“No Laos”, e não “em Laos” – países, em geral, levam artigo definido

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O jornal O Globo acaba de publicar notícia sobre bebê resgatado “em” Laos. Erraram. Em bom português, o bebê foi resgatado no Laos. O Laos é um país da Ásia e, como ocorre com a maioria dos países na língua portuguesa, leva o artigo definido: diz-se, assim, “no Laos”, “do Laos”, e não “em Laos” ou “de Laos”.

O uso do artigo definido com os nomes próprios de lugares (topônimos) é questão complexa da gramática portuguesa, pois não há uma regra única: a maioria das cidades, por exemplo, não leva artigo (“em São Paulo”, “em Lisboa”, “em Porto Alegre”), mas há exceções (“no Rio de Janeiro”). Já a maioria dos países leva artigo (“o Brasil”, “a Alemanha”, “o Laos”), mas também há várias exceções, como é o caso de Portugal.

Para não errar, assim, é necessário memorizar cada caso – ou recorrer à lista completa de países com os quais se usa (e com os quais não se usa) o artigo definido, elaborada conforme as informações do dicionário Houaiss, que segue, nesse tema, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Como se pode ver na lista, dispensam o artigo os seguintes países membros da ONU: Andorra, Angola, Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Cabo Verde, Chipre, Cuba, El Salvador,  Fiji, Gana, Granada, Honduras, Israel, Liechtenstein, Luxemburgo, Madagascar, Malta, Maurício, Moçambique, Mônaco, Montenegro, Myanmar, Nauru, Omã, Palau, Ruanda, Santa Lúcia, San Marino, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, São Tomé e Príncipe, Singapura, Timor-Leste, Tonga, Trinidad e Tobago, Tuvalu, Uganda e Vanuatu.

Com todos os demais países – como por exemplo o Laos -, o artigo definido deve ser usado.

Por fim: quem nasce no Laos é laosiano. Alguns dicionários trazem como sinônimas as formas laocianolaotiano, que nada mais são que barbarismos copiados de outras línguas; os gramáticos recomendam apenas a forma laosiano.

O Mali (país africano), República do Mali – não “em” Mali, “de” Mali

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Algumas páginas de notícias brasileiras noticiaram ontem um atentado “em” Mali. É o mesmo erro dos jornais que falam de algum acontecimento em” Benim. É português tão errado quanto dizer que algo aconteceu “em Paraguai“, ou “em México“, ou “em Egito“, ou “em Brasil“. Em regra, em português, os nomes dos países levam artigo – o atentado ocorreu no Mali, isto é, no país africano cujo nome oficial é República do Mali (nunca “de Mali).

A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

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Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

Países e o uso do artigo definido: lista completa de países

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É complexa a questão do uso de artigo definido (“o”, “a”) com topônimos (nomes próprios de lugar) em português. O gramaticalmente, nesses casos, é seguir o uso culto tradicional – em outras palavras, é preciso aprender caso a caso.

Há, porém, tendências: os nomes de cidade em geral não levam artigo (“em São Paulo”), mas há exceções (“no Rio de Janeiro”), e os nomes de países em geral levam artigo.

Quem não está acostumado a lidar com certos nomes de países costuma cometer o erro de deixar de lado o artigo obrigatório: não se deve dizer que algo ocorreu “em Gâmbia“, “em Zâmbia“, “em Benim“, “em Brunei“, “em Malawi“, “em Papua Nova Guiné“, “em Serra Leoa“, “em Guiné-Bissau“, etc. O certo é usar o artigo: na Gâmbia, na Zâmbia, no Benim, no Brunei, no Malawi, na Papua Nova Guiné, na Serra Leoa, na Guiné-Bissau, etc.

Assim como no caso das cidades, há, porém, entre os países, exceções. Há várias ilhas (Cabo Verde, Cuba, Chipre, Granada, Madagascar, Malta), mas também muitos países continentes, como Portugal, Angola, Moçambique e Israel.

