Sediar ou sedear? A diferença entre sediado e sedeado

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O certo é sediar ou sedear? Diz-se sedeado ou sediado?

Até existe o verbo “sedear“, com “e”: é um verbo antigo cujo significado é limpar ou lustrar com seda, ou com escova de seda, etc.

O verbo que se usa com o sentido de receber um evento, hospedar, ser sede (séde) de algo é sediar, com “i”, como sabemos todos (e como ensinam todos os dicionários portugueses e brasileiros). Sabemos todos, exceto alguns dos criadores de caso de sempre (por exemplo, aqui e aqui), que dizem que, se vem da palavra sede, o verbo deveria ser sedear (e o adjetivo, sedeado), e não sediar/sediado.

A “lógica” é simplesmente furada: existe em português a produtivíssima terminação “-iar”, que faz que, de chefe, se tenha criado o verbo chefiar (não *chefear); de lume, o verbo alumiar; de abade, o verbo abadiar; de judeu, o verbo judiar; de apreçoapreciar; de presençapresenciar, etc.

E, para variar, além de precisarem corrigir todos os dicionários brasileiros, portugueses (e até galegos), os sabichões precisariam corrigir a história da língua portuguesa: ao menos desde a década de 1930 se encontram exemplos de sediarsediado em decretos e textos oficiais – como o decreto-lei brasileiro 457, de 1938, pelo qual o então presidente Getúlio Vargas autorizou a doação de fazendas, a fim de “nelas sediar o novo quartel das forças federais“, ou o Boletim de 1934 do Ministério da Agricultura, que se referia aos “encarregados de postos sediados em zonas de caça“.

“Através” só se pode usar em sentido literal? Mentira de Internet!

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As melhores gramáticas da língua portuguesa usam “através de” como expressão perfeitamente sinônima de “por meio de” (como fazem todos os bons autores portugueses e brasileiros). Recentemente, porém, charlatães linguísticos começaram a espalhar a falsa lenda de que “através” só se usa em sentido literal. Não caia na deles!

Como já falamos vários vezes, o que não falta pela Internet são os charlatães da língua, criadores de erros de português. Um desses falsos erros que se acha fácil pela Internet é o de que a palavra “através” não poderia ser usada em sentido figurado. Em vez de obter algo através de uma ação, dizem os charlatães, o certo seria dizer que se obteve algo “por meio de” uma ação – ou “por intermédio de“, “mediante“, etc., mas não “através”. Segundo a tal mentira, só se poderia usar “através” em sentido físico – o que faria da palavra a única na língua portuguesa a só poder ser usada em sentido literal.

É obviamente uma invencionice, um falso erro (inventado). Todos os melhores autores e os melhores gramáticos do Brasil e de Portugal usam “através de” com o sentido figurado de “por meio de“, e sempre o fizeram.

Aurélio e Houaiss (e todos os demais dicionários) são inequívocos: “através (de)” é um sinônimo perfeito de “por meio (de)”, “por intermédio (de)” – e dão exemplos: “educar através de exemplos”; “conseguiu o emprego através de artifícios”.

Os gramáticos de verdade (Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso Luft) não apenas nada dizem proibindo o uso da expressão, como a usam repetidamente ao longo de suas gramáticas, exatamente do modo que a tal lenda urbana diz ser errado. Como se vê na célebre Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (2015), imortal da Academia Brasileira de Letras:

Pág. 71: “Em português, como em muitas outras línguas, nota-se uma tendência para evitar o hiato, através da ditongação ou da crase.

Pág. 77: “O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior vivacidade através da aliteração, nos seguintes versos

Pág. 140: “surgem muitas dúvidas no uso do plural, além de alterações que se deram através da história da língua

Pág. 191: “O tipo “zero determinação” antes do substantivo seguido de “o mais” é menos enfático, e se valoriza através de uma inversão (o mais alto homem)”.

Pág. 457: “Grande é o número de radicais gregos que encontramos no vocabulário português. Muitos deles nos chegaram através do latim e são antiquíssimos.

Da mesma forma, na célebre Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra:

Pág. 18: “É só a partir do seculo IX que podemos atestar a sua existência através de palavras que se colhem em textos de latim bárbaro

Pág. 152: “No primeiro exemplo, o pronome está relacionado com o substantivo por meio da preposição ‘por’; no segundo, o substantivo relaciona-se com o adjetivo através da preposição ‘de’.”

