Um tempurá: origem da palavra e do prato japonês

Traditional Irish Soda Bread

O tempurá é um prato típico da culinária do Japão: são camarões, ou vegetais, fritos após serem envoltos em massa de farinhas e ovos. Diz-se ter sido inventado por missionários católicos portugueses no Japão no século XVI. O nome japonês do prato, assim, viria, talvez, do português tempero, ou, mais provavelmente de parte da locução latina que dava nome à quaresma – “ad tempora quadragesimae” -, período ao longo do qual não comiam carne vermelha.

Embora oxítono no Brasil – país com uma das maiores populações nipodescendentes do mundo -, o nome do prato é paroxítono em Portugal: tempura. É o mesmo que ocorre com a maioria dos aportuguesamentos de origem japonesa – são oxítonos no Brasil (judô, sumô, ofurô, caraoquê, etc.) e paroxítonos em Portugal (judo, sumo, ofuro, caraoque…).

Tanto em Portugal quanto no Brasil, porém, o tempura (ou tempurá) é masculino: um tempurá (ou tempura) – como se vê em qualquer livro de receita e na vida real, fora dos livros, e como bem trazem o dicionário Aurélio, o Michaelis e a Porto Editora, entre outros.

Nisso, erram o Houaiss e o Priberam, que trazem tempura como feminino.

 

Xeica é o feminino de xeique ou xeque

sem-tituloO feminino de xeique (ou xeque) é xeica.

Anos atrás, os portugueses noticiavam a visita da sheikha” do Kuwait a Portugal. Corretíssimo o uso do feminino, já que nenhum dicionário admite “xeique” ou “xeque” como substantivo de dois gêneros. O feminino já vem do árabe, e mesmo o inglês, língua que em geral não faz distinção de gênero nos cargos, usa a forma feminina sheikha.

Mas em português, é claro, deve escrever-se xeica – forma usada pela imprensa e pelo governo brasileiro, e perfeita do ponto de vista ortográfico, e que já consta do Dicionário Houaiss:

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A quipá ou o quipá? Ou kipá?

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A espécie de boina que homens judeus usam para cobrir a cabeça chama-se quipá.  Entre os próprios judeus lusófonos, a grafia mais usual é com “k”, kipá – mas, a rigor, as regras ortográficas em vigor mandam que se use a grafia com “qu”.

Apesar de o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa ter introduzido as letras kwy no alfabeto português, o Acordo é explícito ao determinar que essas três letras só podem ser usadas em nomes próprios vindos de outras línguas e em seus derivados (como Kant, kantiano, Kuwait, kuwaitiano,  Washington, washingtoniano, Myanmar, myanmarense, etc.).

Em todos os demais casos, deve-se substituir o “k” por “c ou “qu“, conforme o caso: quilo (e não kilo); cartódromo (e não kartódromo); caratê (e não karatê); quibe (e não kibe); coala (e não koala); uísque (e não whisky); carma (e não karma), caraoquê (e não karaoke); e quipá, melhor que kipá.

Quanto ao gênero de quipá: apesar de se ouvir, em meios leigos, “o quipá” (o que seguiria a lógica de quase todos os substantivos terminados em “-á” em português, que são masculinos), a forma usada pelos próprios judeus brasileiros e portugueses é sempre a feminina: uma quipáa quipá (forma aceita pelos dicionários e vocabulários). É o mesmo que ocorre com o livro sagrado dos judeus – a Torá, também usada no feminino.

Sargenta, feminino de sargento

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“Sargento” é uma palavra normal da língua portuguesa, que, como qualquer outra masculina terminada em “o”, faz plural em “a”: sargenta, feminino registrado no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e nos dicionários, que ensinam que sargenta é a forma feminino de “sargento”, que por sua vez é palavra exclusivamente masculina. “A sargento”, “uma sargento” são formas tão erradas quanto “a menino”.

Em reportagem sobre o papel de militares nos jogos olímpicos do Rio, a rede Globo acaba de afirmar que “mais duas sargentos” acabam de ganhar medalhas. Por favor, Rede Globo: não é porque os militares falam errado que vocês precisam passar adiante esse erro, que até ofende os ouvidos. Não há nenhum motivo pelo qual a palavra sargento seria uma exceção na língua portuguesa – é uma regra de português que os substantivos comuns masculinos terminados em “o” fazem seu feminino em “a”.

