Expresso ou espresso? O certo é espresso ou expresso?

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O café é espresso ou expresso? Nos cardápios de cafeterias, é normal encontrar duas grafias diferentes para o tipo de café preparado individualmente sob pressão em máquina elétrica, servido numa xícara pequena – espresso e expresso. Qual forma está correta?

Basicamente, a resposta é que ambas as palavras existem: espresso é a grafia original, em italiano, enquanto expresso é a palavra em português.

Para descrever um navio ou um trem rápido, em português, a única grafia correta é com “x”: expresso.

Já em cafeterias, é normal encontrar a grafia italiana (espresso), usada internacionalmente, do mesmo modo que se usam nesses ambientes várias outras palavras estrangeiras: cappuccino, frappuccino, mocha, macchiatocroissant

Em outras palavras, a diferença entre espresso e expresso é a mesma que entre croissant ou croassã, ou entre crêpe (em francês) e crepe (em português), ou entre hot-dog e cachorro-quente, ou entre mozzarella (em italiano) e mozarela/muçarela (formas aportuguesadas).

Em italiano, espresso é o particípio de esprimere, verbo que pode significar tanto “espremer” quanto “expressar”, de modo que “espresso“, em italiano, pode significar tanto espremido quanto exprimido, expressado ou expresso. Os italianos batizaram esse tipo de café de espresso justamente por ser ele feito sob pressão, sendo espremido/pressurizado em sua elaboração.

Há quem defenda exclusivamente o uso da grafia italiana (“espresso“) sob o argumento de que a palavra portuguesa “expresso” tem outro significado, o de feito rapidamente, às pressas. Embora a palavra portuguesa de fato tenha também esse sentido, a verdade é que, como muitas palavras, expresso tem vários significados distintos em português, e um deles (incluído em dicionários brasileiros, como o Houaiss, e portugueses, como o Priberam) é justamente o de café feito sob pressão.

Ou seja: tanto é correto chamar o café de expresso (forma aportuguesada) quanto usar a forma original (italiana) “espressoÉ questão de gosto.

Mezanino (não mesanino) não tem nada a ver com mesa

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Mesaninomezanino ou mezzanino? Há quem escreva “mesanino”, por analogia com mesa, mas a palavra não tem nenhuma relação com mesa: o certo, em português, é mezanino, forma já aportuguesada do italiano mezzanino. 

Um mezanino é um andar intermediário, um meio andar, situado entre dois pavimentos principais. Também se chama mezanino, por exemplo, às primeiras fileiras de camarotes na plateia de um teatro, logo acima do palco. A palavra italiana mezzanino é o diminutivo de mezzano, “mediano”, “intermediário”.

“Bruschetta”, em português: brusqueta

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O Google nos dá mais de 120 mil ocorrências, em português, da palavra brusqueta – aperitivo italiano que consiste numa fatia de pão grelhada temperada com alho, azeite, pimenta e que geralmente leva coberturas adicionais como tomate.

Em italiano, escreve-se bruschetta  – a pronúncia, lá como cá, é “brus-ke-ta” – o “ch” em italiano tem sempre o som do nosso “qu“. Nada mais natural, portanto, que o aportuguesamento brusqueta – que, embora ainda ausente dos dicionários, já tem mais uso em português do que boa parte das palavras contidas nos nossos vocabulários.

Em italiano, o plural é bruschette – as palavras terminadas em “a” fazem o plural em “e” em italiano. Com a palavra devidamente aportuguesada, o plural, naturalmente, segue as regras do português: a brusqueta, as brusquetas.

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Depois de Gandulla, apanha-bolas virou gandula

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No Brasil, como sabe todo mundo desde criancinha, a pessoa que busca as bolas chutadas para fora do campo de futebol tem um nome específico: é o gandula. O que não muitos sabem é que essa é uma palavra relativamente recente, usada apenas no Brasil, e derivada de um nome próprio: veio do nome deste simpático rapaz aqui acima: o jogador argentino Bernardo Gandulla, famoso goleador da década de 1940 do Boca Juniors, de Buenos Aires.

O substantivo “gandula” não existe, porém, em espanhol – na Argentina, quem busca bolas é chamado “recogepelotas” – o que dá no mesmo que “apanha-bolas”, como até hoje são chamados os gandulas em Portugal. Foi durante uma breve passada do jogador pelo Brasil, contratado pelo Vasco da Gama, que o apelido foi criado: assim que Gandulla regressou ao Boca após poucos meses jogando no Brasil, os demais jogadores precisavam perguntar-se “quem ia dar uma de Gandulla” – isto é, quem iria buscar as bolas que saíssem do campo – atividade em que o argentino se “destacara”, sempre correndo para recolhê-las.

Quem fala espanhol pode estar se perguntando: se Gandulla era argentino, como que a pronúncia desse nome, com dois “ll”, deu “gandula”? De fato, dois “ll” em espanhol não têm o som do nosso “l”: se fosse palavra espanhola, gandulla seria pronunciado *gandulha, *ganduia, *gandudja ou *ganduja, a depender do sotaque – e viraria *ganduxa, na pronúncia típica de Buenos Aires. Mas o sobrenome de Gandulla era italiano (como tantos outros na Argentina), razão pela qual a pronúncia, em espanhol e em português, era mesmo a de “gandula“, que os brasileiros eternizamos, levando para os dicionários.

O nome Agnelo se pronuncia (ou se deveria pronunciar) Anhelo? Não, não deveria.

Um leitor pergunta se o nome do ex-Governador de Brasília, Agnelo Queiroz, não deveria ser pronunciado “Anhélo” ou Anhêlo”, com som de “nh”. A resposta é: não, não deveria; Agnelo se pronuncia mesmo Ag-né-lo (ou A-g-né-lo).

Agnelo como primeiro nome é um tradicional nome português, no qual o “g” e o “n” são mesmo fonemas completamente distintos, pronunciados cada um separadamente: Ag-ne-lo; como em dig-no, Mag-no. Livros de “pronúncia correta” do início do século passada já batiam na tecla de que Agnelo é nome português, sem relação com o italiano ou o francês, e que é portanto à portuguesa que deve ser sempre pronunciado.

É nas línguas italiana e francesa que o dígrafo “gn” tem um som específico, correspondente ao do “nh” português (que é o mesmo da letra ñ espanhola). Assim, pronuncia-se como o nosso “nh” o “gn” de palavras italianas como gnocchi (nome da massa aportuguesada como nhoque) e de palavras francesas como “mignon“, “champignon” e “champagne“.

Em português, porém, “gn” é sempre “gn”. Por essa razão, nas palavras já aportuguesadas em que se deseja manter o som original, o “gn” do italiano e do francês aparece substituído pelo nosso “nh”: nhoque, champanhe.

A confusão do leitor pode vir ainda do fato de existir também o sobrenome Agnello, italiano – este sim pronunciado “Anhélo”. As duas palavras não têm relação, porém – Agnelo, como já dito, é um primeiro nome tradicional português; e Agnello é um nome de família italiano, que significa “cordeiro” naquela língua. Também existe o sobrenome italiano Agnelli, também com som de “nh” (Anhéli), que significa “cordeiros” (o plural dos nomes masculinos em italiano é geralmente com o final “i”).