A palavra “ídola”, feminino de ídolo, existe há séculos em português

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Uma falsa afirmação que muitos sabichões vendem como verdade é a de que “ídolo” só se usa no masculino, e de que a palavra “ídola” não existe. Bastaria aos que propagam essa mentira recorrer a dicionários (como por exemplo o dicionário Houaiss, o dicionário Michaelis [foto acima], o dicionário Aulete e o dicionário Priberam) e ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Academia Brasileira de Letras (ou mesmo ao Vocabulário Ortográfico da Academia das Ciências de Lisboa), ou ainda a gramáticas, e aprenderiam que a palavra ídola, feminino regular de ídolo, existe há séculos em português, com o sentido de “mulher adorada, idolatrada”.

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Em 1824, Antonio Moraes Silva, autor do primeiro dicionário da língua portuguesa, publicou a sua Grammatica Portugueza, da qual extraímos o trecho abaixo, sobre femininos e masculinos:

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Na Gramática, “ídolo” é dado como um substantivo comum, que, como a maioria daqueles referentes a pessoas, faz feminino trocando a vogal “o” final por “a”.

O fato de nem todos os dicionários trazerem a palavra “ídola” como entrada separada não quer dizer que não a reconheçam: os dicionários tampouco trazem as palavras “prefeita” ou “ministra”, pois, em geral, trazem apenas os substantivos em suas formas masculina e singular. Mesmo alguns que não trazem a palavra separadamente, porém, deixam aparecer seu uso no feminino – como a décima edição do Dicionário de Moraes (até hoje, o maior dicionário da história da língua portuguesa), que traz, na palavra “ídolo”, exemplos de uso – e inclui um exemplo de “minha ídola“:

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E, no Dicionário Houaiss:

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Se a palavra “ídola” aparece em gramáticas e dicionários, tem uso histórico, não desrespeita nenhuma regra gramatical da língua (pelo contrário, segue estritamente a regra natural da formação de femininos portugueses), tem o abono do Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e é usada atualmente (como mostram os usos de “ídola” no jornal O Globo, na Folha de S.Paulo, no Estado de S. Paulo, na Revista Veja, em livros e revistas, se é usada por Ziraldo e por Rachel de Queiroz), não há absolutamente nenhuma razão para condenar seu uso: é perfeitamente correto em português o uso da palavra “ídola” em expressões como “ela é minha ídola” ou “estas são as minhas ídolas“.

Xauarma: grafia em português para o prato árabe

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Nos tempos que correm, pratos típicos outrora regionais vão-se globalizando e ganhando adeptos em todo o mundo. Ocorreu já muito tempo com a pizza – palavra hoje entendida em qualquer país do mundo -, ocorreu mais recentemente com o sushi e o sashimi, pratos nipônicos que, assim mesmo, com a grafia da romanização oficial japonesa, entraram nos dicionários de quase todas as línguas do mundo.

Uma língua, porém, é famosa por não ter uma romanização oficial, um sistema único e oficial de ter suas palavras transcritas no 200px-doner_kebap_istanbul_20071026alfabeto latino: o árabe. É isso que leva a que palavras árabes tradicionalmente tenham uma transcrição diferente em cada língua ocidental para a qual são transcritas: o líder árabe que chamamos de xeique ou xeque é um sheik em inglês, um cheikh em francês e um Scheich em alemão; já a lei islâmica é chamada de xaria em português, charia em francês, sharia em inglês e Scharia em alemão.

Assim sendo, o prato tradicional árabe que consiste de carne  (de boi, frango ou carneiro) acompanhado de vegetais, molhos e temperos, servida num pão árabe (chamada shawarma em inglês, chawarma em francês e Schawarma em alemão) só pode ser, em português, escrita xauarma – como já bem traz o dicionário Estraviz.

Outros nomes da bolinha de gude: bolita, bila, peteca, birosca, burquinha, cabeçulinha, fubeca, pilica, peca, tilica, ximbra…

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O nome bolinha de gude (palavra que, segundo os dicionários, veio de um termo do norte de Portugal, “gode“, cujo sentido seria “pedrinha redonda e lisa“) é hoje entendido no Brasil todo graças ao poder da cidade de São Paulo como polo irradiador, mas muitas outras formas ainda têm uso regional.