E, como ensinam o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa e todos os bons dicionários, “sargento” é palavra masculina (e não comum de dois gêneros: não existe, portanto “a sargento”). E o feminino, completamente regular, é sargenta – palavra devidamente registrada no Vocabulário Ortográfica da Academia Brasileira de Letras e em dicionários.

Em resumo: de acordo com os dicionários, com a gramática e com a Academia Brasileira de Letras, a palavra “sargento” é um substantivo apenas masculino, e o seu feminino é sargenta, e formas como “a sargento“, “uma sargento“, “duas sargentos” são erros grosseiros que até se explicam pela falta de costume (afinal, ainda há, infelizmente, relativamente poucas mulheres nas forças armadas), mas que em termos gramáticos fazem tanto sentido quanto “uma menino” ou “uma brasileiro“.

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Carteira: o feminino de carteiro

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Qual o feminino de carteiro (o profissional que entrega cartas e demais encomendas remetidas por correio)? O feminino de carteiro é carteira.

É um substantivo plenamente regular. Pode causar estranheza simplesmente porque até pouco tempo atrás eram raras as mulheres funcionários dos correios – como também eram raras as mulheres pilotas, soldadas ou ministras.

A maioria dos dicionários não traz o feminino “carteira” pela simples razão de que, em regra geral, os dicionários trazem apenas palavras no masculino singular, e indicam femininos apenas nos casos em que a forma não é regular – e carteira é um feminino absolutamente regular, padrão.

Mesmo assim, a indicação de “carteira” como o feminino decarteiro” consta do Dicionário Priberam (ver aqui), que, como não cansamos de repetir, pode não ser o dicionário mais completo, ou aquele com o maior número de palavras definidas (veja a lista dos maiores dicionários, por número de verbetes, aqui), mas vem ganhando espaço dia após dia, por ser o único dicionário de português, hoje, atualizado diariamente (e por gente de qualidade).

“Presidenta” em português é mais antigo que “a presidente”

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A palavra “presidenta” é feminino correto para “presidente“, aceito por todas as gramáticas, presente em dicionários portugueses há séculos e constante em todos os dicionários brasileiros e portugueses atuais. Hoje, “a presidente” é também considerado correto, mas a verdade é que “a presidenta” é forma muito mais antiga e tradicional na língua portuguesa do que “a presidente”.



A palavra presidenta está hoje em todos as gramáticas e dicionários portugueses e brasileiros. Gramáticos contemporâneos, como o professor Pasquale (vejam aqui) concordam: “pode-se dizer a presidente ou a presidenta“.

As gramáticas portuguesas e brasileiras tradicionais – como a Nova Gramática do Português Contemporâneo, do brasileiro Celso Cunha e do português Lindley Cintra, ou a Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara – também concordam: “Quanto aos substantivos terminados em -e, uns há que ficam invariáveis (amante, cliente, doente, inocente), outros formam o feminino com a terminação em “a”: alfaiata, infanta, giganta, governanta, parenta, presidenta, mestra, monja. Observação: “governante”, “parente” e “presidente” também podem ser usados invariáveis no feminino.”

Presidenta” está no Dicionário Aurélio desde a sua primeira edição, em 1975 (ver aqui); está no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras desde a sua primeira edição, em 1932; no Dicionário da Academia Brasileira de Letras; e estava já no primeiro Vocabulário Ortográfico sancionado pela Academia de Lisboa, de Portugal, em 1912 (o vocabulário integral pode ser acessado aqui).

Hoje, presidenta está em todos os dicionários, brasileiros e portugueses – como o Aurélio, o Houaiss e o Michaelis (ver aqui), com o significado de “Mulher que é a chefe de governo de um país de regime presidencialista.

Presidenta já aparecia também em textos de nossos melhores escritores dois séculos atrás: Machado de Assis, por exemplo, usa “presidenta” em Memórias Póstumas de Brás Cubas, sua obra-prima, publicada em 1881 e disponível gratuitamente aqui.

Anos antes, em 1878, o português O Universo Ilustrado narrava o enterro fictício de uma “presidenta”; em 1851, a Revista Popular de Lisboa  também se referia à “presidenta” de uma reunião.

Ainda em Portugal, podemos encontrar presidenta no primeiro vocabulário oficial da língua portuguesa, elaborado em 1912 por Gonçalves Viana (disponível aqui) .

