“Becape” e “becapear”: existir, existem…

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Um leitor pergunta-nos se existe já um aportuguesamento de back-up, também escrito backup, que em informática se refere ao ato de salvar um cópia extra de arquivos importantes fora do ambiente usual de trabalho, por segurança.

A resposta simples é: sim, existe; o Dicionário Houaiss já traz o substantivo aportuguesado becape. Se repararem, fez-se, nesse caso, analogia com aportuguesamentos criados no século passado, como checape (de check-up ou checkup) e picape (de pick-up ou pickup).

O Dicionário Houaiss foi ainda além e já incluiu, entre suas palavras, os verbos becapar becapear, e até os particípios becapado becapeado.

Mas ainda que estejam no dicionário: precisamos dessas palavras?

Na nossa opinião, não. Como diz a sucinta definição do Houaiss, um becape nada mais é que uma cópia de segurança.

Em português, bugue e minibugue

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Isso na foto acima, todo brasileiro sabe, é um bugue. Existem também, é claro, as versões menores – os minibugues. Mas nenhum dicionário brasileiro registra nenhuma das duas palavras com esse sentido.

A maioria dos jornais e revistas não vê problema em não encontrar a palavra nos dicionários, e usa-as mesmo assim – a Veja usa bugue (e bugueiro, nome dado no Nordeste aos condutores profissionais de bugues de passeio) hoje (ver aqui), como já usava minibugue desde pelo menos 1993 (ver aqui).

Já o Correio Braziliense de hoje, como tem uma consultora “linguística” que acredita piamente piamente que só existe na língua o que está no VOLP da Academia Brasileira de Letras, preferiu não usar bugue, que não achou, mas foi no que encontrou – bugre: “O veículo foi solicitado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) – responsável pela administração da área –, que também disponibilizou quatro picapes, quatro quadriciclos, dois bugres e três barcos para as buscas.

Bugre, segundo os dicionários, é um indígena brasileiro. Já bugue é o aportuguesamento de buggy, que, por enquanto, por ironia, só o dicionário Priberam registra, como registra também minibugue e bugueiro – todas adicionadas após sugestão da equipe do DicionarioeGramatica.

Onlaine, aportuguesamento de on-line/online, no Vocabulário Ortográfico Atualizado

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Na mais recente edição (2014) do seu Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa, a Academia das Ciências de Lisboa – análoga portuguesa da Academia Brasileira de Letras – acolheu, como palavra portuguesa, a palavra onlaine – corretíssimo (e mais que bem-vindo) aportuguesamento do inglês on-line, também escrito online.


onlaine

Adjetivo
on.lai.ne, comum de dois gêneros

  1. situado e acessível na Internet
    • Eles oferecem uma suporte técnico onlaine aos usuários.
    • Ela fica o dia inteiro onlaine.
    • Qual o melhor dicionário onlaine que você conhece?

Etimologia
Do inglês online.


 

Supõe-se que um falante competente da língua portuguesa, com boa cultura, deve ser capaz de expressar-se em sua própria língua sem precisar recorrer todo o tempo a palavras estrangeiras. A completa aversão e repúdio ao uso de toda e qualquer palavra estrangeira, por outro lado, revela ignorância talvez até maior, por ser óbvio que a língua portuguesa nada mais é, em essência, que uma grande amálgama de vocábulos estrangeiros e deturpações da sua base originária, o latim vulgar. Não há sentido abominar o uso da expressão inglesa online, universalmente utilizada por sintetizar um conceito até recentemente inexistente; e, após anos de insistência (por exemplo, pela Porto Editora, com seus dicionários “em linha”), fica claro que não há versão “portuguesa” da expressão que tenha condições de vingar no uso comum; “em linha”, por exemplo, sequer seria um grande remédio, pois criaria ambiguidade com o sentido que já tem – de “ao telefone”.

A solução, portanto, é o aportuguesamento, que a Academia portuguesa fez à perfeição. Sendo bem-formado, e tão útil, já passamos a usá-lo – e inclusive já o colocamos em nossa lista de aportuguesamentos recentes (que também inclui neologismos de outras origens).

Agora é esperar que a palavra se popularize: quanto tempo levará para ser acolhida por algum dicionário – seja um em papel, seja um dicionário onlaine?

Em português: tuque-tuque, e não tuk-tuk

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Reportagem do Correio Braziliense de hoje informa que “Tuk-tuk (sic) chega a capital (sic) como uma alternativa para fugir da crise“. Perdoado o erro de (falta de) crase, alguém precisa avisar ao Correio que a palavra existe em português – tuque-tuque –, como mostra o Dicionário Priberam:

tuque-tuque
(do inglês tuk-tuk, de origem onomatopaica)

substantivo masculino

Veículo motorizado de três rodas, usado para transporte de passageiros. = MOTOTRICICLO, TRICARRO
Plural: tuque-tuques.

