Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

“Chicungunha” – do dicionarioegramatica para o Houaiss e a Porto Editora

No início de março, publicamos aqui no DicionarioeGramatica por que razões “chicungunha” era o perfeito aportuguesamento para o nome da doença chikungunya.

Passados quase dois meses, o aportuguesamento chicungunha, exatamente como recomendado por nós, está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (ver aqui) e na recém-lançada edição brasileira atualizada do Dicionário Houaiss:

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‘Chikungunya’, em português: chicungunha – ou catolotolo

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O mosquito transmissor da dengue é um tríplice vetor de doenças ao homem: transmite, além da dengue e da já aqui tão discutida zica (e não Zika), também a chikungunya – cujo correto aportuguesamento é chicungunha.

Por vezes se ouve, em noticiários, a denominação “febre chicungunha” – puro decalque do inglês, onde também a dengue é chamada “Dengue fever“, sem que, só por isso, a tenhamos traduzido como “febre dengue”.

O nome Chikungunya vem da língua maconde, língua bantu da África oriental. O prefixo “chi“, pronunciado “tchi”, indica, em maconde e em outras línguas bantus, tratar-se de coisa (há outros prefixos, por exemplo, para verbos, pessoas, etc.); já a raiz da palavra vem do verbo “kungunyala” (pronunciado “cungunhala”), que significa “ficar contorcido / retorcido” – é o verbo que se usa, por exemplo, para se referir ao estado dos troncos e galhos de árvores que, no período da seca africana, ficam retorcidos. O nome de chikungunya para a doença deve-se à sensação de intensa dor nas juntas por ela causada, com a consequente prostração do doente.

O aportuguesamento chicungunha, que já vem sendo usado pela imprensa brasileira e portuguesa, obedece rigorosamente às regras ortográficas do português, com a substituição do “k” pelo “c” e a manutenção do “ch” com base na etimologia, segundo critérios já abordados (aqui e aqui).

Para os puristas da língua, que podem preferir um termo mais tradicional em português, existe a opção catolotolo – como a doença já era chamada, há anos, no português de Angola. O nome angolano vem do quimbundo: deriva do verbo para “ficar alquebrado” – isto é, fraco, curvado, contorcido. Interessantemente, o nome angolano catolotolo tem, portanto, etimologia análoga à da sua contraparte usada na outra costa da África, chicungunha – embora tenha sido esta, e não aquela, a popularizar-se mundialmente, pela adoção pela língua inglesa.

Também interessante, porém, é o fato de que, embora seja o único dicionário que já registre catolotolo, a Porto Editora não parece, pela definição apresentada, ter ciência de que catolotolo é a mesma doença hoje mais conhecida em Portugal (e no Brasil) como chicungunha.

[Atualização: dias após esta publicação, a Infopédia da Porto Editora incluiu o verbete chicungunha e atualizou o verbete catolotolo com a informação de que pode significar o mesmo que chicungunha.]

Chota é uma coisa, xota é outra

1780181_602862556475282_867243970_oUm leitor português pergunta: “Logo no início – na secção de ortografia – das boas gramáticas portuguesas, ensinam-nos que as palavras de origem indígena, árabe ou africana se escrevem com x, e não com ch. Então porquê na vossa secção de palavras do português de Angola, escrevem «chota» com «ch»? É só para não confundirem com a outra «xota»?

Excelente pergunta. Efetivamente, no Brasil, “xota” são as partes íntimas femininas. Já em Angola, uma “chota” é o nome dado a um “espaço circular, coberto de capim e aberto lateralmente” que serve para reuniões formas e informais. Mas, se as boas gramáticas dizem que as palavras africanas se escrevem com “x” (e isso só dizem as boas, já que as ruins nada se arriscam a dizer sobre regras de ortografia), por que chota, palavra de um país africano que é Angola, se escreve com “ch”? Erro? Incongruência?

