Hipercorreções e diferenças de regência entre Brasil e Portugal

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Na edição de hoje da Folha de S.Paulo, uma das manchetes é “É melhor Lula perder politicamente a ser vitimizado, afirma Temer“.

Em português – seja em Portugal, seja no Brasil, seja em português formal ou informal – uma coisa nunca é melhor a outra; uma coisa é sempre melhor do que outra.

E, embora traga o erro entre aspas na manchete, o texto da reportagem traz a citação exata de Michel Temer:

…acho que se o Lula participar, será uma coisa democrática, o povo vai dizer se quer ou não. Convenhamos, se fosse derrotado politicamente, é melhor do que ser derrotado [na Justiça] porque foi vitimizado.

Ou seja: Temer usou a forma correta – disse que uma coisa “é melhor do que” outra -, mas o jornalista intencionalmente mudou a frase e a deixou errada. Por que terá feito isso? Provavelmente por ter incorrido naquele que já dissemos ser o pior tipo de erro de português: uma hipercorreção.

Os erros de português mais conhecidos e batidos são no fundo reproduções, em textos, de traços da oralidade – por exemplo, dizer “ir no cinema” (um “erro” cuja origem e legitimidade veremos em detalhe mais abaixo). As gramáticas dizem que é erro, mas é como se exprime a maioria da população, inclusive a mais culta.

As hipercorreções, porém, são o contrário: são erros que só comete quem tenta propositalmente “falar difícil”, quem tenta ser artificialmente rebuscado, num nível acima das suas capacidades – e assim acaba errando, quando, se tivesse escrito como todo mundo fala na rua, estaria certo. É simplesmente escrever de modo diferente do que falaria, por ter internalizado um preconceito (ou um trauma) de que, “se todo mundo fala assim, o certo não deve ser assim“.

Especificamente, nesse caso, o jornalista deve ter sido influenciado pela regência clássica da palavra preferível (ou do verbo preferir). Por todo o Brasil se ouve que alguém prefere uma coisa do que outra coisa, ou que é preferível aquilo do que isto. Em Portugal, porém, sempre se diz que algo é preferível a outra, e, diferentemente dos brasileiros, os portugueses dizem preferir uma coisa outra coisa.

Há razões para essa divergência: em Portugal simplesmente se usa muito mais, em muitíssimos mais casos, a preposição “a” do que no Brasil. No Brasil, a preposição “a” quase não é usada na língua viva, por uma razão muito simples: no Brasil, não existe diferença de pronúncia entre o “a” de “a irmã” (artigo) e o de “deu o livro à irmã“.

Mas em Portugal a diferença é total, a pronúncia de “a minha mãe” e de “à minha mãe” é tão grande e óbvia para eles quanto para nós é a diferença entre “é” e “ê”.

É por isso que, diferentemente dos brasileiros, os portugueses não erram crase – eles pronunciam diferentemente uma palavra com e sem crase. E, aliás, é só por isso que escrevem a crase – porque corresponde a uma diferença de pronúncia.

No Brasil, por não existir diferença na pronúncia entre “a” e “à” (ou “á”), duas são as consequências: em primeiro lugar, os brasileiros não têm como saber intuitivamente quando escrever uma crase e quando não o fazer; é preciso criar regrinhas e decorar o que para os portugueses é simples questão de pronúncia.

A segunda consequência da não diferenciação de pronúncia no Brasil é que a preposição “a”, tão usada em Portugal, quase não se usa no Brasil: os portugueses dizem que, numa cerimônia, tal e tal autoridade estarão “à mesa”; os brasileiros dirão que essas autoridades estarão na mesa. Os portugueses falam com alguém “ao telefone”; os brasileiros falam com alguém no telefone. Um português bate à porta, e um brasileiro bate na porta. Um português dá um livro a alguém, e um brasileiro dá o livro para alguém. Portugueses assistem a filmes, mas brasileiros assistem filmes. Um português ao fim do dia chega a casa, e um brasileiro chega em casa.

E, entre centenas de outros exemplos, é por essa diferença de pronúncia que um português “prefere isto àquilo“, e um brasileiro prefere isto do que aquilo.

