“De férias” ou “em férias”: qual o certo?

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Estou de férias ou em férias? Diz-se sair de férias ou sair em férias? A forma gramaticalmente correta é “de férias” ou “em férias”?

A forma tradicional em português, tanto em Portugal quanto no Brasil, é de fériasestou de fériassaí de fériasestaremos de férias; etc. Nesse caso, porém, como em tantos outros, abundam pela Internet sites de qualidade duvidosa, que, sem absolutamente nenhum embasamento linguístico ou gramatical, ensinam (erradamente) que a forma correta, ou preferível, seria “em férias”. Mentira.

No Brasil, o único gramático tradicional que abordou diretamente a questão foi Paschoal Cegalla, que ensina que a expressão tradicional é “de férias”: diz-se, ensina o gramático, “estar de férias”, como também se diz “estar de luto”, “estar de atestado (médico)”, etc.

Em Portugal, o tema é tratado no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a correspondente portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras), que, no verbete “férias”, traz as expressões “estar de férias”, “entrar de férias”, “ir de férias” – todas com exemplos apenas com a preposição “de“, não “em“.

Por insegurança, porém, muitos brasileiros acabam cometendo uma hipercorreção (fenômeno que consiste em tentar “corrigir” algo que já estava correto, que não precisava de correção) e, quando querem falar “chique” ou escrever formalmente, trocam a corretíssima “de férias” por formas forçadas como “estar em férias”, “entrar em férias”. Embora tampouco esteja errada, “em férias” é menos usual, tem menos tradição e não é nem um pouco mais correta ou mais formal do que a tradicionalíssima forma “de férias“.

Diga (e escreva), portanto, sem medo: estou de fériasviajaremos de férias a Parisentrarei de férias na próxima segunda-feira; etc.

A expressão “no aguardo” está correta? Existe “aguardo”? (Claro que sim.)

“Ficar no aguardo” e “estar no aguardo” são expressões corretas, existentes em português desde o século retrasado e autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos da nossa língua.

Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo os quais a expressão “no aguardonão existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português desde o século retrasado e é corretíssima.

Veja-se, por exemplo, já a primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete, o da Porto Editora, etc.) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas que é “apenas” um “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecia no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no dicionário do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Dicionário Aulete, versão portuguesa

O  mesmo já se via, aliás, no dicionário de Moraes:

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Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc.

Em conclusão: é correto e antiga em português o substantivo aguardo, em português, com o sentido de espera, e também a expressão no aguardo é absolutamente correta.

Sediar ou sedear? A diferença entre sediado e sedeado

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O certo é sediar ou sedear? Diz-se sedeado ou sediado?

Até existe o verbo “sedear“, com “e”: é um verbo antigo cujo significado é limpar ou lustrar com seda, ou com escova de seda, etc.

O verbo que se usa com o sentido de receber um evento, hospedar, ser sede (séde) de algo é sediar, com “i”, como sabemos todos (e como ensinam todos os dicionários portugueses e brasileiros). Sabemos todos, exceto alguns dos criadores de caso de sempre (por exemplo, aqui e aqui), que dizem que, se vem da palavra sede, o verbo deveria ser sedear (e o adjetivo, sedeado), e não sediar/sediado.

A “lógica” é simplesmente furada: existe em português a produtivíssima terminação “-iar”, que faz que, de chefe, se tenha criado o verbo chefiar (não *chefear); de lume, o verbo alumiar; de abade, o verbo abadiar; de judeu, o verbo judiar; de apreçoapreciar; de presençapresenciar, etc.

E, para variar, além de precisarem corrigir todos os dicionários brasileiros, portugueses (e até galegos), os sabichões precisariam corrigir a história da língua portuguesa: ao menos desde a década de 1930 se encontram exemplos de sediarsediado em decretos e textos oficiais – como o decreto-lei brasileiro 457, de 1938, pelo qual o então presidente Getúlio Vargas autorizou a doação de fazendas, a fim de “nelas sediar o novo quartel das forças federais“, ou o Boletim de 1934 do Ministério da Agricultura, que se referia aos “encarregados de postos sediados em zonas de caça“.

