Baleia-branca: comparando dicionários

beluga

O Houaiss é de longe o melhor e mais completo dos dicionários da língua portuguesa atualmente à venda. Isso não significa, porém, que o dicionário Houaiss não tenha erros – o Houaiss tem erros, e muitos. Já mostramos vários deles aqui (clique aqui para recordar alguns). Tudo bem; não há dicionário sem erros.

Um exemplo mais de erro no Houaiss é a definição de baleia-branca. Para o Aurélio, é simples: baleia-branca é um sinônimo de beluga, o animal da foto acima. Como se vê na foto, o nome faz sentido.

É o mesmo que diz o dicionário Michaelis – baleia-branca é beluga.

A portuguesa Porto Editora  diz que baleia-branca é o mesmo que “beluca” (grafia questionável, por, além de não ter uso em português se comparada a beluga, tampouco é um aportuguesamento preciso do russo, já que, embora usualmente transcrita por “kh”, a última consoante nada tem a ver com “k” ou “c” – em russo, a palavra soa mais próxima de belurra, com rr de Lisboa e do Rio de Janeiro).

Ademais, o dicionário da Porto Editora traz erro nesse e em todos os verbetes que tratam de animais, por trazer os nomes de famílias (no caso da beluga, “Delfinídeos”) com inicial maiúscula, o que contraria o Acordo Ortográfico, que não prevê maiúsculas nesses casos.

O também português dicionário Priberam não erra (nem acerta), já que nem mesmo traz o verbete baleia-branca. [Nota: após esta publicação, o Priberam adicionou o verbete baleia-branca.]

E o Houaiss, embora seja nosso melhor dicionário, erra na palavra. Dá, como primeiro sentido de baleia-branca:

baleia da fam. dos balenídeos (Balaena mysticetus), que ocorre nas águas frias do hemisfério norte [Espécie ameaçada de extinção.]”

O problema é que ninguém chama a espécie Balaena mysticetus de baleia-branca, e por uma muito boa razão:

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…a Balaena mysticetus é preta, e não branca. Só mais um pequeno lapso do Houaiss.

“Siderólito”: comparando dicionários

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Topei hoje com uma palavra que desconhecia: siderólito. Significa, simplesmente, um meteorito (aproximadamente) metade de pedra, metade de metal. Isso o diferencia da maioria dos meteoritos, que são ou apenas de pedra, ou apenas de metal.

Decidi então verificar como se saíam nossos grandes dicionários brasileiros e portugueses na definição dessa palavrinha não muito usual.

Dicionário Houaiss descreve um siderólito como um “meteorito relativamente raro, que contém grandes proporções, e aprox. iguais, de ferro, níquel e silicatos“. Ora, essa definição está obviamente errada. Da maneira que está escrita, a única compreensão possível seria a de que um siderólito tem cerca de 33,3% de ferro, 33,3% de níquel e 33,3 % de silicatos (minerais). Errado.

O Dicionário Aurélio diz que é um “Aerólito com grande proporção de minérios de ferro e de níquel, afora outros corpos não metálicos“. Não chega a ser errado, mas é impreciso.

O novíssimo Dicionário Michaelis é, basicamente, uma grande paráfrase gratuita do Houaiss, que fez questão de copiar todos os erros do Houaiss, como teremos oportunidade de ver em muitos outros exemplos. Nesse caso, não faz por menos: copiou a definição errada do Houaiss: “Tipo de meteorito que contém proporções praticamente iguais de ferro, níquel e silicato“.

As cópias pura e simples do Houaiss feitas pelo novo Michaelis ficam sempre mais evidentes quando se compara uma palavra no novo Michaelis com a mesma palavra no antigo Michaelis, cujo conteúdo ainda pode ser acessado neste endereço.

Como se pode ver, o Michaelis original definia siderólito como um “Aerólito rico em minérios de ferro” – não era uma definição perfeita, mas ao menos estava correta. Ou seja, jogaram fora algo certo para copiar o errado do Houaiss.

A Academia de Lisboa (a homóloga portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras) desconhece a palavra. O Dicionário Priberam também nunca ouviu falar.

O Dicionário Aulete diz que um siderólito é o mesmo que “minério de ferro“. Não era o caso.

A portuguesa Porto Editora diz que um siderólito é um “tipo de meteorito em que os elementos metálicos (ferro) e os líticos (silicatos) entram em proporções quase iguais“. Bingo! Temos um vencedor!

Dicionrio-Ilustrado-da-Academia-Bras-de-Letras-Edio-20150127164911O Dicionário Estraviz, da Galiza, traz quase a mesma definição.

É especialmente notável que no grande dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto da versão ilustrada aqui ao lado), de autoria do genial Antenor Nascentes, já vinha, corretamente, na edição de 1977: “meteorito com 50% de metal em sua composição”. É impressionante que uma obra já com quase meio século de idade e que nunca se popularizou seja até hoje mais completa e precisa do que quase todos os dicionários modernos. Infelizmente, o grande dicionário da ABL não é reeditado desde 1988.

“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Chuchumeca, em Macau: fofoqueiro, coscuvilheiro, noveleiro, mexeriqueiro

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Uma palavra bastante típica do português de Macau é chuchumeca, que significa fofoqueiro (como dizemos no Brasil) ou, como dizem em Portugal, coscuvilheiro.

Outro sinônimo usado em Macau (e também em Portugal) para quem gosta de falar da vida dos outros é noveleiro.

