Campus ou câmpus, com acento? O aportuguesamento já está no Vocabulário Oficial

Campus ou câmpus? Deve-se escrever “o campus”, sem acento, ou “o câmpus”, com acento? E o plural? “Os câmpus” ou “os campi”?

A palavra câmpus designa o terreno e os edifícios de uma universidade. Chegou ao português (e a diversas outras línguas) por meio do inglês, língua que modernamente se ressuscitou, no âmbito universitário das faculdades dos EUA, a palavra latina campus (no plural em latim, campi), que, originalmente, em latim, significava “planície” ou “terreno plano e aberto”.

Em português, a palavra câmpus deve ser acentuada, por se tratar de palavra paroxítona termina em “-us” – como bônus, lótus, ânus, vírus, antivírus, lúpus, Vênus, etc. No plural, não muda: um câmpus, dois câmpus.

A grafia aportuguesada câmpus está já incluída (desde 2012) no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, e é usada oficialmente pelo Ministério da Educação do Brasil, em substituição às formas inglesas (ou latinas) campuscampi. É também recomendada no dicionário de Paschoal Cegalla (autor da Novíssima Gramática da Língua Portuguesa) e por diversos outros gramáticos e dicionaristas, como Maria Helena de Moura Neves (da UNESP, autora da Gramática de Usos do Português), e Cláudio Moreno (autor do Guia Prático do Português Correto).

As formas aportuguesadas (o câmpus, os câmpus) são também recomendadas pelo Ministério da Educação brasileiro ; pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (ver aqui); pela Universidade Federal Tecnológica do Paraná, por Manual de Redação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e pelas agências de comunicação da Universidade de Brasília (UnB), da Universidade Estadual Paulista (UNESP), da Universidade de São Paulo (USP), entre outras.

Também a imprensa brasileira acolhe o uso das grafias aportuguesadas: o Manual de Redação do jornal O Estado de S. Paulo (ver aqui) recomenda explicitamente ouso da forma aportuguesada câmpus (tanto no plural quanto no singular); a palavra também é abonada por veículos como a Revista Veja, o Diário CatarinenseO Globo, Correio Braziliense, o Zero Hora, a Rede Globo, O Tempo, etc.

“Tendo aceito”, “tinha aceito”, “ter aceito”: formas corretas em português

É errado dizer “tinham aceito” (em vez de “tinham aceitado”), ou “tendo aceito”, “ter aceito”? Não, não há erro gramatical no uso do particípio irregular (“aceito”) no lugar do particípio regular (“aceitado”), mesmo com o verbo “ter”.

Ao contrário do que “ensinam”, equivocadamente, certos “resumões” de gramática feitos para concurseiros, não existe nenhuma regra gramatical que proíba o uso de “ter aceito”, expressão absolutamente correta gramaticalmente e abonada por gramáticos como Said Ali, Paschoal Cegalla e Rocha Lima, e fartamente usado por autores desde o Padre Antonio Vieira até os melhores de nossos dias.

Há anos ocorre com força um processo de padronização e sistematização de todo o conteúdo escolar, todo ele – da química e matemática até as línguas – destrinchado em “esquemas”, “regrinhas” e decoreba. O problema maior é que muitas dessas regrinhas e esquemas enfiados goela abaixo dos alunos, inventados por cursinhos ou por autores de livros de cursinhos, não têm qualquer amparo na realidade da matéria sobre a qual supostamente versam.

É o caso de várias “regras” gramaticais inventadas em anos recentes por autores de apostilas para concursos e vestibulares, que, em seu afã por encontrar “esquemas” simplificadores e fórmulas prontas, decretaram uma regra, inexistente na gramática normativa, segundo a qual os particípios regulares (ou longos), como “elegido”, “imprimido” e “aceitado”, seriam as únicas corretas em compostos com os verbos “ter” e “haver”, enquanto os particípios irregulares (ou curtos), como “eleito”, “impresso” e “aceito”, seriam os únicos permitidos em compostos com os verbos “ser” ou “estar”.

Segundo essa “regra”, as expressões “Tinham aceito” ou “Tendo aceito” estariam gramaticalmente erradas, devendo obrigatoriamente ser corrigidas, na linguagem formal, para “Tinham aceitado” ou “Tendo aceitado”. Criaram esses falsos gramáticos uma suposta regra com base no que não era sequer uma recomendação, mas uma constatação histórica feita por bons gramáticos da língua: que existem verbos com dois particípios, um regular e um irregular (como salvado e salvo, enxugado e enxuto) e que, de modo geral, os falantes da língua naturalmente tenderiam a preferir o uso da forma longa em compostos com os verbos “ter” ou “haver”, e o das formas curtas com “ser” e “estar”.

Em sua sempre atual Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, Paschoal Cegalla ensina: “As formas participais regulares usam-se, em regra, com os auxiliares terhaver, na voz ativa, e as irregulares com os auxiliares serestar, na voz passiva”. O brilhante gramático, porém,  emenda imediatamente: “Essa regra, no entanto, não é seguida rigorosamente, havendo numerosas formas irregulares que se usam tanto na voz ativa como na passiva, e algumas formas regulares também empregadas na voz passiva. Exemplos: Tinha aceitado ou aceito o convite”, e continua com dezenas de outros exemplos, antes de concluir que “As formas irregulares, sem dúvida por serem mais breves, gozam de franca preferência, na língua atual, e algumas tanto se impuseram que acabaram por suplantar as concorrentes. É o caso de ganho e pago, que vêm tornando obsoletos os particípios ganhado e pagado.”

