Terraplanista e terraplanismo: faltam nos dicionários

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Já tem cerca de cinquenta mil resultados no Google, mas ainda não aparece em nenhum dicionário de português o vocábulo terraplanista – nome dado às pessoas que creem que a Terra seja plana.

Pelo que diz a Internet, o terraplanismo (outra palavra que os dicionários já deveriam acolher) está em franca ascensão, nestes tempos de verdades alternativas, e parece fazer sucesso entre o mesmo tipo de pessoas que de repente começaram a querer dizer que o nazismo é de esquerda. Na verdade, a crença no terraplanismo tem crescido tanto que já há terraplanistas ao redor de todo o globo.

Falta nos dicionários: itê

No excelente livro infantil Os doze trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato:

Pedrinho trepou numa oliveira das mais carregadas e começou a encher o embornal, depois de haver provado uma e cuspido, numa careta.
— Estão maduras, sim — disse ele — mas Nastácia, que só conhece azeitonas de lata, não é capaz de reconhecer estas. Gosto muito diferente e horrível. Lembra certas frutinhas do mato que ninguém come, de tão amargas ou itês.

Itê (no plural, itês), usada por Monteiro Lobato, é palavra que não vem em quase nenhum dicionário.

No Houaiss aparece “ité”, com dois sentidos distintos: 1) azedo; 2) sem gosto. Além de contraditórios entre si, os dois sentidos parecem incorretos – na verdade, a palavra deve ser o tupi  ite, cujo significado é “repulsivo, ruim (como o gosto de fruta não madura)“. 

Também é erro do Houaiss só registrar a forma “ité”, se é itê que tem uso – como mostra, além de sua presença em Monteiro Lobato, sua inclusão no Dicionário Informal – dicionário colaborativo, para o qual qualquer um pode enviar palavras.

Em dicionários “formais”, itê, com circunflexo, só vem no dicionário Aulete – mas, neste, também com a definição errada, de sem sabor, quando o uso e a etimologia indicam que itê é algo que tem sabor… ruim.

Como tantas vezes aqui já vimos, com dicionários é assim – nenhum é perfeito nem completo; o melhor é alternar-se entre todos.

“Collant”, em português, se escreve colã

 

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Como chamar a roupa de material aderente ao corpo que se usa em danças, como o balé? Collant ou colã? Collant – em francês. Em português, colã.

Em francês collant significa literalmente “colante”. O nome vem do fato de a roupa “colar-se” ao corpo. Do mesmo modo que não faz mais sentido escrever maillot em português – mas sim maiô -, em português a forma correta, já incluída inclusive no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, é colã:

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“Bruschetta”, em português: brusqueta

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O Google nos dá mais de 120 mil ocorrências, em português, da palavra brusqueta – aperitivo italiano que consiste numa fatia de pão grelhada temperada com alho, azeite, pimenta e que geralmente leva coberturas adicionais como tomate.

Em italiano, escreve-se bruschetta  – a pronúncia, lá como cá, é “brus-ke-ta” – o “ch” em italiano tem sempre o som do nosso “qu“. Nada mais natural, portanto, que o aportuguesamento brusqueta – que, embora ainda ausente dos dicionários, já tem mais uso em português do que boa parte das palavras contidas nos nossos vocabulários.

Em italiano, o plural é bruschette – as palavras terminadas em “a” fazem o plural em “e” em italiano. Com a palavra devidamente aportuguesada, o plural, naturalmente, segue as regras do português: a brusqueta, as brusquetas.

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Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos  outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já há muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo; e ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

É uma regra do aportuguesamento de palavras árabes que o som transliterado como “sh” em inglês, como “ch” em francês e como “sch” em alemão seja escrito sempre com “x” em português. Há dezenas de vocábulos vindos do árabe que exemplificam o processo – almoxarifado, enxaqueca, xadrez, xeique, xeque, xerife, xiita…

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhada de vegetais, molhos e temperos servida num pão, a que se chama shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão, só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Nova palavra nos dicionários: meme

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Teve quem tentou avisar: “Não vire meme, chegue no horário“. Mas o aviso foi em vão – nos jornais já abundam as postagens ao estilo “Atrasados do Enem viram meme nas redes sociais – clique aqui para ver os melhores“.