Em Macau, existe até o verbo, chuchumecar – presente em muitos textos escritos em Macau, sempre com o significado de falar da vida dos outros, fofocar, mexericar – e não, como ensina, errado, o Houaiss, como “murmurar” nem como “reclamar“.

O significado de cricri (cri-cri): perfeccionista, minucioso, chato

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No Brasil se usa muito a expressão cricri para se referir a uma pessoa demasiadamente detalhista, excessivamente criteriosa, exigente demais.

Parece óbvia a origem do termo: uma pessoa cricri é aquela que, por detalhes, fica incomodando, perturbando – como um grilo a cricrilar. Sempre me pareceu óbvia essa origem, que é também a defendida no Dicionário Brasileiro de Insultos.hqdefault

Mas o Houaiss traz outra etimologia – que, de tão absurda, parece piada. De acordo com o nosso maior dicionário, uma pessoa cricri (que o Houaiss, e ninguém mais, escreve cri-cri) seria alguém “que só fala de coisas sem nenhum interesse” e a expressão viria do fato de algumas dessas pessoas só falarem de “crianças e criados“. “Cricri” (ou “cri-cri”), segundo essa teoria, seria uma redução de “crianças + criados”.

É, obviamente, uma viagem completa.

Voltando no tempo, descobre-se que a teoria de Houaiss, além de pouco crível, sequer é original. Na primeira edição do Aurélio, lia-se que uma pessoa cricri era uma pessoa maçante, e só; na segunda edição, Aurélio alterou o verbete para incluir a história do “crianças + criados“. O Houaiss copiou-a acriticamente. É difícil saber qual dos dois fez pior.

A palavra cricri, usada em abundância em notícias, tuítes, crônicas e romances, é bem definida pelo Dicionário Michaelis de Gírias: “pessoa exageradamente perfeccionista, detalhista ao extrema“. Uma variante da gíria, bem lembrada pelo Michaelis, é crica.

Boa nova (notícia boa) não tem hífen; “boa-nova”, com hífen, é inseto

dsc00646A borboleta da foto acima é uma boa-nova. Já uma boa notícia é, obrigatoriamente, uma boa nova, sem hífen.

Alguém consultou se “boa nova”, no sentido de “boa notícia”, levaria hífen. É claro que não. Como já explicamos dezenas de vezes, hífen não é enfeite – só se usa quando necessário. “Bom senso” significa literalmente um sentido (senso) bom. Por isso não leva hífen. Uma “greve geral” é literalmente uma greve que é geral. Por isso não leva hífen. E uma “nova”, de acordo com qualquer dicionário, é o mesmo que “notícia” – de modo que uma “boa nova” é literalmente uma “boa notícia”. Colocar hífen nesse caso não é apenas desnecessário – é errado.

Mas, se alguém for ao Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, lá encontrará boa-nova, com hífen. Por quê? Simples razão: por que boa-nova é também o nome de uma borboleta – e todos os nomes de espécies de animais e plantas levam hifens (em muitos casos, justamente para diferenciá-los de composições vocabulares comuns). O Acordo Ortográfico de 1945, aliás, usava justamente esse termo entre os exemplos de encadeamentos em que o hífen era obrigatório: “boa-nova (inseto)”.

Sim, no texto do Acordo está explícito: boa-nova, com hífen, é o inseto.

Mas alguém na equipe que faz o dicionário Houaiss entendeu errado, viu boa-nova no VOLP e passou a supor que “boa nova”, no sentido de “boa notícia”, tem hífen. E aí, como em tantos outros casos, os vários dicionários que copiam cegamente o Houaiss por considerá-lo melhor do que é copiaram burramente mais esse erro do Houaiss.

O excelente Dicionário Aurélio e os bons dicionários portugueses da Porto Editora, que são das únicas obras que não copiam o Houaiss, ensinam corretamente: uma boa notícia é uma boa nova. Sem hífen. Boa-nova, com hífen, é, como ensinam esses dicionários, ou o excelente Dicionário da Academia Brasileira de Letras, ou a versão original do Aulete: “qualquer pequena borboleta branca, tida como anunciadora de boas notícias“.

Colocar hífen em boa-nova (em seu sentido literal) é o mesmo que escrever “boas-notícias” ou “boa-notícia”: um erro.

Em português, o correto é czar (e não *tzar nem *tsar)

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Czar é a grafia tradicional, em português, para o título do antigo imperador da Rússia, e é a grafia que deve ser usada atualmente nos vários usos que a palavra adquiriu, sobretudo em sentidos figurados.

Czar, com “c” inicial, é a forma preferida por todos os dicionários portugueses e por todos os dicionários brasileiros com exceção do Houaiss, como veremos. Todos registram também a variante tzar, que imita a pronúncia russa da palavra.

O Dicionário Houaiss é o único que recomenda a forma “tsar” – uma das transliterações inglesas da palavra (embora também em inglês a forma mais usual seja czar), mas que sequer existe no Aurélio ou nos demais dicionários e que nunca teve uso em português.

Embora grafias como *tsar ou *tçar de fato representem melhor a pronúncia russa da palavra, a palavra portuguesa, desde sempre, foi czar, forma também usada em outras línguas ocidentais, baseada na escrita, mas que, ademais, tem a vantagem de remeter mais claramente à palavra que deu origem a “czar”: o nome romano César.

As formas tradicionais em português são mesmo czar (no plural: czares; no feminino: czarina). “Tzar” é uma variante menos usada de “czar”, mais próxima da pronúncia russa. E “tsar” é a variante em inglês – e, em português, apenas mais um dos muitos erros do Dicionário Houaiss.