A expressão “no aguardo” está correta? Existe “aguardo”? (Claro que sim.)

“Ficar no aguardo” e “estar no aguardo” são expressões corretas, existentes em português desde o século retrasado e autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos da nossa língua.

Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo os quais a expressão “no aguardonão existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português desde o século retrasado e é corretíssima.

Veja-se, por exemplo, já a primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete, o da Porto Editora, etc.) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas que é “apenas” um “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecia no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no dicionário do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Dicionário Aulete, versão portuguesa

O  mesmo já se via, aliás, no dicionário de Moraes:

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Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc.

Em conclusão: é correto e antiga em português o substantivo aguardo, em português, com o sentido de espera, e também a expressão no aguardo é absolutamente correta.

Coringa ou curinga? O certo é curinga ou coringa?

coringa-curinga

O certo é coringa ou curinga? A resposta certa é: tanto faz. “Coringa” e “curinga” são sinônimos perfeitos, de acordo com o dicionário Houaiss, com o dicionário Michaelis, com o dicionário Aulete, com o dicionário Priberam, o dicionário Estraviz, etc.

A dupla validade das grafia coringacuringa é antiga – já na décima edição do Dicionário de Moraes apareciam as duas formas – coringa com, entre outros sentidos, o de “carta do baralho, à qual a pessoa que a tem em mão pode dar o valor que deseja“; e curinga como “carta com valor especial em certos jogos“.

Uma pesquisa sobre a questão na Internet, porém, traz à tona dezenas de sabichões virtuais, segundo os quais a palavra só poderia ser escrita com “u”, e não com “o”, por vir de kuringa, que, segundo afirmam, significaria “matar” em quimbundo, língua africana. É simplesmente uma lenda urbana mais, um erro cometido (ou inventado) por alguém, que se espalhou e chegou inclusive a alguns dicionários. A palavra kuringa não existe em quimbundo, nenhuma palavra para “matar” nessa língua sequer se parece a kuringa, e a verdade é que, como em geral ocorre, nenhum linguista sabe com certeza de onde veio a nossa palavra coringa ou curinga.

É por isso que qualquer bom dicionário diz que as duas formas são corretas e sinônimas. Use aquela que que preferir. Nos quadrinhos e filmes do Batman, por exemplo, o vilão chama-se oficialmente Coringa, com “o” – forma que também prefiro, por permitir as duas pronúncias (diferentemente da grafia com “u”, que só admitiria em tese uma pronúncia, a grafia com “o” permite pronunciar “coringa” ou “curinga” – do mesmo modo que “mochila” pode ser corretamente pronunciada “muchila“, e “cozinha” pode ser pronunciada “cuzinha“, etc.).

Fantástico cita frase que García Márquez nunca escreveu: não acredite em tudo que lê na Internet

gabriel

Ao final de sua última reportagem deste domingo, para coroar o tom apelativo de toda a cobertura dada à tragédia com a Chapecoense, o Fantástico fez ainda questão de citar Gabriel García Márquez (escolhido, entende-se, por ter sido a Colômbia o cenário do trágico acidente): “Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca seu coração“, citou o narrador, atribuindo a pérola ao famoso escritor colombiano. O problema? Gabriel García Márquez nunca escreveu isso.

Nos tempos que correm, todos já deveriam saber: metade (ou mais) das citações que rodam pela Internet são falsas – não foram ditas ou escritas por aqueles a quem se atribuem. Luis Fernando Verissimo faz até piada com o fato de alguns de seus textos mais conhecidos e compartilhados na Internet não terem sido escritos por ele – o que fazer?

Em se tratando de um programa de horário nobre da maior emissora do Brasil, o mínimo a fazer seria uma rápida verificação – hoje em dia, em poucos segundos é possível pesquisar toda a obra de García Márquez, para confirmar que o autor obviamente não escreveu aquilo (que, aliás, não combina em absoluto com seu estilo). A citação sobre amigos que se encontra mais facilmente na obra de García Márquez, aliás, é esta: “Os amigos são uns filhos da puta!“.