Qual o símbolo do litro: L ou l? Pode ser em itálico ou em letra cursiva?

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Qual o símbolo do litro: l ou L? Dois litros são 2 L ou 2 l ? Dez mililitros são 10 ml ou 10 mL?

Resposta: Os dois. Pelo sistema internacional de pesos e medidas, que regulamenta a escrita dos símbolos de unidades de pesos e medidas em todo o mundo, o litro é a única das principais unidades de pesos e medidas que tem dois símbolos aceitos: l ou L (isto é, uma letra ele minúscula ou maiúscula).

O sistema internacional de pesos e medidas é regulamentado pelas Conferências Gerais de Pesos e Medidas, que ocorrem periodicamente (uma ou duas a cada década) em Paris (onde o sistema métrico foi criado), com representantes de todo o mundo.

Em geral, cada unidade recebeu um único símbolo; normalmente, as unidades básicas têm como símbolo uma letra minúscula – o símbolo do metro, por exemplo, é um m minúsculo, e o do grama é um g minúsculo. Quando, no entanto, o nome da unidade vem do nome de uma pessoa, o símbolo escolhido para representá-los costuma ser uma letra maiúscula (ou começar por maiúscula): é por isso que o símbolo do joule, por exemplo, é um J (maiúsculo), e o do pascal é Pa.

Seguindo essa lógica, o símbolo do litro deveria ser simplesmente l. O problema é que, em muitas fontes e grafias, uma letra ele minúscula pode ser facilmente confundida com um i maiúsculo (I), ou mesmo com o número 1. Por essa razão, na Conferência Internacional de Pesos e Medidas de 1979 decidiu-se que o litro poderia ser representado das duas formas – isto é, que o litro tem dois símbolos aceitos, L ou l: é tão correto representar um litro por 1 l quanto por 1 L; dois litros por 2 L ou por 2 l, etc.

Isso também se aplica aos seus derivados: um mililitro, por exemplo, pode ser tanto representado por ml quanto por mL (o m, porém, deve ser sempre minúsculo).

Antes de a Conferência se pronunciar no sentido de autorizar o uso do L maiúsculo, chegou a ter certa popularidade a prática de representar o l do litro com uma representação de uma letra l cursiva – isto é, ℓ -, para evitar a confusão. Havia, assim, quem representasse dois litros por 2 ℓ, dez mililitros por 10 mℓ, etc. É importante frisar que esse uso foi vedado pela Conferência Geral, pois tornou-se desnecessário uma vez que a Conferência autorizou o uso do L maiúsculo com o mesmo fim.

Tanto faz, portanto, representar 10 litros por 10 L ou 10 l, vinte mililitros por 20 ml ou 20 mL – as duas formas são corretas, em todo o mundo.


Findo o texto, vale a pena usar o tema da publicação para analisar e comparar os dicionários de português existentes. O exemplo de hoje, aliás, reforçar o que sempre vemos aqui: que mesmo os melhores dicionários têm muitos e muitos erros, de modo que nenhum deles deve ser tomado como autoridade inconteste.

Dicionário Houaiss, embora seja o melhor dicionário de português hoje existente, traz dois erros importantes no caso em apreço: no verbete “litro”, diz que o seu símbolo é apenas l minúsculo; está, portanto, quase 40 anos atrasado, já que desde 1979 os símbolos aceitos são os dois, maiúsculo e minúsculo. Num erro ainda mais grave, o Houaiss apresenta o símbolo do litro como um l em itálico. Está errado – o símbolo do litro é l (ou L), mas não l. É uma regra do sistema internacional de pesos e medidas que os símbolos de unidades de pesos e medidas não se escrevem em itálico.

Por conta desse erro, aliás, nota-se que o Houaiss traz erros nos verbetes de todas as unidades de pesos e medidas, pois traz todos os símbolos em itálico (diz que o símbolo do metro é m, que o símbolo do grama é g, etc.). Todos errados; os símbolos não se escrevem em itálico. Fica aí o trabalho para a equipe do Houaiss, que terá de corrigir, um por um, todos os verbetes referentes a pesos e medidas.

O Dicionário Michaelis e o Dicionário Aulete já foram, cada qual em seu tempo, o mais completo dicionário da língua, quando eram publicados em papel. Muito tristemente, ambos foram já neste século XXI refeitos quase do zero em versão integralmente digital, em ambos os casos por equipes que não fizeram mais que copiar o exitoso Houaiss – repetindo, de forma resumida e às vezes parafreseada (outras vezes nem isso) quase tudo que vinha no Houaiss – inclusive todos os muitos erros do Houaiss. Como foi o caso também no verbete “litro”: tanto o Michaelis quanto o Aulete repetem os dois erros do Houaiss no caso, afirmando que o litro só teria um símbolo, o (exclusivamente minúsculo e em itálico). Afirmação duplamente errada.

O sempre respeitável Dicionário Aurélio se sai um pouquinho melhor: ensina que o símbolo do litro pode ser a letra ele maiúscula ou minúscula, o que está certo, mas erra ao dar ambos os exemplos em itálico. É uma regra internacional: os símbolos das unidades não se escrevem em itálico. Erro do Aurélio também, portanto.

Em Portugal, o Dicionário Priberam não chega a errar, porque se esqueceu de indicar, no verbete “litro”, qual o símbolo da unidade. Na Galiza, o Dicionário Estraviz incorre no mesmo lapso.

Ainda em Portugal, o Dicionário da Porto Editora é, assim, o único dos dicionários de português disponíveis na Internet que traz a informação correta: litro é “unidade de medida de volume ou capacidade, de símbolo l ou L”. Mais um ponto para a Porto Editora.

“Siderólito”: comparando dicionários

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Um siderólito é um meteorito feito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. É a composição que  o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Quem tentasse aprender o que é um siderólito com os grandes dicionários brasileiros e portugueses, porém, teria grande chances de ser levado a erro – quase todos os dicionários trazem explicações equivocadas ou incompletas. Comparem-se os grandes dicionários portugueses e brasileiros quanto ao verbete “siderólito”:

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. A definição está, portanto, errada. Da maneira como está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito é composto por aproximadamente 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que siderólito é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não está errado, mas é impreciso. Um meteorito quase inteiramente composto por minérios, com apenas uma pequena proporção de corpos não metálicos, não pode ser chamado siderólito, mas se encaixaria na definição do Aurélio.

A nova versão na Internet do Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss. No caso em apreço, não fez por menos: simplesmente repetiu a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Dicionário Michaelis em papel. Na versão em papel, que tanto sucesso fez no Brasil na década de 1990, o Michaelis definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas pelo menos não estava errada. Em outras palavras, a editora do dicionário simplesmente jogou fora (nesse caso e em muitos outros) uma definição correta para substituí-la por uma cópia de um erro do Houaiss.

O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Errado.

Finalmente, a portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.