“Collant”, em português, se escreve colã

 

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Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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“Bruschetta”, em português: brusqueta

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O Google nos dá mais de 120 mil ocorrências, em português, da palavra brusqueta – aperitivo italiano que consiste numa fatia de pão grelhada temperada com alho, azeite, pimenta e que geralmente leva coberturas adicionais como tomate.

Em italiano, escreve-se bruschetta  – a pronúncia, lá como cá, é “brus-ke-ta” – o “ch” em italiano tem sempre o som do nosso “qu“. Nada mais natural, portanto, que o aportuguesamento brusqueta – que, embora ainda ausente dos dicionários, já tem mais uso em português do que boa parte das palavras contidas nos nossos vocabulários.

Em italiano, o plural é bruschette – as palavras terminadas em “a” fazem o plural em “e” em italiano. Com a palavra devidamente aportuguesada, o plural, naturalmente, segue as regras do português: a brusqueta, as brusquetas.

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Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos típicos outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo -, ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, pratos nipônicos que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental para a qual são transcritas: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhado de vegetais, molhos e temperos, servida num pão árabe (chamada shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão) só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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Outros nomes da bolinha de gude: bolita, bila, peteca, birosca, burquinha, cabeçulinha, fubeca, pilica, peca, tilica, ximbra…

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O nome bolinha de gude (palavra que, segundo os dicionários, veio de um termo do norte de Portugal, “gode“, cujo sentido seria “pedrinha redonda e lisa“) é hoje entendido no Brasil todo graças ao poder da cidade de São Paulo como polo irradiador, mas muitas outras formas ainda têm uso regional.

Peteca parece ser aquela com maior uso em termos de espaço geográfico, sendo a forma mais popular em toda a região Norte e em grande parte da região Nordeste do Brasil. O interessante é que no centro-sul do Brasil (e, por exportação brasileira, no resto do mundo, inclusive em francês, inglês, etc.), peteca se refere a outro objeto objeto completamente diferente – o brinquedo com penas. Quem está errado nessa história? Ninguém: peteca vem da palavra tupi para “bater” – nome que faz sentido, portanto, para ambos os jogos.

Ainda no Nordeste, o estado de Alagoas tem uma palavra própria – ximbra -, e o Ceará, duas outras: bila (nome também conhecido em Portugal) e cabeçulinha.

As bolas de gude de vidro, tal como as conhecemos hoje, são uma invenção alemã; dentro da própria Alemanha, há muitos diferentes nomes (MurmelBuckerKlickerKnicker), que parecem estar na origem de alguns dos nomes usados no Sul do Brasil. O nome alemão Klicker (pronunciado aproximadamente “clica”) deve ser a fonte dos nomes clica (usado em partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina) e quilica (Santa Catarina), enquanto Knicker foi seguramente a fonte da forma canica, usada em espanhol e na Galiza. O alemão Bucker pode ter dado origem à burca dos paranaenses (com um “r” talvez vindo da influência de “buraco”), mais frequentemente chamada burquinha.

(Quase) todos os muitos nomes das bolas de gude:

baleba: Rio de Janeiro (aqui, aqui, aqui)

berlinde: Portugal (originalmente de Lisboa, é hoje a forma entendida em todo o país, como bola de gude no Brasil)

bolita: Rio Grande do Sul

bila: Ceará e Portugal

biloca: Brasília (aqui, aqui, aqui)

biroca: estado de São Paulo (aqui, aqui, aqui)

birosca (às vezes “bilosca“): Minas Gerais

boleba (às vezes “bolega“): Espírito SantoMinas Gerais, Rio de Janeiro

bola de gude, bolinha de gude: São Paulo (capital) e, por extensão, todo o Brasil

bugalho: Goiás, interior de SP

bulica: Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro

burca (ou burquinha): Paranáestado de SP

cabeçulinha (pronunciada cabiçulinha): Ceará

canica: Galiza e países de língua espanhola

carolo: Portugal (Norte)

clica: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui) e Santa Catarina (aqui, aqui, aqui)

fubeca: partes do estado de São Paulo

guelas: Portugal

peca (pronunciada pêca): norte de Santa Catarina (Barra Velha, Canoinhas, JoinvillePenhaRio Negrinho, São Francisco do Sul)

peteca: Norte e Nordeste do Brasil

pilica ou pinica: Rio Grande do Sul (aquiaqui, aqui, aqui)

quilica: Santa Catarina (Blumenau, LaurentinoRio do Sul)

tilica: Santa Catarina (Balneário Camboriú, Florianópolis, Itapema, Nova Trento, São João Batista, Tijucas, Urubici)

ximbra: Alagoas e Pernambuco

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“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Palavras novas: tapiocaria

downloadNa foto acima, uma bela tapioca recheada com carne seca. Alguns dicionários, como os portugueses, só trazem tapioca como a fécula extraída da mandioca; ignoram, portanto, o sentido mais usada correntemente – o de tipo de bolo feito dessa fécula, que se come com diversos acompanhamentos, doces e salgados. Especificamente na Bahia, é chamado de beiju.

E, com a proliferação recente de estabelecimentos especializados em tapiocas por todo o país, popularizou-se também o substantivo tapiocaria – bem formado a partir do sufixo tradicional português para estabelecimentos; o mesmo que se vê em churrascaria, livraria, padaria, pamonharia, papelaria, peixaria, petiscaria, pizzaria, relojoaria, tabacaria

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