“Através” só se pode usar em sentido literal? Mentira de Internet!

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As melhores gramáticas da língua portuguesa usam “através de” como expressão perfeitamente sinônima de “por meio de” (como fazem todos os bons autores portugueses e brasileiros). Recentemente, porém, charlatães linguísticos começaram a espalhar a falsa lenda de que “através” só se usa em sentido literal. Não caia na deles!

Como já falamos vários vezes, o que não falta pela Internet são os charlatães da língua, criadores de erros de português. Um desses falsos erros que se acha fácil pela Internet é o de que a palavra “através” não poderia ser usada em sentido figurado. Em vez de obter algo através de uma ação, dizem os charlatães, o certo seria dizer que se obteve algo “por meio de” uma ação – ou “por intermédio de“, “mediante“, etc., mas não “através”. Segundo a tal mentira, só se poderia usar “através” em sentido físico – o que faria da palavra a única na língua portuguesa a só poder ser usada em sentido literal.

É obviamente uma invencionice, um falso erro (inventado). Todos os melhores autores e os melhores gramáticos do Brasil e de Portugal usam “através de” com o sentido figurado de “por meio de“, e sempre o fizeram.

Aurélio e Houaiss (e todos os demais dicionários) são inequívocos: “através (de)” é um sinônimo perfeito de “por meio (de)”, “por intermédio (de)” – e dão exemplos: “educar através de exemplos”; “conseguiu o emprego através de artifícios”.

Os gramáticos de verdade (Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso Luft) não apenas nada dizem proibindo o uso da expressão, como a usam repetidamente ao longo de suas gramáticas, exatamente do modo que a tal lenda urbana diz ser errado. Como se vê na célebre Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (2015), imortal da Academia Brasileira de Letras:

Pág. 71: “Em português, como em muitas outras línguas, nota-se uma tendência para evitar o hiato, através da ditongação ou da crase.

Pág. 77: “O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior vivacidade através da aliteração, nos seguintes versos

Pág. 140: “surgem muitas dúvidas no uso do plural, além de alterações que se deram através da história da língua

Pág. 191: “O tipo “zero determinação” antes do substantivo seguido de “o mais” é menos enfático, e se valoriza através de uma inversão (o mais alto homem)”.

Pág. 457: “Grande é o número de radicais gregos que encontramos no vocabulário português. Muitos deles nos chegaram através do latim e são antiquíssimos.

Da mesma forma, na célebre Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra:

Pág. 18: “É só a partir do seculo IX que podemos atestar a sua existência através de palavras que se colhem em textos de latim bárbaro

Pág. 152: “No primeiro exemplo, o pronome está relacionado com o substantivo por meio da preposição ‘por’; no segundo, o substantivo relaciona-se com o adjetivo através da preposição ‘de’.”

Nem mesmo aquele tradicionalmente considerado o mais conservador gramático brasileiro do século passado, Napoleão Mendes de Almeida, condenava esse uso que algumas pessoas por ignorância pretendem proibir:

“Não se deve cair no exagero de julgar que a locução “através de” só é possível quando significa “de um lado para o outro”, “de lado a lado”. Não vemos erro em: “A palavra veio-nos através do francês”, como não vemos na passagem de Herculano: “Através desses lábios inocentes murmuram durante alguns instantes as orações submissas””  (Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de questões vernáculas, 1981, pág. 33)

Ou seja: ao encontrar textos ou sabichões que dizem ser errado o uso de “através” em sentido não literal, o melhor é desconfiar de todo o resto que venha da mesma fonte, pois são grandes as chances de estar diante de um dos muitos inventores de falsos erros de português – ou, pior, de um coitado que apenas reproduz acriticamente o que “aprendeu” de um desses charlatões.

Coringa ou curinga? O certo é curinga ou coringa?

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O certo é coringa ou curinga? A resposta certa é: tanto faz. “Coringa” e “curinga” são sinônimos perfeitos, de acordo com o dicionário Houaiss, com o dicionário Michaelis, com o dicionário Aulete, com o dicionário Priberam, o dicionário Estraviz, etc.