O aportuguesamento, aliás, já é bem usado – como se vê no portal R7 (“Barato e prático, tuque-tuque é sucesso nas ruas da China – Triciclo leva três passageiros na cabine fechada e custa menos de R$ 5 mil“), na Folha de S.Paulo (“Não estranhe se um tuque-tuque cruzar seu caminho no coração de São Paulo. O riquixá motorizado está prestes a ser homologado…“); na revista Pequenas Empresas (“Famoso na Índia, triciclo motorizado passa a ser fabricado no Brasil: o tuque-tuque começou a ser produzido e vendido no Brasil no primeiro semestre deste ano“, na Revista Exame (“um tuque-tuque tailandês“), na revista Quatro Rodas (“Então, o homem entra no carro e dá ré para tentar “limpar” a via, uma vez que o buzinaço dos tuque-tuques era ensurdecedor.“) na estatal EBC: “Tuque-tuque em Tabatinga causa polêmica“, etc.

Peixinho-dourado ou quínguio: falta nos dicionários

Presentes em aquários em lares, escritórios e consultórios odontológicos de todo o mundo, mas ausentes dos dicionários: o nome mais popular do peixe de aquário mais popular do mundo – o peixe-dourado ou peixinho-dourado – por alguma razão simplesmente não aparece (com esses nomes) no Aurélio ou no Houaiss.

O nome científico do peixinho-dourado é Carassius auratus. O Aurélio e o Houaiss registram a espécie com outros nomes, como peixe-vermelho (e inclusive, erroneamente, como “dourado”, nome de outro peixe), mas deixaram de lado os nomes pelos quais o peixe é mais conhecido no Brasil: peixinho-dourado (em inglês, goldfish). 

Embora originário da China, o peixe-dourado ou peixinho-dourado é também conhecido, no Brasil, por peixe-japonês, por sua popularidade como animal de estimação em comunidades nipo-brasileiras – sendo chamado, ainda, quínguio (do japonês kingyo – os dois uu do nome quínguio são mudos), forma usada inclusive em artigos científicos de universidades do Paraná, de Minas Gerais, de Mato Grosso do Sul, de São Paulo, etc.

[Editado: Os artigos acima mencionados, no entanto, esqueceram-se do obrigatório acento agudo: como a pronúncia (como bem aponta o visitante Luciano, nos comentários, abaixo), é kínguio, e não kinguío, o aportuguesamento necessariamente precisa de acento: quínguio.]

Os dicionários brasileiros não apenas deveriam incluir peixe-dourado, peixinho-dourado e quínguio – por serem esses os nomes populares do peixe no Brasil -, como também deveriam retirar a indicação atual de que um dos nomes comuns do peixinho de aquário é “dourado”: todo vendedor ou amante de peixes sabe que são dois peixes completamente diferentes – um é o peixinho-dourado (Carassius auratus), de aquário; e outro, sem nenhum relação, é o peixe cujo nome é dourado, que nada tem a ver com os peixinhos de aquário. O dourado (gênero Salminus) é um peixe muito grande, de até um metro, popular na pesca desportiva na América do Sul.

Além do peixinho-dourado e do dourado, existem ainda:

  • dourada (Brachyplatystoma), tipo de bagre, parente do pintado, exclusiva da bacia do rio Amazonas;
  • …que, por sua vez, não deve ser confundida com a dourada europeia (Sparus), popular em Portugal e em outros países do Mediterrâneo; e
  • dourado-do-mar (Coryphaena), também conhecido como cabeçudo ou delfim, e, em inglês, como dolphinfish ou mahi-mahi.

Existem, portanto, uma dourada amazônica (gênero Brachyplatystoma) e uma dourada europeia (Sparus), além de um dourado-do-mar (Coryphaena) e de um dourado de água doce (Salminus). Não há, portanto, por que aumentar a confusão, incluindo na mesma entrada o peixe-dourado (Carassius auratus), que é conhecido como peixinho-douradoquinguio ou peixe-japonês – mas nunca é chamado simplesmente “dourado”.

Esqueite

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Para não falarem que só assisto à Globo: no programa “Roda a Roda”, Silvio Santos propõe à jogadora adivinhar duas palavras com oito letras, terminadas em “-te”, referentes a objetos com rodinhas. A jogadora não se fez de rogada e acertou: patinete e… esqueite.