Os gramáticos brasileiros, porém, têm sido pouquíssimo eficientes em incorporar essas regências usadas por brasileiros de todas as regiões e níveis de escolaridade como formas corretas e típicas do português do Brasil. Em inglês, por exemplo, existem listas de verbos que usam uma preposição em inglês britânico e outra em inglês americano; em espanhol, a própria Real Academia Espanhola enfatiza, para centenas de verbos, qual a preposição usada no espanhol da Espanha e qual a preposição diferente usada no espanhol das Américas, com as duas formas sendo consideradas igualmente corretas.

Só no Brasil que ainda há quem ache (e o pior – é muita gente que acha) que todos os brasileiros precisam usar em todos os casos exatamente as mesmas preposições que os portugueses, ignorando que é completamente normal numa língua haver preposições diferentes conforme a região geográfica e mesmo conforme a evolução da língua – é normal que regências mudem com o passar do tempo.

Antigamente em português, por exemplo, o verbo “começar” regia a preposição “de” – a forma usada era “começar de fazer” algo, como se lê ainda em bons autores clássicos. Ainda em Portugal, as pessoas começaram a usar “começar a” (talvez por influência do francês ou do espanhol), e hoje em dia todos, tanto em Portugal quanto no Brasil, aceitamos que “começar a” é o correto.

E, embora alguns puristas brasileiros achem que, por alguma razão, brasileiros precisam usar as mesmas regências que os portugueses, e assim insistem em obrigar brasileiros a escreverem “preferir uma coisa a outra” ou “chegar a casa“, a verdade é que, em sua limitação, esses puristas só repetem os casos mais óbvios e batidos, mas há dúzias de outras regências que, em sua ignorância, eles próprios usam diferentemente de Portugal, sem perceber: em Portugal, para citar um entre dezenas, se diz “Precisar de fazer” (forma que ainda se ouve sobretudo em Minas Gerais), enquanto os gramáticos cariocas e paulistas dizem “Precisar fazer“. Se com o verbo “precisar” a norma culta brasileira pode ser diferente da portuguesa, por que com “chegar” ou “preferir” não poderia?

Ao insistir que brasileiros que falam “preferir aquilo do que isto” devem, se querem escrever “bonito”, escrever “preferir aquilo a isto”, o que os puristas acabam conseguindo é deixar mesmo os falantes mais cultos inseguros a ponto de sem querer criarem, como hoje na Folha de S.Paulo, um erro do tipo “aquilo é melhor a isto” (agora sim, sem dúvida um erro de português, já que não existe nem na fala de Portugal nem na do Brasil, em nenhum registro, culto ou não), que só foi criado justamente pela falta de bom senso dos puristas que não entendem que a variação linguística é natural e parte de toda língua viva e que acham que precisam “salvar” a língua dos seus próprios falantes.

Com negativas, use “nenhum”, não “qualquer”

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Já está repetitivo dizermos que, em bom português, se usam as duplas negativas: “Não cometi nenhum crime”; “Não veio ninguém”; “Não comi nada”. Mas, como a Folha de S.Paulo continua distorcendo a língua, substituindo as duplas negativas por “qualquer” (como se vê na foto acima), insistiremos no tema: “qualquer” não é sinônimo de nenhum.

A explicação original sobre o tema está disponível aqui (clicar). Voltamos a ele hoje, porém, sobretudo por um curioso detalhe: o de que o próprio Manual de Redação da Folha de S.Paulo condena veementemente o uso de “qualquer” em lugar de “nenhum”:

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Usar ou não usar vírgula antes de “etc.”? A tradição e a pronúncia mandam usar

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Já escrevemos anteriormente sobre a palavra etcétera, aportuguesamento da expressão latina et caetera, cujo significado literal em latim é o de “e outras coisas” (et = e; caetera, que posteriormente evoluiu a cetera = outras coisas).

Há três questões sobre pontuação que podem surgir em relação ao uso da forma abreviada “etc.”:

“Etc.” sempre leva ponto final: o termo “etc.” é abreviação de “etcétera” ou “et caetera“; como toda abreviação, portanto, deve sempre levar um ponto – mesmo antes de vírgula, como se vê no segundo exemplo da imagem acima, de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ao terminar uma frase, basta um único ponto, que já serve tanto para marcar a abreviação quanto para concluir a frase.