Na Gramática Normativa da Língua Portuguesa, Rocha Lima assim ensina o tema: “O particípio regular de alguns destes verbos emprega-se junto do verbo ter; e o particípio irregular, não só ao lado de ter, mas também de ser. Exemplo: Tenho aceitado (ou aceito) trabalhos demais este ano.” Novamente, o verbo aceitar foi literalmente o primeiro mencionado por um dos maiores gramáticos da língua portuguesa ao discorrer sobre a possibilidade de uso seja da forma regular, seja da forma irregular, em locuções com o verbo ter.

Em sua célebre Gramática Histórica da Língua Portuguesa, Said Ali afirma que já no século XVI, “conjuntamente com o particípio aceitado, andava em uso o vocábulo aceito”, tendo “em português hodierno a forma aceito concorrência com aceitado“. Como exemplo do uso de “aceito” com o verbo “ter”, destaca partes dos Sermões do Padre Antonio Vieira, como: “A mesma lançada que recebeu depois de morto, já a tinha antevisto e aceito, estando vivo.

Em seu “Guia de Usos do Português – Confrontando Regras e Usos”, de 2003, Maria Helena de Moura Neves constata que, quatrocentos anos depois de Vieira, a alternância segue a mesma: “A forma de particípio aceitado é usada com os auxiliares ter haver. A forma aceito é mais usada com ser estar. Aceito também se usa, porém, com ter e haver.” E segue a autora com  exemplos: notícias recentes, em que figuram “haver aceito” e “tendo aceito”; e trecho do célebre discurso do então Presidente Juscelino Kubitschek no Palácio Itamaraty, acerca da Operação Pan-Americana:

É velha a lição da história. Se Troia – para usarmos do exemplo clássico – resistiu impávida a dez anos de cerco, verdade é que se entregou, num átimo, por ter aceito e recebido dentro de seus muros o cavalo e o que trazia em seu bojo. A imagem vetusta e tão usada vale, ainda hoje em dia, convidando à reflexão. Os sistemas defensivos mais perfeitos não conseguirão proteger fortalezas interiormente solapadas.

Campi ou câmpus? O aportuguesamento de campus é câmpus, com acento (o câmpus, os câmpus)

Deve-se escrever “o campus” ou “o câmpus”, com acento? O plural é “os câmpus” ou “os campi”?

A grafia aportuguesada câmpus, idêntica para o singular e o plural, está já incluída no Dicionário Houaiss, no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, e é recomendada oficialmente, desde 2011, pelo Ministério da Educação brasileira, em substituição às formas latinas campuscampi. O aportuguesamento câmpus, ademais, está legitimado pelo uso feito pelas principais universidades brasileiras, como a USP, a UnB, a UNESP, entre outras, bem como pela imprensa.

Campus” é uma palavra estrangeira – originalmente do latim, embora o uso que há décadas se faz em português, de “conjunto de prédios e terrenos de uma universidade”, provenha do inglês americano.

Em latim, o substantivo campus tinha o plural campi – da mesma forma que a palavra latina forum tinha o plural fora, e memorandum curriculum tinham como plurais memorandacurricula.

Na medida em que cresceu seu uso na língua portuguesa, porém, essas palavras acabaram aportuguesadas: forum virou fórum, com acento para indicar a pronúncia paroxítona de uma palavra terminada em “um”; ao passo que memorandum curriculum viraram memorando e currículo, com a terminação “-o”.

No momento em que se tornam palavras portuguesas, fórum, memorando e currículo, ganham também, naturalmente, plurais regulares: o fórum, os fóruns; o memorando, os memorandos; o currículo, os currículos.

O mesmo processo ocorre com campus: por ser palavra paroxítona terminada em “us”, a palavra exige acento em português: câmpus. No plural, desaparece o latinismo campi, em favor de um plural legitimamente português: o câmpus, os câmpus.

A grafia aportuguesada de câmpus está já incluída no Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa da Academia das Ciências de Lisboa, a homóloga lusitana da Academia Brasileira de Letras. No Brasil, a forma aportuguesada câmpus, com acento e sem variação no plural, é também recomendada oficialmente, desde 2011, pelo próprio Ministério da Educação, e está legitimado pelo uso feito pelas principais universidades brasileiras, como a USP (Universidade de São Paulo), a UnB (Universidade de Brasília, que “ensina: o correto é sem itálico e com circunflexo no a“), a UNESP, entre outras, bem como pela imprensa (Estado de S. PauloO Globo, Correio Braziliense, etc.).

A palavra constava, também, já da primeira edição do Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla, autor de uma das mais vendidas gramáticas da língua portuguesa (a Novíssima Gramática da Língua Portuguesa). Já em 1996, o Dicionário de Paschoal Cegalla trazia “câmpus: conjunto de terrenos e prédios de uma universidade. Plural: os câmpus.

Se se usar, em português, as formas latinas originais, campuscampi, a recomendação é grafá-las preferivelmente em itálico ou entre aspas, como deve ser feito com todo termo estrangeiro. O mais recomendado, porém, é mesmo usar as formas já plenamente aportuguesadas: o câmpus, os câmpus.