“No Laos”, e não “em Laos” – países, em geral, levam artigo definido

IMG_4195.PNG

O jornal O Globo acaba de publicar notícia sobre bebê resgatado “em” Laos. Erraram. Em bom português, o bebê foi resgatado no Laos. O Laos é um país da Ásia e, como ocorre com a maioria dos países na língua portuguesa, leva o artigo definido: diz-se, assim, “no Laos”, “do Laos”, e não “em Laos” ou “de Laos”.

O uso do artigo definido com os nomes próprios de lugares (topônimos) é questão complexa da gramática portuguesa, pois não há uma regra única: a maioria das cidades, por exemplo, não leva artigo (“em São Paulo”, “em Lisboa”, “em Porto Alegre”), mas há exceções (“no Rio de Janeiro”). Já a maioria dos países leva artigo (“o Brasil”, “a Alemanha”, “o Laos”), mas também há várias exceções, como é o caso de Portugal.

Para não errar, assim, é necessário memorizar cada caso – ou recorrer à lista completa de países com os quais se usa (e com os quais não se usa) o artigo definido, elaborada conforme as informações do dicionário Houaiss, que segue, nesse tema, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro.

Como se pode ver na lista, dispensam o artigo os seguintes países membros da ONU: Andorra, Angola, Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Cabo Verde, Chipre, Cuba, El Salvador,  Fiji, Gana, Granada, Honduras, Israel, Liechtenstein, Luxemburgo, Madagascar, Malta, Maurício, Moçambique, Mônaco, Montenegro, Myanmar, Nauru, Omã, Palau, Ruanda, Santa Lúcia, San Marino, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, São Tomé e Príncipe, Singapura, Timor-Leste, Tonga, Trinidad e Tobago, Tuvalu, Uganda e Vanuatu.

Com todos os demais países – como por exemplo o Laos -, o artigo definido deve ser usado.

Por fim: quem nasce no Laos é laosiano. Alguns dicionários trazem como sinônimas as formas laocianolaotiano, que nada mais são que barbarismos copiados de outras línguas; os gramáticos recomendam apenas a forma laosiano.

O Mali (país africano), República do Mali – não “em” Mali, “de” Mali

Sans titre

Algumas páginas de notícias brasileiras noticiaram ontem um atentado “em” Mali. É o mesmo erro dos jornais que falam de algum acontecimento em” Benim. É português tão errado quanto dizer que algo aconteceu “em Paraguai“, ou “em México“, ou “em Egito“, ou “em Brasil“. Em regra, em português, os nomes dos países levam artigo – o atentado ocorreu no Mali, isto é, no país africano cujo nome oficial é República do Mali (nunca “de Mali).

A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

alsa1

Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

Países e o uso do artigo definido: lista completa de países

50_paises-del-mundo1.jpg

É complexa a questão do uso de artigo definido (“o”, “a”) com topônimos (nomes próprios de lugar) em português. O gramaticalmente, nesses casos, é seguir o uso culto tradicional – em outras palavras, é preciso aprender caso a caso.

Há, porém, tendências: os nomes de cidade em geral não levam artigo (“em São Paulo”), mas há exceções (“no Rio de Janeiro”), e os nomes de países em geral levam artigo.

Quem não está acostumado a lidar com certos nomes de países costuma cometer o erro de deixar de lado o artigo obrigatório: não se deve dizer que algo ocorreu “em Gâmbia“, “em Zâmbia“, “em Benim“, “em Brunei“, “em Malawi“, “em Papua Nova Guiné“, “em Serra Leoa“, “em Guiné-Bissau“, etc. O certo é usar o artigo: na Gâmbia, na Zâmbia, no Benim, no Brunei, no Malawi, na Papua Nova Guiné, na Serra Leoa, na Guiné-Bissau, etc.

Assim como no caso das cidades, há, porém, entre os países, exceções. Há várias ilhas (Cabo Verde, Cuba, Chipre, Granada, Madagascar, Malta), mas também muitos países continentes, como Portugal, Angola, Moçambique e Israel.

