Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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Outros nomes da bolinha de gude: bolita, bila, peteca, birosca, burquinha, cabeçulinha, fubeca, pilica, peca, tilica, ximbra…

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O nome bolinha de gude (palavra que, segundo os dicionários, veio de um termo do norte de Portugal, “gode“, cujo sentido seria “pedrinha redonda e lisa“) é hoje entendido no Brasil todo graças ao poder da cidade de São Paulo como polo irradiador, mas muitas outras formas ainda têm uso regional.

Peteca parece ser aquela com maior uso em termos de espaço geográfico, sendo a forma mais popular em toda a região Norte e em grande parte da região Nordeste do Brasil. O interessante é que no centro-sul do Brasil (e, por exportação brasileira, no resto do mundo, inclusive em francês, inglês, etc.), peteca se refere a outro objeto objeto completamente diferente – o brinquedo com penas. Quem está errado nessa história? Ninguém: peteca vem da palavra tupi para “bater” – nome que faz sentido, portanto, para ambos os jogos.

Ainda no Nordeste, o estado de Alagoas tem uma palavra própria – ximbra -, e o Ceará, duas outras: bila (nome também conhecido em Portugal) e cabeçulinha.

As bolas de gude de vidro, tal como as conhecemos hoje, são uma invenção alemã; dentro da própria Alemanha, há muitos diferentes nomes (MurmelBuckerKlickerKnicker), que parecem estar na origem de alguns dos nomes usados no Sul do Brasil. O nome alemão Klicker (pronunciado aproximadamente “clica”) deve ser a fonte dos nomes clica (usado em partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina) e quilica (Santa Catarina), enquanto Knicker foi seguramente a fonte da forma canica, usada em espanhol e na Galiza. O alemão Bucker pode ter dado origem à burca dos paranaenses (com um “r” talvez vindo da influência de “buraco”), mais frequentemente chamada burquinha.

(Quase) todos os muitos nomes das bolas de gude:

baleba: Rio de Janeiro (aqui, aqui, aqui)

berlinde: Portugal (Lisboa)

bolita: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui)

bila: Ceará e Portugal

biloca: Brasília (aqui, aqui, aqui)

biroca: estado de São Paulo (aqui, aqui, aqui)

birosca (às vezes “bilosca“): Minas Gerais

boleba (às vezes “bolega“): Espírito SantoMinas Gerais, Rio de Janeiro

bola de gude, bolinha de gude: São Paulo (capital) e, por extensão, em todo o Brasil

bugalho: Goiás, interior de SP

bulica: Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro

burca (ou burquinha): Paranáestado de SP

cabeçulinha (pronunciada cabiçulinha): Ceará

carolo: Portugal (Norte)

clica: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui) e Santa Catarina (aqui, aqui, aqui)

fubeca: estado de São Paulo

guelas: Portugal

peca (pronunciada pêca): norte de SC (Barra Velha, Canoinhas, JoinvillePenhaRio Negrinho, São Francisco do Sul)

petecaPiauí e Amazonas

pilica ou pinica: Rio Grande do Sul (aquiaqui, aqui, aqui)

quilica: Santa Catarina (Blumenau, LaurentinoRio do Sul)

tilica: Santa Catarina (Florianópolis, GasparItapema, LagesSão João Batista, Tijucas, etc.)

ximbra: Alagoas e Pernambuco

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“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Palavras novas: tapiocaria

downloadNa foto acima, uma bela tapioca recheada com carne seca. Alguns dicionários, como os portugueses, só trazem tapioca como a fécula extraída da mandioca; ignoram, portanto, o sentido mais usada correntemente – o de tipo de bolo feito dessa fécula, que se come com diversos acompanhamentos, doces e salgados. Especificamente na Bahia, é chamado de beiju.

