Picado por uma cobra ou mordido? O certo é picada de cobra ou mordida de cobra?

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A Internet é mesmo terreno fértil para os falso “corretores” da língua portuguesa. Há quem tenha tentado, por exemplo, “corrigir” reportagem sobre uma “picada de cobra”, dizendo que cobra não pica, mas morde.

É errado falar em picada de cobra? Não, não é – basta abrir um dicionário (como o Aurélio, o Houaiss, etc.) para ver que, em português, a mordida de uma cobra é chamada de picada:

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Portanto, pode-se dizer que uma cobra pica ou morde. Picar é dar uma picada, e picada, em português, significa, entre outros, mordida de inseto ou de cobra.

 

Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário?

Houaiss

Octagésimo ou octogésimo? Octagenário ou octogenário? Um tempo atrás, publicamos aqui na página texto sobre como, apesar de a maioria das pessoas espontaneamente dizer “octagenário” ou “octagésimo”, com “a” (“octa-“), os dicionários apenas registravam “octogenário” e “octogésimo”, com “o” (“octo-“).

O que isso significa? Para a maioria dos falantes cultos, a conclusão (errada) a tirar disso seria que, se não vêm nos dicionários, as palavras “octagenário” e “octagésimo” não existem; e que, portanto, quem as usa comete um erro.

Isso porque a maioria dos falantes atribui aos dicionários atributos que eles não têm, nem dizer ter: o de conter todas as palavras da língua, e o de serem verdade absoluta, sem erros.

É erro supor que, se uma palavra não vem nos grandes dicionários, ela não existe ou não pode ser usada. O próprio Aurélio, na introdução de sua obra, afirma que, mesmo o enorme “Aurelião” é, em termos de abrangência, uma obra inframédia – isto é, que contém menos da metade das palavras em uso na língua. Dicionário nenhum traz, nem pretende trazer, todas as palavras de uma língua.

A equipe do Houaiss, por outro lado, admite sem receio que nem tudo que vem em seu dicionário está correto – as pessoas tendem a achar que, se está assim no dicionário, é porque é assim, mas, como vemos com frequência aqui na página, mesmo após 17 anos do lançamento do Grande Dicionário do Houaiss, ainda há nele um número incontável de erros e imprecisões – o que importa não é encontrar um dicionário sem erros (o que nunca existiu nem existirá), mas que a equipe de editores do Houaiss se mantém até hoje em trabalho diário de correção e aperfeiçoamento do material.

Foi precisamente o que fez o editor do Houaiss, por exemplo, quando o autor desta página lhe apontou, que não fazia sentido os dicionários modernos não trazerem as palavras octagenáriooctagésimo, uma vez que ambas tinham todo o necessário para vir num dicionário: estavam formadas corretamente, segundo os princípios da formação de palavras do português; e tinham amplo uso, inclusive entre falantes cultos, e em produção escrita.

As palavra estão bem formadas porque, desde os gregos e romanos, havia alternância entre os prefixos octa- e octo- para se referir ao número oito, e essa alternância se manteve em português: um exemplo disso é que, enquanto um animal com oito patas é chamado octópode, quem ganha oito vezes o mesmo campeonato é chamado octacampeão. Muitas vezes, inclusive, as duas formas se alternam: uma figura geométrica de oito lados, por exemplo, pode ser chamada, em português, octógono ou octágono.

Não apenas existe o prefixo “octa-” ao lado de “octo-“, mas a palavra octágono tem amplo uso, atual e há séculos, em português. Bastou-me juntar um pouco de material a respeito, mostrando que as palavras eram usadas por bons autores hoje e há séculos, e já tinham mesmo figurado em dicionários séculos atrás, para que (como se vê na imagens acima e abaixo, extraídas hoje da versão digital do dicionário), o Houaiss tenha decidido que era correto incluir as palavras “octagenário” e “octagésimo” como sinônimas de “octogenário” e “octogésimo” – mostrando inclusive que as formas com “a” são usadas desde antes de 1720:

Houaiss

O que isso tudo significa? Em primeiro lugar, que as palavras octagenáriooctagésimo, que muitos palpiteiros da língua diziam até hoje serem incorretas apenas por não virem em dicionários, são corretas.

Em segundo lugar, o exemplo de hoje serve como lembrete de duas importantes lições da língua: que todos os dicionários têm erros, lacunas e omissões; e que o fato de uma palavra não vir nos dicionários não significa que ela não exista, não seja correta ou não possa ser usada – pelo contrário, os dicionários são os primeiros a admitir que nunca conseguiriam abarcar todas as palavras corretas da língua, e que nem é esse o seu propósito.

