Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

Palavras e expressões de Moçambique

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Foi criada a página fixa “Português de Moçambique“, disponível na aba “publicações fixas”, que será periodicamente atualizada com palavras e expressões típicas do português falado em Moçambique. Clique aqui para ir para a página.

Entre as publicações fixas há também, recordamos, a página fixa do português de Angola, com palavras e expressões típicas do português falado nesse que já é o segundo maior país lusófono.

Quixiquila, xitique, abota: poupança comunitária para crédito rotativo

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Em comentário na seção fixa sobre o português de Angola, o leitor Jean sugeriu-nos adicionar a palavra angolana “quixiquila” – que, como apontamos, já se encontra no Dicionário Houaiss e nos Dicionários da Porto Editora: a quixiquila é um método informal de financiamento em que um grupo de pessoas contribui periodicamente com um valor, a fim de que cada um dos membros, rotativamente, se beneficie de parte do valor poupado.

Catarina Trindade, mestranda em antropologia social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em trabalho sobre o tema (disponível aqui)  define a quixiquila (em quimbundo, “kixikila“) como “uma prática de poupança e crédito rotativo“.

A prática, porém, de modo algum se restringe a Angola; instrumentos de financiamento comunitário voluntário idênticos existem em vários outros países por todo o continente africano.

Em Moçambique, esse método de poupança voluntária para crédito comunitário é chamado de xitique, nome que vem do ronga, língua local; conforme a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora:

xitique
nome feminino

[Moçambiqueassociação contributiva entre trabalhadores (com saláriogarantido) para que, rotativamente, cada um receba parte ou o total dosvencimentos do grupo

Na Guiné-Bissau, por sua vez, é chamado abota, palavra também registrada no Dicionário da Porto Editora, com os pertinentes significados de “subscrição; peditório; cotização“.

Caso tenha interesse, clique aqui para ler breve trabalho sobre a quixiquila e suas congêneres, apresentado no curso de mestrado em antropologia social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) , pela mestranda Catarina Trindade.

“Malawi” é português, sim

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Um leitor se espantou ao ver, em bons veículos de imprensa, notícias em português sobre a República do “Malawi”. A pergunta é: os nomes de países não têm de ser traduzido para o português?  E, se sim, como se deveria escrever – e pronunciar – em português o nome do Malawi? “Maláui”? “Malauí”? “Malávi”?

Em publicações anteriores, tratamos do Malawi, país africano com enorme fronteira com Moçambique. Fizemos uma análise da fonética da língua de origem do nome “Malawi”, o nianja, para explicar por que a pronúncia em português deve ser “Maláui” (e não Malauí ou Malavi ou Malaui, como às vezes se via em alguns dicionários de português).

Quanto à pronúncia, portanto, a resposta é clara: “Maláui”.

E, quanto à escrita? Também nesse caso a resposta é clara – embora vá certamente desagradar aos puristas da língua. O novo Acordo Ortográfico não podia ser mais explícito; em seu parágrafo segundo, determina:

2º) As letras k, w e y usam-se: […] Em topônimos [nomes geográficos] originários de outras línguas e em seus derivados: Kwanza; Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano.

De acordo, portanto, com o texto legal que desde janeiro de 2016 regulamenta o uso oficial da língua portuguesa, deve usar-se, em português, a forma original estrangeira Malawi, e o respectivo adjetivo/substantivo malawiano. É essa a forma que já usam bons dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, como o Houaiss, o Universal, o Priberam e os da Porto Editora.

“Malawi” e “malawiano” são, ademais – e mais importante – as formas usadas, desde sempre, nos países africanos de língua portuguesa, como Moçambique e Angola, que, no fim das contas, escrevem diariamente muitíssimo mais sobre o Malawi do que brasileiros e portugueses.

Essa foi mais uma das grandes mudanças trazidas pelo novo Acordo Ortográfico. No sistema ortográfico anteriormente vigente, as letras “k”, “w” e “y” não faziam parte da língua portuguesa, e recomendava-se que mesmo os derivados de topônimos estrangeiros fossem “aportuguesados”, com a substituição dessas referidas letras; por essa razão, escrevia-se no Brasil, por exemplo, taiuanêsquiribatiano – que já foram substituídas, nos dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, por taiwanêskiribatiano.

 

Uma jinguba = um amendoim (no português africano, jinguba é amendoim)

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Uma leitora pergunta-nos o que seria uma ginguba, palavra que leu em uma receita. A palavra encontrada deve, provavelmente, ter sido escrita errada, em lugar de jinguba, com j: em português africano – especificamente em Angola e em São Tomé e Príncipe – jinguba (substantivo feminino) é um sinônimo de amendoim.

