Concertina, um tipo de acordeão

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A concertina é um tipo de acordeão menor e com forma de hexágono ou octógono. É instrumento musical com papel relevante na tradição musical de vários países – Alemanha, Reino Unido, Portugal, partes do Brasil (sobretudo o estado do Espírito Santo), Argentina (onde deu origem ao bandoneón), etc.

Mas a linda concertina da foto acima não é uma concertina para os nossos principais dicionários: para os brasileiros Houaiss, Aulete e Michaelis e para os portugueses Priberam e Porto Editora, uma concertina tem de obrigatoriamente ter formato hexagonal. Errados, todos eles.

Quem se salva são o Aurélio (que nada fala do formato da concertina) e o Estraviz (“Instrumento musical de fole e palheta livre, de caixa poligonal, do grupo dos acordeões“).

Em espanhol, a Real Academia também acerta: “concertina: acordeón de forma hexagonal u octogonal“.

Apenas em português, concertinas são também as espirais do arame farpado, como as da foto a seguir:

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“Siderólito”: comparando dicionários

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Topei hoje com uma palavra que desconhecia: siderólito. Significa, simplesmente, um meteorito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. Isso o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Decidi então verificar como se saíam nossos grandes dicionários brasileiros e portugueses na definição dessa palavrinha não muito usual.

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. Ora, essa definição está obviamente errada. Da maneira que está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito tem cerca de 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não chega a ser errado, mas é impreciso.

O novíssimo Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss, como teremos oportunidade de ver em muitos outros exemplos. Nesse caso, não faz por menos: copiou a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Michaelis, cujo conteúdo ainda pode ser acessado neste endereço.

Como se pode ver, o Michaelis original definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas ao menos estava correta. Ou seja, jogaram fora algo certo para copiar o errado do Houaiss.

A Academia de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Não era o caso.

A portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.

“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

O significado de cricri (cri-cri): perfeccionista, minucioso, chato

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No Brasil se usa muito a expressão cricri para se referir a uma pessoa demasiadamente detalhista, excessivamente criteriosa, exigente demais.

Parece óbvia a origem do termo: uma pessoa cricri é aquela que, por detalhes, fica incomodando, perturbando – como um grilo a cricrilar. Sempre me pareceu óbvia essa origem, que é também a defendida no Dicionário Brasileiro de Insultos.hqdefault

Mas o Houaiss traz outra etimologia – que, de tão absurda, parece piada. De acordo com o nosso maior dicionário, uma pessoa cricri (que o Houaiss, e ninguém mais, escreve cri-cri) seria alguém “que só fala de coisas sem nenhum interesse” e a expressão viria do fato de algumas dessas pessoas só falarem de “crianças e criados“. “Cricri” (ou “cri-cri”), segundo essa teoria, seria uma redução de “crianças + criados”.

É, obviamente, uma viagem completa.

Voltando no tempo, descobre-se que a teoria de Houaiss, além de pouco crível, sequer é original. Na primeira edição do Aurélio, lia-se que uma pessoa cricri era uma pessoa maçante, e só; na segunda edição, Aurélio alterou o verbete para incluir a história do “crianças + criados“. O Houaiss copiou-a acriticamente. É difícil saber qual dos dois fez pior.

A palavra cricri, usada em abundância em notícias, tuítes, crônicas e romances, é bem definida pelo Dicionário Michaelis de Gírias: “pessoa exageradamente perfeccionista, detalhista ao extrema“. Uma variante da gíria, bem lembrada pelo Michaelis, é crica.

Eu “ponhei”? Existe o verbo ponhar?

Num voo para Santa Catarina, a aeromoça pergunta à senhora ao meu lado se deseja gelo em sua bebida, um suco de laranja. Ao que a senhora responde: “Se não estiver gelado, pode ponhar umas duas pedrinhas.”

A naturalidade com que a senhora usou aquele verbo que me soava tão alienígena me fez rapidamente tirar o Aurélio eletrônico do bolso… E, de fato, o bom e velho Aurélio nunca nos deixa na mão:

Ponhar: verbo, usado nas regiões Sul (que, na velha definição do Aurélio, inclui São Paulo) e Centro-Oeste do Brasil, popular: O mesmo que pôr.

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Jogando a palavra no Twitter, vê-se que o verbo ponhar é, sim, usado. E muito (cliquem aqui para ver).

É obviamente uma forma popular, e, como tal, de se evitar em contextos não íntimos, a menos que não se importe com o julgamento de terceiros. Há, é claro, os que não se importam, para quem “pus” é muito mais feio e ambíguo do que o simpático “ponhei”.

