“Eta”, não “êta”: nunca meta acento em “eta”

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Um desserviço da Rede Globo: nas chamadas da próxima novela das 18 horas, a Globo revela o nome da próxima novela… com dois erros de português. Além da falta da obrigatória vírgula (o certo seria “Eta, mundo bom!”), colocaram um acento errado na interjeição “eta”, que está dicionarizada, no Aurélio e no Houaiss, sem acento, como “interjeição que exprime alegria, incitamento, surpresa ou espanto”. Até no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras a interjeição “eta” aparece, sem acento. Ainda que não estivesse dicionarizada, é óbvio que jamais poderia levar esse vergonhoso acento circunflexo no “e”: palavras paroxítonas terminadas em “a” não são acentuadas: lambreta, xereta, baqueta, teta.

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Há quem ache que interjeições não têm uma escrita “certa”, e que, por não serem “palavras de verdade”, vale tudo na hora de escrevê-las. Não é o caso – como já mostramos, até a interjeição “hem?” (que muitos grafam hein, ou, pior, hen, em, ein...) tem grafia consagrada até no Acordo Ortográfico em vigor. O mesmo é o caso de “eta”, que, mesmo sendo uma interjeição expressiva, está até em dicionários – e, mesmo que não estivesse: interjeição ou não, palavra inventada ou não, toda palavra da língua tem de seguir as regras ortográficas – e “eta” simplesmente não pode levar acento. Errou feio, Rede Globo – e, pior: o erro vai se disseminar, com várias outras grafias erradas se sentindo “legitimadas” pelo acento desnecessário colocado pela Globo.

Atualização: a Rede Globo nos surpreendeu – após tantos alertar, a emissora teve a humildade de se corrigir: na estreia da novela, o nome e o logotipo da novela apareceram corrigidos – comparem as duas versões:

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Como se escreve “hein”? Qual a grafia de “hem”? Hem? Em? Êim? Heim? Ein? Hein?

Sabe aquela silabazinha colocada no final de uma frase para reforçar uma pergunta? Aquela, do “Que bonito, hein?”, ou “Tá podendo, hein?”. Usadas sobretudo na linguagem oral, não raro a vemos escrita, na Internet, das mais variadas formas: “Que bonito, hem?”, “Tá podendo, em?”, “heim”, “ein”, “en”, etc. Mas, afinal, existe um jeito certo de escrever esse “eim” usado como pergunta?

Resposta: O jeito certo de escrever o som que se coloca ao final de uma pergunta é “hem” – forma que se encontra em dicionários, gramáticas e é inclusive, oficializada no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Os dicionários, atualmente, admitem também a alternativa popular “hein” – mas frisam que a forma correta é mesmo “hem”. É incorreto o uso de qualquer outra forma: não se deve escrever heimhenehneim, ou em.

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Sim, por incrível que pareça, também as interjeições costumam ter uma grafia correta, ou oficial. No caso da silabazinha que se coloca após uma pergunta para reforçá-la, pronunciada “êim” ou “êin” (um “ei” com final nasalizado), os dicionários e gramáticas tradicionais já desde sempre determinaram que a escrita correta é “hem”.

E por que “hem” e não “hein”, “heim”, etc? Pela simples razão de que esse som, o de “-êim” ou “-êin” nasalizado final, deve ser escrito (é uma regra da ortografia em português) como “-em” (em palavras com mais de uma sílaba, “-ém”). Basta pensar na palavra “vem”, que rima com esse “hein”. Ou em “trem”, “bem”, ou “também” (que se pronuncia “tam-bein”, correto?).

Como um parêntese, essa é, por exemplo, a mesmíssima regra ortográfica pela qual o país cujo nome é pronunciado Barein ou Bahrein em português é e sempre foi tradicionalmente escrito Barém (única grafia aceita pelo Vocabulário Onomástico – o que inclui as formas corretas de grafar nomes de países e cidades – da Academia Brasileira de Letras, bem como pelo Vocabulário Ortográfico do Instituto da Língua Portuguesa, pelo Vocabulário Ortográfico Comum dos Países da Comunidade dos Países da Língua Portuguesa, etc.).

Mas voltando ao “hem”, que não deve portanto ser escrito “hein”: a palavra “hem” está inclusive nos Dicionários e no próprio Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras. Já na primeiríssima edição do Aurélio, lá estava a palavra: hem, interjeição, que “denota não haver a pessoa entendido bem o que lhe falaram, ou ter ficado indignada ou surpresa com o que ouviu; pode equivaler também a ‘não é verdade?’.

É “hem” a grafia usada pelos autores brasileiros clássicos. É, ainda, a forma recomendada pelas gramáticas tradicionais – que condenavam o uso, já há décadas evidente, da escrita “hein”, que consideram ser ou influência do francês, ou simples escrita errada influenciada pela pronúncia.

A primeira edição do dicionário Aurélio sequer registrava a variante popular “hein”. Nas versões atuais do dicionário, assim como na versão atual do Houaiss, a grafia “hein” foi incluída, mas ambos os dicionários a remetem para a forma oficial, “hem”.

Para sedimentar qualquer dúvida, porém (e não porêin), o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, para além de todas as regras mais conhecidas de todos, eliminou definitivamente qualquer dúvida que poderia haver quanto à grafia da interjeição em questão; o Acordo Ortográfico traz, especificamente, exemplos de interjeições escritas com a letra “h”: hã?, hem?, hum!.

Se já não bastassem as recomendações expressas de dicionários e gramáticas desde o século passado, o próprio Acordo Ortográfico definiu a questão, confirmando a grafia hem.