Segue abaixo a lista dos países que, de acordo com o Ministério das Relações Exteriores brasileiro (o Itamaraty) e com o dicionário Houaiss, não levam artigo.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE NÃO LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

Andorra, Angola, Antígua e Barbuda, Barbados, Belize, Cabo Verde, Chipre, Cuba, El Salvador, Fiji, Gana, Granada, Honduras, Israel, Liechtenstein, Luxemburgo, Madagascar, Malta, Maurício, Moçambique, Mônaco, Montenegro, Myanmar, Nauru, Omã, Palau, Ruanda, Santa Lúcia, San Marino, São Cristóvão e Névis, São Vicente e Granadinas, São Tomé e Príncipe, Singapura, Timor-Leste, Tonga, Trinidad e Tobago, Tuvalu, Uganda, Vanuatu.

PAÍSES MEMBROS DA ONU QUE LEVAM ARTIGO DEFINIDO, SEGUNDO O ITAMARATY E O HOUAISS:

A regra geral se aplica à maioria dos países do mundo. Assim, do mesmo modo que se diz “o Brasil”, deve dizer-se também com artigo: o Afeganistão, a África do Sul, a Albânia, a Alemanha, a Arábia Saudita, a Argélia, a Argentina, a Austrália, a Áustria, o Azerbaijão, as Bahamas, o Bangladesh, o Barém (ou Bahrein), a Belarus, a Bélgica, o Benim, a Bolívia, o Botsuana, o Butão, o Brunei, os Camarões, o Camboja, o Canadá, o Cazaquistão, o Chade, o Chile, a China, a Colômbia, as Comores, o Congo, a Coreia, a Costa do Marfim, a Costa Rica, a Croácia, a Dinamarca, a Dominica, o Egito, o Equador, a Eritreia, a Eslováquia, a Eslovênia, a Espanha, os Estados Unidos, a Etiópia, as Filipinas, a Finlândia, a França, o Gabão, a Gâmbia, a Geórgia, a Grécia, a Guiné, a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, o Haiti, a Hungria, o Iêmen, as Ilhas Cook, as Ilhas Marshall, as Ilhas Salomão, a Índia, a Indonésia, o Irã, o Iraque, a Itália, a Jamaica, o Japão, a Jordânia, o Kosovoo Kuwait, o Laos, o Lesoto, a Letônia, o Líbano, a Libéria, a Líbia, a Lituânia, a Macedônia, o Malawi (ou Maláui), as Maldivas, o Mali, a Moldova, o México, a Papua Nova Guiné, o Quênia, o Quirguistão, as Seicheles, o Senegal, a Serra Leoa, a Sérvia, a Síria, a Somália, o Sri Lanka, a Suazilândia, a Suécia, a Suíça, o Sudão, o Suriname, a Tanzânia, o Tajiquistão, o Togo, a Tunísia, o Turcomenistão, a Turquia, a Ucrânia, o Uruguai, o Uzbequistão, o Vaticano, a Zâmbia, o Zimbábue.

Há ainda alguns países cujo uso é discrepante entre o Brasil e Portugal:

Países com que os portugueses usam o artigo, mas os brasileiros não:

  • brasileiros dizem “em Fiji”, “em Gana”, “em Honduras”, “em Liechtenstein”, “em Luxemburgo”, “em Maurício”, “em Mônaco”, “em Montenegro”, “em Ruanda”, “em Uganda”;
  • enquanto portugueses dizem “nas Fiji”, “no Gana”, “nas Honduras”, “no Liechtenstein”, “no Luxemburgo”, “na Maurícia” (no feminino em Portugal), “no Mónaco” (com acento agudo em Portugal), “no Montenegro”, “no Ruanda”, “no Uganda”.

Países com que os brasileiros usam o artigo, mas os portugueses não:

“No Marrocos” ou “em Marrocos”?

marrakesh_

O correto é “em Marrocos” ou “no Marrocos”? Em outras palavras, o nome do país Marrocos leva artigo? As duas opções estão corretas: no Brasil, usa-se com artigo: o Marrocos, no Marrocos, do Marrocos; em Portugal, usa-se sem: em Marrocos, de Marrocos.

Mas por que essa diferença? Há uma explicação:

Como regra geral, os nomes de países levam artigo em português: a África do Sul, a Argentina, a China, a Colômbia, a Eritreia, o Japão, o México, a Zâmbia (há, porém, exceções, como Portugal); e, como regral geral, os nomes de cidades, em português, não levam artigo: diz-se “em São Paulo”, “em Brasília”, “em Lisboa”, “em Maputo” (há, também um pequeno número de exceções, como o Rio de Janeiro).

