“Ano Novo” nunca teve hífen, nem precisa ter

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“Ano Novo” nunca teve hífen. Induzida por erro de um dicionário brasileiro, a Folha de S.Paulo erra e coloca um hífen errado em “Ano Novo”: uma verdadeira jaboticaba, que não existe em Portugal nem em nenhum outro país de língua portuguesa nem nunca existiu em nenhum dicionário brasileiro tradicional – até que um deles, poucos anos atrás, errou, e os demais copiaram (e agora, para justificar o erro, tentam inventar uma artificial diferença entre “ano novo” e “ano-novo” – diferença que nunca existiu, em 500 anos de Brasil, e não existe para mais nenhum país no mundo).

Já falamos aqui mais de uma vez da “mania hifenizadora” de certos jornalistas brasileiros e portugueses. Assim como já falamos várias vezes que o hífen não aparece de brinde nem de enfeite. Uma regra de ouro para o uso do hífen, que funciona na maioria dos casos, é muito mais simples que as mil regrinhas que alguns tentam decorar: se o hífen não faz nenhuma falta, não se usa. E, na língua portuguesa, é em geral desnecessário usar hifens ou qualquer outro símbolo para ligar um substantivo a um adjetivo que o qualifique, quando ambas as palavras são usadas em seu sentido e sintaxe usuais. É por isso que “bom senso” não tem hífen (apesar de haver autores que achem que tem); que “assembleia geral” não tem hífen; que “senso comum” não tem hífen; assim como “gripe aviária”, “segundo esposo”, “bom dia”, etc. – e é também por isso que “Ano Novo” nunca levou hífen.

O fato de o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras trazer “ano-novo” com hífen só engana os descuidados: o Vocabulário também traz “bom-dia”, com hífen – e não traz “bom dia” sem hífen. Logo – concluiriam uns -, o certo é escrever “Olá, bom-dia!”? Não, não é. “Bom-dia”, tudo junto, é uma palavra, raramente usada, que significa “o cumprimento pelo qual se deseja a alguém um bom dia”. Mas o Vocabulário não registra “bom dia” sem hífen – porque os Vocabulários só trazem as palavras, separadamente, e nesse caso são duas palavras: “bom” e “dia”.

É a mesma coisa com “livre comércio”, que se escreve sem hífen (embora algumas pessoas errem e acham que deve levar hífen porque o VOLP registra a palavra “livre-comércio”, que o Aurélio define como “a teoria que estuda o livre comércio”) e com “contas-correntes”, que o Aurélio define muito bem como um tipo desusado de livro “onde se registravam as movimentações das contas correntes” de um banco. O fato de existir o antiquado “contas-correntes” não quer dizer que toda conta corrente leva hífen – não leva.

Da mesma forma, Ano Novo – em frases como “Feliz Ano Novo!” – nunca levou hífen em português, nem deve levar. No excelente dicionário da Academia Brasileira de Letras nunca existiu a palavra – nem nos grandes dicionários de Caldas Aulete, nem no Michaelis, etc. Foi só o Aurélio registrar um “ano-novo” com hífen, retirado de um romance, que os demais dicionários brasileiros copiaram sem nenhum senso crítico a gafe.

Nenhum dicionário de Portugal ou de nenhum dos demais países que falam português escreve “ano-novo”, frise-se bem. No Vocabulário Ortográfico Comum da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, só existem “ano” e “novo”, e muito bem. Nada de “ano-novo”, que agora alguns dicionários brasileiros tentam dizer que tem sentido diferente de “ano novo” sem hífen – diferença que nunca existiu, em quinhentos anos de Brasil.

O Priberam, que, embora português, dá especial atenção à língua falada no Brasil, agora traz um “ano-novo” como uma forma, usada somente no “Brasil: o mesmo que ano novo“.

Corrigindo a frase acima, portanto: Jiang, do Masterchef (o mesmo programa que nos ensinou que existem as palavras crocância e empratar), terá barraca na celebração do Ano Novo Chinês – sem hífen.

Existe a palavra “empratar”? Existe a palavra “empratamento”?

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Resposta rápida: Sim, existe a palavra “empratar”, e sim, a palavra “empratamento” também existe. Ambas estão registradas em dicionários, inclusive no Dicionário Houaiss, com o sentido de “dispor (alimentos) num prato individual com o objetivo de tornar sua aparência agradável e apetecível”.

Resposta completa: Na esteira da pergunta anterior, sobre a crocância, tão mencionada no Masterchef  e demais problemas de competições gastronômicas que ora se proliferam pelo País, outra pergunta que se tem feito muito nas redes sociais é: “empratamento” e “empratar” – existem essas duas palavra?

No mundo da gastronomia e da alta cozinha, diz-se que “o empratamento é tão importante quanto qualquer outra fase da confecção de um prato”. Saber empratar bem, dizem – isto é, saber dispor os alimentos no prato de forma harmônica e visualmente atraente – é algo que todo bom cozinheiro deve aprender.

Mas, afinal, essas palavras foram inventadas agora, por causa dos programas de gastronomia? Não, senhores, podem ficar tranquilos: tanto o verbo “empratar” quanto o substantivo “empratamento” têm registro formal na língua desde o século passado, e as palavras empratar e empratamento já estão na base de dados do Grande Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, que define empratamento como “ato ou efeito de empratar”, e “empratar” como “pôr (alimento) num prato”.

O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (Portugal), por sua vez, classifica “empratar” como termo da área da culinária, descrevendo-o como o ato de “dispor (os alimentos) num prato individual, de forma a tornar a sua aparência agradável e apetecível”.

E prova de que as duas palavras têm uso oficial desde – pelo menos – o fim do século passado são os usos de formas do verbo “empratar” e/ou do substantivo “empratamento” na legislação portuguesa, como neste Decreto-Lei nacional de 1999 sobre a carreira de ajudante (“emprata os alimentos… […] …empratando as refeições”) ou neste regulamento, de 1998, que define que, entre suas atribuições, o cozinheiro “prepara os legumes e as carnes e procede à execução das operações culinárias, emprata-os, guarnece-os, e confecciona os doces”, etc.