Cunilíngua (‘cunilingus’) e cunete são coisas diferentes

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Um leitor diz-se surpreso por ter apenas agora descoberto que cunilíngua (ou o seu equivalente em latim, também usado em inglês, cunilingus) se refere à prática do sexo oral na genitália feminina, e não no ânus, como sempre pensara.

Cunilíngua = língua no cu”, pensava ele. Faria sentido, mas a etimologia explica: o prefixo “cuni” de cunilingus não se referia o moderno “cu” (ânus); em latim, cunnus significava vulva, as partes externas da genitália feminina. É dessa palavra latina que surgiram as formas atuais conocona, que caíram em desuso no Brasil, mas que ainda significam vulva, como os dicionários podem atestar. Seus cognatos em espanhol (coño) e em italiano (conno) ainda são bastante usados para se referir à genitália feminina. Em Portugal e na Galiza, também ainda se usam cona e cono com esse sentido.

Para se referir à estimulação oral do ânus há outra palavra, muito mais recente – esta sim formada diretamente do elemento vulgar moderno “cu“: cunete, substantivo masculino, é um nome para a prática de estímulo oral no ânus.

Outros sinônimos para cunete (estimulação oral do ânus) são carocha e, em Portugal, botão de rosa (tradução do nome da prática em francês, fleur de rose).

Já um sinônimo de cunilíngua (estimulação oral da vulva), em Portugal, é minete – aportuguesamento do francês minet, que significa “gatinho”, provavelmente em referência ao uso da língua que fazem esses animais.

O acento de oxímoro: mais um erro do Houaiss

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Na televisão, um político diz que o tal “golpe legislativo” que, alardeiam setores do governo, estaria em curso no Brasil seria um perfeito oxímoro.

Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado”. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.”

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. O próprio Houaiss explica, porém, que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona – que é a única forma que se ouve nas faculdades de letras e outros círculos em que de fato se usa a palavra.

Não só eles – o Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, também só traz “oxímoro”, acentuada – que também é a única palavra que consta dos dicionários feitos por Aurélio em vida (como se vê na primeira e na segunda edições do “Aurelião”).

E por falar em contradições (nem todas as quais são oxímoros), uma contradição (que não chega a ser um oxímoro) é justamente o fato de o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra justificaria uma pronúncia proparoxítona – de longe a pronúncia mais corrente -, mas mesmo assim não registrar a forma com acento. Ou talvez seja simplesmente um erro.

O Dicionário Aulete, salomônico, registra ambas numa só entrada:

oxímoro, oximoro

1. Ret. Figura em que se combinam palavras contraditórias, mas que no contexto reforçam uma ideia (p.ex.: O mito é o nada e é o tudo, Fernando Pessoa, Ulisses, in Mensagem); “(…) conspiração conservadora é um oximoro, minha outra palavra difícil do mês.” (Luis Fernando Verissimo, in O Globo, 04.08.05); PAROXISMO

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Feminicídio, deicídio, fordicídio e os vários tipos de assassinato

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Hoje, Dia Internacional da Mulher, completa um ano a promulgação, no Brasil, da lei do feminicídio, que transformou em crime hediondo no país o assassinato de mulher(es) por motivação diretamente relacionada ao seu gênero.

Anos atrás, o presidente Hugo Chávez veio várias vezes a público para denunciar o que seriam planos de oposicionistas de concretizar um magnicídio – o “assassinato de uma pessoa ilustre” – palavra que, embora muitos tenham achado ser uma invencionice do venezuelano, em português até o Dicionário de Caldas Aulete original já registrava (ver aqui).

Embora não registre ainda feminicídio – e aquele que o comete, o feminicida -, o Aurélio registra, além dos óbvios suicídio e homicídio, também os seguintes tipos de assassinato:

  • bispicídio: assassinato de bispo
  • deicídio: assassinato de um deus
  • filicídio: ato de matar o próprio filho
  • gnaticídio: ato de matar o próprio filho (forma menos usada de filicídio)
  • fordicídio: ato de matar uma vaca prenha
  • formicídio: ato de matar formigas
  • fratricídio: ato de matar o próprio irmão
  • gaticídio: ato de mator gato(s)
  • infanticídio: ato de matar criança(s)
  • mariticídio: ato de matar o próprio marido
  • matricídio: ato de matar a própria mãe
  • parricídio: ato de matar o pai, a mãe ou qualquer dos ascendentes
  • regicídio: ato de matar rei ou rainha
  • sororicídio: ato de matar a própria irmã
  • tiranicídio: assassinato de um tirano
  • uxoricídio: ato de matar a própria esposa

Exequátur e maiúsculas em Cônsul e Embaixador

Sem título

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informa que o governo “concedeu exequatur ao Embaixador Dori Goren para exercer a função de Cônsul-Geral de Israel em São Paulo”. A notícia vem apenas semanas após a notícia de que o governo brasileiro não concedeu agrément para o diplomata indicado por Israel para exercer a função de Embaixador de Israel no Brasil.

exequatur – que melhor se escreve exequátur, por já ser palavra aportuguesada, constante do Dicionário Priberam – é, na diplomacia e nas relações internacionais, o beneplácito (isto é, a anuência, a concordância) pelo qual um governo autoriza que um cônsul estrangeiro atue no país. Só se fala em exequátur no caso de cônsules; no caso de embaixadores, o instrumento homólogo é o agrément (do francês “concordância” – este, sim, sem aportuguesamento).

