Computar é defectivo? Mentira! O verbo computar não é defectivo

Mais um ensinamento errado do “consultor de português’ do grupo Globo (já vimos outro dele aqui). O tal professor decidiu que o verbo computar é defectivo:

Eu COMPUTO, tu COMPUTAS, ele COMPUTA?
A dúvida agora é o uso de um verbo muito estranho, que causa dúvida, e até perplexidade em muita gente.
Afinal, você sabe conjugar o verbo COMPUTAR? Será que sua conjugação segue, por exemplo, a do verbo LUTAR (eu LUTO, tu LUTAS, ele LUTA)?
Poderia ser, não é? Mas não é.
Segundo a gramática tradicional, o verbo COMPUTAR é considerado defectivo, ou seja, não deve ser conjugado em algumas de suas pessoas. No presente do indicativo, só apresenta plural: nós COMPUTAMOS, vós COMPUTAIS, eles COMPUTAM.
Se a forma “ele computa” não é aceitável, podemos usar “ele está computando” ou substituir por uma frase equivalente: ele calcula, ou ele programa (computadores).

É necessário esclarecer: o comentário acima está inteiramente errado. O verbo computar não é defectivo. É absolutamente correto dizer e escrever eu computotu computasele computa

A mentira, é claro, não tem fontes; diz que quem diz isso é “a gramática tradicional“. A verdade é que nem existe “a gramática tradicional“. O que existem são gramáticas – e, após perder tempo pesquisando o tema em cada uma das boas gramáticas tradicionais – como as de Celso Cunha & Cintra, Bechara, Celso Luft,  Rocha Lima e Said Ali -, o que se constata é que nenhuma delas diz que o verbo computar seja defectivo.

E porque de fato não o é – basta abrir o Dicionário Houaiss (foto a seguir), ou os dicionários portugueses da Porto Editora (aqui) ou Priberam (aqui), ou mesmo o Vocabulário Ortográfico da CPLP (foto a seguir) para aprender que o verbo computar é perfeitamente regular e tem todas as suas conjugações – inclusive, é claro, “eu computo”, “tu computas”, “ele computa”:

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Ajuntar ou juntar? Existe o verbo ajuntar?

Aurelio

Existe a palavra ajuntar? Sim, existe, e está perfeitamente correta. Segundo o dicionário Aurélio e o dicionário Houaiss, ajuntar é um perfeito sinônimo de juntar.

Aurélio dá preferência a ajuntar, remetendo juntar para ajuntar. Já Houaiss remete ajuntar para juntar. Ambos concordam, porém, que os dois verbos existem, são corretos e têm os mesmos significados e regências.

Como mostram o Aurélio e o Houaiss, é absolutamente correto e indiferente, portanto, usar ajuntar  ou juntar:

  • Maria e Pedro juntaram-se (ou ajuntaram-se);
  • Juntou uma última folha ao processo (ou Ajuntou uma folha ao processo);
  • Juntar algo do chão (ou ajuntar algo do chão).

Pela Internet afora há, como sempre, os charlatães inventores de falsos erros, que afirmam que só um dos dois verbos está correto, ou que ajuntar é menos formal ou coloquial, ou que só um dos dois admite algumas regências e o outro só admite outras – todas mentiras. O Houaiss diz enfaticamente: ajuntar é sinônimo de juntar “em todas as suas regências”. Tanto o Houaiss quanto o Aurélio trazem longa lista de exemplos que mostram que grande escritores, portugueses e brasileiros, usam indistintamente ajuntar ou juntar, com diversos significados (adicionar, unir, recolher, pegar do chão, acumular, congregar-se, etc.).

“De férias” ou “em férias”: qual o certo?

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Estou de férias ou em férias? Diz-se sair de férias ou sair em férias? A forma gramaticalmente correta é “de férias” ou “em férias”?

A forma tradicional em português, tanto em Portugal quanto no Brasil, é de fériasestou de fériassaí de fériasestaremos de férias; etc. Nesse caso, porém, como em tantos outros, abundam pela Internet sites de qualidade duvidosa, que, sem absolutamente nenhum embasamento linguístico ou gramatical, ensinam (erradamente) que a forma correta, ou preferível, seria “em férias”. Mentira.

No Brasil, o único gramático tradicional que abordou diretamente a questão foi Paschoal Cegalla, que ensina que a expressão tradicional é “de férias”: diz-se, ensina o gramático, “estar de férias”, como também se diz “estar de luto”, “estar de atestado (médico)”, etc.

Em Portugal, o tema é tratado no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a correspondente portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras), que, no verbete “férias”, traz as expressões “estar de férias”, “entrar de férias”, “ir de férias” – todas com exemplos apenas com a preposição “de“, não “em“.

Por insegurança, porém, muitos brasileiros acabam cometendo uma hipercorreção (fenômeno que consiste em tentar “corrigir” algo que já estava correto, que não precisava de correção) e, quando querem falar “chique” ou escrever formalmente, trocam a corretíssima “de férias” por formas forçadas como “estar em férias”, “entrar em férias”. Embora tampouco esteja errada, “em férias” é menos usual, tem menos tradição e não é nem um pouco mais correta ou mais formal do que a tradicionalíssima forma “de férias“.

Diga (e escreva), portanto, sem medo: estou de fériasviajaremos de férias a Parisentrarei de férias na próxima segunda-feira; etc.

A expressão “no aguardo” está correta? Existe “aguardo”? (Claro que sim.)

“Ficar no aguardo” e “estar no aguardo” são expressões corretas, existentes em português desde o século retrasado e autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos da nossa língua.

Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo os quais a expressão “no aguardonão existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português desde o século retrasado e é corretíssima.

Veja-se, por exemplo, já a primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete, o da Porto Editora, etc.) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas que é “apenas” um “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecia no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no dicionário do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Dicionário Aulete, versão portuguesa

O  mesmo já se via, aliás, no dicionário de Moraes:

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Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc.

Em conclusão: é correto e antiga em português o substantivo aguardo, em português, com o sentido de espera, e também a expressão no aguardo é absolutamente correta.

Fantástico cita frase que García Márquez nunca escreveu: não acredite em tudo que lê na Internet

gabriel

Ao final de sua última reportagem deste domingo, para coroar o tom apelativo de toda a cobertura dada à tragédia com a Chapecoense, o Fantástico fez ainda questão de citar Gabriel García Márquez (escolhido, entende-se, por ter sido a Colômbia o cenário do trágico acidente): “Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e toca seu coração“, citou o narrador, atribuindo a pérola ao famoso escritor colombiano. O problema? Gabriel García Márquez nunca escreveu isso.

Nos tempos que correm, todos já deveriam saber: metade (ou mais) das citações que rodam pela Internet são falsas – não foram ditas ou escritas por aqueles a quem se atribuem. Luis Fernando Verissimo faz até piada com o fato de alguns de seus textos mais conhecidos e compartilhados na Internet não terem sido escritos por ele – o que fazer?

Em se tratando de um programa de horário nobre da maior emissora do Brasil, o mínimo a fazer seria uma rápida verificação – hoje em dia, em poucos segundos é possível pesquisar toda a obra de García Márquez, para confirmar que o autor obviamente não escreveu aquilo (que, aliás, não combina em absoluto com seu estilo). A citação sobre amigos que se encontra mais facilmente na obra de García Márquez, aliás, é esta: “Os amigos são uns filhos da puta!“.