O gentílico e a pronúncia de Vanuatu

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Um forte terremoto atingiu Vanuatu, pequeno país e arquipélago situado no Oceano Pacífico. O sismo teve magnitude tamanha que gerou temor em toda a região quanto à possibilidade de tsunâmis (para recordar por que em português “tsunâmi” deve escrever-se com acento, clique aqui).

Com as raras menções a esse pequeno país, ressurgiu a dúvida: como pronunciar o nome do país? Vanuátu ou Vanuatú? E quem nasce em Vanuatu se chama como?

Em inglês, a pronúncia é paroxítona (*Vanuátu), mas a pronúncia correta do nome do país em português é oxítona: “Vanua – do mesmo modo que na própria língua nacional de sua população, o bislamá (língua sobre a qual também já escrevemos, aqui).

Embora a pronúncia seja Vanuatú, o nome do país não leva acento em português, simplesmente porque as palavras oxítonas terminadas em “u” não são acentuadas em português: urubuIguaçu, baiacu, Tuvalu, pirarucu, jacu.

Como o último “u” é tônico, quem nasce em Vanuatu deve ser chamado, em português, vanuatuense – a exemplo de Amapá/amapaense; Itajaí/itajaiense; Jequié/jequieense. A forma correta é a única acolhida pelo Dicionário Aurélio, pelo Dicionário Michaelis, pelo Dicionário Priberam e pelo Dicionário da Porto Editora – nenhum dos quais traz *vanuatense, forma errada que traz o Dicionário Houaiss.

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País transgênero? A antiga Chipre está a virar “o Chipre”

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Alguns jornais brasileiros estão neste momento noticiando o sequestro de um avião “no” Chipre. Seguem comentando a reação do governo “do” Chipre e outros comentários concernentes “ao” Chipre.

Tradicionalmente, porém, a língua portuguesa não admite artigo com o nome do país: os dicionários, enciclopédias e órgãos governamentais do Brasil e de Portugal referem-se, como sempre se referiram, “a Chipre”, à ilha “de Chipre”, à República de Chipre…

A Rede Angola, a Agência Cabo-Verdiana de Notícias, a edição brasileira do El País, a DW em português, o Terra, entre outros, corretamente noticiaram o incidente de hoje em Chipre.

Nas “Cartas” do Padre Antônio Vieira já se lia: “O terremoto de Rimini e mais cidades da Romanha se comunicou por debaixo do mar com as ilhas do arquipélago, porque na mesma hora caíram muitos edifícios em Chipre, e se subverteu com mais de setenta mil almas a celebrada ilha de Có, pátria de Hipócrates e Apeles“.

Não há regra previsível que determine se, em português, um nome de país admitirá ou não o artigo definido – o que rege são o próprio uso e a tradição da língua. Assim, diz-se “no Brasil”, mas “em Portugal”. Embora tampouco seja uma regra fixa, são muitos os países-ilhas que rejeitam artigo: diz-se “em Cuba”, “em Malta”, “em Singapura”, “em Nauru”, “em Aruba”… e “em Chipre”.

A língua evolui, é claro – e seria completamente possível que um nome que tradicionalmente não admitisse artigo passasse a aceitá-lo. Porém, dizer “o Chipre” também contraria a história do português porque, tradicionalmente, Chipre sempre se usou como nome feminino, não masculino: quando necessário o uso de artigo, assim, nossos antigos sempre se referiam à “antiga Chipre” (“O Viajante Universal“, 1798), à “bela Chipre”, “a Chipre de hoje, rebelde e explosiva“, etc.

O atual uso de “o” junto a Chipre talvez se explique por eufonia – ou mesmo por uma contaminação pela palavra “Chifre” (usada, por exemplo, em “o Chifre da África”).

O fato é que mesmo em Portugal, já se nota a “mudança de gênero” e a invasão do artigo definido com o nome dessa ilha-país, berço mitológico de Afrodite: na imprensa portuguesa hoje, O Público escreveu “em Chipre“, mas… “do Chipre“; a RTP Notícias usa “em Chipre” na manchete, mas “no Chipre” na reportagem; o Diário de Notícias fala “de Chipre”, mas se lê “o Chipre” no endereço da reportagem.