A dupla validade das grafia coringacuringa é antiga – já na décima edição do Dicionário de Moraes apareciam as duas formas – coringa com, entre outros sentidos, o de “carta do baralho, à qual a pessoa que a tem em mão pode dar o valor que deseja“; e curinga como “carta com valor especial em certos jogos“.

Uma pesquisa sobre a questão na Internet, porém, traz à tona dezenas de sabichões virtuais, segundo os quais a palavra só poderia ser escrita com “u”, e não com “o”, por vir de kuringa, que, segundo afirmam, significaria “matar” em quimbundo, língua africana. É simplesmente uma lenda urbana mais, um erro cometido (ou inventado) por alguém, que se espalhou e chegou inclusive a alguns dicionários. A palavra kuringa não existe em quimbundo, nenhuma palavra para “matar” nessa língua sequer se parece a kuringa, e a verdade é que, como em geral ocorre, nenhum linguista sabe com certeza de onde veio a nossa palavra coringa ou curinga.

É por isso que qualquer bom dicionário diz que as duas formas são corretas e sinônimas. Use aquela que que preferir. Nos quadrinhos e filmes do Batman, por exemplo, o vilão chama-se oficialmente Coringa, com “o” – forma que também prefiro, por permitir as duas pronúncias (diferentemente da grafia com “u”, que só admitiria em tese uma pronúncia, a grafia com “o” permite pronunciar “coringa” ou “curinga” – do mesmo modo que “mochila” pode ser corretamente pronunciada “muchila“, e “cozinha” pode ser pronunciada “cuzinha“, etc.).

Sim, existe o substantivo feminino somatória (assim como somatório)

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Todo dia aparece uma “mentira linguística” nova, um novo falso erro de português inventado por desocupados e disseminado pela Internet. Há por exemplo quem afirme que a palavra “somatória” não existe, e que somatório é a única forma correta. Outros dizem que somatória só existe como adjetivo, e não como substantivo. Mentira, mentira.

Não caiam em mentiras como essa. Somatório é, sim, forma corretíssima para se referir a uma soma, ou para denominar o operador matemático representado pela letra grega sigma; mas somatória é um substantivo igualmente correto e com o mesmo significado.

Para conferi-lo, bastaria pesquisar a palavra no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), da Academia Brasileira de Letras, para ver que somatória ali está devidamente registrado como substantivo feminino.

Não bastasse o amplo uso real da palavra somatória por professores, matemáticos e pela população em geral, além de sua formação não violar nenhuma regra da língua portuguesa – e de a palavra somatória aparecer atestada em dicionários modernos como sinônima de somatório -, o fato é que a palavra é devidamente reconhecida e aceita pela ABL. O substantivo somatória existe e pode, sim, ser usado como sinônimo de somatório.

Fantástico cita frase que García Márquez nunca escreveu: não acredite em tudo que lê na Internet

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Ao final de sua última reportagem deste domingo, para coroar o tom apelativo de toda a cobertura dada à tragédia com a Chapecoense, o Fantástico fez ainda questão de citar Gabriel García Márquez (escolhido, entende-se, por ter sido a Colômbia o cenário do trágico acidente): “Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca seu coração“, citou o narrador, atribuindo a pérola ao famoso escritor colombiano. O problema? Gabriel García Márquez nunca escreveu isso.

Nos tempos que correm, todos já deveriam saber: metade (ou mais) das citações que rodam pela Internet são falsas – não foram ditas ou escritas por aqueles a quem se atribuem. Luis Fernando Verissimo faz até piada com o fato de alguns de seus textos mais conhecidos e compartilhados na Internet não terem sido escritos por ele – o que fazer?

Em se tratando de um programa de horário nobre da maior emissora do Brasil, o mínimo a fazer seria uma rápida verificação – hoje em dia, em poucos segundos é possível pesquisar toda a obra de García Márquez, para confirmar que o autor obviamente não escreveu aquilo (que, aliás, não combina em absoluto com seu estilo). A citação sobre amigos que se encontra mais facilmente na obra de García Márquez, aliás, é esta: “Os amigos são uns filhos da puta!“.