A origem da palavra “tiete” (e de “tietar”, e “tietagem”)

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Só no Brasil é que se usa o verbo “tietar” com o sentido de bajular um ídolo, aproximar-se de alguém de quem se é fã. O verbo vem da palavra “tiete”: um tiete ou uma tiete é um fã ou admirador muito devoto. Mas de onde veio o substantivo tiete?

A origem de uma palavra é o que se chama etimologia. Saber a etimologia exata de uma palavra é, em geral, tarefa ingrata: na maioria dos casos, a etimologia é incerta, e muitas origens que circulam pela Internet (e mesmo muitas que estão nos dicionários) são simplesmente erradas.

Quem recorrer, por exemplo, ao dicionário Houaiss para saber a origem de “tiete” lerá, na parte de etimologia, que a o termo é “atribuído ao hipocorístico Tiete (admiradora do cantor brasileiro Ney Matogrosso)“.

O problema? A informação é falsa. O próprio cantor Ney Matogrosso, ex-vocalista do grupo Secos & Molhados, participou, em 2010, de documentário sobre outro grupo musical da década de 1970, chamada Dzi Croquettes (seus integrantes aparecem na foto acima), e no próprio documentário se esclarece que o termo “tietes” foi criado e disseminado pela banda Dzi Croquettes, e não pelos Secos & Molhados ou para se referir especificamente a qualquer fã de Ney Matogrosso.

O problema torna-se ainda maior graças à confiança cega que a maioria das pessoas têm nos bons dicionários, como é o caso do Houaiss; a maioria dos brasileiros acha que um dicionário como o Houaiss ou o Aurélio não erra nunca – tendem a confiar cegamente em tudo que leem nele, e disseminam o que neles vem como se verdade fosse. Pela Internet, por exemplo, há dezenas de páginas que simplesmente repercutem a informação errada dada pelo Houaiss – de que “tiete” viria de uma fã de Ney Matogrosso – como se fosse verdade.

Como vemos sempre aqui na página, o Houaiss é um excelente dicionário – de longe o melhor dicionário de português existente hoje -, mas, apesar disso, tem erros – muitos erros, centenas de erros. Já vimos dezenas de erros do Houaiss aqui – vários e vários deles foram corrigidos pela própria equipe do Houaiss após termos tratado deles aqui, mas ainda assim, pelo próprio tamanho e pela natureza da obra, continua a haver e é provável que sempre haverá erros.

Não existe dicionário perfeito, sem erros – o importante, assim, é simplesmente não levar dicionário algum como uma espécie de “livro sagrado”, acima de falhas e erros.

O problema é ainda maior na medida em que os próprios responsáveis por outros dicionários sofrem desse mal de acreditar em tudo que vem no Houaiss – com grande frequência os responsáveis por dicionários menores tendem a simplesmente copiar tudo o que vem no Houaiss acriticamente. É o que em geral faz o dicionário Priberam, de Portugal, por exemplo – que diz que tietar vem do antropônimo (nome de pessoa) “Tiete”. O problema? Apesar de no Brasil haver gente com quase todo tipo de nome possível e imaginável, sequer há no Brasil pessoas chamadas “Tiete” (como se pode ver na página do IBGE). “Tiete” não é um antroponônimo.

Voltando à história da palavra “tiete”: segundo os próprios membros do Dzi Croquettes, a palavra era usada por uma amiga da banda, para se referir a uma conhecida chata, e com o tempo os músicas passaram a usá-la em fins da década de 1970 para se referir aos fãs mais chatos, até que passou a designar todos os fãs – possivelmente na esteira de vários outros termos para fãs terminados em “-ete” que já eram usados no Brasil desde anos antes, como “chacretes”:

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(É, aliás, um processo de processo de formação que até hoje dá frutos no Brasil: existem hoje luletes, neymarzetes, etc.)

Em 1979, a revista Istoé mencionava as chamadas “tietes” e o termo derivado, “tietagem, um termo ainda distante do novíssimo Aurélio, mas abertamente em voga na cidade do Rio de Janeiro”, mas é em 1981, na voz de Gilberto Gil, que todo o Brasil passará a conhecer a palavra “tiete” – Gil lançou naquele ano a canção “Tietagem”, que já se inicia “ensinando” o significado do novo vocábulo:

Você sabe o que é tiete?
Tiete é uma espécie de admirador
Atrás de um bocadinho só do seu amor
Afins de estar pertinho, afins do seu calor

Hoje eu sou o seu tiete
Às suas ordens, ao seu inteiro dispor
De imediato aonde você for eu vou
No ato, no ato
Pro mato, pro motel, de moto ou de metrô

Tititititi
Como é bom tietar
Seu amor inatingível
Tititititi 
E se você deixar
Eu farei todo o possível
Pra alcançar o nível do seu paladar

 

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

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O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto em Portugal quanto no Brasil, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.