E a chancelaria brasileira acertou ou errou ao escrever “Cônsul-Geral” e “Embaixador” em maiúsculas? Como explicamos anteriormente (na publicação “Inicial maiúscula em cargos: escreve-se papa ou Papa? O presidente ou o Presidente? A embaixada ou a Embaixada?“, que pode ser lida aqui), o novo Acordo Ortográfico (ao contrário do anterior, que mandava escrever em maiúsculas os nomes dos “altos cargos”) manda escrever com minúsculas os nomes de todos os cargos, altos ou não. O texto legal manteve, entretanto, uma brecha: autorizou o uso, opcionalmente, de iniciais maiúsculas “em palavras usadas reverencialmente, aulicamente ou hierarquicamente”.

(“Áulico”, de “aulicamente”, tem por sentido original “cortesão; relativo a uma corte”, mas, como aponta Houaiss, adquiriu modernamente o significado de “bajulador”.)

Em outras palavras, o novo Acordo Ortográfico deixa à opção de quem escreve decidir se quer escrever “o embaixador Dori Goren” ou “o Embaixador Dori Goren”, o “o cônsul-geral de Israel” ou “o Cônsul-Geral de Israel”, etc.

 

O certo é “statu quo”, não “status quo”

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A expressão latina statu quo significa “o estado atual das coisas”, “a situação em que as coisas se encontram”. Na expressão original em latim, a primeira das duas palavra escreve-se “statu“. Por influência da palavra “status“, porém, a expressão acabou se popularizando como “status quo” nos países de língua inglesa. Essa forma, porém, é incorreta: a Academia Brasileira de Letras, assim como todos os dicionaristas portugueses (e a Real Academia Espanhola e a Academia Francesa de Letras) mandam escrever statu quo, sem o “s” final.

É usada em expressões como: “manter o statu quo” (manter as coisas como elas estão; não mudar nada), “preservar o statu quo” (mesmo sentido), “defender o statu quo“, etc., ou, em sentido contrário: “mudar o statu quo” (revolucionar; mudar o estado atual; mudar a situação atual), “alterar o statu quo“, “estremecer o statu quo“.

Popularizou-se pela expressão usada na diplomacia do pós-guerra: in statu quo ante bellum – finda a guerra, as fronteiras deviam voltar exatamente ao  “estado em que as coisas estavam antes da guerra”.

Os dicionários Aulete (ver aqui), Priberam, Porto e os da Academia Brasileira de Letras somente registram a forma correta, statu quo. O dicionário Houaiss traz também a popular status quo, mas remete-a para a correta statu quo, em que explica que a versão deturpada se popularizou por meio do inglês. Mesmo as demais língua neolatinas, porém (como o italiano, o espanhol e o francês) são taxativas: a forma correta é statu quo.

Nem superavit, nem superávit: em português é superávite

Uma economia que arrecada mais do que gasta (ou exporta mais do que importa) terá um superávite – aportuguesamento do latim superavit. 

Alertada poucas semanas atrás pela equipe do DicionarioeGramatica.com, a diligente equipe do Dicionário Priberam acolheu oficialmente o substantivo superávite (SUPERÁVITE: Excesso das receitas sobre as despesasDÉFICE).

Quase todas as línguas ocidentais usam essa palavra latina (superavit, pronunciada superávit), assim como seu antônimo, deficit (pronunciada déficit).

Para indicar corretamente a sílabas tônicas e evitar leituras incorretas, autores brasileiros tradicionalmente acentuavam ambas as palavras (“déficit” e “superávit”), apesar da inexistência de regra gramatical que autorizasse esse acento (até porque, a bem da verdade, o sistema ortográfico da língua sequer contempla a possibilidade de palavras portuguesas terminarem em “-t”).

Pelo fato de os acentos de “déficit” e “superávit” não encontrarem abrigo à luz do novo Acordo Ortográfico, a Academia Brasileira de Letras (ABL), que até 2009 registrava “déficit” e “superávit”, ambas acentuadas, excluiu ambos os termos de suas obras publicadas após a entrada em vigor da nova ortografia. Deficit e superavit, sem acentos, foram deslocados para o apêndice dos estrangeirismos não adaptados (junto com marketing, shopping, etc.). A ABL, porém, incluiu em seu Vocabulário o substantivo défice, aportuguesamento de deficit usado há anos em Portugal.

Curioso foi o fato de a  Academia brasileira ter acatado a forma “défice”, mas não ter igualmente proposto o óbvio aportuguesamento para “superavit“: “superávite”.

Se a Academia Brasileira de Letras não o fez, a sua homóloga portuguesa o fez: em seu Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, de 2012, a Academia das Ciências de Lisboa incluiu a forma superávite, substantivo masculino, como nova palavra da língua portuguesa.

Alertada poucas semanas atrás pela equipe do DicionarioeGramatica.com, a diligente equipe do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa acolheu oficialmente o substantivo superávite – no que, espera-se, deverá muito em breve ser seguido pelos outros bons dicionários brasileiros e portugueses.

Quórum: em português, com acento (quórum, não quorum)

A reunião foi adiada por falta de quórum – com acento. Vem da palavra em latim “quorum“, que significava “número mínimo necessário”. Em português, leva obrigatoriamente acento,  por ser paroxítona terminada em “-um”:  o quórum. É o mesmo caso de fórum, álbum, etc. Está assim, com acento, nos principais dicionários, como o Aurélio, o novo Houaiss, o Aulete e o Priberam. Eis a definição de quórum no Dicionário Aurélio:

quórum
[Do lat. quorum, ‘(o número) dos quais (é necessário)’.]
Substantivo masculino.

1. 
Número mínimo de pessoas presentes exigido por lei ou estatuto para que um órgão coletivo funcione.

O plural em português, raramente usado, é quóruns, também com acento agudo obrigatório.