Usar ou não usar vírgula antes de “etc.”? A tradição e a pronúncia mandam usar

etc

Já escrevemos anteriormente sobre a palavra etcétera, aportuguesamento da expressão latina et caetera, cujo significado literal em latim é o de “e outras coisas” (et = e; caetera, que posteriormente evoluiu a cetera = outras coisas).

Há três questões sobre pontuação que podem surgir em relação ao uso da forma abreviada “etc.”:

“Etc.” sempre leva ponto final: o termo “etc.” é abreviação de “etcétera” ou “et caetera“; como toda abreviação, portanto, deve sempre levar um ponto – mesmo antes de vírgula, como se vê no segundo exemplo da imagem acima, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao terminar uma frase, basta um único ponto, que já serve tanto para marcar a abreviação quanto para concluir a frase.

Não se usa “e” antes de “etc.”: na fala, não se diz “e etcétera“, razão pela qual naturalmente tampouco se escreve “e” antes de “etc.” – nenhum mistério até aqui.

Uso da vírgula antes de “etc.”: a principal dúvida surgida recentemente com relação ao uso de “etc.” diz respeito ao uso, ou não, de vírgula antes de “etc.”. A dúvida, assim, é se se deve escrever:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas, etc.

Ou:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas etc.

É possível aceitar que as duas formas são corretas, que nenhum dos dois usos constitui um erro de português – mas apenas uma das duas formas corresponde efetivamente à pronúncia e ao uso tradicional em português.

Basta reler a frase de exemplo acima, sobre frutas, para ver que apenas uma das duas corresponde à boa pronúncia que se ouvirá de um falante de português: todo falante normalmente dirá “peras, maçãs, uvas, etcétera” – com uma audível pausa entre “uvas” e “etcétera”, equivalente às pausas existentes entre “peras” e “maçãs” e entre “maçãs” e “uvas”. Essa pausa, as regras de pontuação da língua portuguesa ensinam, é marcada por uma vírgula.

E é exatamente assim que sempre se escreveu em português. Basta abrir qualquer livro de Machado de Assis, ou de José de Alencar, ou de Joaquim Manuel de Macedo, ou de Guimarães Rosa, e se verá que esses grandes autores brasileiros sempre usaram, muito, “etc.” – sempre com vírgula antes.

E bastaria igualmente abrir as obras dos grandes autores portugueses – Eça de Queiroz, Garrett, o padre Amaro – para verificar que também os clássicos portugueses sempre usaram uma vírgula antes de “etc.”:

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Para ir além: basta também abrir as melhores gramáticas da língua portuguesa, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra ou a de Bechara, para ver que a abreviação “etc.” vem, nelas, sempre precedida de vírgula:

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Para finalizar, basta recordar que existe um instrumento legal que regulamenta oficialmente a ortografia da língua portuguesa: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E, como se pode ver da leitura do seu texto, o Acordo Ortográfico – assim como os acordos anteriores, por ele substituídos – sempre traz uma vírgula antes de “etc.”.

Por tudo isso, não resta dúvida de que a tradição, em português, sempre foi a de usar vírgula antes de “etc.” – o que faz perfeito sentido, pois reflete perfeitamente a pronúncia natural. Causa estranheza, a qualquer falante português ou brasileiro, omitir na fala a necessária pausa antes de “etcétera”.

Se o uso da vírgula antes de “etc.” sempre foi consensual, de onde veio, então, o modismo recente de alguns de omitir essa vírgula? Por que surgiram, recentemente, defensores de escrever “maçãs, uvas etc.” assim, sem vírgula?

São, na maioria dos casos, vítimas de alguns dos já conhecidos charlatães linguísticos – aqueles que tentam “corrigir”, à força, todo e qualquer aspecto da língua que não lhes parece suficientemente “lógico”.

Trata-se do mesmo tipo de gente, por exemplo, que defende que se diga “risco de morte”, invencionice dos tempos da Internet, porque a expressão usada há séculos em português, “risco de vida”, não lhes parecia suficientemente “lógica”.

