A bacharel ou a bacharela? O feminino de bacharel é…

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Fulana é bacharel ou bacharela? Há quem ache que o certo é sempre “bacharel”, para homens e mulheres, e que “bacharela” é um neologismo, ou “coisa de feminista”, ou simplesmente “erro de português”. Estão completamente errados: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras, com o Dicionário Aurélio, com o Dicionário Houaiss e com os demais dicionários brasileiros e portugueses, o único feminino correto de bacharel é bacharela, enquanto a palavra “bacharel” só pode ser usada no masculino (“um bacharel”, e não “uma bacharel”).

Todas essas obras listam “bacharel” como substantivo masculino (e não comum de dois gêneros, como “estudante”, “gerente” – o que quer dizer que não aceitam a forma “a bacharel“) e indicam como único feminino correspondente a forma “bacharela”:

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Apesar disso, é um fato que hoje a maioria das mulheres prefere dizer-se “bacharel”, e não “bacharela”, e que a forma invariável é a mais usada na imprensa e na sociedade em geral, mesmo em meios acadêmicos – o que indica que a língua está em processo de mudança.

Essa mudança é um processo comum a vários substantivos da língua portuguesa, que tradicionalmente tinham formas próprias para o feminino (“a oficiala”, “a parenta”, “a poetisa”), mas que, de tanto as pessoas “incorretamente” os usarem invariáveis (“a oficial”, “a parente”, “a poeta”), tiveram essas formas invariáveis aceitas pelos dicionários.

Do mesmo modo que hoje dicionários e vocabulários já aceitam “a oficial” e “a poeta“, é certo que em algum momento próximo passarão a aceitar oficialmente “a bacharel”. A ironia apenas é que há gente dita conservadora que repudia a forma “bacharela” por achá-la uma invencionice ou um modismo, sendo que na verdade “a bacharela” é que é a forma tradicional da língua, mais antiga e conservadora do que “a bacharel”.

(Exatamente como no caso de “presidenta”, que a despeito da ignorância de muitos, é forma mais antiga e tradicional na língua do que “a presidente”.)

Xeica é o feminino de xeique ou xeque

sem-tituloO feminino de xeique (ou xeque) é xeica.

Anos atrás, os portugueses noticiavam a visita da sheikha” do Kuwait a Portugal. Corretíssimo o uso do feminino, já que nenhum dicionário admite “xeique” ou “xeque” como substantivo de dois gêneros. O feminino já vem do árabe, e mesmo o inglês, língua que em geral não faz distinção de gênero nos cargos, usa a forma feminina sheikha.

Mas em português, é claro, deve escrever-se xeica – forma usada pela imprensa e pelo governo brasileiro, e perfeita do ponto de vista ortográfico, e que já consta do Dicionário Houaiss:

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O feminino de soldado é soldada

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De acordo com a gramática e dicionários, uma mulher militar sem graduação é uma soldada. São erradas construções como “a soldado“, “soldado mulher“, “uma soldado“, “as soldados“.

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De acordo com o vocabulário ortográfico e dicionáriossoldado não é um substantivo comum de dois gêneros. Não há justificativa para que a palavra não se flexione no feminino como qualquer outro substantivo masculino terminado em “o”.

O que ocorre com soldada é simplesmente o que ocorre com outras profissões tradicionalmente exercidas apenas por homens – como piloto e até carteiro. Mas não há dúvida: em bom português, uma mulher que entrega cartas é uma carteira (jamais “uma carteiro“); uma mulher que pilota aviões ou carros de corrida é uma pilota (nunca “uma piloto“, nem “uma mulher piloto“, etc.); e uma mulher militar sem graduação só pode ser uma soldada.

Pela tendência da língua, inexoravelmente a palavra soldada será um dia tão comum quanto hoje são juízaprefeita ou governadora, que causavam estranheza e eram evitadas na fala até décadas atrás. E aqueles que hoje usam a forma gramaticalmente errada “uma soldado” serão recordados com a mesma estranheza que hoje causam combinações outrora comuns – como “a primeiro-ministro“,  que era a forma mais usual não tantos atrás, quando a maioria da população estranhava o correto feminino “primeira-ministra”, simplesmente pela raridade que era uma mulher chegar a esse cargo, e achava normal tratamentos como este:

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A poeta ou a poetisa? “Poeta” pode ser masculino ou feminino

Uma mulher que escreve poesia é uma poeta ou uma poetisa? Novamente, para o desespero dos boçais linguísticos que odeiam a riqueza da língua portuguesa, por lhes privar do prazer de apontar erros aos demais e corrigi-los, é este um caso em que tanto faz: “a poeta” é forma tão correta quanto “poetisa”, como se lê em boas gramáticas atualizadas e na mais recente edição do Dicionário Houaiss:

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Como mostra o Dicionário Houaiss, poeta, hoje, é um substantivo de dois gêneros: pode dizer-se “o poeta” ou “a poeta”. Mesmo assim, o Houaiss prefere explicitar: “a palavra poeta pode ser usada para homens e mulheres“.

