Bicos de rouxinol: uma comida inexistente

Professora espanhola de português consulta o que podem ser “bicos de rouxinol”, expressão usada por Vinicius de Moraes no verso  «deram-me bicos de rouxinol para jantar».

“Bicos de rouxinol” ou “bicos de rouxinóis” são, ao contrário do que disseram à consulente em outro site, uma expressão tradicional portuguesa – muitíssimo bem documentada no Brasil mas, sobretudo, em Portugal – que se refere a uma comida imagináriairreal, inexistente. Uma variante é “língua de rouxinol“, que é, igualmente,  “uma iguaria finíssima, ideal, impossível de obter”.

No exemplo de Vinicius de Moraes, tem esse mesmo sentido, de “iguaria finíssima, ideal”; é esse seu uso mais comum – visto também em resultado de trabalho de campo de universidade de Minas Gerais, em que a expressão “bico de rouxinóis” é usada espontaneamente, equiparada a “manjar dos anjos“, por um brasileiro ouvido na pesquisa.

Em edição de 1943 da Revista de Portugal: Língua Portuguesa, encontramos a resposta precisa: “O vocábulo garofos é usado no Alentejo com o significado de comida imaginária, correspondente ao que é atribuído a “bicos de rouxinóis” ou a “línguas de perguntador”, vulgares em outras regiões do País [Portugal].”

Na obra “Notas de etnografia: algumas achegas para o conhecimento da história, da linguagem, dos costumes, da vida e do folclore do povo da Ilha Terceira dos Açores“, de 1980, o autor também explica a expressão:

“«Papinhos de anjos e bochechinhas de vento norte»: É receita que costuma dar-se a quem pergunta sobre a alimentação de outrem, ou deseja saber o que outrem tem para comer. Na Beira Alta diz-se: «Asas de moscas com bicos de rouxinóis».

A expressão é, como já dito, antiga na língua – já aparece na “Luz de verdades catholicas, e explicação da doutrina christã“, de 1761, de um padre que ensinava aos bons católicos como deviam tratar seus escravos: “como às bestas”, três coisas não lhes podiam os bons senhores deixar faltar: “o sustento, por que lhe não enfraqueça; o ensino, a correção e o castigo, por que se não perca; e o competente trabalho”, para evitar “o ócio” – mas, logo se explica o autor: “Não pedimos que lhe dê a comer bicos de rouxinol, mas que lhe dê de comer.

Tampouco pode a expressão ser considerada desusada – “bicos de rouxinóis” é o que pede para comer a protagonista de “A esquina do tempo”, de 2008, da Porto Editora; e é também a expressão parte de anedota histórica recontada nos brasileiros “Contos Gauchescos“, que narra viagem do então Imperador Dom Pedro II ao Rio Grande do Sul:

Quê? Pois vossa majestade come carne? Disseram-me que as pessoas reais só se tratavam a bicos de rouxinóis e doces e pasteizinhos!… Por que não disse antes, senhor? Com trezentos diabos!… Ora esta!… Vamos já a um churrasco…

 

Dindim = dinheiro; finalmente no dicionário

Untitled (2)

Todo brasileiro conhece a palavra “dindim”, forma reduzida de dizer, num contexto informal, “dinheiro”. Assim, chega a ser surpreendente que, até poucos dias atrás, nenhum dicionário de português registrasse o substantivo masculino dindim. Irônico é o fato de o primeiro dicionário a registrar a palavra dindim ter sido não um dos vários brasileiros – como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis ou o novo Aulete -, mas no português Dicionário Priberam (dindimsubstantivo masculino; origem onomatopeica; brasileirismo: Dinheiro). Ponto para o Priberam.

Maiúsculas em palavras com hífen: Vice-Presidente ou Vice-presidente? Primeiro-Ministro ou Primeiro-ministro?

Como visto em resposta anterior, o novo Acordo Ortográfico tornou opcional o uso de iniciais maiúsculas em cargos e títulos: pode-se escrever, assim, tanto “o papa Francisco” quanto “o Papa Francisco”; “o Embaixador francês no Brasil” ou “o embaixador francês no Brasil”; “o Presidente” ou “o presidente”.

Mas já em palavras com hífen: caso se opte pelo uso da maiúscula, deve-se escrever “Vice-Presidente” ou “Vice-presidente”? Primeira-ministra ou Primeira-Ministra? A Procuradoria-Geral ou a Procuradoria-geral?

Resposta: se a palavra for escrita com inicial maiúscula no interior de uma frase, todos os elementos hifenizados deverão ser grafados com maiúscula.

Assim, o correto é escrever “O Vice-Presidente Michel Temer” – ou “O vice-presidente Michel Temer”. Ou “vice” e “presidente” vão em maiúsculas, ou vão ambas em minúsculas. Ou seja, o que não se deve é escrever “O Vice-presidente Michel Temer“.

(Note que o prefixo “ex” nunca é usado com maiúscula: assim, escreve-se “ex-Presidente” ou “ex-presidente”, “ex-Vice-Governador” ou “ex-vice-governador”, “ex-Secretário-Geral” ou “ex-secretário-geral”, mas nunca “o Ex-Presidente“.)

Da mesma forma, deve-se escrever “A Procuradoria-Geral da República” – ou “A procuradoria-geral”, mas não “A Procuradoria-geral“.

Pela mesma razão, deve-se escrever “Academia Mato-Grossense de Letras”, e não “Academia Mato-grossense de Letras“; deve-se escrever “a República Centro-Africana”, e não “a República Centro-africana“.

O único caso aceitável de palavra com hífen em que o primeiro elemento estará em maiúscula e o segundo em minúscula (“Vice-presidente”) será em início de frase, quando a maiúscula do primeiro termo se deverá pura e simplesmente à regra de que a primeira palavra de qualquer frase se inicia por letra maiúscula. Estão perfeitamente corretos, portanto, os três diferentes usos de maiúsculas na palavra “vice-prefeitos” no excerto a seguir:

Vice-prefeitos se reuniram hoje em Brasília

O chamado “Primeiro Encontro Nacional de Vice-Prefeitos Brasileiros” reuniu hoje em Brasília vice-prefeitos de pelo menos doze capitais.