São os mesmos que também têm ajudado a proliferar traduções literais do inglês como “Não cometi qualquer erro” ou “Não ignorei qualquer instrução“, em vez de usarem as corretíssimas construções “Não cometi nenhum erro” e “Não ignorei nenhuma instrução”, com as duplas negativas que são características do português; isso porque, na compreensão limitada desses “pensadores” modernos, “duas negativas resultam num positivo“. Talvez seja assim – em matemática, e até na língua inglesa, mas em português, como nas demais línguas neolatinas, a tradição de séculos é a de que duas palavras negativas, ou até três ou mais, apenas reforçam uma negação.

Esses “pensadores” modernos ignoram, portanto, séculos de história da língua portuguesa, e todo o legado dos clássicos portugueses e brasileiros, e preferem seguir aparentes regrinhas básicas de lógica. São esses mesmos “pensadores”, enfim, que um dia perceberam, extasiados, que, se “et caetera” em latim significa “e outras coisas”, a palavra “etcétera” conteria intrinsecamente um “e”, e como normalmente não se usa vírgula antes de “e” em português, não se deveria usar vírgula antes de “etc.”.

Sentindo-se descobridores da pólvora, passaram a defender a “correção” da língua com base na sua lógica – em geral, inclusive, com sentimento de superioridade sobre todos os pobres mortais que, “ignorantes”, continuassem a usar vírgula antes de “etc.”.

Como já vimos em outros tantos textos por aqui, o problema desses racionalistas é achar que a língua é um probleminha básico de lógica. Não, senhores, a língua é o que é: o resultado de uma evolução natural e não controlada ao longo de séculos, que tem mecanismos de funcionamento interno precisos, mas que não necessariamente coincidem com o que parece mais lógico a quem tentar analisá-la com métodos aristotélicos.

Se a língua fosse perfeitamente lógica, seria errado dizer “Não veio ninguém” – mas a frase é absolutamente correta em português, e se alguém disser que essa frase significa o mesmo que “Veio alguém“, errado claramente estará o ouvinte, que será alguém que ignora o funcionamento da língua.

Do mesmo modo, se a língua fosse lógica – e ainda levasse em conta o latim -, “suicidar-se” seria uma redundância terrível, já que “sui“, em latim, já significa literalmente o mesmo que “se”. A língua, porém, não está nem aí para a lógica simplista e para eventuais redundâncias oriundas do latim, de modo que, se alguém, tentando “consertar” a língua, disser “Ele  suicidou“, estará cometendo um erro de português: a forma correta, em português, exige o “se” (o certo será “Ele suicidou-se”, em Portugal,  e “Ele se suicidou”, no Brasil).

Esse tipo de raciocínio demasiadamente literal, limitado, é o mesmo que está por trás do modismo recente de omitir a vírgula antes de “etc.”.

A melhor recomendação, assim, é continuar com a vírgula antes de “etc.” nas enumerações, em concordância com a fala culta, que obrigatoriamente faz uso de uma pausa antes de “etcétera”, e como sempre fizeram os grandes autores e clássicos portugueses e brasileiros, os bons gramáticos dos dois lados do Atlântico e o próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Não caia no mito do “risco de morte”: o certo é e sempre foi “risco de vida”

Alguém que pode morrer a qualquer momento corre “risco de vida” ou “risco de morte”? Só uma das duas expressões existe nos dicionários, gramáticas e clássicos portugueses e brasileiros – “risco de vida” é a forma usada pelos clássicos da língua portuguesa há séculos. Já “risco de morte” é uma forma inventada em tempos de Internet, pelos “gênios” do século XXI que decidiram tentar deixar a língua mais lógica…

Já falamos aqui sobre os falsos erros, ou erros inventados de português. E não são poucos esses erros inventados, em grande parte porque existem os inventores profissionais de falsos erros: são aqueles homens e mulheres que vivem de corrigir erros de português dos outros, e que chegaram à conclusão de que é conveniente inventar regras que não existem, criando assim novos “erros” de português – pois, afinal, o seu prestígio e a sua renda vêm justamente da insegurança que esses charlatães disseminam entre os falantes da língua.

Uma dessas recentes invencionices é o tolo mito de que “risco de vida” seria expressão incorreta e a ser substituída por “risco de morte”, porque a expressão “risco de vida” não seria “lógica”.

A verdade é que “risco de vida” tem tanta lógica quanto “risco de morte”: em ambas existe uma elipse: a omissão de parte da frase. Em risco de vida, subentende-se risco de perder a vida. Já “risco de morte” seria o risco de se chegar à morte.

Então dá no mesmo dizer “risco de vida” ou “risco de morte”?

