Uma jinguba é simplesmente um amendoim

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Em português africano – especificamente em Angola e em Moçambique – jinguba é o mesmo que amendoim.

A palavra jinguba provém do quimbundo, língua africana em que ngûba significa amendoim. Em quimbundo, como noutras línguas do grupo bantu, o plural é feito não pela adição de uma terminação à palavra (como o “-s” do português), mas pela adição de um prefixo – neste caso, o prefixo “ji”, de modo que jinguba, em quimbundo, era originalmente o plural de amendoim: “amendoins”. Em português, o que era o plural virou singular.

O fenômeno de tomar uma palavra estrangeira no plural e fazer dela um singular nada tem de incomum: em português, temos ravióli, singular, tomado do italiano – sendo que, em italiano, ravioli é o plural de um raviolo. Da mesma forma, no Brasil usa-se “brócolis” como singular daquilo que em italiano é, no singular, um broccolo.

É comum ver a palavra jinguba escrita errada, com g: *ginguba. A forma correta é com jinguba, com j, que é como registram todos os dicionários. A grafia com jota, e não , está em consonância com as regras ortográficas da língua portuguesa, que, por convenção, mandam usar a letra jota (e não “ge” nem “gi”) na grafia portuguesa das palavras de origem bantu (é o contrário do caso das palavras árabes, em que é o “g”, e não o “j”, a ser usado – como visto na publicação sobre tagine).

Guevar: comprar em quantidade para revender

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Sempre me fascina a capacidade que as pessoas têm de comprimir significados e sentidos extremamente complexos em curtíssimas palavras: é o caso de guevar, verbo do português de Moçambique, que significa comprar em grande quantidade, com o objetivo de revender. Vinda da palavra africana gweva, a pronúncia é güevar, com “u” pronunciado.

O Dicionário da Porto Editora, que agora tem sede própria em Maputo, é o único que já traz o verbo guevar.

A Porto Editora também traz o substantivo gueva, comum de dois gêneros: a pessoa que compra coisas para revender.

Os diferentes sons da letra R em português

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Nenhuma letra é pronunciada de tantas formas em português quanto o R. A maioria dos falantes de português por si só já tem no mínimo duas pronúncias distintas do “r”: uma para o “r” entre vogais, por exemplo na palavra “arara” (ou “caro”, “íris”, “urubu”, etc.), e outro usado no início de palavras ou quando dobrado: é o “r” de “rio” ou de “carro”.

Em partes, porém, da África lusófona, e mesmo em partes do Brasil, esse som do “r” “fraco” é usado também no início de palavras ou entre vogais (de modo que a palavra “carro” soa como “caro”) – é o caso, por exemplo, do sotaque de partes do interior do estado brasileiro de Santa Catarina.

Por outro lado, há muitos falantes que, além de um erre inicial e dobrado e outro erre entre vogais, pronunciam ainda de forma diferente o erre quando em final de palavra ou de sílaba – por exemplo em “mar”, “carne”, etc.

Além de chegar a ser mudo no final de palavras, como ocorre em grande parte do Brasil, na fala informal, no final de verbos (como “beber” etc., em geral pronunciados “bebê” etc.), a letra “r”, quando efetivamente pronunciada, pode ser pronunciada com o uso de pelo menos outros treze fonemas distintos. Os arquivos de áudio abaixo trazem, cada um, um fonema consonantal diferente, que representam letras diferentes no alfabeto fonético internacional e em outras línguas com maior número de consoantes, como o árabe; todos esses treze sons a seguir, porém, representam em português a letra “r”, na pronúncia de ao menos alguma região ou grupo do Brasil, de Portugal ou de algum dos demais países lusófonos:

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_tap.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Retroflex_flap.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_glottal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_uvular_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiced_glottal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_velar_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiced_velar_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_pharyngeal_fricative.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Voiceless_uvular_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Uvular_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_trill.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Alveolar_approximant.ogg#file

https://en.wikipedia.org/wiki/File:Retroflex_approximant.ogg#file

Palavras e expressões de Moçambique

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Foi criada a página fixa “Português de Moçambique“, disponível na aba “publicações fixas”, que será periodicamente atualizada com palavras e expressões típicas do português falado em Moçambique. Clique aqui para ir para a página.

Entre as publicações fixas há também, recordamos, a página fixa do português de Angola, com palavras e expressões típicas do português falado nesse que já é o segundo maior país lusófono.

A origem da palavra “samba”

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Uma leitora pergunta-nos quando surgiu, em português, a palavra samba.