Peteca parece ser aquela com maior uso em termos de espaço geográfico, sendo a forma mais popular em toda a região Norte e em grande parte da região Nordeste do Brasil. O interessante é que no centro-sul do Brasil (e, por exportação brasileira, no resto do mundo, inclusive em francês, inglês, etc.), peteca se refere a outro objeto objeto completamente diferente – o brinquedo com penas. Quem está errado nessa história? Ninguém: peteca vem da palavra tupi para “bater” – nome que faz sentido, portanto, para ambos os jogos.

Ainda no Nordeste, o estado de Alagoas tem uma palavra própria – ximbra -, e o Ceará, duas outras: bila (nome também conhecido em Portugal) e cabeçulinha.

As bolas de gude de vidro, tal como as conhecemos hoje, são uma invenção alemã; dentro da própria Alemanha, há muitos diferentes nomes (MurmelBuckerKlickerKnicker), que parecem estar na origem de alguns dos nomes usados no Sul do Brasil. O nome alemão Klicker (pronunciado aproximadamente “clica”) deve ser a fonte dos nomes clica (usado em partes do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina) e quilica (Santa Catarina), enquanto Knicker foi seguramente a fonte da forma canica, usada em espanhol e na Galiza. O alemão Bucker pode ter dado origem à burca dos paranaenses (com um “r” talvez vindo da influência de “buraco”), mais frequentemente chamada burquinha.

(Quase) todos os muitos nomes das bolas de gude:

baleba: Rio de Janeiro (aqui, aqui, aqui)

berlinde: Portugal (originalmente de Lisboa, é hoje a forma entendida em todo o país, como bola de gude no Brasil)

bolita: Rio Grande do Sul

bila: Ceará e Portugal

biloca: Brasília (aqui, aqui, aqui)

biroca: estado de São Paulo (aqui, aqui, aqui)

birosca (às vezes “bilosca“): Minas Gerais

boleba (às vezes “bolega“): Espírito SantoMinas Gerais, Rio de Janeiro

bola de gude, bolinha de gude: São Paulo (capital) e, por extensão, todo o Brasil

bugalho: Goiás, interior de SP

bulica: Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro

burca (ou burquinha): Paranáestado de SP

cabeçulinha (pronunciada cabiçulinha): Ceará

canica: Galiza e países de língua espanhola

carolo: Portugal (Norte)

clica: Rio Grande do Sul (aqui, aqui, aqui) e Santa Catarina (aqui, aqui, aqui)

fubeca: partes do estado de São Paulo

guelas: Portugal

peca (pronunciada pêca): norte de Santa Catarina (Barra Velha, Canoinhas, JoinvillePenhaRio Negrinho, São Francisco do Sul)

peteca: Norte e Nordeste do Brasil

pilica ou pinica: Rio Grande do Sul (aquiaqui, aqui, aqui)

quilica: Santa Catarina (Blumenau, LaurentinoRio do Sul)

tilica: Santa Catarina (Balneário Camboriú, Florianópolis, Itapema, Nova Trento, São João Batista, Tijucas, Urubici)

ximbra: Alagoas e Pernambuco

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“Um catito”: um ratinho, um gatinho, um bocadinho – os vários significados de catito

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Ter sido o estado onde estudou e se formou nosso mais famoso dicionarista, Aurélio, rende frutos a Pernambuco: até hoje, muitas palavras e modismos que só se usam lá estão registrados em todos os dicionários brasileiros (que “se basearam” no Aurélio), enquanto ficam de fora palavras com uso em áreas geográficas maiores das regiões Sul, Norte e Centro-Oeste.

Um caso desses é o da palavra catito, que todo dicionário brasileiro hoje traz com o significado de ratinho, camundongo – mas esse sentido só se usa em Pernambuco (nos demais estados do Nordeste e do Norte usa-se, com o mesmo significado de ratinho, camundongo, a forma feminina: catita).

Mas, como uma rápida busca numa ótima fonte de “português real” – o Twittermostra, na maior parte do Brasil (como São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) a palavra catito se usa com outro sentido: o de gatinho (tanto em sentido literal, isto é, o animal, um bichano, quanto no sentido figurado, o de garoto bonito).