Segue abaixo a lista dos países que, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro (o Itamaraty) e com o dicionário Houaiss, não levam artigo.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE NÃO LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

Andorra, Angola, Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Cabo Verde, Chipre, Cuba, El Salvador, Fiji, Gana, Granada, Honduras, Israel, Liechtenstein, Luxemburgo, Madagascar, Malta, Maurício, Moçambique, Mônaco, Montenegro, Myanmar, Nauru, Omã, Palau, Ruanda, Santa Lúcia, San Marino, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, São Tomé e Príncipe, Singapura, Timor-Leste, Tonga, Trinidad e Tobago, Tuvalu, Uganda, Vanuatu.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

A regra geral se aplica à maioria dos países do mundo. Assim, do mesmo modo que se diz “o Brasil”, deve dizer-se também com artigo: o Afeganistão, a África do Sul, a Albânia, a Alemanha, a Arábia Saudita, a Argélia, a Argentina, a Austrália, a Áustria, o Azerbaijão, as Bahamas, o Bangladesh, o Barém (ou Bahrein), a Belarus, a Bélgica, o Benim, a Bolívia, o Botsuana, o Butão, o Brunei, os Camarões, o Camboja, o Canadá, o Cazaquistão, o Chade, o Chile, a China, a Colômbia, as Comores, o Congo, a Coreia, a Costa do Marfim, a Costa Rica, a Croácia, a Dinamarca, a Dominica, o Egito, o Equador, a Eritreia, a Eslováquia, a Eslovênia, a Espanha, os Estados Unidos, a Etiópia, as Filipinas, a Finlândia, a França, o Gabão, a Gâmbia, a Geórgia, a Grécia, a Guiné, a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, o Haiti, a Hungria, o Iêmen, as Ilhas Cook, as Ilhas Marshall, as Ilhas Salomão, a Índia, a Indonésia, o Irã, o Iraque, a Itália, a Jamaica, o Japão, a Jordânia, o Kosovoo Kuwait, o Laos, o Lesoto, a Letônia, o Líbano, a Libéria, a Líbia, a Lituânia, a Macedônia, o Malawi (ou Maláui), as Maldivas, o Mali, a Moldova, o México, a Papua Nova Guiné, o Quênia, o Quirguistão, as Seicheles, o Senegal, a Serra Leoa, a Sérvia, a Síria, a Somália, o Sri Lanka, a Suazilândia, a Suécia, a Suíça, o Sudão, o Suriname, a Tanzânia, o Tajiquistão, o Togo, a Tunísia, o Turcomenistão, a Turquia, a Ucrânia, o Uruguai, o Uzbequistão, o Vaticano, a Zâmbia, o Zimbábue.

Há ainda alguns países cujo uso é discrepante entre o Brasil e Portugal:

Países com que os portugueses usam o artigo, mas os brasileiros não:

  • brasileiros dizem “em Fiji”, “em Gana”, “em Honduras”, “em Liechtenstein”, “em Luxemburgo”, “em Maurício”, “em Mônaco”, “em Montenegro”, “em Ruanda”, “em Uganda”;
  • enquanto portugueses dizem “nas Fiji”, “no Gana”, “nas Honduras”, “no Liechtenstein”, “no Luxemburgo”, “na Maurícia” (no feminino em Portugal), “no Mónaco” (com acento agudo em Portugal), “no Montenegro”, “no Ruanda”, “no Uganda”.

Países com que os brasileiros usam o artigo, mas os portugueses não:

“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

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O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

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É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

Papua Nova Guiné: com ou sem hífen?

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Uma boa mudança trazida pelo novo Acordo Ortográfico foi uma maior sistematização no uso dos hifens. O caso da Papua Nova Guiné, país situado ao norte da Austrália, era emblemático da confusão: embora o nome do país, em português, fosse “Papua-Nova Guiné“, era comum encontrar, em fontes sérias, grafias como “Papua Nova-Guiné“, ou mesmo “Papua-Nova-Guiné“.

Com o novo Acordo Ortográfico, não há dúvidas: como regra geral, determina o Acordo, os topônimos (nomes de lugares: países, estados, cidades, etc.) não levam hífen. Escreve-se, portanto, sempre sem hifens: Papua Nova Guiné.