Não se usa “e” antes de “etc.”: na fala, não se diz “e etcétera“, razão pela qual naturalmente tampouco se escreve “e” antes de “etc.” – nenhum mistério até aqui.

Uso da vírgula antes de “etc.”: a principal dúvida surgida recentemente com relação ao uso de “etc.” diz respeito ao uso, ou não, de vírgula antes de “etc.”. A dúvida, assim, é se se deve escrever:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas, etc.

Ou:

Adoro frutas: gosto muito de comer peras, maçãs, uvas etc.

É possível aceitar que as duas formas são corretas, que nenhum dos dois usos constitui um erro de português – mas apenas uma das duas formas corresponde efetivamente à pronúncia e ao uso tradicional em português.

Basta reler a frase de exemplo acima, sobre frutas, para ver que apenas uma das duas corresponde à boa pronúncia que se ouvirá de um falante de português: todo falante normalmente dirá “peras, maçãs, uvas, etcétera” – com uma audível pausa entre “uvas” e “etcétera”, equivalente às pausas existentes entre “peras” e “maçãs” e entre “maçãs” e “uvas”. Essa pausa, as regras de pontuação da língua portuguesa ensinam, é marcada por uma vírgula.

E é exatamente assim que sempre se escreveu em português. Basta abrir qualquer livro de Machado de Assis, ou de José de Alencar, ou de Joaquim Manuel de Macedo, ou de Guimarães Rosa, e se verá que esses grandes autores brasileiros sempre usaram, muito, “etc.” – sempre com vírgula antes.

E bastaria igualmente abrir as obras dos grandes autores portugueses – Eça de Queiroz, Garrett, o padre Amaro – para verificar que também os clássicos portugueses sempre usaram uma vírgula antes de “etc.”:

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Para ir além: basta também abrir as melhores gramáticas da língua portuguesa, como a de Celso Cunha & Lindley Cintra ou a de Bechara, para ver que a abreviação “etc.” vem, nelas, sempre precedida de vírgula:

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Para finalizar, basta recordar que existe um instrumento legal que regulamenta oficialmente a ortografia da língua portuguesa: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. E, como se pode ver da leitura do seu texto, o Acordo Ortográfico – assim como os acordos anteriores, por ele substituídos – sempre traz uma vírgula antes de “etc.”.

Por tudo isso, não resta dúvida de que a tradição, em português, sempre foi a de usar vírgula antes de “etc.” – o que faz perfeito sentido, pois reflete perfeitamente a pronúncia natural. Causa estranheza, a qualquer falante português ou brasileiro, omitir na fala a necessária pausa antes de “etcétera”.

Se o uso da vírgula antes de “etc.” sempre foi consensual, de onde veio, então, o modismo recente de alguns de omitir essa vírgula? Por que surgiram, recentemente, defensores de escrever “maçãs, uvas etc.” assim, sem vírgula?

São, na maioria dos casos, vítimas de alguns dos já conhecidos charlatães linguísticos – aqueles que tentam “corrigir”, à força, todo e qualquer aspecto da língua que não lhes parece suficientemente “lógico”.

Trata-se do mesmo tipo de gente, por exemplo, que defende que se diga “risco de morte”, invencionice dos tempos da Internet, porque a expressão usada há séculos em português, “risco de vida”, não lhes parecia suficientemente “lógica”.

São os mesmos que também têm ajudado a proliferar traduções literais do inglês como “Não cometi qualquer erro” ou “Não ignorei qualquer instrução“, em vez de usarem as corretíssimas construções “Não cometi nenhum erro” e “Não ignorei nenhuma instrução”, com as duplas negativas que são características do português; isso porque, na compreensão limitada desses “pensadores” modernos, “duas negativas resultam num positivo“. Talvez seja assim – em matemática, e até na língua inglesa, mas em português, como nas demais línguas neolatinas, a tradição de séculos é a de que duas palavras negativas, ou até três ou mais, apenas reforçam uma negação.