Em tempos de transgeneridade (palavra que ainda não está em nossos dicionários…), estamos, talvez, diante do primeiro caso de país transgênero.

Nem ‘Guangzhou’ nem ‘Guangdong’: em português, Cantão

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O apresentador do telejornal acaba de afirmar que o primeiro caso de zica na China acaba de ser confirmado… em Guangdong. Da mesma forma que muita gente até hoje não sabe que Pequim e Beijing são a mesma cidade, graças à qualidade nossa televisão o brasileiro em casa vai dormir pensando que algo ocorreu em algum canto obscuro de que nunca ouvira falar na China, sem saber que, na verdade, o ocorrido se deu na tão conhecida província de Cantão.

Cantão é o nome da província chinesa chamada Guangdong em chinês; e é Cantão também o nome português da cidade que é a capital dessa província – cidade que é chamada Guangzhou em chinês. Em português, para diferenciar-se, sempre se referiu à cidade de Cantão ou à província de Cantão.

Chamar a tão famosa Cantão de Guangdong ou Guangzhou equivale a chamar, em português, Londres de London, ou Munique de München.

Além de Cantão, outras quatro cidades chinesas com nomes tradicionais em português, que devem ser usados, são Nanquim (Nanjing), Pequim (Beijing), Taipé (Taipei) e Xangai (Shanghai).

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Bahrein, Barém

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Com o Grande Prêmio do Bahrein de Fórmula 1 em evidência, proliferam na imprensa as menções a esse país árabe. A pronúncia padrão em português do nome Bahrein rima com tambémarmazém, Belém. Com base nisso, alguém poderia se perguntar: não se poderia, então, escrever, em português, Barém?

Certamente se pode – e, embora cause estranheza a muitos brasileiros, Barém é de fato a forma tradicional.

Como já comentamos em publicação anterior, na qual mostramos que o novo Acordo Ortográfico explicitamente traz “hem“, e não *hein nem *ein, como grafia oficial para a interjeição de espanto ou dúvida (“hem?”), é uma regra da língua portuguesa que o som final pronunciado, no Brasil, “êin” deve ser escrito “ém” (como em Belémtambém…).

Além disso, o nome Barém é tão tradicional em português que aparece mencionado, mais de uma vez, nessa grafia, n’Os Lusíadas de Camões, primeiro grande clássico da língua portuguesa:  “(…) Das perlas de Barém, tributo rico.”

Embora haja atualmente uma forte tendência mundial, e também na língua portuguesa, de se deixarem de lado “traduções” de nomes próprios, em favor do uso de formas internacionais (o que encontra respaldo, ainda, no texto do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que deu carta branca para o uso das letras kw e  e de quaisquer combinações de letras não usuais em português, nos nomes próprios estrangeiros e em seus derivados), o aportuguesamento tradicional Barém tem legitimidade, como mostram as fontes a seguir:

Contracapa da primeira edição do Dicionário Melhoramentos – atual Dicionário Michaelis:IMG_4122

Dicionário Silveira Bueno (“O mais brasileiro dos dicionários de português”):IMG_0766.JPG

Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (2001):IMG_1706.JPG

Vocabulário Onomástico da Academia Brasileira de Letras (1999):IMG_0702

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Por fim, vale a pena recordar a parte final do Dicionário de Cândido de Figueiredo (que, até o lançamento do Aurélio, em 1975, foi o dicionário de referência no Brasil e em Portugal), em que o autor faz um compilado de nomes próprios frequentemente escritos errados já no século passado:

“Barém, região da Arábia. Em livros e mapas nossos, [vê-se] Bahrem e até Bahrein !”IMG_0760

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Malanje ou Malange?

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Leitora residente em Angola nos pergunta se, afinal, o certo é “Malanje” ou “Malange” que se escreve o nome da província angolana e da sua capital. Os nossos leitores assíduos poderiam nunca ter ouvido falar nesse lugar, mas saberiam já que, se se trata de um nome africano, deve ser escrito com “j”, e não com “g”. E acertariam. A grafia oficial é mesmo Malanje, com jota.

Como já ensinamos aqui, por convenção ortográfica usa-se em português o jota – e não a letra gê – na escrita das sílabas que soam “je” e “ji” em palavras portuguesas vindas de línguas africanas.

