A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

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Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

“Collant”, em português, se escreve colã

 

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Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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Besteiras inventadas: alunissar/alunizar, amartizar/amartissar – é melhor pousar ou mesmo aterrizar

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Dos franceses, inventores da atterrissage e do verbo atterrisser, copiamos “aterrissagem” e “aterrissar” – que, como já visto, podem ser substituídos pelas formas aterrizaraterrizagem, que, além de mais ouvidas hoje, são mais condizentes com a formação vocabular portuguesa – ou, melhor ainda, pelas ainda mais tradicionais e simples pousar pouso.

Com a chegada do homem e de satélites nossos a outros astros do sistema solar, os franceses têm ido além, inventando verbos específicos para cada astro – ideia absurda e sem propósito, copiada pelos espanhóis, que, seguindo o erro, decidiram que, “se pousar na Terra é aterrizar, pousar na Lua é alunizar e, em Marte, amartizar“.

Uma absurda ignorância é o que essas invencionices revelam. O radical “-terr-” de aterrizar ou aterrissar não vem do nome do planeta Terra, mas, sim, de terra no sentido de chão, solo, terra firme – por oposição a céu ou mar.

É perfeitamente correto, portanto, dizer “aterrizar em Marte“, ou falar de uma “aterissagem na Lua“.

Outra opção válida, recorde-se, é recorrer ao bom e velho pouso – “pousar em Marte”, “pouso na Lua”, construções também corretíssimas. O que não faz o menor sentido é inventar verbos e substantivos novos para cada astro em que se venha a pousar (ou aterrizar).

A omelete, a musse e a quiche – ou o omelete, o musse e o quiche?

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O certo é “o omelete ou “a omelete”? Diz-se “a musse de chocolate” ou “o musse de chocolate”? Uma quiche ou um quiche?

Em Portugal, assim como na própria língua francesa, esses três substantivos só são usados no feminino. É também essa a recomendação das gramáticas tradicionais: que se fale uma omelete espanhola, uma linda musse de maracujá (ou uma musse para o cabelo) e uma deliciosa quiche.

No Brasil, porém, é comum ouvir esses três substantivos no masculino: “o musse”, “um quiche”, “um omelete”.

Tão comum, na verdade, que o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e o Dicionário Houaiss já passaram a trazer “omelete” e “quiche” como substantivos de dois gêneros, admitindo, portanto, que diga a omelete ou o omeleteuma quiche ou um quiche.

E fizeram bem, nesse caso; isso porque o fato de um substantivo ser feminino em francês não implica que em português tenha de ter o mesmo gênero – basta pensar em crepe, outro prato francês, que na França é feminino (“la crêpe“), mas que em português virou um crepe.

Só falta à ABL e ao Houaiss, portanto, darem o mesmo tratamento à palavra “musse”, que, apesar de tradicionalmente se considerar feminina, se ouve no Brasil no masculino (o musse, um musse) com a mesma frequência que omelete e quiche.

Esse fenômeno – de alternância de gêneros gramaticais – parece ocorrer, no Brasil, com frequência com substantivos terminados em “e”: é o mesmo que ocorreu, por exemplo, com champanhe, que os dicionários diziam por anos ser apenas masculino (“o champanhe”), mas que, vencidos pelo uso de parte da população, já passaram os dicionários brasileiros (e o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras) a aceitar também no feminino: “a champanhe”.

Sobre srilankês, stalinismo, comtiano, …

Um leitor nos pergunta como pode o gentílico em português referente ao Sri Lanka ser “srilankês“, se não existem palavras em português começadas por “sr-“.

Bem é verdade que não existiam palavras portuguesas começadas por “sr-“, mas, se o nome do país é Sri Lanka, o seu derivado só pode começar por “sri”: os nomes próprios estrangeiros têm uma licença única na língua, prevista inclusive no Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, para introduzir sequências gráficas e fonéticas não tradicionais na língua – de que são apenas alguns exemplos: “bahamense”, “comtiano”, “hobbesiano”, “kantismo”, “kuwaitiano”, “shakespeariano”, “tmólio”, “vlérico”, “wahabismo” ou “westphalense”.

Já ninguém estranha, por exemplo, a sequência “vl-” inicial de nomes como Vladimir ou Vladivostok – mas, quando esses nomes próprios de origem russa “entraram” na língua portuguesa, causaram estranheza, por ser a sequência inicial “vl-” até então inexistente na língua.

Da mesma forma, aceitamos sem problema o substantivo “stalinismo” e o adjetivo “stalinista” na língua, derivados de Stalin. Os nomes próprios estrangeiros têm essa “licença” para introduzir na língua sequências gráficas e fonéticas estranhas ao português – mas, como já dissemos anteriormente (na publicação “Zika ou zica? Yoga ou ioga? Karatê ou caratê? Kibe ou quibe?“, disponível aqui), esses elementos “estranhos” à língua portuguesa devem ficar restritos a esses casos (nomes de pessoas e de lugares e seus derivados diretos).