Um terceiro sentido de “um catito” que se usa informalmente por quase todo o Brasil – por exemplo no RJ, em SP, em Brasília, no Amazonas e no Paraná – é o de “um bocadinho“, “um pouquinho” – sentido que o dicionário Porto Editora, de Portugal, traz como sendo usual em países africanos que falam português (Angola, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe). “Um catito” também se usa com esse mesmo sentido no Brasil, mas nossos dicionários não fizeram o trabalho direito.

Minha noite de pesquisa ainda me permitiu constatar que catito tem um significado todo próprio na região de Uruguaiana (RS): o de algo (ou alguém) que não presta – como se vê neste, neste, neste, nesteneste, neste e neste tuítes – o que, só posso supor, sem conhecer a cidade, talvez advenha do fato de, como acabo de descobrir no Google, o centro de reciclagem de lixo e sucata da cidade se chamar Catito.

Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

O significado de “tabajara”

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Da série de palavras (e sentidos) que ainda  não estão nos dicionários – mas já deveriam estar: o ex-presidente do Poder Judiciário brasileiro manifestou hoje sua percepção de que a destituição de Dilma Rousseff foi um processo “tabajara”.

Alguém que desconhecesse o adjetivo por ele usado e fosse aos dicionários tradicionais ficaria na mesma: os dicionários brasileiros, como o Aulete, dizem apenas que “tabajara” é uma tribo indígena. O Houaiss diz quase o mesmo, mas dando informação errada sobre a localização da tribo (“grupo indígena que habita o município de Viçosa CE“). O Michaelis consegue a mesma proeza que o Houaiss: dar uma única informação sobre a tribo (a sua localização), e ainda dá-la errada: “Indígena dos tabajaras, povo que habita a cidade de Amarante (MA)“. Obviamente, a tribo não habita uma única cidade (e sequer existente uma cidade chamada simplesmente “Amarante” no Maranhão, ou uma cidade chamada simplesmente “Viçosa” no Ceará). O português Priberam, por sua vez, sequer registra o termo.

De todos modos, não foi o ex-presidente do Supremo Tribunal politicamente incorreto – não quis ele associar a destituição presidencial a índios. A palavra “tabajara” foi usada, isso sim, no sentido que tem no Brasil modernamente – que encontra amparo no Dicionário Informal:  algo tabajara é algo “falsificado“, “inferior ao original” ou, simplesmente, “de baixa qualidade“.

A acepção usada por Joaquim Barbosa faz referência, é claro, às fictícias Organizações Tabajara, do extinto humorístico Casseta & Planeta, que eram famosas por seus produtos de duvidosas utilidade ou qualidade. O fato é que tamanha era a popularidade do programa no início do século que até hoje o adjetivo “tabajara” é usado com esse sentido pejorativo – apenas neste ano, por exemplo, foi a mesma palavra usada por outro ministro do Supremo Tribunal para se referir a outro processo na Câmara dos Deputados e pela ex-ministra da Cultura para se referir ao governo de Dilma Rousseff. Até o termo de posse ministerial enviado por Dilma a Lula foi tachado de “tabajara“.

Já está mais do que na hora, portanto, de essa acepção de tabajara aparecer recolhida em nossos dicionários.

“Parricídio” e “patricídio”

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Na publicação anterior sobre deicidas, fordicidas, gaticidas e afins, um leitor comentou ter sentido falta, na lista, de “parricida” – aquele que comete um parricídio: o ato de matar o próprio pai, ou a própria mãe, ou um avô ou avó, ou bisavô ou bisavó, ou qualquer outro ascendente.

Parricídio não é, assim, o mesmo que patricídio – ao contrário, portanto, do que afirma, erradamente, o Dicionário Houaiss. Patricida é aquele que mata o próprio pai, e ponto final – é, portanto, forma análoga de “matricida” (aquele que mata a própria mãe).

Dar um significado errado, como faz o Houaiss, é pior do que o que fazem o Dicionário Aurélio, o Aulete, o Michaelis, o da Porto Editora e o da Texto Editores, que sequer trazem as palavras patricídio patricida.

Na “prova” de hoje, o dicionário que se sai melhor é, sem dúvida, o Priberam (que além de tudo é grátis), que define, muito bem, patricida como quem mata o próprio pai, matricida como quem mata a própria mãe, e parricida como “Pessoa que mata seu pai ou sua mãe ou outro qualquer dos seus ascendentes.” ou ainda, por extensão, “Pessoa que atenta contra o rei ou contra a pátria“.