Com a proliferação de memes – e do uso da palavra – nos tempos que correm, é normal que os dicionários já tenham incorporado a palavra. Como se lê no dicionário Estraviz, um meme é umaImagem, informação ou ideia que se espalha rapidamente através da Internet, correspondendo geralmente à reutilização ou alteração humorística ou satírica de uma imagem“.

Há milhares de exemplos, de todos os países – o meme brasileiro “Nazaré confusa” é um que foi recentemente “exportado”.

A palavra meme já era usada, em inglês, desde antes da popularização da Internet, com o sentido de “ideia ou comportamento que passa de um meio social para outro, geralmente por imitação“, do qual deriva o novo sentido.

Já estando devidamente aportuguesado, o substantivo meme não deve ser escrito em itálico nem precisa de aspas – e, sobretudo, deve ser pronunciado como se escreve, com “e”, e não à inglesa, como fazem uns poucos que pronunciam “mime“.

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Outros nomes da bolinha de gude: bolita, bila, peteca, birosca, burquinha, cabeçulinha, fubeca, pilica, peca, tilica, ximbra…

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O nome bolinha de gude (palavra que, segundo os dicionários, veio de um termo do norte de Portugal, “gode“, cujo sentido seria “pedrinha redonda e lisa“) é hoje entendido no Brasil todo graças ao poder da cidade de São Paulo como polo irradiador, mas muitas outras formas ainda têm uso regional.

Peteca parece ser aquela com maior uso em termos de espaço geográfico, sendo a forma mais popular em toda a região Norte e em grande parte da região Nordeste do Brasil. O interessante é que no centro-sul do Brasil (e, por exportação brasileira, no resto do mundo, inclusive em francês, inglês, etc.), peteca se refere a outro objeto objeto completamente diferente – o brinquedo com penas. Quem está errado nessa história? Ninguém: peteca vem da palavra tupi para “bater” – nome que faz sentido, portanto, para ambos os jogos.

Ainda no Nordeste, o estado de Alagoas tem uma palavra própria – ximbra -, e o Ceará, duas outras: bila (nome também conhecido em Portugal) e cabeçulinha.

As bolas de gude de vidro, tal como as conhecemos hoje, são uma invenção alemã; dentro da própria Alemanha, há muitos diferentes nomes (MurmelBuckerKlickerKnicker), que parecem estar na origem de alguns dos nomes usados no Sul do Brasil. O nome alemão Klicker (pronunciado aproximadamente “clica”) deve ser a fonte dos nomes clica (usado em partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina) e quilica (Santa Catarina), enquanto Knicker foi seguramente a fonte da forma canica, usada em espanhol e na Galiza. O alemão Bucker pode ter dado origem à burca dos paranaenses (com um “r” talvez vindo da influência de “buraco”), mais frequentemente chamada burquinha.

(Quase) todos os muitos nomes das bolas de gude:

baleba: Rio de Janeiro (aqui, aqui, aqui)

berlinde: Portugal (originalmente de Lisboa, é hoje a forma entendida em todo o país, como bola de gude no Brasil)

bolita: Rio Grande do Sul

bila: Ceará e Portugal

biloca: Brasília (aqui, aqui, aqui)

biroca: estado de São Paulo (aqui, aqui, aqui)

birosca (às vezes “bilosca“): Minas Gerais

boleba (às vezes “bolega“): Espírito SantoMinas Gerais, Rio de Janeiro

bola de gude, bolinha de gude: São Paulo (capital) e, por extensão, todo o Brasil

bugalho: Goiás, interior de SP

bulica: Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro

burca (ou burquinha): Paranáestado de SP

cabeçulinha (pronunciada cabiçulinha): Ceará

canica: Galiza e países de língua espanhola

carolo: Portugal (Norte)

clica: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui) e Santa Catarina (aqui, aqui, aqui)

fubeca: partes do estado de São Paulo

guelas: Portugal

peca (pronunciada pêca): norte de Santa Catarina (Barra Velha, Canoinhas, JoinvillePenhaRio Negrinho, São Francisco do Sul)

peteca: Norte e Nordeste do Brasil

pilica ou pinica: Rio Grande do Sul (aquiaqui, aqui, aqui)

quilica: Santa Catarina (Blumenau, LaurentinoRio do Sul)

tilica: Santa Catarina (Balneário Camboriú, Florianópolis, Itapema, Nova Trento, São João Batista, Tijucas, Urubici)

ximbra: Alagoas e Pernambuco

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