Quase. Porque há uma importante diferença entre as duas formas: “risco de vida” é forma tradicional em português, histórica. Já vinha em dicionários de 1800. É “risco de vida” a expressão que se encontra ao ler os grandes clássicos brasileiros – Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, etc. – e portugueses, como Garrett e Camilo Castelo Branco (ver imagem ao fim deste texto).

Já em 1640 encontramos exemplo de “risco de vida”, em Apolo, de Francisco Manuel de Melo: “A nada se rendeu, detendo-se a seu respeito todo o curso dos negócios, com desabrimento de el-Rei e valido, que nem pessoalmente rogando-lhe o seu voto deixou também o Cellis de lho negar pessoalmente. Sucedeu neste tempo adoecer com grande risco de vida e, confessando-se para acabá-la, lhe persuadiu o confessor (que devia de ir bem persuadido…) consentisse na vontade de el-Rei.”

Os grandes clássicos da língua portuguesa sempre usaram risco de vida, e nunca “risco de morte“. “Risco de vida” é uma expressão consagrada em português, com séculos de vida. “Risco de morte” é uma invencionice dos tempos da Internet.

“Risco de vida” é, por exemplo, a única forma registrada no Dicionário Houaiss. Já “risco de morte” é um artificialismo sem tradição na língua, inventado há poucos anos por charlatães da língua.

E, embora a grande mídia seja, em geral, agente propagador desse tipo de erros inventados, felizmente “até” a Revista Veja e o professor Pasquale concordam neste aspecto: “risco de morte” é um modismo injustificado. Não caia, portanto, nessa: a forma tradicional – e corretíssima – em português é mesmo “risco de vida“.

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O certo é fim de semana ou final de semana?

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O certo é fim de semana ou final de semana? É errado referir-se ao sábado e ao domingo como o final de semana?

A resposta rápida é que a forma tradicional para se referir ao sábado e ao domingo, em português, é fim de semana – mas a explicação que se dá para isso em muitas páginas por aí é que está errada.

Internet afora, há muitos metidos a sabichões que afirmam que a expressão final de semana é um erro, porque final não é substantivo; segundo eles, final é um adjetivo, o contrário de inicial, e o substantivo, contrário de início, é fim. Estão errados.

Estão errados, porque a palavra final é, sim, um substantivo, mas é também, é claro, um adjetivo; como nos casos de milhares de outras palavras da língua portuguesa, estamos diante de duas palavras idênticas, porém distintas. Assim, do mesmo jeito que jantar pode ser um verbo (Quero jantar) e um substantivo (Onde será o jantar?), também existem duas palavras diferentes que se escrevem, igualmente, final: o adjetivo final, contrário de inicial (a metade final do jogo), e o substantivo final, contrário de início, começo, princípio. Isto é, do mesmo modo que início tem sinônimos (começo, princípio), também a palavra fim tem um sinônimo perfeito, que é a palavra final.

É perfeitamente correto, portanto, falar sobre o final de um filme, o final de um jogo, o final de um século, etc.

Mas e quanto a final de semana? Nada há de errado em usar também a expressão, principalmente em seu sentido literal – como em “Devo terminar o trabalho mais para o final da semana” – isto é, lá pela quinta-feira, sexta-feira, sábado…

Já para se referir especificamente ao período de tempo entre o sábado e o domingo, o melhor efetivamente é dizer, em vez de final, fim de semana. Mas por quê?

Simplesmente porque fim de semana é a expressão consagrada em português; sim, fim e final são sinônimos, mas a expressão que se consagrou em português para chamar ao sábado e ao domingo é fim de semana (o que seria mesmo discutível de um ponto de vista exageradamente literal ou técnico, já que o domingo, em português, é o primeiro dia da semana).

Tanto é fim de semana a forma tradicional e consagrada que essas três palavrinhas chegaram a compor uma locução em português, e, por essa razão, escreviam-se (sobretudo em Portugal) com hifens até recentemente: o fim-de-semana. Por outro lado, nunca se escreveu final-de-semana, pois essas três palavras nunca chegaram a compor uma verdadeira locução. Cabe notar, porém, que o novo Acordo Ortográfico determinou a queda dos hifens em todas as locuções com “de” no meio – assim, do mesmo modo que mão-de-obra virou mão de obra e que sala-de-estar virou sala de estar, também fim-de-semana virou fim de semana.

Além da tradição, a razão para preferir fim de semana (e não final de semana) é simplesmente que a primeira é mais simples e direta – com uma sílaba a menos, é ligeiramente mais eficiente de um ponto de vista linguístico.