Embora “poetisa” seja a forma tradicional e continue a ser absolutamente correta, há grande número de mulheres poetas que preferem ser chamadas de “poeta”.

Note-se que não é caso único da palavra “poeta” (as mulheres cônsules também há muito já preferem ser chamadas aqui, rejeitando a forma “consulesa”, hoje de uso restrito às esposas de cônsules), nem é capricho da língua portuguesa: em francês é considerado correto o uso de “la poète“, e, em espanhol, de “la poeta“, ao lado das formas flexionadas. São opções que as línguas têm.

De resto, o que se deu em português com a palavra “poeta”, que os antigos dicionários (e os ainda desatualizados) traziam como substantivo feminino, é o mesmo que se deu com várias outras da língua, de que são exemplos cônsuloficial marechal – que, tradicionalmente, eram substantivos apenas masculinos, sendo tradicionalmente de regra o uso, no feminino, das formas flexionadas consulesaoficialamarechala, mas que hoje já caíram em desuso, sendo substituídas pelas neutras “a cônsul“, “a oficial“, “a marechal” – formas hoje tão corretas quanto “a poeta” (ou ainda como a hoje majoritária, porém relativamente inovadora forma “a presidente“).

O feminino de membro é membra: a membra, as membras

Na contracapa de um livro de Direito Penal da Editora Saraiva, diz-se que a autora é “membra” do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais. Membra está certo? Existe mesmo a palavra membra?

Sim, existe em português a palavra membra. A palavra membra está devidamente registrada no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras (quem quiser, pode clicar aqui para conferir) e também no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (fotos a seguir):

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Houaiss define membro apenas como substantivo masculino, e traz, como feminino de membro, a palavra membra. Além disso, o Dicionário Houaiss traz também a palavra membra – substantivo feminino – com definição própria, como “mulher que participa de um grupo ou organização”, e afirma que a palavra já tinha uso em textos e livros portugueses publicados no século retrasado.

Hoje, a palavra “membra”, outrora “pouco usada”, ganha cada vez mais espaço: o recente “Dicionário de formas de tratamento – Guia para o uso das formas de tratamento do português em correspondência formal“, por exemplo, recomenda expressamente que, ao se dirigir a membros da Academia Brasileira de Letras ou da Academia Brasileira de Ciências, a forma correta de tratamento formal a ser utilizada é “Senhor Membro”, apenas para homens; e “Senhora Membra” para as mulheres que integram as referidas Academias.

O feminino membra também aparece em todas as nossas principais editoras e veículos de imprensa: por exemplo, n’O Globo: “…a doutora, membra da Sociedade Brasileira de Dermatologia.; na Revista Veja: “A comentarista independente Anne Gombel, professora francesa e membra da Sociedade Internacional da Menopausa…; no Estado de S. Paulo: “Guga também participou das homenagens a Jennifer Capriati, também nova membra do Hall da Fama“.

Também usam membra, entre outros, jornais e revistas como o Correio Braziliense, O Tempo, Revista Globo Rural, Revista Marie Claire, G1.com (Portal de Notícias da Globo), Revista GalileuRevista CriativaGazetaElPaísRevista Rolling Stone, Revista Leitura, etc.

Numerosos livros também trazem, exatamente como a obra que motivou a pergunta com que iniciamos este texto, a informação de que sua autora é membra de uma ou mais organizações relevantes para o tema tratado – não apenas no Brasil, mas também em Portugal: uma das autoras do Código do IVA e RITI descreve-se como “Doutora pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e membra do VAT Expert Group da União Europeia.”

A palavra membra também ocorre em outras publicações de Portugal, Angola e Moçambique.

Há ainda ocorrências de menções a “deputada membra do parlamento sueco“, ou a que “a Dinamarca é membra da União Europeia“, ou a que “a Caixa Econômica Federal é instituição membra da Administração Pública”, ou a que (neste caso há milhares de ocorrências) uma mulher é membra de uma igreja ou de uma congregação.

Encontramos ainda a palavra em publicações da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ (“…é membra efetiva da Academia Brasileira de Letras (ABL)” e da Universidade de São Paulo – USP (“Membra da Academia Brasileira de Letras, foi eleita em 27 de julho de 1989, na sucessão de Aurélio Buarque de Holanda…”), bem como na Revista Acadêmica da Faculdade de Ciências do Recife.

Tudo isso – ainda que já não estivesse a palavra membra devidamente registrada no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras e no Dicionário Houaiss – seria já suficiente para declarar que, obviamente, estará errado qualquer um que, em 2015, afirme que “não existe a palavra membra”.

Um tapa ou “uma tapa” na cara?