 

Plural das palavras terminadas em “ão”: o espanhol ajuda

O plural de capitão é capitães, mas o de cristão é cristãos e o de avião é aviões. Ao contrário do que afirmam muitos professores, porém, não é uma completa falta de regras; há uma lógica que explica esses diferentes plurais, e há até uma regra que pode ser usada… por quem sabe espanhol.


As palavras que terminam em “ão” costumam causar dúvida no plural. Isso porque os vocábulos terminados em -ão podem ter plural com três terminações diferentes:

  • -ão pode virar -ães: cão, cães; pão, pães; capitão, capitães;
  • -ão pode virar -ões: ação, ações; coração, corações; razão, razões;
  • -ão pode virar -ãos: mão, mãos; irmão, irmãos; cidadão, cidadãos.

O motivo para essa aparente incoerência da língua é o fato de que a terminação “ão” é o resultado da padronização histórica de três terminações etimológicas distintas: -an, -on e -ano, que, na passagem do galego para o português moderno, deixaram de distinguir-se, transformando-se todas em “ão“.

Aí, ajuda o conhecimento etimológico – ou ainda, neste caso específico, também serve o conhecimento da língua espanhola. Isso porque o espanhol manteve as três terminações diferentes (-an, -on e -ano), e basta saber como uma palavra terminada em -ão é pronunciada em espanhol para saber qual será seu plural em português (-ães, -ões ou -ãos, respectivamente).

Em espanhol, por exemplo, cão é can; pão é pan; alemão é alemán; e capitão é capitán. Coerentemente, todas elas têm o mesmo plural em português: -ães (cães, pães, alemães, capitães).

Os terminados em -on, que formam o maior grupo (avión, canciónconstitución, corazónexportaciónmaldición, razón), são aqueles que, em português, têm o plural em -ões (ações, aviões, canções, corações, constituições, exportações, maldições, razões).

E aqueles que em espanhol terminam em -ano (mano, ciudadano, hermano, huérfano, grano, órgano) são os que, em português, têm plural em -ãos: mãos, cidadãos, irmãos, órfãos, grãos, órgãos.

Como se vê, nada na língua é por acaso.

Apenas uma ressalva: por ser o mais numeroso, o grupo do -on (que faz o plural em -ões) acabou “contaminando” algumas palavras dos outros dois grupos, que passaram a admitir, além do plural etimológico, também a forma em -ões, que de tão usada acabou por se tornar aceita e, com o tempo, até mesmo a mais usada.

É por isso que guardião, por exemplo (em espanhol guardián) admite, além do plural etimológico guardiães, também o plural guardiões.

É também o caso de verão, cujo plural, pela regra acima exposta (em espanhol diz-se verano), só poderia ser verãos – e de fato verãos é o plural histórico e que, embora hoje até cause estranheza (pelo fato de a forma “verões” ser a mais usada já há tempos), continua a ser também correto, como se pode ver em qualquer bom dicionário.

Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

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Oficialmente, os jogos se chamam “Jogos Paralímpicos“. Mas a Folha de S.Paulo diz que vai insistir em “paraolímpico”, por considerar essa forma mais correta. Se a ideia é “corrigir” nomes próprios, a Folha deveria passar a grafar “Têmer” – ou poderia começar corrigindo o erro de pontuação no nome oficial do próprio jornal.

E mesmo que a ideia fosse “corrigir” nomes próprios, a “lógica” linguística da Folha está errada: paralímpicos” não surgiu do prefixo latino “para-” + “olímpico“, como chutam, sem verificar a etimologia da palavra. O nome na verdade veio da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, quando se criam palavras por esse processo de amálgama (como portunhol, estagflação ou informática), a regra é justamente que a segunda palavra unida perca seu início.

Por fim, o professor Pasquale argumenta (como se isso argumento fosse) que o Dicionário Houaiss não traz as grafias paralímpico paralimpíada. Alguém precisa urgentemente dar um Houaiss atualizado para o professor:

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Em artigo hoje, a Folha de S.Paulo (a mesma que ainda escreve tríplex Cingapura) tenta justificar por que é dos únicos jornais que insistem nas grafias “paraolimpíadas”/ “paraolímpicos”, com “o“, mesmo após a padronização internacional das formas sem “o” (paralympics em inglês, paralimpíadas em espanhol, jeux paralympiques em francês, jogos paralímpicos nos demais países lusófonos, etc.). Primeiramente, o Pasquale tenta usar um argumento de autoridade: diz que “os cânones da língua” recomendam a forma paraolimpíada. Mentira.