Por se tratar de nome próprio é claro, porém, que a forma oficial poderia ser diferente – governos, decretos e leis municipais podem sempre, é claro, oficializar uma grafia “errada”, isto é, que não segue as regras ortográficas oficiais (como já vimos ser o caso dos nomes de vários municípios brasileiros) – e, em se tratando de nomes de localidades (ou de pessoas) de países lusófonos, o correto é seguir o uso registrado “no papel”, mesmo que esse contrarie as normas ortográficas.

No caso de Malanje, porém, não há polêmica: embora de fato se veja por aí, com alguma frequência, a grafia Malange, o fato é que o governo da cidade, da província e mesmo o nacional de Angola respeitam a ortografia oficial portuguesa e escrevem sempre Malanje – como se pode ver nesta lista da página oficia do governo angolano, com os nomes oficiais de todas as províncias do país:

Província Extensão (km2) Capital
Bengo 33.016 Caxito
Benguela 39.826 Benguela
Bié 70.314 Kuito
Cabinda 7.270 Cabinda
Kuando-Kubango 199.049 Menongue
Kwanza Norte 24.110 N’dalatando
Kwanza Sul 55.600 Sumbe
Cunene 87.342 Ondjiva
Huambo 34.270 Huambo
Huíla 79.022 Lubango
Luanda 2.417 Luanda
Lunda Norte 103.000 Dundo
Lunda Sul 77.367 Saurimo
Malanje 97.602 Malanje
Moxico 223.023 Luena
Namibe 57.091 Namibe
Uíge 58.698 Uíge
Zaire 40.130 M’Banza Congo

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Uagadugu (em francês, Ouagadougou), capital do Burkina Faso

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O país africano destacado em vermelho no mapa acima, antigamente chamado Alto Volta, é o atual Burkina Faso.

A capital do Burkina Faso é a cidade de Uagadugu (escrita Ouagadougou em francês,  língua oficial do país).

Em francês,  o dígrafo “ou” se pronuncia simplesmente “u” – por isso o nome, em português, é escrito simplesmente Uagadugu. Em espanhol, igualmente, escreve-se Uagadugú – com acento, em espanhol, porque, ao contrário do português, o espanhol acentua as oxítonas terminadas em “u”; em português, não há acento, mesmo com a sílaba tônica sendo a última: Uagadugu rima com urubu, jacu, etc.

Depois de anos chamando-se “Alto Volta”, o país adotou um novo nome, proveniente de duas línguas africanas faladas por sua população: Burkina significa “homens honestos”; e Faso, país, terra, pátria.

Embora possa soar estranho a ouvidos brasileiros (pouco acostumados que estamos a falar desse país), o Burkina Faso é tratado sempre, nos países africanos que falam português (Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné-Bissau), e mesmo em Portugal, com o artigo definido: diz-se “o Burkina Faso“, “no Burkina Faso (em vez de “em”), do Burkina Faso.

Ver publicação relacionada: “Em Benin”? Não, o certo é “no Benim”.

Quem nasce no Sri Lanka é srilankês, não cingalês

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O Sri Lanka é um pequeno país ao sul da Índia, que ocupa a ilha que os portugueses originalmente batizaram de Ceilão.

Quem nasce no Sri Lanka é srilankês – e não “cingalês”, como dizem, erroneamente, muitos dicionários. Cingalês é o nome da língua e da etnia majoritárias no Sri Lanka; no entanto, nem todos os srilankeses são cingaleses: cerca de 10% dos habitantes do Sri Lanka pertencem à etnia tâmil.

Cingalês, palavra antiga na língua portuguesa, corresponde a Sinhalese em inglês; cingalés, em espanhol; Cinghalais em francês. O cingalês é uma das duas línguas oficiais do Sri Lanka (a outra é o tâmil).

Como define o dicionário Oxford, cingaleses (Singhalese ou Sinhalese) são “um povo originário da norte da Índia, que hoje constitui a maioria da população do Sri Lanka“.

Já o neologismo srilankês corresponde ao inglês  Sri Lankan; ao francês Sri Lankais; e ao espanhol esrilanqués: são srilankeses os “nativos ou habitantes do Sri Lanka” – de qualquer etnia, sejam eles cingaleses, tâmeis, portugueses, brasileiros ou de qualquer outra origem.