Entre dicionários e enciclopédias, um consenso: nazistas são de extrema direita

É um consenso entre historiadores, dicionários e enciclopédias da Alemanha, de Israel, da França, da Inglaterra, do Japão, dos Estados Unidos, do Brasil: o nazismo e o fascismo foram movimentos autoritários de extrema direita. Que nazistas são de extrema direita é o que diz o partido de Angela Merkel na Alemanha, que é de direita e conservador. É o que diz o atual governo do Reino Unido, que é de direita e conservador. É o que diz Israel, cujo governo também é de direita e conservador. E é o que dizem os próprios neonazistas, que se dizem, eles próprios, de direita.

Que o nazismo, o fascismo e os neonazismos e neofascismos são de extrema direita é o que dizem todas as grandes enciclopédias do mundo, desde a prestigiosa (e capitalista) Encyclopedia Britannica até a Wikipedia. É o que dizem também os dicionários – de inglês, alemão, francês e português -, vide, por exemplo, o Aurélio, cujo autor nunca foi em vida acusado de ser comunista:

Aurelio

Até a VEJA, principal revista de direita do Brasil, chama de “bizarrice” a tentativa de associar nazismo à esquerda – vide reportagem “Hitler era de direita (mas por que se importar com isso?)

No Brasil (e só no Brasil), porém, pessoas de direita recentemente começaram a defender que o nazismo não era de direita, mas de esquerda. Uma “prova” dessa descoberta, que só teria sido feita pelos iluminados brasileiros de 2017, apesar de contrariar todos os cientistas políticos do mundo, é que o partido nazista se chamava “nacional socialista”. Se tinha socialista no nome, era socialista, não? O argumento faz tanto sentido quanto dizer que a Coreia do Norte, hoje a ditadura mais fechada do mundo, é com certeza democrática, já que o nome oficial do país é República Democrática Popular da Coreia. Ou basta lembrar que, em 1980, no meio do regime militar brasileiro, o partido de sustentação da ditadura mudou de nome, de ARENA para “Partido Democrático Social”. Nomes obviamente não significam nada.

Dizer que nazismo era de esquerda porque, como o stalinismo, defendia um estado grande, restrição da liberdades, ditadura – é admitir que não entende o que significam direita e esquerda. O que lhes falta é aprender que o espectro político não inclui apenas um eixo direita-esquerda, mas também um eixo “autoritarismo x liberalismo” – e que, desde sempre, existem regimes autoritários de direita e de esquerda, assim como existem os liberalismos de direita e de esquerda.

Faz sentido que alguém de direita liberal repudie o nazismo – e isso porque o nazismo (como direita autoritária que é) era não apenas oposto à esquerda, mas também igualmente oposto à direita liberal:

Sans titre

Lendo as definições de “esquerda”, “direita”, “extrema esquerda” e “extrema direita” no dicionário Houaiss e nos melhores dicionários americanos e europeus, é possível identificar alguns elementos que distinguem cada um desses quadrantes políticos:

Direita liberal: foco na defesa da propriedade privada; o Estado deve ser mínimo, e não interferir na vida dos cidadãos; o capitalismo é o melhor sistema existente, e, sem interferência do Estado, funciona da melhor forma possível.

Esquerda liberal: foco na promoção da igualdade; o capitalismo é inerentemente falho e cria e mantém distorções, que devem ser corrigidas pelo Estado; a religião deve ser excluída dos processos políticos e de tomada de decisões; imigração não deve ser proibida.

Extrema direita: Estado deve ser grande; nacionalista; Estado deve proteger os valores da nação, inclusive a religião; imigração é ruim para a nação; capitalismo é o melhor sistema; socialistas e comunistas são inimigos.

Extrema esquerda: Estado deve ser grande; comunista; a promoção da justiça social é mais importante do que respeitar a propriedade privada; religião deve ser excluída dos processos políticos e de tomada de decisões.

Entendendo tudo isso, não há como não entender por que, no mundo todo, o nazismo era considerado um movimento antiliberal, antidemocrático – mas de extrema direita, e jamais de extrema esquerda. Embora compartilhe com a extrema esquerda a defesa de um Estado grande e totalitário, as ditaduras de extrema direita defendem sempre o nacionalismo e os valores da nação, inclusive sua história, religião e composição, ao meso tempo em que defendem o capitalismo; à diferença das ditaduras de esquerda, que repudiam o capitalismo, a propriedade privada e a religião.

Insistir que nazismo é de esquerda, quando os próprios partidos e governos de direita na Alemanha, em Israel, no Reino Unido, nos EUA – no mundo todo – e os próprios neonazistas dizem exatamente o oposto é admitir não entender que a categorização política é mais complexa do que simplesmente “esquerda” e “direita”, e que é possível nazistas serem de direita (autoritária) e mesmo assim defenderem o oposto do que defende a direita liberal.