“Presidenta” está também no vocabulário do português Rebelo Gonçalves (1966), e, desde um século antes, no Dicionário de Português-Alemão de Michaëlis (1876), no de Cândido de Figueiredo (1899), no Dicionário Universal / Texto Editores (1995), na primeira edição do Dicionário Lello (1952) e na primeira edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (também de 1952).

Na verdade, ainda antes disso – no ano de 1812 (antes ainda, portanto, da independência do Brasil de Portugal), a palavra “presidenta” já aparece dicionarizada: está no Dicionário de Português-Francês de Domingos Borges de Barros, que viria a ser diplomata e senador. Versão digitalizada do dicionário, de 1812, pode ser acessada aqui.

Por falar em outras línguas: não apenas no francês, mas também nas línguas irmãs do português, o galego e o espanholpresidenta é considerado o feminino mais gramaticalmente correto de “presidente“.

A palavra “presidenta” nada tem a ver, portanto, com Dilma Rousseff ou com o PT, e quem se recusa a usar a palavra por achar que é uma invenção recente de petistas está apenas atestando ignorância em relação à língua portuguesa.

Isso porque a forma “a presidenta” é, na verdade, mais antiga e mais tradicional na língua portuguesa que “a presidente”.

Como se pode ver em todos os dicionários e vocabulários oficiais anteriores a 1940 (por exemplo: aquiaquiaquiaqui, aquiaqui), até a metade do século passado a palavra “presidente” era considerada substantivo exclusivamente masculino, e “presidenta” era o único feminino aceito para “presidente”.

Em outras palavras: apenas a partir de 1940 a forma “a presidente” passou a ser aceita por gramáticos e dicionaristas portugueses e brasileiros. Ou seja: a palavra “presidenta“, dicionarizada desde 1812, é mais antiga e tradicional em português que a forma neutra “a presidente“, apenas dicionarizada a partir de 1940.

A passagem, no século passado, de presidente” como forma exclusivamente masculina para forma neutra baseou-se no mesmo processo de “neutralização de gênero” pelo qual passaram, e vêm até hoje passando, vários outros substantivos portugueses – como “a parente”, que antes antes só se dizia “parenta” -, sobretudo profissões – como “a oficial” (que antes só se dizia “oficiala”), “a cônsul” (que antes só se dizia “consulesa”) ou “a poeta” (que antes só se dizia “poetisa”).

A Revista Veja, por exemplo, deixou de usar a palavra “presidenta” apenas quando Dilma Rousseff chegou ao poder e disse que gostaria de ser chamada assim. Até então, porém, a mesma Veja usava “presidenta”- vide exemplos de edições da década de 1970 (ao se referir à então presidenta deposta da Argentina), de 1980, de 1990 e mesmo 2000.

Do mesmo modo, anos antes de o PT chegar ao poder, os demais órgãos de imprensa usavam “presidenta” – como a Folha de S.Paulo – por exemplo, em 1996 (“Secretária de Turismo de Alagoas e presidenta da Fundação“), 1997 (“Segundo a presidenta da CPI, deputada Ideli Salvatti“), 2003: (“A presidenta da CDU e líder da bancada parlamentar, Angela Merkel, já deixou claro que seu partido não se dispõe a salvar a situação para o governo de Berlim.“), etc.; O Estadão (em 2004:”Empresária de Shakira era presidenta da  companhia“; em 2008: “disse a presidenta da Plataforma, Maribel Palácios“, etc.), o Correio Braziliense, etc.

Em resumo: hoje, é indiferente o uso de “a presidenta” ou “a presidente” – ambas as formas são gramaticalmente corretas e equivalentes.

Mas, ao contrário do que diz o senso comum e do que supõem muitos em sua ignorância, “a presidenta” não é informal, não é uma invenção recente nem é “coisa de feministas” ou “de esquerdistas” (pelo contrário, é a forma mais antiga e tradicional em língua portuguesa).

Um bom exemplo de sensatez, por exemplo, vem do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, do PSDB – um dos principais opositores de Dilma Rousseff, que, no entanto, nunca deixou de falar “presidenta“, por saber que essa forma é antiga, tradicional e perfeitamente correta em português.

E, para fechar, um videozinho de programa educativo da TV Cultura de 1996, mostrando que ninguém estranhava o uso de “presidenta” no Brasil… até Dilma Rousseff chegar ao poder e pedir para ser chamada assim:

Qual o diminutivo de foto: uma fotinho ou fotinha?