Nem mesmo aquele tradicionalmente considerado o mais conservador gramático brasileiro do século passado, Napoleão Mendes de Almeida, condenava esse uso que algumas pessoas por ignorância pretendem proibir:

“Não se deve cair no exagero de julgar que a locução “através de” só é possível quando significa “de um lado para o outro”, “de lado a lado”. Não vemos erro em: “A palavra veio-nos através do francês”, como não vemos na passagem de Herculano: “Através desses lábios inocentes murmuram durante alguns instantes as orações submissas””  (Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de questões vernáculas, 1981, pág. 33)

Ou seja: ao encontrar textos ou sabichões que dizem ser errado o uso de “através” em sentido não literal, o melhor é desconfiar de todo o resto que venha da mesma fonte, pois são grandes as chances de estar diante de um dos muitos inventores de falsos erros de português – ou, pior, de um coitado que apenas reproduz acriticamente o que “aprendeu” de um desses charlatões.

Coringa ou curinga? O certo é curinga ou coringa?

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O certo é coringa ou curinga? A resposta certa é: tanto faz. “Coringa” e “curinga” são sinônimos perfeitos, de acordo com o dicionário Houaiss, com o dicionário Michaelis, com o dicionário Aulete, com o dicionário Priberam, o dicionário Estraviz, etc.

A dupla validade das grafia coringacuringa é antiga – já na décima edição do Dicionário de Moraes apareciam as duas formas – coringa com, entre outros sentidos, o de “carta do baralho, à qual a pessoa que a tem em mão pode dar o valor que deseja“; e curinga como “carta com valor especial em certos jogos“.

Uma pesquisa sobre a questão na Internet, porém, traz à tona dezenas de sabichões virtuais, segundo os quais a palavra só poderia ser escrita com “u”, e não com “o”, por vir de kuringa, que, segundo afirmam, significaria “matar” em quimbundo, língua africana. É simplesmente uma lenda urbana mais, um erro cometido (ou inventado) por alguém, que se espalhou e chegou inclusive a alguns dicionários. A palavra kuringa não existe em quimbundo, nenhuma palavra para “matar” nessa língua sequer se parece a kuringa, e a verdade é que, como em geral ocorre, nenhum linguista sabe com certeza de onde veio a nossa palavra coringa ou curinga.

É por isso que qualquer bom dicionário diz que as duas formas são corretas e sinônimas. Use aquela que que preferir. Nos quadrinhos e filmes do Batman, por exemplo, o vilão chama-se oficialmente Coringa, com “o” – forma que também prefiro, por permitir as duas pronúncias (diferentemente da grafia com “u”, que só admitiria em tese uma pronúncia, a grafia com “o” permite pronunciar “coringa” ou “curinga” – do mesmo modo que “mochila” pode ser corretamente pronunciada “muchila“, e “cozinha” pode ser pronunciada “cuzinha“, etc.).

Sim, existe o substantivo feminino somatória (assim como somatório)

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Todo dia aparece uma “mentira linguística” nova, um novo falso erro de português inventado por desocupados e disseminado pela Internet. Há por exemplo quem afirme que a palavra “somatória” não existe, e que somatório é a única forma correta. Outros dizem que somatória só existe como adjetivo, e não como substantivo. Mentira, mentira.

Não caiam em mentiras como essa. Somatório é, sim, forma corretíssima para se referir a uma soma, ou para denominar o operador matemático representado pela letra grega sigma; mas somatória é um substantivo igualmente correto e com o mesmo significado.

Para conferi-lo, bastaria pesquisar a palavra no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras, para ver que somatória ali está devidamente registrado como substantivo feminino.

Não bastasse o amplo uso real da palavra somatória por professores, matemáticos e pela população em geral, além de sua formação não violar nenhuma regra da língua portuguesa – e de a palavra somatória aparecer atestada em dicionários modernos como sinônima de somatório -, o fato é que a palavra é devidamente reconhecida e aceita pela ABL. O substantivo somatória existe e pode, sim, ser usado como sinônimo de somatório.

Evacuar lugares ou evacuar pessoas? Um falso erro de português

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Num vídeo, uma professora portuguesa ensina aos ouvintes que são “erradas” frases como “A população foi evacuada“; “Milhares de moradores foram evacuados“. Segundo ela, só se podem evacuar lugares, não pessoas.

Os estilos são os mesmos, só mudam os erros inventados: se, no Brasil, inventam que é erro o uso de “através” em sentido literal (que nenhum português jamais considerou erro), em Portugal uma dessas modernas lendas urbanas da gramática seria a de que o verbo evacuar só pode ter como complemento lugares, nunca pessoas. A semelhança com os falsos erros daqui? A ausência de qualquer justificativa ou embasamento para o tal “erro”.

