O Mali (país africano), República do Mali – não “em” Mali, “de” Mali

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Algumas páginas de notícias brasileiras noticiaram ontem um atentado “em” Mali. É o mesmo erro dos jornais que falam de algum acontecimento em” Benim. É português tão errado quanto dizer que algo aconteceu “em Paraguai“, ou “em México“, ou “em Egito“, ou “em Brasil“. Em regra, em português, os nomes dos países levam artigo – o atentado ocorreu no Mali, isto é, no país africano cujo nome oficial é República do Mali (nunca “de Mali).

“Gratuíto” ou “gratúito”: quem corrigia é que estava errado

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A maioria de nós em algum momento ouviu na escola que a pronúncia mais popular no Brasil da palavra gratuito – gra-tu-í-to, com acento no “i” – estaria errada, e que a pronúncia “correta” só podia ser “gratúito” (gra-túi-to), com força no “u”. A explicação seria que assim se pronunciava em latim.

Por si só já seria problemática a ideia de que quase toda a população naturalmente pronuncie errado uma palavra. A maneira considerada “correta” de pronunciar uma palavra, em qualquer língua, é geralmente simples reflexo da maneira como a maioria da população a pronuncia. Por essa razão, é mesmo normal que pronúncias “oficiais” mudem, de acordo mudanças de hábitos dos falantes.

Há 50 anos, por exemplo, a pronúncia “correta” de senhora era “senhôra”, com ô fechado, que é como até hoje se diz em Portugal. Mas no Brasil, de tanto as pessoas pronunciarem “senhóra”, essa acabou se tornando o modo correto de pronunciar senhora no Brasil. Trezentos anos antes, o “correto” em português era pronunciar “tchuva” e “tchave“, mas de tanto as pessoas pronunciarem “xuva” e “xave“, essas viraram as pronúncias corretas para chuvachave.

Ainda assim, professores corrigem quem pronuncia “gratuíto”, repetindo a lição de um gramático que, há mais de um século, escreveu que, uma vez que a palavra vinha do latim gratuĭtus, e que em latim esse “i” era breve, seria incorreto que falantes de português hoje dessem ênfase a esse “i”. Outro raciocínio já por si questionável.

Mas o problema não acaba aí: o problema maior é que o gramático que disse que a pronúncia correta deveria ser “gratúito” por causa do latim estava errado – como hoje admitem os estudiosos, houve um erro de quem recomendou “gratúito“: “gratuito” em latim não era grātuĭtus, com a marcação curva que indicaria que o “i” era breve, mas sim grātuītus, com o marcador reto que indicava que o “i” era longo. Ou seja: a pronúncia correta em latim (e isso pode ser hoje conferido em qualquer livro de latim) era gratuítus, com ênfase no “i”, e não gratúitus, com ênfase no “u”.

Se recordassem ainda que, ao contrário do que muitas vezes se ensina, o português não veio diretamente do latim, mas sim do galego, teria também servido darem uma olhada em nossa língua-mãe: em galego, até hoje, a pronúncia (e a grafia) oficial é gratuíto (ver aqui), e não o gratúito dos puristas equivocados.

Ou seja: por um erro de alguém (e também por culpa dos muitos gramáticos e professores que não verificaram a correção da falsa regra que ajudavam a disseminar), durante mais de um século se ensinou que a pronúncia mais popular no Brasil para a palavra gratuito estava errada, por supostamente divergir do latim – quando na verdade a pronúncia gratuíto é a exatamente a que respeita o latim.

E, como veremos em outros textos, não são poucos os casos como esse: em que, havendo divergência entre como fala o povo e o que ensinam alguns gramáticos, uma verificação responsável acaba por revelar que o povo é que tinha razão, e que, ao tentar “corrigir” à força algum suposto “erro de português”, gramáticos inadvertidos erraram, passaram adiante seu erro e acabaram por causar dano à língua e aos falantes.

Vocabulário: pangolim (em Moçambique, alacavuma)

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A página inicial do Google Brasil traz hoje um jogo com um casal de pangolins. O pangolim é o mamífero da foto acima, coberto de escamas e que se alimenta de formigas; pouco conhecido no Brasil, seu nome vem do malaio.

Em inglês, francês e em muitas outras línguas, escreve-se pangolin, com ene (para variar, está errado no dicionário Priberam), mas, em português, pangolim termina com -m. Isso porque é uma regra da língua portuguesa que palavras portuguesas ou aportuguesadas que terminam com som nasal (em geral escrito -n em outras línguas) são escritas, em português, com -m. É por isso que a capital da Alemanha, escrita Berlin em alemão (e em inglês, francês, etc.) escreve-se Berlim em português – o mesmo valendo para o país africano – Benim, não Benin.