O mais antigo registro escrito de “samba” em português data de 1837 – décadas antes de o ritmo vir a ser conhecido no Sudeste ou no Sul do Brasil. Na edição de 22 de novembro de 1837 do jornal Carapuceiro, da cidade do Recife,  o padre Lopes Gama, o padre e editor do jornal afirma, acerca das jovens do Recife, que:

a mor parte das nossas Matutinhas tem gostos análogos aos usos e costumes do campo. Esta inclina-se a Sr. Janjão da pinguela, porque é insigne amansador de potros; aquela tem cativo o coração a Sr. Quinquim do riacho, porque este zangarreia em uma viola o samba, o coco e o minuete rasteiro.

Na edição de 12 de novembro de 1842 do mesmo jornal, novamente se encontra a palavra, em versos ali publicados:

Aqui pelo nosso mato?
Qu’estava então mui tatamba?
Não se sabia outra coisa?
Senão a dança do samba

A origem da palavra não é certa. Há especulação de que seja uma adaptação da palavra africana “semba“, de origem bantu, que teria o sentido de “umbigada” (encontrão do umbigo de uma pessoa com o umbigo de outra, no que seria um passo típico de danças afro-brasileiras).

Quixiquila, xitique, abota: poupança comunitária para crédito rotativo

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Em comentário na seção fixa sobre o português de Angola, o leitor Jean sugeriu-nos adicionar a palavra angolana “quixiquila” – que, como apontamos, já se encontra no Dicionário Houaiss e nos Dicionários da Porto Editora: a quixiquila é um método informal de financiamento em que um grupo de pessoas contribui periodicamente com um valor, a fim de que cada um dos membros, rotativamente, se beneficie de parte do valor poupado.

Catarina Trindade, mestranda em antropologia social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em trabalho sobre o tema (disponível aqui)  define a quixiquila (em quimbundo, “kixikila“) como “uma prática de poupança e crédito rotativo“.

A prática, porém, de modo algum se restringe a Angola; instrumentos de financiamento comunitário voluntário idênticos existem em vários outros países por todo o continente africano.

Em Moçambique, esse método de poupança voluntária para crédito comunitário é chamado de xitique, nome que vem do ronga, língua local; conforme a definição do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora:

xitique
nome feminino

[Moçambiqueassociação contributiva entre trabalhadores (com saláriogarantido) para que, rotativamente, cada um receba parte ou o total dosvencimentos do grupo

Na Guiné-Bissau, por sua vez, é chamado abota, palavra também registrada no Dicionário da Porto Editora, com os pertinentes significados de “subscrição; peditório; cotização“.

Caso tenha interesse, clique aqui para ler breve trabalho sobre a quixiquila e suas congêneres, apresentado no curso de mestrado em antropologia social da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) , pela mestranda Catarina Trindade.

“Malawi” é português, sim

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Um leitor se espantou ao ver, em bons veículos de imprensa, notícias em português sobre a República do “Malawi”. A pergunta é: os nomes de países não têm de ser traduzido para o português?  E, se sim, como se deveria escrever – e pronunciar – em português o nome do Malawi? “Maláui”? “Malauí”? “Malávi”?

Em publicações anteriores, tratamos do Malawi, país africano com enorme fronteira com Moçambique. Fizemos uma análise da fonética da língua de origem do nome “Malawi”, o nianja, para explicar por que a pronúncia em português deve ser “Maláui” (e não Malauí ou Malavi ou Malaui, como às vezes se via em alguns dicionários de português).

Quanto à pronúncia, portanto, a resposta é clara: “Maláui”.

E, quanto à escrita? Também nesse caso a resposta é clara – embora vá certamente desagradar aos puristas da língua. O novo Acordo Ortográfico não podia ser mais explícito; em seu parágrafo segundo, determina:

2º) As letras k, w e y usam-se: […] Em topônimos [nomes geográficos] originários de outras línguas e em seus derivados: Kwanza; Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano.

De acordo, portanto, com o texto legal que desde janeiro de 2016 regulamenta o uso oficial da língua portuguesa, deve usar-se, em português, a forma original estrangeira Malawi, e o respectivo adjetivo/substantivo malawiano. É essa a forma que já usam bons dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, como o Houaiss, o Universal, o Priberam e os da Porto Editora.

“Malawi” e “malawiano” são, ademais – e mais importante – as formas usadas, desde sempre, nos países africanos de língua portuguesa, como Moçambique e Angola, que, no fim das contas, escrevem diariamente muitíssimo mais sobre o Malawi do que brasileiros e portugueses.

Essa foi mais uma das grandes mudanças trazidas pelo novo Acordo Ortográfico. No sistema ortográfico anteriormente vigente, as letras “k”, “w” e “y” não faziam parte da língua portuguesa, e recomendava-se que mesmo os derivados de topônimos estrangeiros fossem “aportuguesados”, com a substituição dessas referidas letras; por essa razão, escrevia-se no Brasil, por exemplo, taiuanêsquiribatiano – que já foram substituídas, nos dicionários atualizados após o Acordo Ortográfico, por taiwanêskiribatiano.