Esses “pensadores” modernos ignoram, portanto, séculos de história da língua portuguesa, e todo o legado dos clássicos portugueses e brasileiros, e preferem seguir aparentes regrinhas básicas de lógica. São esses mesmos “pensadores”, enfim, que um dia perceberam, extasiados, que, se “et caetera” em latim significa “e outras coisas”, a palavra “etcétera” conteria intrinsecamente um “e”, e como normalmente não se usa vírgula antes de “e” em português, não se deveria usar vírgula antes de “etc.”.

Sentindo-se descobridores da pólvora, passaram a defender a “correção” da língua com base na sua lógica – em geral, inclusive, com sentimento de superioridade sobre todos os pobres mortais que, “ignorantes”, continuassem a usar vírgula antes de “etc.”.

Como já vimos em outros tantos textos por aqui, o problema desses racionalistas é achar que a língua é um probleminha básico de lógica. Não, senhores, a língua é o que é: o resultado de uma evolução natural e não controlada ao longo de séculos, que tem mecanismos de funcionamento interno precisos, mas que não necessariamente coincidem com o que parece mais lógico a quem tentar analisá-la com métodos aristotélicos.

Se a língua fosse perfeitamente lógica, seria errado dizer “Não veio ninguém” – mas a frase é absolutamente correta em português, e se alguém disser que essa frase significa o mesmo que “Veio alguém“, errado claramente estará o ouvinte, que será alguém que ignora o funcionamento da língua.

Do mesmo modo, se a língua fosse lógica – e ainda levasse em conta o latim -, “suicidar-se” seria uma redundância terrível, já que “sui“, em latim, já significa literalmente o mesmo que “se”. A língua, porém, não está nem aí para a lógica simplista e para eventuais redundâncias oriundas do latim, de modo que, se alguém, tentando “consertar” a língua, disser “Ele  suicidou“, estará cometendo um erro de português: a forma correta, em português, exige o “se” (o certo será “Ele suicidou-se”, em Portugal,  e “Ele se suicidou”, no Brasil).

Esse tipo de raciocínio demasiadamente literal, limitado, é o mesmo que está por trás do modismo recente de omitir a vírgula antes de “etc.”.

A melhor recomendação, assim, é continuar com a vírgula antes de “etc.” nas enumerações, em concordância com a fala culta, que obrigatoriamente faz uso de uma pausa antes de “etcétera”, e como sempre fizeram os grandes autores e clássicos portugueses e brasileiros, os bons gramáticos dos dois lados do Atlântico e o próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Não caia no mito do “risco de morte”: o certo é e sempre foi “risco de vida”

Alguém que pode morrer a qualquer momento corre “risco de vida” ou “risco de morte”? Só uma das duas expressões existe nos dicionários, gramáticas e clássicos portugueses e brasileiros – “risco de vida” é a forma usada pelos clássicos da língua portuguesa há séculos. Já “risco de morte” é uma forma inventada em tempos de Internet, pelos “gênios” do século XXI que decidiram tentar deixar a língua mais lógica…

Já falamos aqui sobre os falsos erros, ou erros inventados de português. E não são poucos esses erros inventados, em grande parte porque existem os inventores profissionais de falsos erros: são aqueles homens e mulheres que vivem de corrigir erros de português dos outros, e que chegaram à conclusão de que é conveniente inventar regras que não existem, criando assim novos “erros” de português – pois, afinal, o seu prestígio e a sua renda vêm justamente da insegurança que esses charlatães disseminam entre os falantes da língua.

Uma dessas recentes invencionices é o tolo mito de que “risco de vida” seria expressão incorreta e a ser substituída por “risco de morte”, porque a expressão “risco de vida” não seria “lógica”.

A verdade é que “risco de vida” tem tanta lógica quanto “risco de morte”: em ambas existe uma silepse: a omissão de parte da frase. Em risco de vida, subentende-se risco de perder a vida. Já “risco de morte” seria o risco de se chegar à morte.

Então dá no mesmo dizer “risco de vida” ou “risco de morte”?