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O diminutivo de uma foto é “uma fotinho”; o certo é “a fotinho”. As palavras terminadas em “a” e “o”, independentemente de serem masculinas ou femininas, mantêm a vogal final quando fazem o diminutivo em “-inh-“. O diminutivo de cinema, por exemplo, é cineminhA, mesmo sendo masculino; da mesma forma, uma tribo pequena é uma tribinho, mesmo sendo palavra feminina – e uma foto pequena é uma fotinho. A palavra “fotinha” está errada.

Existem duas formas mais comuns de formar diminutivos em português: uma palavra pode ir para o diminutivo por meio da inserção de “-inh-” (menininho, estrelinha, moderninho) ou pela adição dos sufixos “-zinho” e “-zinha” (meninozinho, estrelazinha, modernozinho, devagarzinho). Mas as regras de utilização dos dois tipos de terminação são diferentes, o que causa alguma confusão.

No caso dos diminutivos sem “z” – isto é, o que usam o “-inh-” -, pode-se usar como regra (para as palavras terminadas em “o” ou “a”) simplesmente incluir as letras “-inh-” entre a última letra da palavra original e as anteriores: assim, o diminutivo de cinema é cinem+inh+a = um cineminha; o “a” de cinema é mantido intacto.

Não importa que a palavra “cinema” seja masculina: a terminação da palavra manterá o “a”, que já era o “a” final de cinema.

Da mesma forma, uma tribo pequena é uma “tribinho” – assim como se diz “uma tribo”, diz-se uma “tribinho”.

Igualmente, o diminutivo de “um cinema” é “um cineminha”, o de “uma moto” é “uma motinho”, o de “um motorista” é “um motoristinha”… e o diminutivo de foto é “fotinho”.

Eventuais confusões devem vir da tradição – comum a todas as gramáticas de português à venda – de mencionar o sufixo “-inho” como sinônimo de “-zinho”, quando não, pior, como o mesmo sufixo, ao qual apenas se adicionaria ou omitiria a consoante “z” por pura eufonia.

A confusão que existe quanto ao uso do diminutivo (que faz que por vezes se ouçam formas erradas como “fotinha” ou “motinha”) deve-se ao fato de que regra completamente diferente da acima resposta, referente ao “-inh-“, é a que rege outro tipo de terminação também usada para formar diminutivos: a forma “-zinho” (e seu feminino, “-zinha”). Ao contrário da forma “-inh-“, as formas “-zinho” e “-zinha” não separam a vogal final da palavra original entrando no meio da palavra (como em cinem+inh+a), mas deixam a palavra original intacta, apenas colocando-se as formas “-zinho” (se a palavra for masculina) ou “-zinha” (se a palavra for feminina) grudadas ao fim da palavra: um cinema+zinho.

Assim, compare:

  • Diminutivo de moto: estão corretas “a motinho ou “a motozinha
  • Diminutivo de foto: estão corretas “a fotinho” ou “a fotozinha
  • Diminutivo de tribo: estão corretas “a tribinho” ou “a tribozinha
  • Diminutivo de motorista (homem): pode-se dizer “ele é um motoristinha” ou “ele é um motoristazinho
  • Diminutivo de pijama: pode-se dizer “o pijaminha” ou “o pijamazinho
  • Diminutivo de problema: estão corretas “o probleminha” ou “o problemazinho
  • Diminutivo de problema: estão corretas “o probleminha” ou “o problemazinho
  • Diminutivo de programa: pode-se dizer “o programinha” ou “o programazinho

Essa importante e fundamental diferença entre as terminações “-inho” e “-zinho” não parece, porém, ter ainda atraído a atenção dos autores de gramáticas da língua, que, de forma equivocada, limitam-se a citar “-zinho” como variante de “-inho” – quando não como o mesmo sufixo, acrescido de um “z” puramente eufônico.

Tal omissão por parte da maioria das gramáticas tradicionais, ao não abordar a formação dos diminutivos em “inho”/”inha” no caso das raras palavras femininas terminadas em “o” (como foto, moto e tribo) e masculinas terminadas em “a” (como pijama, cinema, motorista) certamente em muito contribuiu para permitir a disseminação em certas regiões (por exemplo no Rio de Janeiro) de formas irregulares como “fotinha” e “motinha”.

 

A quem pergunta, porém, a Academia Brasileira de Letras responde: o diminutivo de foto é fotinho ou fotozinha – mas não fotinha:

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É a mesma opinião de professores de português famosos, como o professor Pasquale (ver aqui) e o professor Cláudio Moreno (ver aqui).