Imprensa brasileira: Abbas é “presidente da Palestina” ou “presidente palestino” (e não “presidente da Autoridade Palestina”)

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É facílimo ver que praticamente inexiste cobertura jornalística brasileira de fatos internacionais – o que se lê nos jornais e portais brasileiros são quase sempre simples traduções semiamadoras da imprensa de língua inglesa.

Isso fica óbvio, por exemplo, na tradução errada, tão frequente em artigos preguiçosos na mídia brasileira, de “International law” como “lei internacional”. Não existe uma lei internacional; a tradução correta é “direito internacional”; o que frequentemente se viola é “o direito internacional” – do mesmo modo que estudar “Law” significa estudar Direito, e não “lei”.

A mesma técnica de tradução preguiçosa se revela em quase todos os textos brasileiros que mencionam Mahmoud Abbas como o suposto “presidente da Autoridade Nacional Palestina“, ou “presidente da Autoridade Palestina” – quando o título por ele usado é “presidente do Estado da Palestina”, que pode ser resumido como “presidente palestino”, ou “presidente da Palestina”.

A Organização das Nações Unidas e a maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, reconhecem o Estado da Palestina e, por essa razão, tanto a própria ONU quanto o governo brasileiro (e os da maioria dos países do mundo) naturalmente chamam seu presidente de “presidente palestino”, “presidente da Palestina”, “presidente do Estado da Palestina” – da mesma forma que chamam a Shimon Peres e a seu sucessores “presidente israelense”, “presidente de Israel” ou “presidente do Estado de Israel”. O Brasil, a ONU e a maioria dos países do mundo reconhecem igualmente o Estado de Israel e o Estado da Palestina.

Só os governos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa ocidental, como o britânico, não reconhecem o Estado da Palestina, por pressão de Israel (e do mesmo modo que dezenas de países árabes e muçulmanos não reconhecem o Estado de Israel). Como os seus governos não reconhecem o Estado da Palestina, as imprensas americana e britânica não chamam Mahmoud Abbas de “presidente da Palestina” e nunca falam em “Estado da Palestina”, ou na Palestina como um país. Mas não faz o menor sentido que também a imprensa brasileira siga a prática americana e britânica, quando o governo brasileiro (e, reitera-se, a própria ONU) chama Abbas de “presidente da Palestina”, título de fato usado pelo próprio, e mantém mesmo relações diplomáticas com o Estado da Palestina.

Sobretudo porque isso sabidamente não se deve a um posicionamento político ou ideológico da imprensa brasileira, mas à simples tradução preguiçosa de notícias da imprensa de língua inglesa.

 

Motosserra ou serra elétrica? O massacre da serra elétrica deveria ter outro nome

Eis uma postagem numa página de humor no Facebook:

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A ótima piada acaba por levantar uma interessante questão linguística: de fato, por que chamamos, em português, de serra elétrica o objeto que não é movido a eletricidade, mas a gasolina?

Com efeito, segundo a Internet (por exemplo a Wikipédia e a Magazine Luiza), serra elétrica não é o mesmo que motossera; a motosserra é a movida a gasolina, em geral maior que a elétrica.

Desse modo, a suposta piada de Facebook acaba sendo uma ressalva de fato pertinente: a franquia de filmes The Chainsaw Massacre deveria mesmo, em português, ter sido chamada O Massacre da Motosserra, e não O Massacre da Serra Elétrica, como acabou sendo.

Possível culpa de alguns dicionários, como o Houaiss, que dizem que motosserraserra elétrica são sinônimos – não são, como, felizmente, se vê corretamente em outros dicionários, como o Aurélio e o Aulete.

O Houaiss erra, ainda, ao afirmar que a palavra surgiu em português “depois de 1975“; na verdade, surgiu bem antes disso, já que na edição de 05/08/1964 do jornal O Estado de S. Paulo encontro:

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A antiga “moto-serra”, atualmente, escreve-se motosserra – com dois ss, para manter o som inicial de “serra”.

Até antes disso, um termo que se chegou a usar no Brasil em lugar de motosserra (ou serra elétrica) foi “serra de corrente” – tradução literal (e pouco feliz) do inglês chainsaw.

Mas mesmo a motosserra não é uma invenção nossa – a pesquisa mostra que poucos anos antes da primeira aparição da nossa “motosserra”, começara também a aparecer nos países de língua espanhola a “motosierra“, a ponto de o boletim do departamento de Linguística e Filologia da Universidade do Chile ter publicado, sobre o prefixo “moto”, a observação de que este passava a usar-se para designar…

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Luxúria tem a ver com sexo, e não com luxo

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Na chamada acima, a revista Veja afirma que deitar sobre dinheiro, “como Tio Patinhas”, seria um ato de “luxúria“. Erraram. Luxúria, em português, nada tem a ver com dinheiro ou luxo; luxúria é sinônimo de lascívia, isto é, sensualidade excessiva, tendência excessiva ao desejo sexual.

Luxúria, em português, vem diretamente do latim luxuria, um dos sete pecados capitais do cristianismo – precisamente o pecado do desejo sexual exagerado ou imoral.

O uso de luxúria para se referir a luxo vem, por vezes, de tradução errada do inglês luxury – o inglês luxury significa, de fato, excesso de luxo, abundância de riquezas; já luxúria se traduz em inglês por lust (apetite sexual, lascívia, um dos sete pecados capitais).

É errado usar luxúria com esse sentido de “gosto pelo luxo” em português – língua em que os significados da palavra são outros, como se vê em qualquer bom dicionário, como o Aurélio, o Michaelis, o da Porto Editora ou o Houaiss:

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Proximidade e distância entre as línguas europeias

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No gráfico acima – clique aqui para ver o gráfico em tamanho maior -, indicam-se, pelos diferentes tipos de traços ou pontilhados, a distância (ou, a depender do ponto de vista, a proximidade) lexical – isto é, no vocabulário geral – entre as línguas europeias. As cores refletem grupos.