Quase. Porque há uma importante diferença entre as duas formas: “risco de vida” é forma tradicional em português, histórica. Já vinha em dicionários de 1800. É “risco de vida” a expressão que se encontra ao ler os grandes clássicos brasileiros – Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, etc. – e portugueses, como Garrett e Camilo Castelo Branco (ver imagem ao fim deste texto).

Já em 1640 encontramos exemplo de “risco de vida”, em Apolo, de Francisco Manuel de Melo: “A nada se rendeu, detendo-se a seu respeito todo o curso dos negócios, com desabrimento de el-Rei e valido, que nem pessoalmente rogando-lhe o seu voto deixou também o Cellis de lho negar pessoalmente. Sucedeu neste tempo adoecer com grande risco de vida e, confessando-se para acabá-la, lhe persuadiu o confessor (que devia de ir bem persuadido…) consentisse na vontade de el-Rei.”

Os grandes clássicos da língua portuguesa sempre usaram risco de vida, e nunca “risco de morte“. “Risco de vida” é uma expressão consagrada em português, com séculos de vida. “Risco de morte” é uma invencionice dos tempos da Internet.

“Risco de vida” é, por exemplo, a única forma registrada no Dicionário Houaiss. Já “risco de morte” é um artificialismo sem tradição na língua, inventado há poucos anos por charlatães da língua.

E, embora a grande mídia seja, em geral, agente propagador desse tipo de erros inventados, felizmente “até” a Revista Veja e o professor Pasquale concordam neste aspecto: “risco de morte” é um modismo injustificado. Não caia, portanto, nessa: a forma tradicional – e corretíssima – em português é mesmo “risco de vida“.

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O champanhe ou a champanhe? Uma champanhe ou um champanhe? Masculino ou feminino?

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O certo é o champanhe ou a champanhe? Diz-se uma champanhe ou um champanhe? Resposta: de acordo com o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e com dicionários brasileiros (como o Houaiss) e portugueses (como o Priberam), tanto faz: é tão correto dizer e escrever “o champanhe” e “um champanhe” quanto “a champanhe” e “uma champanhe”.

A palavra vem do francês: champanhe de verdade é a bebida espumante produzida na região de Champagne, na França. É um tipo de vinho, e é por isso que, em francês, o substantivo é masculino: diz-se “um champanhe”, como redução de “um vinho champanhe”, isto é, “um vinho da região de Champagne” (em francês, “gn” tem a pronúncia do nosso “nh”).

Foi assim, no masculino, que o substantivo entrou em Portugal, e foi assim que chegou ao Brasil. Mas, sobretudo no Brasil, o que ocorreu foi que, entre todas as classes sociais e entre gente de todas as escolaridades, a palavra se tornou comum de dois gêneros: passou-se a ouvir tanto “uma champanhe” quanto “um champanhe”, tanto “a champanhe” quanto “o champanhe”.

Há explicações possíveis para essa alternância de gênero: houve, por exemplo, os puristas da língua, que, antes de se preocuparem com a influência do inglês, temiam horrorizados o francês, quando essa língua tinha uma influência que hoje não mais tem. E por isso esses puristas diziam que essa terminação em “e”, típica do francês, não era típica do português, e que portanto, palavras francesas como champanhe – assim como nuancemadamevitrine, avalanche – em português deveriam ser adaptadas com “a” final, terminação mais “portuguesa”: deveria dizer-se, portanto, “nuança”, “madama”, “vitrina”, “avalancha”… e “champanha”.

Os puristas de uma língua, aqueles que acreditam que a maioria dos falantes são uma ameaça para a própria língua que falam e que é sempre preciso guiá-los, sofrem de um mal – quase sempre o tempo, o passar dos anos, os ridiculariza e mostra que estavam errados; a língua e o mundo avançam mostrando que seus medos, e eles próprios, eram desnecessários. Foi o que aconteceu com as propostas “madama”, “vitrina”, “avalancha”, “nuança” e “champanha”, que acabaram relegadas, tanto em Portugal quanto no Brasil, apenas aos dicionários, sem uso real, substituídas pelas formas que, com a preferência da população, acabaram ganhando a preferência até dos dicionários – madame, vitrine, avalanche, nuance… e champanhe.