É mentira rasteira, pois de difícil verificação – afinal, quem seriam os tais cânones da língua? -, mas mentira completa: nenhum daqueles que, sob qualquer ponto de vista, são considerados os “cânones” da língua jamais abordaram a questão das palavras paralimpíadas e paraolimpíadas. E nem poderiam: até poucos anos atrás, nem umas nem outras – nem as formas com “o”, nem sem “o” – existiam em nenhum dicionário de português.

Ao invocar os “cânones” da língua, o Pasquale faz supor que a forma “paraolímpicos” remontaria a Camões – mas a verdade é que nenhuma gramática jamais tratou desses neologismos. Nenhuma boa gramática do século passado ou deste – de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima a Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida ou Celso Luft – jamais defendeu uma forma ou outra. Nossos dois maiores dicionaristas, Aurélio e Houaiss, morreram sem que nenhuma dessas palavras (nem paralímpico, nem paraolímpico) ainda tivessem estreado em qualquer dicionário da língua portuguesa. A primeira aparição de paraolímpico em dicionários de português deu-se já neste século, em 2001. E a primeira aparição de paralímpico em dicionários foi em 2009, segundo o Houaiss.

Erra também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Quem afirma isso parece desconhecer os outros processos existentes de criação de palavras em português – como o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, se une o início de uma palavra ao fim de outra.

E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

Tudo isso posto, o fato de se tratar de nome próprio deveria ser suficiente para a Folha entender por que ficou praticamente sozinha nessa posição tão boba: é como se o jornal passasse a escrever Têmer, com acento, para “corrigir” a grafia do nome do novo mandatário brasileiro. Por coerência, deveriam corrigir também os nomes de todos os jogadores de futebol; e mesmo siglas que não se pronunciam como se escrevem, como “Mercosul”.

Irônico é que a correção do nome próprio dos jogos, uma marca registrada, venha justamente de um jornal cujo nome oficial – “Folha de S.Paulo” – atenta contra regras do bom português ao “engolir” o espaço que seria obrigatório entre “S.” e “Paulo“.

Por fim, se a argumentação de alguém para definir se uma palavra existe ou não na língua se resume à presença ou não da palavra em dicionários, esse alguém deveria pelo menos adquirir dicionários atualizados nesta última década – pois fica feio rematar um artigo com a afirmação de que o Dicionário Houaiss sequer aceitaria as grafias paralimpíada e paralímpico, quando, na verdade:

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Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.

A origem da palavra “samba”

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Uma leitora pergunta-nos quando surgiu, em português, a palavra samba.

O mais antigo registro escrito de “samba” em português data de 1837 – décadas antes de o ritmo vir a ser conhecido no Sudeste ou no Sul do Brasil. Na edição de 22 de novembro de 1837 do jornal Carapuceiro, da cidade do Recife,  o padre Lopes Gama, o padre e editor do jornal afirma, acerca das jovens do Recife, que:

a mor parte das nossas Matutinhas tem gostos análogos aos usos e costumes do campo. Esta inclina-se a Sr. Janjão da pinguela, porque é insigne amansador de potros; aquela tem cativo o coração a Sr. Quinquim do riacho, porque este zangarreia em uma viola o samba, o coco e o minuete rasteiro.

Na edição de 12 de novembro de 1842 do mesmo jornal, novamente se encontra a palavra, em versos ali publicados:

Aqui pelo nosso mato?
Qu’estava então mui tatamba?
Não se sabia outra coisa?
Senão a dança do samba

A origem da palavra não é certa. Há especulação de que seja uma adaptação da palavra africana “semba“, de origem bantu, que teria o sentido de “umbigada” (encontrão do umbigo de uma pessoa com o umbigo de outra, no que seria um passo típico de danças afro-brasileiras).

O significado de gitana (e gitano)

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Várias perguntas têm-nos chegado sobre o significado do termo gitana. Gitana significa cigana em espanhol; gitanos são ciganos. Também em português gitano é uma antiga palavra para cigano.

Gitana nada mais é que isso: um sinônimo (hoje pouco usado em português) para cigana. Por serem ainda as palavras em espanhol para cigano e cigano, gitanogitana são hoje usadas em português sobretudo em referência a ciganos de origem espanhola.

A palavra “gitano” vem de “egitano” – antigo sinônimo de “egípcio”, porque, segundo a crença, os primeiros ciganos na Europa seriam originários do Egito. Em inglês, a tradução para cigana ou cigano é gypsy, palavra que tem a mesma origem (de Egypt, Egito).

Já a forma que prevaleceu em português, cigano(s), vem, segundo o Dicionário Houaiss, do grego athígganos – “intocáveis”.

Outra palavra em português que soa parecido com “gitana” é xitana: no português de Moçambique, significa fábula ou lenda.