Colocação pronominal: o pior erro é a hipercorreção

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Uma das maiores diferenças entre o português brasileiro falado e o português padrão escrito é a colocação dos pronomes átonos. A colocação pronominal padrão no Brasil, em todos os meios orais, é apenas uma: a próclise ao verbo principal (Ele me viuOs dois se amam; Ele quis me derrubarJá tinha te dito isso).

Já no padrão oral de Portugal (que ainda é, para os gramáticos conservadores brasileiros, o que se deve tomar como a normal culta a ser copiada), os pronomes átonos tendem à ênclise: Ele viu-me;  Os dois amam-se. A colocação do enclítico após o verbo, porém, não se dá sempre: há diversos elementos que, presentes numa frase, fazem que portugueses obrigatoriamente coloquem o pronome átono antes do verbo, exatamente como na colocação intuitiva de todo brasileiro.

Assim, em todas as seguintes frases (que apresentam elementos ou palavras que obrigam a próclise), portugueses, como brasileiros, sempre usarão a próclise:

O lugar onde se conheceram” (e não *conheceram-se);

Nunca me falou desse tema” (e não *Nunca falou-me);

O que se viu foi o contrário” (e não *O que viu-se);

Mas é em casos como esses que se veem com frequência erros grosseiros cometidos, na escrita, por brasileiros cultos – que, por terem internalizado a ideia de que “o bonito é colocar o pronome depois do verbo”, usam a ênclise em casos em que mesmo a colocação culta portuguesa obriga o uso da próclise. É dizer, querendo “fazer bonito”, acabam cometendo erros que não cometeriam se escrevessem exatamente como falam diariamente.

É esse tipo de erro, em que o falante erra por tentar “falar difícil”, ao tentar “corrigir” algo que estava correto, que se chama de hipercorreção – um dos piores tipos de erros existentes, pois são erros que violam ao mesmo tempo a gramática culta tradicionalista e a gramática natural espontânea dos falantes.

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“Me deixem escrever português como brasileiro”

Um texto para ser discutido. Professor da Universidade de Brasília, doutor em filologia e linguística, tradutor há décadas, ganhador do maior prêmio de literatura do Brasil, acaba de enviar o seguinte desabafo:

“Deixem eu ser brasileiro!
Sempre fico irritadíssimo quando recebo textos de revisores e, ao reler o que escrevi, encontro uma infinidade de “correções” que representam a obsessão paranoica de expurgar do texto escrito qualquer “marca de oralidade” (como se isso fosse possível), qualquer característica propriamente brasileira de falar e de escrever. É sistemático, é premeditado. Todos os “num” e “numa” que uso são insuportavelmente esquartejados em “em um” e “em uma”, como se essas contrações, presentes na língua há mil anos, fossem algum tipo de vício de linguagem. Me pergunto por que não fazem o mesmo com “nesse”, “nisso” ou com “no” e “na”: não seria lindo ver “em a”, “em o”, “em esse”? Não, seria um nojo! Por que essa perseguição estúpida ao “num”, “numa”? 
O mesmo acontece com o uso de “tinha” na formação do mais-que-perfeito composto: “tinha visto”, “tinha dito”, “tinha falado” são implacavelmente transfiguradas em “havia visto” etc., embora qualquer criancinha saiba que o verbo haver, no português brasileiro, é uma espécie em extinção, confinada a raríssimos ecossistemas textuais… Por que não fazem o mesmo com “tenho visto”, “tenho dito” e “tenho falado”? Já pensaram que vomitivo seria ler “hei visto”, “hei dito”, “hei falado”?
Por que não me deixam escrever “o fato do homem ser mortal” se até o conservador Evanildo Bechara já abonou e abençoou essa contração, visto que falar ou escrever de o é de uma artificialidade mais feia que novela de época?
E quando querem convencer o resto do universo de que existe alguma diferença entre este e esse? Uma diferença que a pesquisa linguística brasileira já mostrou que não existe há mais de um século! Ou que é preciso sempre distinguir onde e aonde (vão ler o Aurélio, por favor!).
É claro que o sintoma mais visível e gritante desse fundamentalismo retrógrado consciente é a putrefacta, abjeta, torva e torpe colocação pronominal. A próclise, isto é, o pronome antes do verbo principal, é veementemente combatida, enxovalhada, humilhada, ainda que ela seja a única regra natural de colocação dos pronomes oblíquos para nós. Isso já era afirmado em textos de João Ribeiro, em 1920! O combate é tão furibundo e insano que até mesmo onde a tradição gramatical exige a próclise ela é ignorada, e os livros saem com coisas como “não conheço-te”, “já formei-me”, “porque viram-nos”, esses filhotes teratológicos da hipercorreção. Isso para não mencionar a pré-cambriana mesóclise, que muitos desses necrófilos ainda acham que é uma opção de colocação pronominal, desprezando o fato de que se trata de um fenômeno gramatical morto e enterrado na língua dos brasileiros faz séculos (se é que jamais foi usada entre nós!).
Só me resta, então, apostrofar:
Senhoras revisoras e senhores revisores, deixem a gente escrever em português brasileiro, por favor! Consultem os seus calendários: estamos no século 21, e não nos brumosos anos de 1500! Consultem seus mapas: estamos no Brasil, e não em alguma esquina úmida e enevoada da (lindíssima) cidade do Porto! Vão estudar um pouco, um pouquinho só, larguem sua religião e pratiquem um pouco de ciência, saiam de sua redoma de vidro impermeável às mudanças da língua e venham aprender como se fala e se escreve o português do Brasil! Leiam alguns verbetes dos nossos melhores dicionários e aprendam que não tem nada de errado em escrever “assisti o filme” ou “deixa eu ver”, que a forma “entre eu e você” não é nenhum atentado contra a língua, nem muito menos “eu custo a crer”, que óculos é substantivo singular, que meia é advérbio flexionado etc. etc. etc.! Esqueçam o que dizem esses charlatães da gramática que não enxergam um palmo adiante do nariz tapado e dos olhos com viseiras! Compulsem o Houaiss, o Aurélio, o novíssimo Aulete! Leiam Luís Fernando Veríssimo, Fernanda Torres e Antônio Prata, nossos melhores prosadores na nossa melhor língua! Ouçam os apelos, que ecoam no tempo, de José de Alencar, Mário de Andrade, Monteiro Lobato e tantos outros que há tanto tempo pedem, suplicam, rogam, imploram: deixem eu falar e escrever na minha língua, na língua que é a única capaz de expressar meus sentimentos, emoções e ideias! Deixem eu ser brasileiro!”
Opiniões? Comentários? O que pensam a respeito?

O problema do “português decoreba” dos cursinhos…

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Acima, um tuiteiro tenta grosseiramente desqualificar uma estudante de medicina por ela supostamente não dominar a norma culta do português, por falar “para mim fazer”. O fato, porém, é que o “para mim fazer” na frase acima está perfeitamente correto. O usuário que tentou desqualificá-la é que, claramente, não entende de português mais que as “decorebas” de cursinhos, que são só o que ele sabe repetir, acriticamente, mesmo em situações erradas – como essa.

Já falamos aqui, em publicação anterior, do mal que têm feito à língua portuguesa os cursinhos para vestibular e para concursos, sempre em seu desespero por mastigar todas as matérias em “esqueminhas” que possam ser decorados sem nenhum esforço mental por qualquer um. O problema, é claro, é que tais formulinhas mágicas não existem para o português: é bem verdade, por exemplo, que, de modo geral, a língua tende a dar preferência a particípios longos com os verbos “ter” e “haver”, mas isso não pode ser assimilado como regra para todos os verbos, sob o risco de alunos sem senso crítico começarem a achar que “tinha ganho” ou “tinha imprimido” são erradas, quando, em certos casos, são a forma preferível; da mesma forma, é verdade que, na frase “Isso é para ___ fazer ou para ela fazer?”, o correto seria “eu”, não “mim” – mas esse é um caso diferente do caso da manchete acima, em que a construção usada (“Seria difícil para mim fazer medicina“) está absolutamente correta.

E, para quem acha que de fato há algum problema na frase, nem precisamos explicar por que não – no jornal Folha de S.Paulo, o próprio professor Pasquale já o fez (podem clicar para ver a explicação completa):

Na frase de Sheila, o que há é apenas o emprego dos termos na ordem indireta, o que faz o pronome “mim” encostar em “fazer”, o que, para os afoitos, já basta como prova do “erro”. Não há erro algum, caro leitor. Esse “mim” é “mim” mesmo, já que não está ligado ao verbo “fazer”, por isso não pode ser o seu sujeito. Esse “mim” está ligado ao adjetivo “difícil” (“tal coisa é difícil para alguém”). 