No caso de champanhe/champanha, porém, os puristas acabaram dando um tiro no pé: defendiam que a grafia melhor era “champanha”, mas queriam que o substantivo fosse masculino, como na França. Ora, qualquer criança brasileira ou portuguesa sabe que a quase totalidade das palavras portuguesas terminadas em “a” é feminina, mas não masculina; “se o ‘certo’ é champanha, então é palavra feminina: a champanha, uma champanha“, deve ter pensado muita gente inteligente, seguindo a perfeita lógica da língua.

Ao querer “corrigir” à força algo da língua que não precisava de correção, esses puristas parecem ter reforçado uma instabilidade que os deixaria desgostosos. Passou-se a ouvir, entre gente de todos os meios e classes sociais, tanto “o champanhe” quanto “a champanhe”, “uma champanhe”. A tal ponto que, como já vimos, há décadas a Academia Brasileira de Letras oficializou o duplo gênero da palavra, no que foi seguida pelos dicionários.

E fizeram bem a Academia e os dicionários, porque o fato de um substantivo ser feminino em francês não implica que em português tenha de ter o mesmo gênero – basta pensar em crepe, outro item gastronômico francês, que na França é feminino (“la crêpe”), mas que em português virou um crepe. E fizeram bem também porque deram a “champanhe” o mesmo tratamento que o dado a outros substantivos terminados em “e”, que no Brasil alternam entre o feminino e o masculino, como o omelete ou a omelete ou a quiche ou o quiche.

E, certo de que haverá quem ache um absurdo a Academia Brasileira de Letras, o Houaiss e demais dicionários terem “oficializado” o uso indiferente de “a champanhe” ou “o champanhe”, por achar que a forma masculina é a legítima, já que  a palavra entrou no português como um substantivo masculino, convém então lembrar que os substantivos terminados em “e” têm uma instabilidade de gênero histórica em português – é algo que se vê hoje em “grafite” (um grafite para lapiseira ou uma grafite?), mascote, diabete(s), alface, etc. -, mas que nada mais é que o mesmo por que passaram, em português, os substantivos “árvore” e “ponte”, entre outros.

Sim, basta lembrar que em português antigo tanto “árvore” quanto “ponte” eram masculinos – como ainda o são em espanhol, francês, italiano. De tanto as pessoas usarem, “errado”, “uma ponte”, “a ponte”, “uma árvore”, “a árvore”, essas formas “erradas” passaram a ser as corretas. É o mesmo que ocorreu parcialmente com champanhe décadas atrás – é um fato da língua que é indiferente, portanto, dizer hoje “a champanhe” ou “o champanhe”.

“Boas festas” não leva hífen – ao desejar boas festas, use sempre sem hífen

(Adendo: logo após esta postagem, o dicionário Houaiss corrigiu o erro que havia no dicionário: o editor-chefe do Houaiss admitiu o erro e acaba de tirar o hífen, errado, que vinha em boas-festas como forma de cumprimento – ver abaixo)

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O jornal Correio Braziliense deve achar que estamos no Dia da Mentira, porque hoje compartilhou tuíte de sua consultora de português dizendo, simplesmente: “Boas-festas se escreve assim — com hífen”. Erro feio da consultora, erro grave do Correio Braziliense: na verdade, boas festas não leva hífen.

Sempre que for desejar boas festas a alguém, o correto é sem hífen: “Boas festas!” – do mesmo modo que se escreve “Bom dia”, “Boa tarde”, “Boa noite”, sempre sem hífen.

A regra é tão simples que deveríamos parar por aí – boas festas, boa noite, bom dia não levam hífen, ponto. Isso porque isso cobre quase 100% dos casos em que se escrevem as expressões “boas festas” e “boa noite”, “bom dia”, “boa tarde”…

A confusão da consultora deve vir do fato de que até existe um único caso em que pode ser correto usar hífen em “boas-festas” (e em “bom-dia”, etc.) – mas nunca quando se está desejando algo a alguém. A tal exceção é quando se toma a frase toda como um substantivo – mas isso não se restringe a “boas festas”, aplicando-se na verdade a qualquer frase tomada como um substantivo:

João me deu um boa-noite seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo feliz-natal-e-próspero-ano-novo vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer boas-festas.