 

Há quem ainda estranhe a forma aportuguesada, simplesmente por não estar acostumada a vê-la escrita. Não há, porém, razão para preferir a forma inglesa skate ao aportuguesamento, registrado no Dicionário Aurélio, no Houaiss, no Bechara e que, mais de meio século atrás, já era o nome da primeira revista brasileira dedicada a esqueitistas.

A palavra, ademais, está aportuguesada à perfeição: não é da índole da língua portuguesa aceitar palavras começadas por “s” seguida de consoante (chamada “s impura” no italiano, por exemplo, onde ocorre).

Em português, como em espanhol, palavras que teriam a “s” impura acabam ganhando um “e” antes do “s” na escrita, mesmo que não seja pronunciado: do mesmo modo que o inglês tem specialspiritual, studiostatist, stagnate – que, em português, se escrevem especial, espiritual, estúdio, estatista, estagnar, e assim como o italiano sdrucciolo nos deu esdrúxulo e o francês scandinave  nos deu escandinavo, etc., neologismos como snob, stress, stock, scanner e ski só poderiam ser aportuguesados com um “e” inicial – e assim o foram: esnobeestresse, estoque, escâner, esqui – que já geraram inclusive derivados: esnobar, estressar, estocar, escanearesquiar – e até esquibunda, o esporte praticado em dunas nas praias brasileiras, já dicionarizado por Sacconi.

Por ignorância da história da língua, certos dicionários portugueses têm repudiado esses neologismos iniciados por “e”, por considerarem que deturpam a pronúncia da palavra estrangeira. Pura ignorância: a pronúncia de uma palavra vem antes da grafia, que é apenas uma convenção e que só tem utilidade se for padronizada. Assim, por exemplo, a maioria dos cariocas ignora o “e” inicial de “estresse”, e pronuncia “stresse” – enquanto a maioria dos paulistanos ignora o “e” final adicionado, também por convenção, à palavra, e continuam pronunciando “stress“, como pronunciavam antes do aportuguesamento. Da mesma forma, “esnobe” pode (e em geral é) pronunciada exatamente como “snob” – independentemente da pronúncia, porém, convém que a escrita seja uniforme, e conforme às tradições da língua, que obrigam que uma palavra como scanner vire escâner.

Outros aportuguesamentos já acolhidos por dicionaristas brasileiros como Aurélio, Houaiss, Luft e Paschoal Cegalla, mas ainda ausentes dos dicionários portugueses, são estande (em um evento, por exemplo), eslaide (com fotos ou de uma apresentação no computador), estente (no coração) e esprei (de pimenta, de própolis, para pintar cabelo, grafitar muros, etc.).

Outras formas que se veem na Internet mas que, ao contrário dessas acima, ainda não foram nem devem ser dicionarizadas em breve por serem muito recentes – mas que em nada surpreenderão se um dia o forem, por serem aportuguesamentos perfeitos de termos em inglês que não têm equivalente perfeito em português – são estríper (e estriptise) e o verbo estalquear (também no DicionarioInformal). Daqui a uns 15 anos, voltemos a este tópico para ver a quantas andam estas três.

Dopagem (e não doping) e antidopagem

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O “emprego de estimulantes ou outras substâncias proibidas por um concorrente de uma prova desportiva“, até recentemente chamado doping, já pode – e deve – ser chamado em português: é a dopagem. E os testes que servem para “detectar o uso de substâncias ilícitas no organismo” é um teste de antidopagem (e não antidoping nem anti-doping).

O Brasil já tem até uma “Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem“. Portugal já tem a sua “Autoridade Antidopagem de Portugal“. Já passou da hora, portanto, de aposentarmos o uso em português dos dois anglicismos já desnecessários.

Ogã, autoridade na umbanda e no candomblé

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No Correio Braziliense de hoje: “Representantes de religiões de matrizes africanas denunciaram mais um ataque de intolerância contra símbolos sagrados. Um grupo de três pessoas tentou arrancar o cajado da estátua de Oxalá na Praça dos Orixás. O ato de vandalismo acontece dias antes de uma das mais importantes comemorações dos praticantes.
Na reportagem, o jornalista conversa com uma autoridade religiosa local, usando duas grafias diferentes para o cargo do entrevistado – ambas grafias errôneas (oganógan).
Ogã, substantivo masculino, era definido já meio século atrás, por Aurélio, como “título honorífico de protetores de candomblés, de templos umbandistas, etc.“. Segundo Houaiss, os ogãs são aqueles que “protege a casa de culto” e presta serviços relevantes à comunidade religiosa, na umbanda, no candomblé e em outras religiões de matriz africana.
A palavra ogã (que vem das línguas jeje e ioruba, onde significa “chefe”) deve ser escrita, naturalmente, com “-ã”, e não “ogan” – porque a terminação “-an” não ocorre em português. A esse respeito, vide a resposta anterior sobre as grafias de Butantã, Bataclã, cancã, Irã, clã, etc.
Houaiss traz ainda várias locuções que incluem a palavra ogã:

ogã beré: o último ogã a ganhar esse título, entre os seus pares

ogã colofé: na umbanda, título e cargo imediatamente abaixo do chefe da casa; tem a função de dirigir cerimônias, sacrificar animais, etc.