Mia Couto, o mais conhecido escritor moçambicano, faz diversas menções ao pangolim em seus livros – segundo conta Mia Couto, “em muitas regiões da África se acredita que o pangolim habita os céus, descendo à terra para transmitir aos chefes tradicionais as novidades sobre o futuro“. Em suas obras, chama o pangolim por um sinônimo moçambicano: alacavuma, que vem de halakavuma, palavra bantu – na etimologia do dicionário da Porto Editora, sobra uma letra, e não faz sentido a separação em duas acepções – ambas tratam, afinal, do mesmo animal. Mas é, pelo menos, o único de nossos dicionários que traz esse sinônimo, próprio de um país que fala português.

A origem da palavra “bambolê”

O português é uma das únicas línguas no mundo que criou um nome próprio para o bambolê,  o “aro geralmente de plástico, com aproximadamente 1 m de diâmetro, usado como brinquedo, que, com um impulso, gira em torno do corpo, da perna ou do braço“.

No resto do mundo, usa-se o nome inglês, hula hoop – por exemplo em francês, em italiano, em espanhol, em polonês, etc.

O nome inglês vem da junção de hoop, aro em inglês, a hula (ou hula-hula), nome de “dança típica do Havaí, que apresenta seis passos básicos seguidos por movimentos ritmados dos quadris e dos braços” (nomes que o Priberam desconhece e que a Porto Editora só acolhe no dicionário de inglês-português, mas com definição errada – não é uma dança só feminina).

Já bambolê é um muito bem-sucedido invento brasileiro, criado no séc. XX a partir do verbo “bambolear”, balançar-se, mover-se mexendo os quadris, que tem registro em português desde pelo menos 1649.

 

A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

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Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

Baleia-branca: comparando dicionários

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O Houaiss é de longe o melhor e mais completo dos dicionários da língua portuguesa atualmente à venda. Isso não significa, porém, que o dicionário Houaiss não tenha erros – o Houaiss tem erros, e muitos. Já mostramos vários deles aqui (clique aqui para recordar alguns). Tudo bem; não há dicionário sem erros.

Um exemplo mais de erro no Houaiss é a definição de baleia-branca. Para o Aurélio, é simples: baleia-branca é um sinônimo de beluga, o animal da foto acima. Como se vê na foto, o nome faz sentido.

É o mesmo que diz o dicionário Michaelis – baleia-branca é beluga.

A portuguesa Porto Editora  diz que baleia-branca é o mesmo que “beluca” (variante pouco usada de beluga), mas traz erro nesse e em todos os verbetes que tratam de animais, por trazer os nomes de famílias (no caso da beluga, “Delfinídeos“) com inicial maiúscula, o que contraria o Acordo Ortográfico que diz seguir, que não prevê maiúsculas nesses casos.

O também português dicionário Priberam não erra (nem acerta), já que nem mesmo traz o verbete baleia-branca.

E o Houaiss, embora seja nosso melhor dicionário, erra na palavra. Dá, como primeiro sentido de baleia-branca:

baleia da fam. dos balenídeos (Balaena mysticetus), que ocorre nas águas frias do hemisfério norte [Espécie ameaçada de extinção.]

O problema é que ninguém chama a espécie Balaena mysticetus de baleia-branca, e por uma muito boa razão:

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…a Balaena mysticetus é preta, e não branca. Só mais um pequeno lapso do Houaiss.

Pronúncia: Manchéster ou Mânchester?

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O recente atentado terrorista em Manchester, na Inglaterra, fez que o nome dessa cidade inglesa fosse citado ao longo da semana em todos os principais telejornais. Pouco habituados a tratar da cidade em outras situações, os repórteres brasileiros se referiram a ela com a pronúncia “Mânchester“, proparoxítona.

Em português, porém, o nome da cidade inglesa tradicionalmente sempre se pronunciou Manchéster – uma paroxítona, como a maioria das palavras portuguesas e aportuguesadas.

Era a lição, por exemplo, de Silveira Bueno, que em sua gramática, trazia o nome da cidade como exemplo de palavra paroxítona:

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Como prova da pronúncia tradicional paroxítona em português, o nome da cidade aparecia mesmo acentuado (“Manchéster”) em obras de renome como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na compilação Obras de Eça de Queiroz, e mesmo em outras gramáticas antigas.

Terá sido sem dúvidas a popularidade do time de futebol da cidade – conhecido internacionalmente, inclusive em português, por seu nome original em inglês, Manchester United – o que fez que a pronúncia à inglesa, proparoxítona (“Mânchester“) tenha se disseminado no Brasil.