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Resposta rápida: As duas formas estão corretas; embora no Sudeste e no Sul do Brasil se diga excluvisamente “um tapa”, no masculino, a verdade é que em Portugal, assim como em grande parte do Norte e do Nordeste do Brasil, a forma usada é “uma tapa”. Por essa razão, bons dicionários (como o Aurélio) indicam que ambas as formas são corretas: a tapa ou o tapa.

(Não estamos sequer considerando, é claro, a palavra espanhola tapa, cada vez mais usada em português – embora nesse caso, sempre no feminino – para designar pequenas porções de comida).

Focando-nos apenas na língua portuguesa e nas palmadas, nos golpes dados com a mão aberta: embora no Sul e no Sudeste do Brasil (o que inclui nossas duas maiores cidades, São Paulo e Rio de Janeiro) se fale em “uns tapas”, “o tapa”(“um tapinha nas costas”, “dar um tapa”), a verdade é que em grande parte do Brasil, sobretudo (mas não apenas) no Norte e no Nordeste, assim como em Portugal, diz-se”uma tapa”: “deu uma tapinha no braço do filho”, “levou umas tapas”, “ganhei umas tapinhas nas costas”.

Exemplos disso são a expressão “umas tapinhas nas costas”, nesta reportagem da Folha de Pernambuco, ou esta manchete do Correio Braziliense (principal jornal da capital, Brasília): OLP diz que projeto de colônias em Jerusalém é uma “tapa na cara” nos EUA.

Interessante também é o relato do professor Pasquale, consultor de língua portuguesa da carioca Rede Globo e do jornal Folha de S.Paulo, que relatou certa vez que, ao viajar a Belém do Pará, parado numa fila, ouviu uma mulher falando a outra que alguém dera “uma tapa” em outro alguém. “E eu, que sempre ensinara que ‘tapa’ podia ser palavra masculina ou feminina – como está nos dicionários! – finalmente descobria que aquilo era real, e não mera maluquice de gramáticos“, concluiu o professor à época.

O lhama ou a lhama, um lhama ou uma lhama?

llamaO animal da foto ao lado é um lhama ou uma lhama? Diz-se em português o lhama ou a lhama? Contrariando o que dizem alguns manuais ultrapassados, a resposta é: tanto faz; todos os bons dicionários, gramáticas e vocabulários brasileiros afirmam que o nome desse animal andino pode ser feminino ou masculino: uma lhama ou um lhama – ambas as formas são absolutamente corretas.

Como já argumentamos aqui, desconfie de qualquer livro, apostila ou professor que “ensine” regrinhas como a de que “está errado falar tinha aceito, o certo é tinha aceitado” – em resumo, regrinhas que não existem em nenhuma gramática séria, tendo sido “inventadas” por leituras apressadas e interpretações equivocadas, mas que acabaram se disseminando entre “comerciantes” de cursinhos.

Outra dessas “regrinhas” descabidas que circula por aí (e que tem, ao menos, uma serventia: serve para identificar livros ruins – ou, no mínimo, ultrapassados) é a de que algumas palavras que todos os bons dicionários brasileiros registram como sendo de dois gêneros só podem, pela “tradição da língua”, pertencer a um gênero. É o caso das coitadas das lhamas – que alguns puristas insistem em chamar de “os lhamas”.

Tal imposição de regras, porém, não tem qualquer fundamento: bem é verdade que os portugueses usem sobretudo o artigo masculino para chamar o animal – mas os portugueses sequer usam o nome “lhama”; em Portugal, a forma mais usual é “o lama“, sem o “h”. Em espanhol, diz-se  una llama, no feminino. O uso feminino, quase absoluto no Brasil, justifica-se ainda pela predileção natural da língua por atribuir o gênero feminino a palavra terminadas em “a”; e possivelmente por também serem femininos os nomes de duas das três espécies de mamíferos andinos “aparentadas” com a lhama: a vicunha e a alpaca (a quarta espécie, e a única cujo nome é masculino em espanhol, é o guanaco).

O Dicionário Aurélio, o Houaiss, o Aulete e o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (o VOLP) registram, todos, lhama como substantivo que pode ser invariavelmente masculino ou feminino.

O professor Evanildo Bechara, da Academia Brasileira de Letras, ensina em sua “Moderna Gramática Portuguesa” que há vários substantivos que podem ser usados indistintamente como masculinos ou femininos: além de a lhama ou o lhama, pode-se dizer também: o avestruz ou a avestruz; o caudal ou a caudal; o componente ou a componente; a diabetes ou o diabetes; o gambá ou a gambá; o soprano ou a soprano; o tapa ou a tapa (um tapa ou uma tapa, um tapinha ou uma tapinha – ver aqui)o personagem ou a personagem; o sabiá ou a sabiá; o sentinela ou a sentinela. Além de o aracuã ou a aracuã (ou “araquã”), sobre o qual já escrevemos aqui no blogue.