Isso porque nenhum dicionário ou gramática corrobora essa teoria furada de que só se evacuam lugares, nunca pessoas. Pelo contrário: já em suas primeiras edições, o Dicionário de Moraes (o primeiro dicionário da língua portuguesa) trazia, nos exemplos do verbo “evacuar”, tanto “A polícia evacuou o teatro” quanto “Jesus evacuou o diabo“.

Dicionário Houaiss também traz exemplos das duas construções: “A polícia ordenou que evacuassem a penitenciária” e “As autoridades evacuaram a população“. Em 1950, na edição do Dicionário Aulete feita em Portugal pelo gramático Vasco Botelho do Amaral, vinha o exemplo: “evacuar tropastransferi-las de um para outro lugar“. No Michaelis, lê-se: “Os soldados evacuaram os moradores devido às ameaças de desabamento“.

E na portuguesíssima Porto Editora, veem-se lado a lado os exemplos evacuar os refugiados” e “evacuar a sala.

Em português, portanto, é possível evacuar lugares (esvaziá-los) ou evacuar pessoas (removê-las). Assim é a língua, há pelo menos alguns séculos.

Colocação pronominal: o pior erro é a hipercorreção

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Uma das maiores diferenças entre o português brasileiro falado e o português padrão escrito é a colocação dos pronomes átonos. A colocação pronominal padrão no Brasil, em todos os meios orais, é apenas uma: a próclise ao verbo principal (Ele me viuOs dois se amam; Ele quis me derrubarJá tinha te dito isso).

Já no padrão oral de Portugal (que ainda é, para os gramáticos conservadores brasileiros, o que se deve tomar como a normal culta a ser copiada), os pronomes átonos tendem à ênclise: Ele viu-me;  Os dois amam-se. A colocação do enclítico após o verbo, porém, não se dá sempre: há diversos elementos que, presentes numa frase, fazem que portugueses obrigatoriamente coloquem o pronome átono antes do verbo, exatamente como na colocação intuitiva de todo brasileiro.

Assim, em todas as seguintes frases (que apresentam elementos ou palavras que obrigam a próclise), portugueses, como brasileiros, sempre usarão a próclise:

O lugar onde se conheceram” (e não *conheceram-se);

Nunca me falou desse tema” (e não *Nunca falou-me);

O que se viu foi o contrário” (e não *O que viu-se);

Mas é em casos como esses que se veem com frequência erros grosseiros cometidos, na escrita, por brasileiros cultos – que, por terem internalizado a ideia de que “o bonito é colocar o pronome depois do verbo”, usam a ênclise em casos em que mesmo a colocação culta portuguesa obriga o uso da próclise. É dizer, querendo “fazer bonito”, acabam cometendo erros que não cometeriam se escrevessem exatamente como falam diariamente.

É esse tipo de erro, em que o falante erra por tentar “falar difícil”, ao tentar “corrigir” algo que estava correto, que se chama de hipercorreção – um dos piores tipos de erros existentes, pois são erros que violam ao mesmo tempo a gramática culta tradicionalista e a gramática natural espontânea dos falantes.

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“Risco de vida” ou “risco de morte”?

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Já falamos aqui sobre os falsos erros, ou erros inventados de português. E não são poucos esses erros inventados, porque não são poucos os inventores de falsos erros – que, por viverem de corrigir erros de português dos outros, acabam percebendo que é conveniente inventar regras que não existem, inventar falsos erros de português – pois, afinal, o seu prestígio (e, muitas vezes, a sua renda) vêm justamente da injustificada insegurança que têm muitos bons falantes cultos da língua, convencidos de que não dominam a própria língua por charlatães que vivem disso.

Uma dessas recentes invencionices que se tem, pouco a pouco, arraigado em usos cultos da língua é o estúpido mito de que “risco de vida” seria expressão incorreta e precisaria ser substituída por “risco de morte”. Segundo gente que só pode ser ignorante ou desonesta, a expressão “risco de vida” careceria de lógica.

A verdade é que “risco de vida” tem tanta lógica quanto “risco de morte”: em ambas existe uma silepse: a omissão de parte da frase. Em risco de vida, subentende-se risco de perder a vida. Mas há uma diferença entre as duas formas: “risco de vida” é forma tradicional em português, histórica; é, por exemplo, a única registrada no Dicionário Houaiss. Já “risco de morte” é um artificialismo sem tradição na língua, criada por gente insegura.

E, embora a grande mídia seja, em geral, agente propagador desse tipo de erros inventados, felizmente “até” a Revista Veja e o professor Pasquale concordam nessa: “risco de morte” é um modismo injustificado. A forma tradicional, e corretíssima, é mesmo “risco de vida“.