No caso de/do Marrocos, a questão é justamente que o mesmo nome, “Marrocos”, originalmente designava, em português, uma cidade – a atual Marraquexe (Marrakech) -, e posteriormente tornou-se o nome aplicado a todo o país.

Sim, tanto a palavra “Marrocos” quanto “Marrakech” têm a mesma origem, e é a atual cidade de Marraquexe que primeiro recebeu o nome, em português, de Marrocos; os portugueses chamavam de Marrocos a principal cidade dos antigos reinos muçulmanos do noroeste da África; chamava-se, assim, Reino de Marrocos ao reino centrado na cidade que os portugueses chamavam Marrocos, e os franceses, Marrakech.

Com a evolução da política local – o surgimento do país com suas feições modernas – e o passar do tempo, os portugueses passaram a usar o nome “Marrocos” apenas para se referirem ao país, e, para se referirem à cidade, a fim de evitar ambiguidade, foram cada vez mais adotando o nome francês, Marrakech.

Pelo contato próximo que sempre mantiveram com aquele país, porém, os portugueses mantiveram para com o nome do país o tratamento que sempre haviam dado ao nome, mesmo quando se referia apenas a uma cidade – o uso sem artigo: em Marrocos, de Marrocos.

Já os brasileiros, cujo contato com o reino árabe era muito menor, não tinham por que não acabar por “regularizar” o tratamento dado ao nome do país: do mesmo que modo que “o Egito”, “o Sudão”, “o Congo”, “o Chade”… “o Marrocos”.

Já à época do Brasil Império, no início de 1889,  encontra-se exemplo, no “Annuario publicado pelo Imperial Observatorio do Rio de Janeiro“, do uso com artigo:

Página 15

É esse (“o Marrocos”, “no Marrocos”, “do Marrocos”) o uso oficial no Brasil, que se vê tanto em órgãos governamentais quanto na imprensa e, entre outros, no dicionário Houaiss (verbete “marroquino”), ao passo que, em Portugal, mantém-se o uso histórico, sem artigo (“em Marrocos”).

Papua Nova Guiné: com ou sem hífen?

bd1f65e2bc57cc2a71bc271c5df08fdb

Uma boa mudança trazida pelo novo Acordo Ortográfico foi uma maior sistematização no uso dos hifens. O caso da Papua Nova Guiné, país situado ao norte da Austrália, era emblemático da confusão: embora o nome do país, em português, fosse “Papua-Nova Guiné“, era comum encontrar, em fontes sérias, grafias como “Papua Nova-Guiné“, ou mesmo “Papua-Nova-Guiné“.

Com o novo Acordo Ortográfico, não há dúvidas: como regra geral, determina o Acordo, os topônimos (nomes de lugares: países, estados, cidades, etc.) não levam hífen. Escreve-se, portanto, sempre sem hifens: Papua Nova Guiné.

 

O gentílico e a pronúncia de Vanuatu

250px-flag_of_vanuatu-svg

Um forte terremoto atingiu Vanuatu, pequeno país e arquipélago situado no Oceano Pacífico. O sismo teve magnitude tamanha que gerou temor em toda a região quanto à possibilidade de tsunâmis (para recordar por que em português “tsunâmi” deve escrever-se com acento, clique aqui).

Com as raras menções a esse pequeno país, ressurgiu a dúvida: como pronunciar o nome do país? Vanuátu ou Vanuatú? E quem nasce em Vanuatu se chama como?

Em inglês, a pronúncia é paroxítona (*Vanuátu), mas a pronúncia correta do nome do país em português é oxítona: “Vanua – do mesmo modo que na própria língua nacional de sua população, o bislamá (língua sobre a qual também já escrevemos, aqui).

Embora a pronúncia seja Vanuatú, o nome do país não leva acento em português, simplesmente porque as palavras oxítonas terminadas em “u” não são acentuadas em português: urubuIguaçu, baiacu, Tuvalu, pirarucu, jacu.

Como o último “u” é tônico, quem nasce em Vanuatu deve ser chamado, em português, vanuatuense – a exemplo de Amapá/amapaense; Itajaí/itajaiense; Jequié/jequieense. A forma correta é a única acolhida pelo Dicionário Aurélio, pelo Dicionário Michaelis, pelo Dicionário Priberam e pelo Dicionário da Porto Editora – nenhum dos quais traz *vanuatense, forma errada que traz o Dicionário Houaiss.

vanuatucopy2