Já “final de semana” tem ares de hipercorreção: aquele fenômeno que faz que, muitas vezes, acabemos evitando a expressão mais natural e corriqueira em favor de uma menos natural, por acreditarmos no mito de que, se normalmente falamos de um jeito, o certo deve ser de outro jeito (é o que faz, por exemplo, muitos brasileiros dizerem recentemente que estão em férias ou que sairão em férias, em vez da mais tradicional, natural e correta forma “de férias, ou o que faz que tantos brasileiros – que, como os portugueses, sempre dizem num numa – achem mais “chique” escrever artificialmente “em um” e “em uma”).

Por tudo isso, não tenha dúvida: na hora de falar (ou escrever), dê preferência à forma fim de semana – mas nada de condenar quem use final de semana, que não chega a ser erro.

 

Computar é defectivo? Mentira! O verbo computar não é defectivo

Mais um ensinamento errado do “consultor de português’ do grupo Globo (já vimos outro dele aqui). O tal professor decidiu que o verbo computar é defectivo:

Eu COMPUTO, tu COMPUTAS, ele COMPUTA?
A dúvida agora é o uso de um verbo muito estranho, que causa dúvida, e até perplexidade em muita gente.
Afinal, você sabe conjugar o verbo COMPUTAR? Será que sua conjugação segue, por exemplo, a do verbo LUTAR (eu LUTO, tu LUTAS, ele LUTA)?
Poderia ser, não é? Mas não é.
Segundo a gramática tradicional, o verbo COMPUTAR é considerado defectivo, ou seja, não deve ser conjugado em algumas de suas pessoas. No presente do indicativo, só apresenta plural: nós COMPUTAMOS, vós COMPUTAIS, eles COMPUTAM.
Se a forma “ele computa” não é aceitável, podemos usar “ele está computando” ou substituir por uma frase equivalente: ele calcula, ou ele programa (computadores).

É necessário esclarecer: o comentário acima está inteiramente errado. O verbo computar não é defectivo. É absolutamente correto dizer e escrever eu computotu computasele computa

A mentira, é claro, não tem fontes; diz que quem diz isso é “a gramática tradicional“. A verdade é que nem existe “a gramática tradicional“. O que existem são gramáticas – e, após perder tempo pesquisando o tema em cada uma das boas gramáticas tradicionais – como as de Celso Cunha & Cintra, Bechara, Celso Luft,  Rocha Lima e Said Ali -, o que se constata é que nenhuma delas diz que o verbo computar seja defectivo.

E porque de fato não o é – basta abrir o Dicionário Houaiss (foto a seguir), ou os dicionários portugueses da Porto Editora (aqui) ou Priberam (aqui), ou mesmo o Vocabulário Ortográfico da CPLP (foto a seguir) para aprender que o verbo computar é perfeitamente regular e tem todas as suas conjugações – inclusive, é claro, “eu computo”, “tu computas”, “ele computa”:

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Ajuntar ou juntar? Existe o verbo ajuntar?

Aurelio

Existe a palavra ajuntar? Sim, existe, e está perfeitamente correta. Segundo o dicionário Aurélio e o dicionário Houaiss, ajuntar é um perfeito sinônimo de juntar.

Aurélio dá preferência a ajuntar, remetendo juntar para ajuntar. Já Houaiss remete ajuntar para juntar. Ambos concordam, porém, que os dois verbos existem, são corretos e têm os mesmos significados e regências.

Como mostram o Aurélio e o Houaiss, é absolutamente correto e indiferente, portanto, usar ajuntar  ou juntar:

  • Maria e Pedro juntaram-se (ou ajuntaram-se);
  • Juntou uma última folha ao processo (ou Ajuntou uma folha ao processo);
  • Juntar algo do chão (ou ajuntar algo do chão).

Pela Internet afora há, como sempre, os charlatães inventores de falsos erros, que afirmam que só um dos dois verbos está correto, ou que ajuntar é menos formal ou coloquial, ou que só um dos dois admite algumas regências e o outro só admite outras – todas mentiras. O Houaiss diz enfaticamente: ajuntar é sinônimo de juntar “em todas as suas regências”. Tanto o Houaiss quanto o Aurélio trazem longa lista de exemplos que mostram que grande escritores, portugueses e brasileiros, usam indistintamente ajuntar ou juntar, com diversos significados (adicionar, unir, recolher, pegar do chão, acumular, congregar-se, etc.).