Luxúria tem a ver com sexo, e não com luxo

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Na chamada acima, a revista Veja afirma que deitar sobre dinheiro, “como Tio Patinhas”, seria um ato de “luxúria“. Erraram. Luxúria, em português, nada tem a ver com dinheiro ou luxo; luxúria é sinônimo de lascívia, isto é, sensualidade excessiva, tendência excessiva ao desejo sexual.

Luxúria, em português, vem diretamente do latim luxuria, um dos sete pecados capitais do cristianismo – precisamente o pecado do desejo sexual exagerado ou imoral.

O uso de luxúria para se referir a luxo vem, por vezes, de tradução errada do inglês luxury – o inglês luxury significa, de fato, excesso de luxo, abundância de riquezas; já luxúria se traduz em inglês por lust (apetite sexual, lascívia, um dos sete pecados capitais).

É errado usar luxúria com esse sentido de “gosto pelo luxo” em português – língua em que os significados da palavra são outros, como se vê em qualquer bom dicionário, como o Aurélio, o Michaelis, o da Porto Editora ou o Houaiss:

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Proximidade e distância entre as línguas europeias

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No gráfico acima – clique aqui para ver o gráfico em tamanho maior -, indicam-se, pelos diferentes tipos de traços ou pontilhados, a distância (ou, a depender do ponto de vista, a proximidade) lexical – isto é, no vocabulário geral – entre as línguas europeias. As cores refletem grupos.

O português e o galego, por exemplo, compartilham mais de 75% do vocabulário com o espanhol; entre 55% e 75%, com o italiano; e entre 40 e 55%, com o francês. Já o catalão tem mais de 75% de léxico compartilhado com o espanhol e com o italiano; e o italiano; de 55% a 75% com o francês, que por sua vez tem entre 30% e 40% de léxico compartilhado com o inglês, etc.

A imagem em tamanho original está aqui.

Aportuguesamentos: traduzir ou não nomes de cidades e localidades estrangeiras?

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Uruguay“, em português, escreve-se Uruguai; a cidade italiana de “Firenze” em português chama-se Florença; e Alemanha e Berlim são os aportuguesamentos de “Deutschland” e “Berlin“. Mas como escrever, em um texto formal em português, Myanmar? Malawi? Bangladesh?

Muitas pessoas sentem-se inseguras quando precisam escrever em português nomes de países e cidades estrangeiras que não têm uma tradução conhecida em português. A resposta, nesses casos, é: nunca inventar traduções e aportuguesamentos.

Diferentemente das regras ortográficas anteriores, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa expressamente autoriza o uso das letras “k”, “w”, “y” e de quaisquer combinações gráficas incomuns no português (como “sh”) na escrita de nomes próprios estrangeiros e de seus derivados. O próprio Acordo dá como exemplos Kuwait Malawi, que devem ser assim escritos, e cujos adjetivos pátrios são kuwaitianomalawiano.

Essa solução, de um lado, evita o antigo problema de como aportuguesar nomes estrangeiros – porque, se a solução a ser dada em alguns casos é óbvia (como Jakarta – Jacarta), em outros há inúmeras possibilidades concorrentes, muitas das quais a tal ponto deformadoras que dificultam a identificação do nome original: pense-se nos casos de Bangladesh, Kinshasa, Liechtenstein, Washington, Ottawa ou do próprio Kuwait.

De outro lado, essa mudança na normativa oficial da língua portuguesa apenas reflete um entendimento multilateral acerca do tema: desde a década de 1970, a ONU (Organização das Nações Unidas) realiza periodicamente conferências para a “Padronização de Nomes Geográficos”, nas quais, ouvidos especialistas e técnicos da área da toponímia (a ciência que estuda dos nomes geográficos) de todo o mundo, os países membros da ONU aprovaram resoluções que reconhecem os inconvenientes causados pelo grande número de traduções de nomes geográficos, e pelas quais se comprometeram a restringir o uso de traduções (“aportuguesamentos”, no nosso caso) apenas aos casos de longa tradição e uso corrente e, ademais, a não criarem nem inventarem novas traduções para países ou localidades que viessem a surgir ou que não tivessem tradução tradicional e em uso.

É por essa razão que em português – do mesmo modo que em inglês, francês, espanhol, italiano, etc. – se têm adotado nas formas originais (sem tradução) nomes como Bangladesh, Kiribati, Kosovo, Ilhas Cook, Ilhas Marshall, Liechtenstein, Malawi, Myanmar, Sri Lanka, etc.

