“Chicungunha” – do dicionarioegramatica para o Houaiss e a Porto Editora

No início de março, publicamos aqui no DicionarioeGramatica por que razões “chicungunha” era o perfeito aportuguesamento para o nome da doença chikungunya.

Passados quase dois meses, o aportuguesamento chicungunha, exatamente como recomendado por nós, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (ver aqui) e na recém-lançada edição brasileira atualizada do Dicionário Houaiss:

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Entubar ou intubar: a diferença entre entubado e intubado

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Sou médica, e minha vida toda aprendi que os termos corretos eram intubação intubar. Surpreendi-me ao ver que o dicionário Houaiss traz “entubação” e “entubar” como formas preferíveis. Algo mudou na língua, ou o Houaiss errou?

Resposta: Nada mudou, e o Houaiss está errado. Etimologicamenteintubar significa colocar um tubo dentro de algo ou alguém; e entubar significa colocar algo ou alguém dentro de um tubo.

É esse o entendimento do Dicionário Aurélio, dos dicionários de  Portugal (ver aqui) e dos dicionários especializados em terminologia médica brasileiros e portugueses, que apenas registram as formas com “in”, intubação e intubar, para os termos médicos.

Etimologicamenteintubar significa colocar um tubo dentro de algo ou alguém; e entubar significa colocar algo ou alguém dentro de um tubo.

Por essa razão, o termo técnico formal para “inserir um tubo em alguém“, como em um procedimento médico, é intubar ou fazer uma intubação. O prefixo “in” indica a inserção de algo.

O procedimento oposto – a retirada do tubo – é uma extubação, com o prefixo “ex“, que é sempre o oposto do prefixo “in” (por exemplo: inspirar/expirarincluir/excluirimplodir/explodir, etc.).

É essa, aliás, a mesma forma que se usa em todas as línguas: em inglês, intubation; em francês,  intubation; em espanhol, intubación; em italiano, intubazione; em alemão, Intubation; em holandês, intubatie; em húngaro, intubálás; em ucraniano, Інтубація, etc.

entubar e entubação significam, etimologicamente, inserir em um tubo, ou entrar em um tubo (como a manobra no surfe que consiste em entubar ondas) ou dar feição de tubo a algo.

Modernamente, e como o uso é o senhor da língua, a maioria dos dicionários passou a aceitar também “entubação” e “entubar” como formas não técnicas sinônimas de “intubação” e “intubar”.

O que é absurdo – e um desserviço à língua, pela confusão causada – é o Dicionário Houaiss (2001) decretar, sozinho e sem explicação, que as formas com “e” são mais corretas ou preferíveis, para todos os casos. É o mesmo tipo de desserviço que faz o Houaiss, por exemplo, ao, em desrespeito a séculos de tradição lexicográfica portuguesa e brasileira, decretar (equivocadamente) que broxar e brochar são sinônimos perfeitos, ou ainda quando  traz tríplex, mas não a muito mais usada e inclusive recomendada pelas Academias Brasileira e portuguesa triplex, ou ao registrar apenas oximoro, mas não a correta oxímoro; ou ainda quando o Houaiss traz pachto, mas não a correta em português pastó; ou Malaui sem acento, mas não as corretas Malawi ou Maláui, para citar apenas alguns poucos dos muitos erros que, como todo grande dicionário, o Houaiss comete.

Camafeu, camafeus

O romance A Moreninha, clássico da primeira fase do Romantismo brasileiro, de autoria de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882), traz um camafeu como objeto de primeira importância no enredo.

Lembro-me do quão frustrante foi, em tempos pré-Internet, ter de ler toda a história sem saber exatamente o que era um camafeu. Por melhor que fosse a definição do dicionário, nenhuma alcançava transmitir o que uma simples imagem faz.

Comparem-se, de um lado a definição do Houaiss (“pedra delgada, ger. semipreciosa, que tem duas camadas de tonalidades diferentes da mesma cor (ou de cores diferentes), numa das quais se esculpe uma figura em alto-relevo, deixando-se à mostra a camada inferior; us. como ornamento, esp. do vestuário“); e, de outro, uma simples foto de dois camafeus:

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Há casos em que, de fato, uma imagem serve muito mais que qualquer número de palavras. Possivelmente por concordar com isso, o Priberam tem começado a incluir fotos em algumas definições (embora por vezes de gosto duvidoso – vide a desnecesária ilustração de excremento).

De todos modos, e voltando aos camafeus: como uma rápida pesquisa no Google Imagens revela, há outro significado muito usado para camafeu – aparentemente o mais usado atualmente -, que ainda não consta em qualquer dicionário: o doce de chocolate e nozes, muito usado em festas de casamentos, cuja aparência, achou alguém, lembra um camafeu tradicional:

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“Parricídio” e “patricídio”

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Na publicação anterior sobre deicidas, fordicidas, gaticidas e afins, um leitor comentou ter sentido falta, na lista, de “parricida” – aquele que comete um parricídio: o ato de matar o próprio pai, ou a própria mãe, ou um avô ou avó, ou bisavô ou bisavó, ou qualquer outro ascendente.

Parricídio não é, assim, o mesmo que patricídio – ao contrário, portanto, do que afirma, erradamente, o Dicionário Houaiss. Patricida é aquele que mata o próprio pai, e ponto final – é, portanto, forma análoga de “matricida” (aquele que mata a própria mãe).

