perguntar-se “quem ia dar uma de Gandulla” – isto é, quem iria buscar as bolas que saíssem do campo – atividade em que o argentino se “destacara”, sempre correndo para recolhê-las.

Quem fala espanhol pode estar se perguntando: se Gandulla era argentino, como que a pronúncia desse nome, com dois “ll”, deu “gandula”? De fato, dois “ll” em espanhol não têm o som do nosso “l”: se fosse palavra espanhola, gandulla seria pronunciado *gandulha, *ganduia, *gandudja ou *ganduja, a depender do sotaque – e viraria *ganduxa, na pronúncia típica de Buenos Aires. Mas o sobrenome de Gandulla era italiano (como tantos outros na Argentina), razão pela qual a pronúncia, em espanhol e em português, era mesmo a de “gandula“, que os brasileiros eternizamos, levando para os dicionários.

Pacenhos e pacenhas: habitantes de La Paz

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Por falar em Bolívia: vários dicionários registram a palavra pacenho, tradução do espanhol paceño. O que quer dizer pacenho? Como mostram o Aulete e o Priberam, é o adjetivo e o substantivo referentes à cidade de La Paz, na Bolívia:

(pa.ce.nho)
sm. 1. Indivíduo nascido ou que vive em La Paz, capital da Bolívia (América do Sul).
a. 2. De La Paz; típico dessa cidade ou de seu povo.
[F.: Do espn. paceño.]
Disponível em: http://www.aulete.com.br/pacenho

Há, porém, um pequeno erro na definição – percebem-no? Os pacenhos são, sim, os habitantes de La Paz – mas, ao contrário do senso comum, a cidade de La Paz não é, oficialmente, capital da Bolívia. De acordo com a Constituição boliviana, a capital do país é a cidade de Sucre – embora La Paz seja, de fato, a sede do governo.

Em português, o gentílico pacenho pode referir-se, ainda, a “qualquer localidade chamada Paço ou Paços, como Paços de Ferreira, cidade portuguesa” – como bem ensina o Priberam.

“aimarás”, em português = “aimaras”, em espanhol

Evo Morales

O grupo populacional indígena predominante na Bolívia, ao qual pertence o presidente do país, Evo Morales, chama-se “aimara” – apenas em espanhol. Em português, a denominação correta é aimará – palavra oxítona, com acento no último “a”.

aimará é também uma das línguas oficiais da Bolívia – juntamente com o espanhol e com outras 35 línguas indígenas (a Bolívia tem, atualmente, 37 línguas oficiais). Não é correto chamar ao aimará ou a qualquer uma das línguas indígenas “dialetos“.

Como já dito, os aimarás são em espanhol chamados aimaras – sem acento, por ser, em espanhol, palavra paroxítona. Apesar da grafia correta em espanhol moderno ser essa (aimaras no plural, aimara no singular: Los aimaras hablan la lengua aimara), é comum ver também, especialmente na Bolívia, as grafias aymara aymaras, com ípsilon no lugar do i.

O “y” como semivogal foi há muito tempo substituído, na ortografia oficial espanhola, pelo “i”, quando no interior de vocábulos (“rainha” hoje, escreve-se reina, embora historicamente se tenha grafado reyna), tendo-se mantido seu uso apenas no final de palavras (por exemplo “rei”, que continua a escrever-se, em espanhol, rey).

Muitos dos próprios aimarás, porém, preferem a grafia “antiga”, razão pela qual é comum encontrar, sobretudo na Bolívia, a forma aymara – embora essa grafia não seja reconhecida pela Real Academia Espanhola nem conste dos dicionários oficiais espanhóisque apenas registram aimara.

Como o português, a língua espanhola não usa iniciais maiúsculas para nomes de povos e etnias: Los españoles no conquistaron a los aimaras, ou Os espanhóis não conquistaram os aimarás – em oposição à forma em inglês, em que o uso da maiúscula, nesses casos, é obrigatório: The Spanish didn’t conquer the Aymaras.