 

O gentílico e a pronúncia de Vanuatu

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Um forte terremoto atingiu Vanuatu, pequeno país e arquipélago situado no Oceano Pacífico. O sismo teve magnitude tamanha que gerou temor em toda a região quanto à possibilidade de tsunâmis (para recordar por que em português “tsunâmi” deve escrever-se com acento, clique aqui).

Com as raras menções a esse pequeno país, ressurgiu a dúvida: como pronunciar o nome do país? Vanuátu ou Vanuatú? E quem nasce em Vanuatu se chama como?

Em inglês, a pronúncia é paroxítona (*Vanuátu), mas a pronúncia correta do nome do país em português é oxítona: “Vanua – do mesmo modo que na própria língua nacional de sua população, o bislamá (língua sobre a qual também já escrevemos, aqui).

Embora a pronúncia seja Vanuatú, o nome do país não leva acento em português, simplesmente porque as palavras oxítonas terminadas em “u” não são acentuadas em português: urubuIguaçu, baiacu, Tuvalu, pirarucu, jacu.

Como o último “u” é tônico, quem nasce em Vanuatu deve ser chamado, em português, vanuatuense – a exemplo de Amapá/amapaense; Itajaí/itajaiense; Jequié/jequieense. A forma correta é a única acolhida pelo Dicionário Aurélio, pelo Dicionário Michaelis, pelo Dicionário Priberam e pelo Dicionário da Porto Editora – nenhum dos quais traz *vanuatense, forma errada que traz o Dicionário Houaiss.

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País transgênero? A antiga Chipre está a virar “o Chipre”

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Alguns jornais brasileiros estão neste momento noticiando o sequestro de um avião “no” Chipre. Seguem comentando a reação do governo “do” Chipre e outros comentários concernentes “ao” Chipre.

Tradicionalmente, porém, a língua portuguesa não admite artigo com o nome do país: os dicionários, enciclopédias e órgãos governamentais do Brasil e de Portugal referem-se, como sempre se referiram, “a Chipre”, à ilha “de Chipre”, à República de Chipre…

A Rede Angola, a Agência Cabo-Verdiana de Notícias, a edição brasileira do El País, a DW em português, o Terra, entre outros, corretamente noticiaram o incidente de hoje em Chipre.

Nas “Cartas” do Padre Antônio Vieira já se lia: “O terremoto de Rimini e mais cidades da Romanha se comunicou por debaixo do mar com as ilhas do arquipélago, porque na mesma hora caíram muitos edifícios em Chipre, e se subverteu com mais de setenta mil almas a celebrada ilha de Có, pátria de Hipócrates e Apeles“.

Não há regra previsível que determine se, em português, um nome de país admitirá ou não o artigo definido – o que rege são o próprio uso e a tradição da língua. Assim, diz-se “no Brasil”, mas “em Portugal”. Embora tampouco seja uma regra fixa, são muitos os países-ilhas que rejeitam artigo: diz-se “em Cuba”, “em Malta”, “em Singapura”, “em Nauru”, “em Aruba”… e “em Chipre”.

A língua evolui, é claro – e seria completamente possível que um nome que tradicionalmente não admitisse artigo passasse a aceitá-lo. Porém, dizer “o Chipre” também contraria a história do português porque, tradicionalmente, Chipre sempre se usou como nome feminino, não masculino: quando necessário o uso de artigo, assim, nossos antigos sempre se referiam à “antiga Chipre” (“O Viajante Universal“, 1798), à “bela Chipre”, “a Chipre de hoje, rebelde e explosiva“, etc.

O atual uso de “o” junto a Chipre talvez se explique por eufonia – ou mesmo por uma contaminação pela palavra “Chifre” (usada, por exemplo, em “o Chifre da África”).

O fato é que mesmo em Portugal, já se nota a “mudança de gênero” e a invasão do artigo definido com o nome dessa ilha-país, berço mitológico de Afrodite: na imprensa portuguesa hoje, O Público escreveu “em Chipre“, mas… “do Chipre“; a RTP Notícias usa “em Chipre” na manchete, mas “no Chipre” na reportagem; o Diário de Notícias fala “de Chipre”, mas se lê “o Chipre” no endereço da reportagem.