O interessante é notar que sequer tinham essas formas de ser necessariamente populares: em galego, língua da qual veio a nossa (sim, ao contrário do que ensinam, muito simplificadamente, nas escolas, o português não veio diretamente do latim; veio do galego antigo), existe hoje o verbo ponher (ver aqui), considerado sinônimo perfeito do verbo pôr.

O processo que levou os galegos modernos a “inventarem” o verbo “ponher” após a separação do português do galego deve ser o mesmo processo que fez que, no interior do Brasil, se criasse em português moderno o verbo “ponhar” – uma possível analogia com as formas conjugadas, como “eu ponho”. A única diferença é que, no galego, decidiu-se que a variante é legítima e correta; no português, decidiu-se que é uma forma popular e, portanto, evitável.

 

Entubar ou intubar: a diferença entre entubado e intubado

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Sou médica, e minha vida toda aprendi que os termos corretos eram intubação intubar. Surpreendi-me ao ver que o dicionário Houaiss traz “entubação” e “entubar” como formas preferíveis. Algo mudou na língua, ou o Houaiss errou?

Resposta: Nada mudou, e o Houaiss está errado. Etimologicamenteintubar significa colocar um tubo dentro de algo ou alguém; e entubar significa colocar algo ou alguém dentro de um tubo.

É esse o entendimento do Dicionário Aurélio, dos dicionários de  Portugal (ver aqui) e dos dicionários especializados em terminologia médica brasileiros e portugueses, que apenas registram as formas com “in”, intubação e intubar, para os termos médicos.

Etimologicamenteintubar significa colocar um tubo dentro de algo ou alguém; e entubar significa colocar algo ou alguém dentro de um tubo.

Por essa razão, o termo técnico formal para “inserir um tubo em alguém“, como em um procedimento médico, é intubar ou fazer uma intubação. O prefixo “in” indica a inserção de algo.

O procedimento oposto – a retirada do tubo – é uma extubação, com o prefixo “ex“, que é sempre o oposto do prefixo “in” (por exemplo: inspirar/expirarincluir/excluirimplodir/explodir, etc.).

É essa, aliás, a mesma forma que se usa em todas as línguas: em inglês, intubation; em francês,  intubation; em espanhol, intubación; em italiano, intubazione; em alemão, Intubation; em holandês, intubatie; em húngaro, intubálás; em ucraniano, Інтубація, etc.

entubar e entubação significam, etimologicamente, inserir em um tubo, ou entrar em um tubo (como a manobra no surfe que consiste em entubar ondas) ou dar feição de tubo a algo.

Modernamente, e como o uso é o senhor da língua, a maioria dos dicionários passou a aceitar também “entubação” e “entubar” como formas não técnicas sinônimas de “intubação” e “intubar”.

O que é absurdo – e um desserviço à língua, pela confusão causada – é o Dicionário Houaiss (2001) decretar, sozinho e sem explicação, que as formas com “e” são mais corretas ou preferíveis, para todos os casos. É o mesmo tipo de desserviço que faz o Houaiss, por exemplo, ao, em desrespeito a séculos de tradição lexicográfica portuguesa e brasileira, decretar (equivocadamente) que broxar e brochar são sinônimos perfeitos, ou ainda quando  traz tríplex, mas não a muito mais usada e inclusive recomendada pelas Academias Brasileira e portuguesa triplex, ou ao registrar apenas oximoro, mas não a correta oxímoro; ou ainda quando o Houaiss traz pachto, mas não a correta em português pastó; ou Malaui sem acento, mas não as corretas Malawi ou Maláui, para citar apenas alguns poucos dos muitos erros que, como todo grande dicionário, o Houaiss comete.

“No aguardo” está errado? Não acredite em tudo que lê na Internet…

“Ficar no aguardo” ou “estar no aguardo” de algo são expressões corretas, autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos. Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo o qual a expressão “no aguardo” não existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português há mais de um século e é corretíssima.

A Internet é terreno fértil para notícias falsas – de todos os tipos, inclusive linguísticas. Exemplo disso é a falsa afirmação, espalhada por sites na Internet e postagens em Facebook, de que a expressão “no aguardo” seria errada.

“No aguardo é expressão gramaticalmente correta, e a que registram os dicionários brasileiros desde o século passado. Vide, por exemplo, já na primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete ou o da Porto Editora) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas apenas como “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecias no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc. Em resumo, não sabem o que dizem. “No aguardo” é corretíssimo.