É importante recordar a diferença da sílaba tônica entre a palavra espanhola (aimara) e sua tradução portuguesa (aimará) sobretudo pelo fato de que a palavra aimara também existe em português, porém com significado diferente: em português, aimara é o nome de uma árvore.

Jogo de bocha em cancha de carpê (carpê, plural carpês: sinônimo de carpete)

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]

Nem só do pimbolim é feita a cultura lúdico-desportiva do Sul do Brasil: a região é provavelmente pioneira no mundo na organização de campeonatos oficiais de bocha em cancha com carpê. Cidades paranaenses e catarinenses (como MatelândiaBalneário CamboriúGeneral Carneiro e  Marechal Candido Randon) têm campeonatos municipais e mesmo regionais de bocha em carpê.

A bocha, como bem explica o Michaelis, é um jogo “popular na Itália e nas zonas aonde afluiu a imigração italiana, jogado entre duas ou mais pessoas com nove bolas, uma pequena e oito maiores, de madeira dura. Joga-se na pista a pequena, que serve de alvo, e os jogadores tentam jogar, cada um, as bolas que lhe cabem o mais perto possível desse alvo”.

Já uma cancha, como explica o Aulete, é, no Brasil, um sinônimo de quadra (de esportes): o campo preparado especialmente para a prática de certos esportes, como futebol, tênis ou basquete.

E, por fim, carpê: essa é a forma que se usa nos estados brasileiros de Santa Catarina e Paraná para “carpete” (o revestimento atapetado que é afixado no chão, cobrindo inteiramente o piso de um cômodo).

(Em tempo, convém notar, como bem fazem Aurélio, Houaiss e o Priberam, que carpete, em Portugal, significa outra coisa: um tapete grande, porém solto – isto é, não afixado nem colado ao chão; diferente, portanto, do significado brasileiro de carpete – ou carpê.)

Não nos parece que carpê tenha sido um aportuguesamento feliz: em francês a palavra é “carpette”, com o “t” obrigatoriamente pronunciado; mas a palavra chegou ao Brasil pelo inglês carpet – também com o “t” pronunciado. Terá sido possível, porém, que, ao chegar ao Sul do Brasil, o vocábulo inglês tenha sido tomado como francês – e que um erro de hipercorreção tenha levado à pronúncia pretensiosamente afrancesada “carpê” (em suposta consonância com carnê, do francês carnet; guichê, do francês guichet, etc.).

Ainda que malformada, o fato é que a palavra carpê existe há décadas – e é a única forma usada em parte significativa do Brasil – conforme registros que fazemos a seguir. Não deixa de causar estranheza, portanto, que até hoje carpê não conste de nenhum dicionário.

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]

Em Um gato e um grito, de 1983, Luiz Carlos Pagnozzi fala dos mil passos que pisaram o carpê cor de creme de um corredor, e posteriormente revela já ter queimado o carpê da sala.

A catarinense Casa do Carpê tem êxito na revenda de carpês para todo o Brasil, já há três décadas.

Livro da Fundação Cultural de Curitiba, de 1996, registra um quiproquó referente a uma infestação de pulgas na Fundação e ao decorrente pedido de troca de carpê.

Em Florianópolis, é comum anunciar serviços de limpeza de veículos, carpê incluído.

Na obra póstuma de Franz Hertel, publicada em 1996, encontramos: “E estapearam-se as duas, o sangue manchando o carpê bege da sala.”

Em Enigma, de 2013, o autor também fala em sangue em um carpê.

Em suas Nervuras do Silêncio, Lindsey Rocha fala não saber se um certo recinto “tem lareira”; se terá “o fogo aceso”; “se tem carpê vermelho”.

Se os brasileirismos bochacancha entraram nos dicionários brasileiros e mesmo portugueses, não há, de fato, justificativa mais que o esquecimento para não ter ainda nenhum dicionário acolhido a variante carpê.

[Atualização: poucos dias  após a publicação desta argumentação do DicionarioeGramatica.com pedindo publicamente a dicionarização da variante sul-brasileira “carpê”, o sempre atento Priberam se tornou o primeiro dicionário a registrar a palavra CARPÊ:  Tapete fixado ou colado ao chão. = CARPETE]