A palavra jinguba (que admite também a variante jiguba) provém do quimbundo (kimbundu), língua africana em que ngûba significa amendoim. Na língua quimbunda, como em outras línguas africanas bantus, o plural é feito não pela adição de uma terminação à palavra (como o “-s” do português), mas pela adição de um prefixo – neste caso, o prefixo adicionado é “ji”, de modo que jinguba, em quimbundo, era originalmente o plural de amendoim – amendoins. Em português, o plural quimbundo virou singular: nos países africanos, fala-se “uma jinguba” – palavra já acolhida por todos os dicionários de português, brasileiros e portugueses.

O fenômeno de tomar uma palavra estrangeira no plural e torná-la um singular nada tem de inusitado ou incomum: em português, temos ravióli, singular, tomado do italiano – língua em que, na verdade, ravioli é o plural de um raviolo. Da mesma forma, no Brasil usa-se “brócolis” como singular daquilo que em italiano é, no singular, um broccolo.

Finalmente, há que se apontar que a grafia ginguba, que por vezes se vê, é errada. A forma dicionarizada é jinguba, com j, que é como registram registrada Houaiss, Aurélio, o Priberam e o dicionário da Porto Editora – este último , o melhor dicionário existente no que concerne à acolhida de termos do português africano. O dicionário da Porto admite também jiguba, sem o “n”. Ambas as grafias – com jota, e não com gê – estão em consonância com as regras ortográficas da língua portuguesa que, por convenção e com fins de padronização, mandam usar exclusivamente o jota, e nunca a letra g com som de jota, na grafia portuguesa das palavras de origem bantu (é o contrário, como já vimos, do caso das palavras árabes, em que é o “g”, e não o “j”, que deve ser usado – como vimos na publicação sobre tagine).

Musseque em Angola: favela no Brasil, bairro de lata em Portugal, caniço em Moçambique

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Musseque, em Angola, é um sinônimo de favela (no Brasil), bairro de lata (em Portugal) e caniço (em Moçambique).

No português de Angola, um musseque é um bairro ou uma aglomeração de residência pobres; os musseques correspondem, portanto, às favelas brasileiras, aos bairros de lata de Portugal e aos caniços de Moçambique.

O substantivo musseque (por vezes escrito, equivocadamente, muceque) está devidamente registrado em dicionários brasileiros, como o Aurélio e o Houaiss, e portugueses, como o Priberam e os da Texto Editores, mas a primazia de seu registro é da Porto Editora, que, por meio de sua subsidiária na África (a Plural Editores), tem sido a principal entidade a dicionarizar – e, em consequência, a normatizar – o vocabulário típico do português africano.

 

O que significa “jando”? Qual o significado da palavra jando?

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Jando é um africanismo para circuncisão.

Em línguas bantus, jando é o nome de um ritual tradicional de passagem em certas culturas africanas – especificamente, de um ritual de amadurecimento de jovens rapazes (há, em contraposição, os rituais específicos femininos), que inclui, tradicionalmente, a circuncisão (remoção do prepúcio).

O jando é comum entre povos tradicionais do Malawi, de Moçambique e de outros países vizinhos de cultura bantu. Por essa razão, a palavra jando entrou, como sinônima de circuncisão, no inglês africano, no português de Moçambique e em outras línguas não bantas faladas em países em que há população bantu significativa.

Povos bantus formam a base da população da África do Sul, da Suazilândia, do Botsuana, do Zimbábue, da Zâmbia, do Malawi, de Moçambique, de Angola, da Tanzânia, do Ruanda, do Burúndi, do Congo, do Gabão, da maior parte do território da República Democrática do Congo, do nordeste da Namíbia e do sul dos Camarões e de Uganda.

Embora ainda esteja ausente de todos os principais dicionários brasileiros e portugueses, a palavra tem registro em obras de ambos os países desde pelo menos a década de 1960:

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Em 2009,  foi publicado “Dossiê Circulação Internacional de Estudantes: os PALOP no Brasil e em Portugal”, que reuniu histórias de estudantes de intercâmbio dos países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) – entre as quais a história de um jovem moçambicano, que tece os seguintes comentários sobre o jando:

“[…] Mesmo sendo alunos bem aplicados na escola, eu, meus colegas e amigos, sentíamos a necessidade de passar pelos rituais de circuncisão – jando -, parte da tradição. No nosso círculo de amizade ser circuncidado era sinônimo de mais respeito, mais facilidade em quase tudo, inclusive a facilidade para conquistar namoradas. Quem não passasse por essa experiência, mesmo tendo um nível escolar mais elevado em relação aos demais amigos, sentia-se inferiorizado e era menos respeitado. Para nós, a circuncisão não era simplesmente um ritual de passagem. Fazia parte da construção da nossa masculinidade.

“(Vale assinalar que o jando foi uma das práticas culturais que resistiu às proibições do governo central, cuja política de construção da nação moçambicana, através da Frelimo, propunha uma nação una e moderna. Mesmo assim, quase todos os pais e parentes de várias origens étnicas e linguísticas mandavam seus filhos a esses ritos, às escondidas, desafiando assim o projeto da Frelimo.)”