Em tempos de transgeneridade (palavra que ainda não está em nossos dicionários…), estamos, talvez, diante do primeiro caso de país transgênero.

Nem ‘Guangzhou’ nem ‘Guangdong’: em português, Cantão

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O apresentador do telejornal acaba de afirmar que o primeiro caso de zica na China acaba de ser confirmado… em Guangdong. Da mesma forma que muita gente até hoje não sabe que Pequim e Beijing são a mesma cidade, graças à qualidade nossa televisão o brasileiro em casa vai dormir pensando que algo ocorreu em algum canto obscuro de que nunca ouvira falar na China, sem saber que, na verdade, o ocorrido se deu na tão conhecida província de Cantão.

Cantão é o nome da província chinesa chamada Guangdong em chinês; e é Cantão também o nome português da cidade que é a capital dessa província – cidade que é chamada Guangzhou em chinês. Em português, para diferenciar-se, sempre se referiu à cidade de Cantão ou à província de Cantão.

Chamar a tão famosa Cantão de Guangdong ou Guangzhou equivale a chamar, em português, Londres de London, ou Munique de München.

Além de Cantão, outras quatro cidades chinesas com nomes tradicionais em português, que devem ser usados, são Nanquim (Nanjing), Pequim (Beijing), Taipé (Taipei) e Xangai (Shanghai).

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Barém, aportuguesamento de Bahrein

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Com o Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1 em evidência, proliferam na imprensa as menções a esse país árabe. A pronúncia padrão em português do nome Bahrein rima com tambémarmazém, Belém. Com base nisso, alguém poderia se perguntar: não se poderia, então, escrever, em português, Barém?

Certamente se pode – e, embora cause estranheza a muitos brasileiros, Barém é de fato a forma tradicional.

Como já comentamos em publicação anterior, na qual mostramos que o novo Acordo Ortográfico explicitamente traz “hem“, e não *hein nem *ein, como grafia oficial para a interjeição de espanto ou dúvida (“hem?”), é uma regra da língua portuguesa que o som final pronunciado, no Brasil, “êin” deve ser escrito “ém” (como em Belémtambém…).

Além disso, o nome Barém é tão tradicional em português que aparece mencionado, mais de uma vez, nessa grafia, n’Os Lusíadas de Camões, primeiro grande clássico da língua portuguesa:  “(…) Das perlas de Barém, tributo rico.”

Embora haja atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado “traduções” de nomes próprios, em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras kw e  e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados), o aportuguesamento tradicional Barém tem legitimidade, como mostram as fontes a seguir:

Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis:

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Dicionário Silveira Bueno (“O mais brasileiro dos dicionários de português”):IMG_0766.JPG

Vocabulário Onomástico da Academia Brasileira de Letras (1999):

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Por fim, recordemos Cândido de Figueiredo, que, na parte final de seu dicionário, faz um compilado de nomes próprios frequentemente escritos errados já no século passado:

“Barém, região da Arábia. Em livros e mapas nossos, [vê-se] Bahrem e até Bahrein !”IMG_0760

Em outras palavras, é inegável que a forma “internacional” Bahrein é a mais usada em português, hoje – mas a língua portuguesa, com tantos séculos de história, já há muito criara sua versão própria para o nome do país, Barém.

O que não faz sentido, por outro lado, é a divulgação de invencionices recentes, criadas na cabeça de alguns puristas equivocados que, querendo rejeitar a forma internacional Bahrein, mas sem conhecer a história da língua portuguesa e a tradição do uso de Barém, inventam aportuguesamentos próprios, como Bareine ou Barein. É por isso que se diz que de boas intenções o inferno está cheio: se cada falante que quiser “salvar” a língua da invasão de termos estrangeiros começar a inventar seus próprios aportuguesamentos sem levar em conta aqueles já existentes, em pouco tempo ninguém mais se entenderia.