ogã de atabaque (ou ogã de calofé, ou ogã de tambor, ou ogã ilu): chefe dos tocadores de atabaque

ogã de altar: peji-gã (auxiliar do chefe do terreiro de candomblé ou rito afim, responsável pela conservação, limpeza e ornamentação do peji (altar) e do barracão, assim como pela organização das festas públicas)

ogã de faca:  axogum (ogã que sacrifica ritualmente os animais votivos)

ogã de terreiro: no candomblé, título e cargo de auxiliar do chefe do terreiro na realização das festas públicas

Sélfie, em português, tem de ter acento

sélfie (sél.fie) (do inglês selfie)
substantivo feminino
: autorretrato digital; foto (em geral digital) que uma pessoa tira de si mesma (plural: sélfies)
                                                                 (Definição do DicionárioeGramática.com)

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A infame “Infopédia” (que mistura conteúdos do Dicionário de Português da Porto Editora, tradicional e de boa reputação, com invencionices e absurdos sem fontes, que revelam a completa ignorância de regras básicas de ortografia portuguesa de parte da amadora “equipa” que nela enfia novidades diariamente) está tentando emplacar “bastão de selfie” como “palavra do ano” – assim mesmo, em grafia que não é nem inglês nem, certamente, português.

Há vários exemplos na infame Infopédia que mostram que aqueles que vêm gerindo o projeto, posto que entendidos de marketing, não têm nenhuma noção de linguística e gramática. Mas, ainda assim, a inépcia surpreende, quando deparamos com a incompetência diante de um caso tão, tão simples: não bastava, pois, colocar um acento agudo em “sélfie”, para trazer a palavra à nossa língua, sem violar a grafia original, a pronúncia (dando-lhe a mesma terminação átona de “série”, “imundície”, “planície”) nem as regras ortográficas portuguesas?

Alguns aportuguesamentos são mais difíceis que outros: no caso de iceberg, por exemplo, não bastava trocar o berg por bergue, pois “ice-” não poderá nunca, em português, ser pronunciada “aiss” – apesar do que absurdamente propõe a Infopédia (vide aqui). O aportuguesamento correto, é claro, foi aicebergue.

Em outros casos, porém, basta colocar um acento para que um estrangeirismo deixe de violar nossa ortografia – foi simples, por exemplo, a solução quanto a tsunâmi.

No mesmíssimo caso está, é claro, a mundialmente famosa sélfie, “fotografia que a pessoa tira de si mesma”: com um simples acento agudo, colocam-se as sélfies no mesmo grupo de palavras que série e séries, espécie e espécies, superfície(s), planície(s), etc. Simples assim.

Os compostos seriam, assim, bastão de sélfie (plural: bastões de sélfie), forma mais elegante, como querem os adeptos; e pau de sélfie (plural: paus de sélfie), que parece ter caído nas graças do povo.

 

Quem nasce no Sri Lanka é srilankês, não cingalês

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O Sri Lanka é um pequeno país ao sul da Índia, que ocupa a ilha que os portugueses originalmente batizaram de Ceilão.

Quem nasce no Sri Lanka é srilankês – e não “cingalês”, como dizem, erroneamente, muitos dicionários. Cingalês é o nome da língua e da etnia majoritárias no Sri Lanka; no entanto, nem todos os srilankeses são cingaleses: cerca de 10% dos habitantes do Sri Lanka pertencem à etnia tâmil.

Cingalês, palavra antiga na língua portuguesa, corresponde a Sinhalese em inglês; cingalés, em espanhol; Cinghalais em francês. O cingalês é uma das duas línguas oficiais do Sri Lanka (a outra é o tâmil).

Como define o dicionário Oxford, cingaleses (Singhalese ou Sinhalese) são “um povo originário da norte da Índia, que hoje constitui a maioria da população do Sri Lanka“.

Já o neologismo srilankês corresponde ao inglês  Sri Lankan; ao francês Sri Lankais; e ao espanhol esrilanqués: são srilankeses os “nativos ou habitantes do Sri Lanka” – de qualquer etnia, sejam eles cingaleses, tâmeis, portugueses, brasileiros ou de qualquer outra origem.