Nada disso. O fato é que as gramáticas que dizem simplesmente que o “x” se usa nas palavras africanas – e ponto – estão a simplificar muito a coisa. A regra correta – que não se acha em nenhuma gramática dessas de hoje, mas se lê nos bons e velhos tratados de ortografia  (e, é claro, aqui no DicionarioeGramatica.com, como já explicáramos na postagem sobre Marraquexe) – é que em português se usa a letra xis (e não o dígrafo ch) para grafar o som chiado “sh” (/ʃ/, no alfabeto fonético internacional – a consoante fricativa palatoalveolar surda, em termos técnicos) nos aportuguesamentos de palavras de línguas que não usam o nosso alfabeto – o que inclui, portanto, as palavras de origem africana, árabe, hebraica, persa, tupi e turca.

Já o dígrafo “ch” é usado, em aportuguesamentos, para representar o som “tsh” ou “tch” ou “tx” (ou seja: /tʃ/, no alfabeto fonético internacional). É interessante notar que o dígrafo “ch” ainda conserva esse som de “tch” em espanhol, em galego e mesmo, dialetalmente, no português falado em partes de Portugal (por exemplo, partes do Norte) e do Brasil (por exemplo, partes dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul).

O dígrafo “ch” só representa em aportuguesamentos um som original chiado (/ʃ/) em palavras em que, vindas de línguas que usam o nosso alfabeto, já aparecia o “ch” – como é o caso de palavras vindas do francês (língua em que o som  /ʃ /  se escreve “ch”) e do alemão (em que o som  /ʃ /  se escreve “sch”).

E, voltando à palavra chota: essa palavra angolana, como nos ensina o Dicionário da Porto Editora (de longe, hoje, o melhor e mais confiável dicionário para português africano), vemos que a “chota” dos angolanos vem de tyiota, de uma língua bantu. Isso explica, portanto, a grafia: tyiota só poderia dar “chota”, não “xota”, coerentemente com as regras ortográficas da língua portuguesa – tão pouco lembradas hoje em dia.

Qual o dicionário de português com mais palavras?

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Após termos feito, anteriormente, uma lista com os maiores dicionários da língua portuguesa para responder qual é o maior até hoje, diversos leitores enviaram-nos os números atualizados de alguns dos dicionários mencionados. A própria Priberam nos deu a honra de comentar na publicação, informando que o Dicionário Priberam já passa das 115 mil palavras. Obtivemos, ainda, os números exatos de verbetes dos dicionários de Laudelino Freire, da Academia Brasileira de Letras e daquele que já tínhamos identificado, corretamente, como o maior dicionário até hoje já publicado. Para que esteja sempre atualizada, a publicação em questão se tornou uma página fixa, acessível pelo menu aqui acima (ou simplesmente clique aqui).

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Vírus da zica reage contra o Zika virus

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Se ainda não leu, clique aqui e leia uma detalhadíssima explicação de por que o nome da doença e do vírus que vêm dominando as manchetes em todo o mundo só pode ser, em português, zica, e não Zika, forma inglesa. O bom é ver que a construção portuguesa (“vírus da zica”, em oposição à ordem inglesa, “Zika vírus”, e em oposição à grafia estrangeira, com “k” e inicial maiúscula) finalmente começa a ganhar popularidade:

O Correio Braziliense, por exemplo, começou a se referir, corretamente, à doença com a grafia aportuguesada por nós defendida: zica. Também já usaram a forma zica O Estado de Minas e O Povo, entre outros. E, ainda mais importante: além do Dicionário Priberam, que já registrava zica na forma aportuguesada desde o ano passado, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora (clique aqui para ver) também acaba de incluir a palavra zica:

zica

nome masculino

arbovírus do género Flavivirus, da família Flaviviridae, que se transmite pela picada de mosquitos do tipo Aedes


nome feminino

doença infeciosa, causada por este vírus, geralmente de evolução benigna,com sintomas idênticos aos da dengue ou da chicungunha mas mais leves (febre, cefaleia, dores articulares, conjuntivite, fotofobia e erupção cutânea), cujo perigo radica na sua provável associação à microcefalia em fetos de mães infetadas
De Zika, topónimo, «floresta do Uganda»
zica in Dicionário da Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-02-10]. Disponível na Internet: http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/zica