Também em consonância com as resoluções internacionais sobre o tema, com  a prática internacional e com o uso majoritário, mesmo as obras de referência (como dicionários e enciclopédias) têm substituído formas aportuguesadas que caíram em desuso pela forma original – como no caso de Dublin, capital da Irlanda, que os dicionários antigos traziam aportuguesada como “Dublim“.

O gentílico e a pronúncia de Vanuatu

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Um forte terremoto atingiu Vanuatu, pequeno país e arquipélago situado no Oceano Pacífico. O sismo teve magnitude tamanha que gerou temor em toda a região quanto à possibilidade de tsunâmis (para recordar por que em português “tsunâmi” deve escrever-se com acento, clique aqui).

Com as raras menções a esse pequeno país, ressurgiu a dúvida: como pronunciar o nome do país? Vanuátu ou Vanuatú? E quem nasce em Vanuatu se chama como?

Em inglês, a pronúncia é paroxítona (*Vanuátu), mas a pronúncia correta do nome do país em português é oxítona: “Vanua – do mesmo modo que na própria língua nacional de sua população, o bislamá (língua sobre a qual também já escrevemos, aqui).

Embora a pronúncia seja Vanuatú, o nome do país não leva acento em português, simplesmente porque as palavras oxítonas terminadas em “u” não são acentuadas em português: urubuIguaçu, baiacu, Tuvalu, pirarucu, jacu.

Como o último “u” é tônico, quem nasce em Vanuatu deve ser chamado, em português, vanuatuense – a exemplo de Amapá/amapaense; Itajaí/itajaiense; Jequié/jequieense. A forma correta é a única acolhida pelo Dicionário Aurélio, pelo Dicionário Michaelis, pelo Dicionário Priberam e pelo Dicionário da Porto Editora – nenhum dos quais traz *vanuatense, forma errada que traz o Dicionário Houaiss.

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Harvard muda títulos de “mestres” após acusação de racismo

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De acordo com a BBC, a Universidade de Harvard, nos EUA, está “removendo a palavra ‘master‘ (mestre) de títulos acadêmicos, após protestos de estudantes” que afirmam que o título “mestre” teria reminiscências do passado escravocrata do país. Nos câmpus da Universidade vinham-se realizando havia algum tempo protestos e manifestações que acusavam o uso da palavra como ato de racismo.

Enquanto dicionários portugueses trazem “pessoa que ensina” como primeiro significado de “mestre”, dicionários da língua inglesa de fato trazem, como primeiro sentido de master, “A man who has people working for him, especially servants or slaves“.

O que é “gleba”? “Gleba” é uma palavra? Se sim, o que significa gleba?

A parte preta, na foto acima, é a carne desse cogumelo – chamada, em inglês, gleba.
Em português, por outro lado, gleba significa “terreno não urbanizado

Graças à série televisiva Friends, centenas de milhões de pessoas no mundo todo sabem que a palavra “gleba” existe. Efetivamente, em inglês, gleba (pronunciada “gliba”) é o nome da massa interior carnosa, que contém esporos, de certos tipos de cogumelos ou fungos.

E qual a tradução de gleba para o português? A tradução mais próxima é carne: na linguagem técnica dos especialistas em fungos, é carne o nome que se usa em português (e em espanhol e em italiano) para a massa interior, “carnosa”, de certos tipos de cogumelos.

Na língua portuguesa também existe, porém, a nossa própria gleba, substantivo feminino. O substantivo gleba em português, porém, nada tem a ver com cogumelos ou carne.

Em português, gleba significa terreno não urbanizado, ou porção de terra (não urbanizada). Antigamente se usava muito para se referir às terras das propriedades feudais, ainda não urbanizadas; mais recentemente, passaram a chamar-se glebas os terrenos “próprios para o cultivo”, ou ainda os que continham minérios. Atualmente, na linguagem jurídica brasileira, o termo gleba se refere a qualquer terreno ou porção de terra não urbanizados.

E qual a pronúncia de gleba em português? Quem for ao Houaiss, ao Aurélio ou ao VOLP para procurar a pronúncia indicada (e saber se se deve dizer “glêba” ou “gléba“) ficará decepcionado – nenhum deles traz qualquer indicação. A pronúncia correta, porém, é “gléba“, com é aberto, tanto no singular quanto no plural (as glebas), como muito bem indica o Dicionário Priberam.