Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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Palavras novas: tapiocaria

downloadNa foto acima, uma bela tapioca recheada com carne seca. Alguns dicionários, como os portugueses, só trazem tapioca como a fécula extraída da mandioca; ignoram, portanto, o sentido mais usada correntemente – o de tipo de bolo feito dessa fécula, que se come com diversos acompanhamentos, doces e salgados. Especificamente na Bahia, é chamado de beiju.

E, com a proliferação recente de estabelecimentos especializados em tapiocas por todo o país, popularizou-se também o substantivo tapiocaria – bem formado a partir do sufixo tradicional português para estabelecimentos; o mesmo que se vê em churrascaria, livraria, padaria, pamonharia, papelaria, peixaria, petiscaria, pizzaria, relojoaria, tabacaria

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Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

esnórquel, aportuguesamento de snorkel, nos dicionários Houaiss e Michaelis

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Vemos com muita frequência a grafia inglesa “snorkel” para se referir ao tubo, parte do equipamento de mergulho, que serve para respirar com o rosto sob a água. Não tem por quê: o dicionário Houaiss, o dicionário Michaelis e o dicionário Estraviz já trazem o aportuguesamento esnórquel, perfeito do ponto de vista ortográfico e já muito empregado em literatura.

A palavra esnórquel, em português, precisa de acento por se tratar uma palavra paroxítona terminada em “L” – como horrívelamávelmóvelpádel. As palavras terminadas em “L” sem nenhum acento gráfico são oxítonas: papelaluguelanilgeral, futebol

O plural, regular, é esnórqueis.

esprinte, aportuguesamento de “sprint”

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Um leitor pergunta se existe aportuguesamento de “sprint” – termo que se refere seja a uma corrida de velocidade de curta distância, seja ao esforço final numa corrida, em que em geral se atinge a máxima velocidade possível.

Como a língua portuguesa não admite substantivos comuns começados por “st-” nem terminados em “-t“, o aportuguesamento possível seria, naturalmente, esprinte.

E, respondendo objetivamente à pergunta: sim, existe a palavra esprinte; ela aparece em Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, o único escritor em língua portuguesa a ganhar um Nobel de literatura:

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Ensaio sobre a cegueira. José Saramago

É claro que se pode mesmo assim preferir substituir esprinte por formas mais tradicionais em português, como – a depender do contexto – corridacorrida rápidabreve corridaarrancadaarranqueesforço (final). Mas, se se quer usar o neologismo, que se use o bem formado aportuguesamento esprinte, que segue as regras da boa formação de substantivis portugueses e que tem a chancela de ninguém menos que nosso primeiro Nobel.

Jogos paralímpicos ou paraolímpicos? Paralimpíadas ou paraolimpíadas?

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Oficialmente, os jogos se chamam “Jogos Paralímpicos“. Mas a Folha de S.Paulo diz que vai insistir em “paraolímpico”, por considerar essa forma mais correta. Se a ideia é “corrigir” nomes próprios, a Folha deveria passar a grafar “Têmer” – ou poderia começar corrigindo o erro de pontuação no nome oficial do próprio jornal.

E mesmo que a ideia fosse “corrigir” nomes próprios, a “lógica” linguística da Folha está errada: paralímpicos” não surgiu do prefixo latino “para-” + “olímpico“, como chutam, sem verificar a etimologia da palavra. O nome na verdade veio da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, quando se criam palavras por esse processo de amálgama (como portunhol, estagflação ou informática), a regra é justamente que a segunda palavra unida perca seu início.

Por fim, o professor Pasquale argumenta (como se isso argumento fosse) que o Dicionário Houaiss não traz as grafias paralímpico paralimpíada. Alguém precisa urgentemente dar um Houaiss atualizado para o professor:

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Em artigo hoje, a Folha de S.Paulo (a mesma que ainda escreve tríplex Cingapura) tenta justificar por que é dos únicos jornais que insistem nas grafias “paraolimpíadas”/ “paraolímpicos”, com “o“, mesmo após a padronização internacional das formas sem “o” (paralympics em inglês, paralimpíadas em espanhol, jeux paralympiques em francês, jogos paralímpicos nos demais países lusófonos, etc.). Primeiramente, o Pasquale tenta usar um argumento de autoridade: diz que “os cânones da língua” recomendam a forma paraolimpíada. Mentira.