Butantan ou Butantã? Instituto Butantã ou Butantan?

Butantã ou Butantan? Resposta rápida: A grafia correta em português é Butantã, com til.

A grafia oficial, correta, é Butantã – esse é o nome do bairro de São Paulo (bairro do Butantã, administrado pela subprefeitura do Butantã), bem como do shopping  (Shopping Butantã) e do câmpus universitário nele situados.

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A única polêmica é quanto ao nome do Instituto com esse nome,  internacionalmente reconhecido pela elaboração de soros antiofídicos, vacinas e demais produtos da área de saúde: o Instituto, e somente ele, continua a chamar a si próprio “Instituto Butantan – contrariando as regras ortográficas da língua portuguesa.

Butantan“, com ene, era a grafia antiga. De acordo com as atuais regras ortográficas da língua portuguesa, palavras em português não podem terminar em “-an“: como diz o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que pode ser lido na íntegra aqui), na “Base VI”: “Quando uma vogal nasal ocorre em fim de palavra, representa-se a nasalidade pelo til, se essa vogal for “a”: afã, grã, Grã-Bretanha, lã, órfã

É por essa razão que o anglicismo “fan” (admirador fanático) virou, em português, ; ou que o anglicismo clan deu, em português, clã; que a dança francesa cancan virou aqui cancã; que o país internacionalmente conhecido como Iran (a antiga Pérsia) é, no Brasil, chamado Irã; e que a palavra bataclan dos franceses deu bataclã em português.

Escrever “Butantã” em vez de “Butantan” é, ainda, manter a coerência com as demais palavras vindas do tupi-guarani que terminam nesse som nasal, como aracuã (um pássaro brasileiro, sobre o qual já escrevemos – ver aqui) e panapanã (o coletivo de borboletas, sobre o qual também já escrevemos – ver aqui).

Mesmo os decretos da década de 1940 que transferiram fundos para o Instituto e o reestruturaram oficialmente usaram a grafia Butantã (vide aqui).

Ainda assim, o Instituto até hoje “bate o pé” e insiste em a escrever o próprio nome na grafia antiga: “Instituto Butantan” – destoando do próprio nome do bairro onde o Instituto se situa (o bairro Butantã). Tudo bem quanto a isso – afinal, cada um pode escrever seu próprio nome como deseja, mesmo que em contradição com as regras ortográficas oficiais. O problema é que, com essa confusão toda, quase ninguém “respeita” esse capricho do Instituto, cujo nome em geral aparece “corrigido” para o nome correto do bairro – “Butantã” – na imprensa e mesmo em publicações governamentais, conforme os vários exemplos a seguir:

Revista Veja: Butantã vai desenvolver soro contra o ebola

Portal do Governo de São Paulo: Instituto Butantã negocia compra de 36 mil doses de vacinas 

Prefeitura de São Paulo: Instituto Butantã recruta voluntários para teste de vacina contra dengue

Jornal Estadão (“O Estado de S. Paulo”): Teste final da vacina contra dengue do Instituto Butantã será em outubro

Porta do Senado Federal: Suplicy pede investigação no Instituto Butantã

Folha de S.Paulo: Alckmin que antecipar vacina contra a dengue, que está em fase de testes clínicos no Instituto Butantã

Revista Veja: Butantã vai desenvolver vacina contra o ebola

Jornal da BandInstituto Butantã poderá acelerar teste de vacina contra dengue em humanos

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Bislamá: língua nacional de Vanuatu

Um leitor pergunta-nos qual, afinal, a grafia em português da língua nacional de Vanuatu (um país e arquipélago da Oceania, no Pacífico). O país tem três línguas oficiais: o inglês, o francês e a tal língua nacional, a única “nativa” do país: o bislamá.

O nome da língua bislamá vem do francês bichelamar – por sua vez, derivada da palavra portuguesa “bicho-do-mar”  – que, como bem define o Aulete, é a designação portuguesa para um animal marinho, uma espécie de holotúria – animais atualmente mais conhecidos como pepinos-do-mar.

Não há quase rincão do mundo por onde os navegadores portugueses não tenham passado, e naturalmente passaram pelas ilhas de Vanuatu – antigamente chamadas “Novas Hébridas”, e que receberam influências também de colonizadores franceses e ingleses. Dessa mistura de línguas, surgiu o bislamá, língua nacional vanuatuense.

O vocábulo bislamá se encontra devidamente registrado no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (ver aqui) e no Dicionário Aurélio, que define o bislamá (substantivo masculino) como língua “de base inglesa, usada como língua nacional de Vanuatu (antigas Novas Hébridas) e falada, também, nas Ilhas Salomão e em Fíji, no Pacífico Sul.”