Em todos esses casos, porém, o hífen poderia ser trocado por aspas – o que é mesmo a forma mais comum hoje em dia:

João me deu um “boa noite” seco.

Não aguento mais ouvir a Helena repetindo “feliz Natal e próspero ano novo” vinte vezes por dia.

Abra a porta, só vim te dizer “boas festas”.

Esse raríssimo caso em que o uso de hífen seria aceitável, como se viu, nada tem a ver especificamente com a expressão “boas festas” – e é um caso tão raro e específico que mais vale a pena não mencioná-lo, e simplesmente ensinar que “boas festas” não leva hífen, que é a regra geral.

Afinal, se a exceção faz até a consultora de português de um grande jornal se confundir e errar, é porque a menção a essa exceção tão peculiar de fato confunde.


Adendo: possivelmente o erro da consultora se deveu ao fato de, como muitas vezes ocorre com consultores linguísticos, ter confiado cegamente no Houaiss e tratado o dicionário como palavra divina, sem saber, como sabemos todos os visitantes daqui da página, que o Houaiss, como todo dicionário, tem milhares de erros. Logo após fazer a postagem aqui, alertei o coautor e atual responsável pelo Houaiss, Mauro Villar, do erro, que prontamente respondeu admitindo o erro e informando que já fez a correção sugerida por esta página:

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Imprensa brasileira: Abbas é “presidente da Palestina” ou “presidente palestino” (e não “presidente da Autoridade Palestina”)

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É facílimo ver que praticamente inexiste cobertura jornalística brasileira de fatos internacionais – o que se lê nos jornais e portais brasileiros são quase sempre simples traduções semiamadoras da imprensa de língua inglesa.

Isso fica óbvio, por exemplo, na tradução errada, tão frequente em artigos preguiçosos na mídia brasileira, de “International law” como “lei internacional”. Não existe uma lei internacional; a tradução correta é “direito internacional”; o que frequentemente se viola é “o direito internacional” – do mesmo modo que estudar “Law” significa estudar Direito, e não “lei”.

A mesma técnica de tradução preguiçosa se revela em quase todos os textos brasileiros que mencionam Mahmoud Abbas como o suposto “presidente da Autoridade Nacional Palestina“, ou “presidente da Autoridade Palestina” – quando o título por ele usado é “presidente do Estado da Palestina”, que pode ser resumido como “presidente palestino”, ou “presidente da Palestina”.

A Organização das Nações Unidas e a maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, reconhecem o Estado da Palestina e, por essa razão, tanto a própria ONU quanto o governo brasileiro (e os da maioria dos países do mundo) naturalmente chamam seu presidente de “presidente palestino”, “presidente da Palestina”, “presidente do Estado da Palestina” – da mesma forma que chamam a Shimon Peres e a seu sucessores “presidente israelense”, “presidente de Israel” ou “presidente do Estado de Israel”. O Brasil, a ONU e a maioria dos países do mundo reconhecem igualmente o Estado de Israel e o Estado da Palestina.

Só os governos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa ocidental, como o britânico, não reconhecem o Estado da Palestina, por pressão de Israel (e do mesmo modo que dezenas de países árabes e muçulmanos não reconhecem o Estado de Israel). Como os seus governos não reconhecem o Estado da Palestina, as imprensas americana e britânica não chamam Mahmoud Abbas de “presidente da Palestina” e nunca falam em “Estado da Palestina”, ou na Palestina como um país. Mas não faz o menor sentido que também a imprensa brasileira siga a prática americana e britânica, quando o governo brasileiro (e, reitera-se, a própria ONU) chama Abbas de “presidente da Palestina”, título de fato usado pelo próprio, e mantém mesmo relações diplomáticas com o Estado da Palestina.

Sobretudo porque isso sabidamente não se deve a um posicionamento político ou ideológico da imprensa brasileira, mas à simples tradução preguiçosa de notícias da imprensa de língua inglesa.