O certo é chegado ou chego? Tinha chegado ou tinha chego?

Na língua culta, não existe “chego”. A única forma admitida formalmente é “chegado”: “ela ainda não tinha chegado”, “já havia chegado”, “Já tendo chegado”.

Já tivemos aqui oportunidade de falar de verbos abundantes, assim chamados por ter duas conjugações diferentes, ambas igualmente válidas, para o particípio: tinha aceito ou aceitado? Tanto faz, ambas as formas são admitidas na norma culta. Tinha ganhado ou tinha ganho? Tanto faz. Havíamos gastado ou havíamos gasto? Tanto faz. Tendo pago ou tendo pagado? Tanto faz. E tinha chegado ou tinha chego? Nesse caso, nada de “tanto faz”: na língua culta, não existe “chego”. A única forma admitida formalmente é “chegado”: “ela ainda não tinha chegado”, “já havia chegado”, “Já tendo chegado”.

Teúda e manteúda, teúdo e manteúdo, tidos e mantidos = amantes, sustentados

Um leitor, tendo deparado com a expressão “teúda e manteúda”, pergunta-nos o que significarão os adjetivos “teúdo” e “manteúdo”.

Acerta o leitor ao perceber que teúda é feminino de teúdo, e manteúda, de manteúdo; e que ambos os pares são adjetivos derivados de particípios passados desusados, de tido mantido (ou, no feminino, tida e mantida).

Na língua corrente, praticamente só se usam na expressão “teúdo e manteúdo” – imortalizada, no feminino (“teúda e manteúda”), por seu uso frequente na telenovela brasileira Roque Santeiro (1985), em que era sempre repetida como sinônima para “amante” (concubina, partícipe de um caso extraconjugal).

Com esse sentido, a expressão chega a usar-me mesmo substantivada: “Não quero trabalhar nunca mais. De agora em diante, só quero ser teúda e manteúda“; “Todo mundo na rua sabe que o Doutor Carlinhos tem uma teúda e manteúda“.

De modo geral, é usada, com alguma frequência, em referência a diferentes tipos de relacionamento em que uma das partes é considerada “tida e mantida” pela outra. Constata-se esse uso, por exemplo, em contextos legais, literários e jornalísticos:

[Em caso de morte do locatário,] o companheiro teúdo e manteúdo goza do direito de ser o legítimo sucessor na relação locatícia.

Em ‘Gabriela’, o professor teúdo e manteúdo recebe afagos de uma quenga, com quem se amasiara – ela mesma, ‘tida e mantida’ por um coronel.”

“Deveu-se, isto sim, ao fato de o partido ser teúdo e manteúdo de um sistema de arrecadação espúrio comandado por um lobista”.

Embora raramente figurem dissociadas, Aurélio as apresenta como verbetes independentes: define teúdo como “que se teve ou se tem conservado”, e manteúdo como variante arcaica de “mantido”, particípio de “manter”, e é a ela atribuída como sinônimo “sustentado”.

O dicionarista abona ambos os verbetes, porém, com o exemplo “concubina teúda e manteúda“. Para manteúdo, Aurélio inclui também exemplo de Guimarães Rosa, que, em Sagarana, descreve o cavalo montado por seu protagonista como um animal fino, manteúdo.