“Siderólito”: comparando dicionários

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Topei hoje com uma palavra que desconhecia: siderólito. Significa, simplesmente, um meteorito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. Isso o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Decidi então verificar como se saíam nossos grandes dicionários brasileiros e portugueses na definição dessa palavrinha não muito usual.

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. Ora, essa definição está obviamente errada. Da maneira que está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito tem cerca de 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não chega a ser errado, mas é impreciso.

O novíssimo Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss, como teremos oportunidade de ver em muitos outros exemplos. Nesse caso, não faz por menos: copiou a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Michaelis, cujo conteúdo ainda pode ser acessado neste endereço.

Como se pode ver, o Michaelis original definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas ao menos estava correta. Ou seja, jogaram fora algo certo para copiar o errado do Houaiss.

A Academia de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Não era o caso.

A portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.

“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

“Guepardo” e “chita” são sinônimos

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O animal terrestre mais rápido do mundo é o guepardo ou é a chita? As duas respostas estão corretas: como todo bom dicionário de português indica, chitaguepardo são sinônimos; ambos designam, em português, o felino da espécie Acinonyx jubatus, nativo da África e de parte da Ásia, que em poucos segundos pode atingir uma velocidade de até 115 quilômetros por hora. O aportuguesamento guepardo vem do francês guépard, e chita do inglês cheetah.

Loló, droga caseira – cheirinho de quem?

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Bastou o programa Fantástico, da Rede Globo, fazer menção a uma droga na noite de ontem para a expressão usada ir parar nas redes sociais… e não de forma elogiosa. Brasileiros no Twitter ridicularizaram o programa pelo nome usado para designar o entorpecente caseiro conhecido como loló: “cheirinho da loló” foi o nome usado pela Globo – mas, como mostram as reações populares, não é, de maneira nenhuma, um nome que se use.

Culpa da Globo? Mais ou menos: culpa da Globo, isso sim, por confiar cegamente nos dicionários brasileiros famosos.

No Houaiss, de fato está lá – loló remete para “cheirinho da loló”, que seria, segundo o Houaiss: líquido de feitura doméstica, composto da mistura de substâncias voláteis e anestesiantes, as quais, quando aspiradas, causam sensação análoga à que é provocada pelo cloreto de etila do lança-perfume.

A informação, como o Houaiss admite, foi tirada da edição de 1988 do Aurélio. Passados quase trinta anos desde então, é meio que esperado que gírias como essa tenham mudado.

Nesses casos, a verdade é que o melhor é confiar não em dicionários como o Houaiss, mas em dicionários eletrônicos atualizados diariamente – como por exemplo o autointitulado Dicionário Informal – que traz, corretamente, “loló”, como “Droga ilícita que é cheirada”, ao passo que “cheirinho da loló” simplesmente não tem registro ali.

Como regra geral, fica a dica para a Rede Globo e demais veículos de mídia brasileiros: independentemente do que diga o Houaiss, se uma gíria não existe no Dicionário Informal, é porque a gíria não se usa – pelo menos há muitos anos.

Em tempo, como mostra o mesmo Dicionário Informal, loló tem ainda outro significado informal no Brasil – o de orifício anal.

Carteira: o feminino de carteiro

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Leitor (ou leitora) pergunta-nos, na publicação sobre “pilota, feminino de piloto“, qual o feminino de carteiro (o profissional que entrega cartas e demais encomendas remetidas por correio). O feminino de carteiro é carteira.

É um substantivo plenamente regular. Pode causar estranheza simplesmente porque até pouco tempo atrás eram raras as mulheres funcionários dos correios – como também eram raras as mulheres pilotas, soldadas ou ministras.

A maioria dos dicionários não traz o feminino “carteira” pela simples razão de que, em regra geral, os dicionários trazem apenas palavras no masculino singular, e indicam femininos apenas nos casos em que a forma não é regular – e carteira é um feminino absolutamente regular, padrão.

Mesmo assim, a indicação de “carteira” como o feminino decarteiro” consta do Dicionário Priberam (ver aqui), que, como não cansamos de repetir, pode não ser o dicionário mais completo, ou aquele com o maior número de palavras definidas (veja a lista dos maiores dicionários, por número de verbetes, aqui), mas vem ganhando espaço dia após dia, por ser o único dicionário de português, hoje, atualizado diariamente (e por gente de qualidade).

“Chicungunha” – do dicionarioegramatica para o Houaiss e a Porto Editora

No início de março, publicamos aqui no DicionarioeGramatica por que razões “chicungunha” era o perfeito aportuguesamento para o nome da doença chikungunya.

Passados quase dois meses, o aportuguesamento chicungunha, exatamente como recomendado por nós, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (ver aqui) e na recém-lançada edição brasileira atualizada do Dicionário Houaiss:

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