É mentira rasteira, pois de difícil verificação – afinal, quem seriam os tais cânones da língua? -, mas mentira completa: nenhum daqueles que, sob qualquer ponto de vista, são considerados os “cânones” da língua jamais abordaram a questão das palavras paralimpíadas e paraolimpíadas. E nem poderiam: até poucos anos atrás, nem umas nem outras – nem as formas com “o”, nem sem “o” – existiam em nenhum dicionário de português.

Ao invocar os “cânones” da língua, o Pasquale faz supor que a forma “paraolímpicos” remontaria a Camões – mas a verdade é que nenhuma gramática jamais tratou desses neologismos. Nenhuma boa gramática do século passado ou deste – de Celso Cunha, Bechara e Rocha Lima a Cegalla, Napoleão Mendes de Almeida ou Celso Luft – jamais defendeu uma forma ou outra. Nossos dois maiores dicionaristas, Aurélio e Houaiss, morreram sem que nenhuma dessas palavras (nem paralímpico, nem paraolímpico) ainda tivessem estreado em qualquer dicionário da língua portuguesa. A primeira aparição de paraolímpico em dicionários de português deu-se já neste século, em 2001. E a primeira aparição de paralímpico em dicionários foi em 2009, segundo o Houaiss.

Erra também ao afirmar que a letra “o”, de olímpico, nunca poderia ser suprimida em uma composição vocabular. Quem afirma isso parece desconhecer os outros processos existentes de criação de palavras em português – como o de amálgama, que levou à criação de palavras como “portunhol”, “estagflação”, “internauta” e mesmo “informática” (criada de “infor[mação] [auto]mática”) – em que, em regra, se une o início de uma palavra ao fim de outra.

E o fato é que a palavra inglesa “paralympic” não veio do prefixo latino “para-” + “olímpico”, mas sim da amalgamação das palavras “paraplegic” e “olympics” – e, nesse processo de formação vocabular, a regra justamente é que a segunda palavra perca seu começo ao entrar na composição.

Tudo isso posto, o fato de se tratar de nome próprio deveria ser suficiente para a Folha entender por que ficou praticamente sozinha nessa posição tão boba: é como se o jornal passasse a escrever Têmer, com acento, para “corrigir” a grafia do nome do novo mandatário brasileiro. Por coerência, deveriam corrigir também os nomes de todos os jogadores de futebol; e mesmo siglas que não se pronunciam como se escrevem, como “Mercosul”.

Irônico é que a correção do nome próprio dos jogos, uma marca registrada, venha justamente de um jornal cujo nome oficial – “Folha de S.Paulo” – atenta contra regras do bom português ao “engolir” o espaço que seria obrigatório entre “S.” e “Paulo“.

Por fim, se a argumentação de alguém para definir se uma palavra existe ou não na língua se resume à presença ou não da palavra em dicionários, esse alguém deveria pelo menos adquirir dicionários atualizados nesta última década – pois fica feio rematar um artigo com a afirmação de que o Dicionário Houaiss sequer aceitaria as grafias paralimpíada e paralímpico, quando, na verdade:

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Há, por fim, aqueles que argumentam que a palavra paralímpico (ou qualquer outra palavra) não existe porque não está no Vocabulário da Academia Brasileira de Letras (o VOLP). Para estes, recomendamos este artigo, com link onde se pode ouvir da boca do próprio presidente da Academia Brasileira de Letras que a Academia é uma ONG, sem caráter oficial, e que seu VOLP não tem valor legal ou oficial; e que o vocabulário de fato oficial é o Vocabulário Ortográfico Comum da CPLP, ainda em elaboração – mas que já traz a palavra paralímpico.

“Não obstante”, melhor que “inobstante”

No meio jurídico brasileiro, vez por outra se ouve ou lê a palavra “inobstante”, com o sentido de “não obstante”, ou seja, de “apesar de”.

Quem buscar, porém, no Aurélio, no Houaiss, no Michaelis ou no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras não encontrará a palavra “inobstante”. Isso porque, de fato, não se trata de construção tradicional portuguesa, sendo antes uma “invenção” de advogados brasileiros.

Se o uso da palavra nos impede de afirmar que a palavra “não existe” na língua, o que podemos dizer é que, em português, a forma tradicional, a única que se encontra nos dicionários Aurélio e Houaiss e que é recomendável é “não obstante“.