Vamos dispor os termos em outra ordem? Vamos lá: “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para mim”. E agora? Alguém se atreveria a trocar esse “mim” por “eu”? Algum dos nobres “especialistas” diria “Fazer um curso de medicina no Brasil com certeza seria muito difícil para eu”? Francamente…

Não há erro algum na frase da nossa futura médica. O erro está na prepotência, na ignorância e na arrogância dessa turba raivosa. É isso.

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Leia também: “Mulher piloto? Não; o feminino de piloto é pilota.”

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Leita também: “Tinha aceito ou tinha aceitado? O perigo do português de cursinho…”

Pimbolim, pebolim, totó e matraquilhos: vários nomes do futebol de mesa

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Uma invenção europeia (como o próprio futebol), o futebol de mesa é invenção disputada por várias nacionalidades.

Nos EUA, é conhecido como foosball – adaptação de Fußball, palavra alemã para futebol (o de verdade, não o de mesa), o que reflete o fato de o jogo de mesa ter sido recebido no país como invenção dos alemães.

Os espanhóis, porém, consideram o que chamam futbolín uma invenção sua (o futbolín espanhol diferencia-se da maioria das variantes internacionais apenas por ter o campo abaulado para baixo, impedindo que a bola fique parada, e pelos bonecos dos jogadores, que têm as pernas abertas).

É muito provavelmente o termo futbolín que terá influenciado a criação, no Brasil, dos nomes pebolim e pimbolim – que ocorrem principalmente na porção meridional do país, em oposição à outra metade do País (Rio de Janeiro, Espírito Santo, maior parte de Minas Gerais e Regiões Norte e Nordeste), onde o futebol de mesa é chamado totó (nome de provável origem onomatopeica, ou derivada de “toque-toque”).

Pebolim, forma usada sobretudo em São Paulo, no Paraná e no sul de Minas Gerais, terá possivelmente por origem uma decisão, motivada por purismo linguístico, de “tradução” popular do nome do jogo tão popular na Espanha: algum brasileiro terá querido traduzir o “fut” de “futbolín” (do inglês foot) por “pé”, gerando “pé”+”bolim” = “pebolim”.

Já no caso do pimbolim, é clara a origem expressiva da primeira sílaba (e sua associação com o vocábulo pimba).

Os dicionários brasileiros, porém, não registram ainda a forma pimbolim – apesar de ser esta a forma mais utilizada em todo o estado do Rio Grande do Sul, em todo o estado de Santa Catarina, em parte significativa do Paraná – embora registrem o “pebolim” dos paulistanos como sinônimo de “totó” – o que não surpreende, dado o conhecido “foco” nos dialetos do Rio de Janeiro e da capital de São Paulo das principais editoras brasileiras. Não deixa de ser curioso, porém, que sequer o significado de “pimba” como chute conste ainda do Houaiss ou do Aurélio  mesmo tantos anos após a popularização nacional de expressões como “pimba na gorduchinha“.

[Atualização: Logo após esta publicação aqui no www.DicionarioeGramatica.com, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa adicionou a palavra pimbolim, como sinônima de pebolim, totó e matraquilhos.]

pimbolim, forma correta, coerente e bem registrada e documentada há décadas, ganhou destaque recentemente em Portugal, onde, em popular comercial de televisão, o ex-treinador de ambas as seleções nacionais Luiz Felipe Scolari, o Felipão, “ensina” aos portugueses algumas palavras de português brasileiro: aeromoça, por aqui, é a profissão que os portugueses chamam “hospedeira; açougue é talho; trem é comboio; e pimbolim é matraquilhos“.

Em que pese sua ausência do Houaiss ou do Aurélio, há, sem dúvida, vasta gama de “fontes” que atestam o uso de pimbolim, nessa forma, há décadas, e como variante conhecida não apenas no Sul do Brasil, mas também em São Paulo e no Rio de Janeiro. Deixo, a seguir, algumas das várias fontes que atestam a palavra, na esperança de facilitar a vida de nossos lexicógrafos profissionais:

 

Atualização: O trabalho acima não foi em vão; logo após esta publicação, o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa adicionou a palavra pimbolim como sinônimo de pebolim, totó e matraquilhos.