O português e o galego, por exemplo, compartilham mais de 75% do vocabulário com o espanhol; entre 55% e 75%, com o italiano; e entre 40 e 55%, com o francês. Já o catalão tem mais de 75% de léxico compartilhado com o espanhol e com o italiano; e o italiano; de 55% a 75% com o francês, que por sua vez tem entre 30% e 40% de léxico compartilhado com o inglês, etc.

A imagem em tamanho original está aqui.

Aportuguesamentos: traduzir ou não nomes de cidades e localidades estrangeiras?

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Uruguay“, em português, escreve-se Uruguai; a cidade italiana de “Firenze” em português chama-se Florença; e Alemanha e Berlim são os aportuguesamentos de “Deutschland” e “Berlin“. Mas como escrever, em um texto formal em português, Myanmar? Malawi? Bangladesh?

Muitas pessoas sentem-se inseguras quando precisam escrever em português nomes de países e cidades estrangeiras que não têm uma tradução conhecida em português. A resposta, nesses casos, é: nunca inventar traduções e aportuguesamentos.

Diferentemente das regras ortográficas anteriores, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa expressamente autoriza o uso das letras “k”, “w”, “y” e de quaisquer combinações gráficas incomuns no português (como “sh”) na escrita de nomes próprios estrangeiros e de seus derivados. O próprio Acordo dá como exemplos Kuwait Malawi, que devem ser assim escritos, e cujos adjetivos pátrios são kuwaitianomalawiano.

Essa solução, de um lado, evita o antigo problema de como aportuguesar nomes estrangeiros – porque, se a solução a ser dada em alguns casos é óbvia (como Jakarta – Jacarta), em outros há inúmeras possibilidades concorrentes, muitas das quais a tal ponto deformadoras que dificultam a identificação do nome original: pense-se nos casos de Bangladesh, Kinshasa, Liechtenstein, Washington, Ottawa ou do próprio Kuwait.

De outro lado, essa mudança na normativa oficial da língua portuguesa apenas reflete um entendimento multilateral acerca do tema: desde a década de 1970, a ONU (Organização das Nações Unidas) realiza periodicamente conferências para a “Padronização de Nomes Geográficos”, nas quais, ouvidos especialistas e técnicos da área da toponímia (a ciência que estuda dos nomes geográficos) de todo o mundo, os países membros da ONU aprovaram resoluções que reconhecem os inconvenientes causados pelo grande número de traduções de nomes geográficos, e pelas quais se comprometeram a restringir o uso de traduções (“aportuguesamentos”, no nosso caso) apenas aos casos de longa tradição e uso corrente e, ademais, a não criarem nem inventarem novas traduções para países ou localidades que viessem a surgir ou que não tivessem tradução tradicional e em uso.

É por essa razão que em português – do mesmo modo que em inglês, francês, espanhol, italiano, etc. – se têm adotado nas formas originais (sem tradução) nomes como Bangladesh, Kiribati, Kosovo, Ilhas Cook, Ilhas Marshall, Liechtenstein, Malawi, Myanmar, Sri Lanka, etc.

Também em consonância com as resoluções internacionais sobre o tema, com  a prática internacional e com o uso majoritário, mesmo as obras de referência (como dicionários e enciclopédias) têm substituído formas aportuguesadas que caíram em desuso pela forma original – como no caso de Dublin, capital da Irlanda, que os dicionários antigos traziam aportuguesada como “Dublim“.

O gentílico e a pronúncia de Vanuatu

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Um forte terremoto atingiu Vanuatu, pequeno país e arquipélago situado no Oceano Pacífico. O sismo teve magnitude tamanha que gerou temor em toda a região quanto à possibilidade de tsunâmis (para recordar por que em português “tsunâmi” deve escrever-se com acento, clique aqui).

Com as raras menções a esse pequeno país, ressurgiu a dúvida: como pronunciar o nome do país? Vanuátu ou Vanuatú? E quem nasce em Vanuatu se chama como?

Em inglês, a pronúncia é paroxítona (*Vanuátu), mas a pronúncia correta do nome do país em português é oxítona: “Vanua – do mesmo modo que na própria língua nacional de sua população, o bislamá (língua sobre a qual também já escrevemos, aqui).

Embora a pronúncia seja Vanuatú, o nome do país não leva acento em português, simplesmente porque as palavras oxítonas terminadas em “u” não são acentuadas em português: urubuIguaçu, baiacu, Tuvalu, pirarucu, jacu.

Como o último “u” é tônico, quem nasce em Vanuatu deve ser chamado, em português, vanuatuense – a exemplo de Amapá/amapaense; Itajaí/itajaiense; Jequié/jequieense. A forma correta é a única acolhida pelo Dicionário Aurélio, pelo Dicionário Michaelis, pelo Dicionário Priberam e pelo Dicionário da Porto Editora – nenhum dos quais traz *vanuatense, forma errada que traz o Dicionário Houaiss.

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Harvard muda títulos de “mestres” após acusação de racismo

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De acordo com a BBC, a Universidade de Harvard, nos EUA, está “removendo a palavra ‘master‘ (mestre) de títulos acadêmicos, após protestos de estudantes” que afirmam que o título “mestre” teria reminiscências do passado escravocrata do país. Nos câmpus da Universidade vinham-se realizando havia algum tempo protestos e manifestações que acusavam o uso da palavra como ato de racismo.

Enquanto dicionários portugueses trazem “pessoa que ensina” como primeiro significado de “mestre”, dicionários da língua inglesa de fato trazem, como primeiro sentido de master, “A man who has people working for him, especially servants or slaves“.