E, com a proliferação recente de estabelecimentos especializados em tapiocas por todo o país, popularizou-se também o substantivo tapiocaria – bem formado a partir do sufixo tradicional português para estabelecimentos; o mesmo que se vê em churrascaria, livraria, padaria, pamonharia, papelaria, peixaria, petiscaria, pizzaria, relojoaria, tabacaria

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Falta nos dicionários: revistaria

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Ainda consigo me surpreender com a ausência nos dicionários de certas palavras que me parecem básicas. Hoje, espantou-me não encontrar o substantivo revistaria: nem o Aurélio nem o Houaiss trazem a palavra. O Aulete e os dicionários portugueses igualmente a ignoram. Cresci acostumado a ir todo sábado, com meu pai, à autointitulada revistaria do bairro, de modo que sei que a palavra é usada no Brasil há pelo menos algumas décadas.

De resto, a palavra está bem formada – o sufixo “-aria” é o tradicional da língua portuguesa para nomear estabelecimentos: churrascaria, livraria, papelaria, pastelaria, pizzaria, tabacaria.

Um pequeno lapso de nossos dicionários, portanto.

(Veja aqui uma compilação das postagens sobre palavras que faltam nos dicionários.)

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Xeica é o feminino de xeique ou xeque

sem-tituloO feminino de xeique (ou xeque) é xeica.

Anos atrás, os portugueses noticiavam a visita da sheikha” do Kuwait a Portugal. Corretíssimo o uso do feminino, já que nenhum dicionário admite “xeique” ou “xeque” como substantivo de dois gêneros. O feminino já vem do árabe, e mesmo o inglês, língua que em geral não faz distinção de gênero nos cargos, usa a forma feminina sheikha.

Mas em português, é claro, deve escrever-se xeica – forma usada pela imprensa e pelo governo brasileiro, e perfeita do ponto de vista ortográfico, e que já consta do Dicionário Houaiss:

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O significado de “tabajara”

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Da série de palavras (e sentidos) que ainda  não estão nos dicionários – mas já deveriam estar: o ex-presidente do Poder Judiciário brasileiro manifestou hoje sua percepção de que a destituição de Dilma Rousseff foi um processo “tabajara”.

Alguém que desconhecesse o adjetivo por ele usado e fosse aos dicionários tradicionais ficaria na mesma: os dicionários brasileiros, como o Aulete, dizem apenas que “tabajara” é uma tribo indígena. O Houaiss diz quase o mesmo, mas dando informação errada sobre a localização da tribo (“grupo indígena que habita o município de Viçosa CE“). O Michaelis consegue a mesma proeza que o Houaiss: dar uma única informação sobre a tribo (a sua localização), e ainda dá-la errada: “Indígena dos tabajaras, povo que habita a cidade de Amarante (MA)“. Obviamente, a tribo não habita uma única cidade (e sequer existente uma cidade chamada simplesmente “Amarante” no Maranhão, ou uma cidade chamada simplesmente “Viçosa” no Ceará). O português Priberam, por sua vez, sequer registra o termo.

De todos modos, não foi o ex-presidente do Supremo Tribunal politicamente incorreto – não quis ele associar a destituição presidencial a índios. A palavra “tabajara” foi usada, isso sim, no sentido que tem no Brasil modernamente – que encontra amparo no Dicionário Informal:  algo tabajara é algo “falsificado“, “inferior ao original” ou, simplesmente, “de baixa qualidade“.

A acepção usada por Joaquim Barbosa faz referência, é claro, às fictícias Organizações Tabajara, do extinto humorístico Casseta & Planeta, que eram famosas por seus produtos de duvidosas utilidade ou qualidade. O fato é que tamanha era a popularidade do programa no início do século que até hoje o adjetivo “tabajara” é usado com esse sentido pejorativo – apenas neste ano, por exemplo, foi a mesma palavra usada por outro ministro do Supremo Tribunal para se referir a outro processo na Câmara dos Deputados e pela ex-ministra da Cultura para se referir ao governo de Dilma Rousseff. Até o termo de posse ministerial enviado por Dilma a Lula foi tachado de “tabajara“.

Já está mais do que na hora, portanto, de essa acepção de tabajara aparecer recolhida em nossos dicionários.