Dar um significado errado, como faz o Houaiss, é pior do que o que fazem o Dicionário Aurélio, o Aulete, o Michaelis, o da Porto Editora e o da Texto Editores, que sequer trazem as palavras patricídio patricida.

Na “prova” de hoje, o dicionário que se sai melhor é, sem dúvida, o Priberam (que além de tudo é grátis), que define, muito bem, patricida como quem mata o próprio pai, matricida como quem mata a própria mãe, e parricida como “Pessoa que mata seu pai ou sua mãe ou outro qualquer dos seus ascendentes.” ou ainda, por extensão, “Pessoa que atenta contra o rei ou contra a pátria“.

 

Qual o dicionário de português com mais palavras?

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Após termos feito, anteriormente, uma lista com os maiores dicionários da língua portuguesa para responder qual é o maior até hoje, diversos leitores enviaram-nos os números atualizados de alguns dos dicionários mencionados. A própria Priberam nos deu a honra de comentar na publicação, informando que o Dicionário Priberam já passa das 115 mil palavras. Obtivemos, ainda, os números exatos de verbetes dos dicionários de Laudelino Freire, da Academia Brasileira de Letras e daquele que já tínhamos identificado, corretamente, como o maior dicionário até hoje já publicado. Para que esteja sempre atualizada, a publicação em questão se tornou uma página fixa, acessível pelo menu aqui acima (ou simplesmente clique aqui).

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Barém, aportuguesamento de Bahrein

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Com o Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1 em evidência, proliferam na imprensa as menções a esse país árabe. A pronúncia padrão em português do nome Bahrein rima com tambémarmazém, Belém. Com base nisso, alguém poderia se perguntar: não se poderia, então, escrever, em português, Barém?

Certamente se pode – e, embora cause estranheza a muitos brasileiros, Barém é de fato a forma tradicional.

Como já comentamos em publicação anterior, na qual mostramos que o novo Acordo Ortográfico explicitamente traz “hem“, e não *hein nem *ein, como grafia oficial para a interjeição de espanto ou dúvida (“hem?”), é uma regra da língua portuguesa que o som final pronunciado, no Brasil, “êin” deve ser escrito “ém” (como em Belémtambém…).

Além disso, o nome Barém é tão tradicional em português que aparece mencionado, mais de uma vez, nessa grafia, n’Os Lusíadas de Camões, primeiro grande clássico da língua portuguesa:  “(…) Das perlas de Barém, tributo rico.”

Embora haja atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado “traduções” de nomes próprios, em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras kw e  e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados), o aportuguesamento tradicional Barém tem legitimidade, como mostram as fontes a seguir:

Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis:

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Dicionário Silveira Bueno (“O mais brasileiro dos dicionários de português”):IMG_0766.JPG

Vocabulário Onomástico da Academia Brasileira de Letras (1999):

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Por fim, recordemos Cândido de Figueiredo, que, na parte final de seu dicionário, faz um compilado de nomes próprios frequentemente escritos errados já no século passado:

“Barém, região da Arábia. Em livros e mapas nossos, [vê-se] Bahrem e até Bahrein !”IMG_0760

Em outras palavras, é inegável que a forma “internacional” Bahrein é a mais usada em português, hoje – mas a língua portuguesa, com tantos séculos de história, já há muito criara sua versão própria para o nome do país, Barém.

O que não faz sentido, por outro lado, é a divulgação de invencionices recentes, criadas na cabeça de alguns puristas equivocados que, querendo rejeitar a forma internacional Bahrein, mas sem conhecer a história da língua portuguesa e a tradição do uso de Barém, inventam aportuguesamentos próprios, como Bareine ou Barein. É por isso que se diz que de boas intenções o inferno está cheio: se cada falante que quiser “salvar” a língua da invasão de termos estrangeiros começar a inventar seus próprios aportuguesamentos sem levar em conta aqueles já existentes, em pouco tempo ninguém mais se entenderia.

Penal é estojo escolar… mas onde?

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Em partes do Brasil, os objetos acima – estojos escolares, em que se guardam canetas, lápis e outros itens do material escolar – são chamados penais. Um claro arcaísmo, derivado das antigas penas, que se usavam no lugar de canetas. Mas onde de fato se usa o termo?

O Houaiss registra: penal: substantivo masculino (MG, PR) Estojo escolar para guardar lápis, borracha, caneta etc“. Mas uma rápida pesquisa no Twitter (por exemplo por “meu penal”) mostra que todas as mais de cem últimas ocorrências da palavra penal com sentido de estojo escolar vieram do estado de Santa Catarina ou da cidade paranaense de Curitiba – única cidade não catarinense em que a palavra ocorreu.

Além de as populações do Paraná e de Minas Gerais serem bastante maiores que a de Santa Catarina, foi praticamente só em SC que se registra o uso contemporâneo da palavra, sem restrição a qualquer cidade – apenas nos últimos dias, por exemplo, há tuítes com a expressão “meu penal” vindos de FlorianópolisSiderópolis, CriciúmaRio do SulPorto União, Joinville, Içara, Blumenau e Jaraguá do Sul.

Em outras palavras: penal deve sim estar nos dicionários, com o sentido que aparece no Houaiss, mas o estado da federação em que mais se usa (SC) não aparece indicado no Houaiss.

Editado: após a publicação do texto acima, o Houaiss corrigiu a definição de “penal” na versão digital do dicionário, incluindo a indicação de “SC” (Santa Catarina) como local em que se usa o termo.