“Apelido”, em Portugal, é sobrenome (como “apellido” em espanhol)

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Um casal de brasileiros no exterior teria preenchido, no campo “Apelido” na página de compras de uma companhia aérea europeia, os apelidos carinhosos com que chamam um ao outro: “Amorzão” e “Princesona“. Que acabaram saindo impressos nas passagens, no lugar dos sobrenomes.

Aos que duvidaram: sim, a história é real, e Amorzão e Princesona  até conseguiram embarcar, no fim das contas (ver aqui).

Assim que a história passou a ser divulgada, muita gente supôs que Princesona e Amorzão tivessem feito a compra numa página em espanhol.

De fato, em espanhol “apellido” significa sobrenome, nome de família. Mas não foi o caso: em viagem pela Europa, o casal fez a compra na versão em português da página de uma companhia holandesa… que estava, naturalmente, em português europeu – isto é, português de Portugal.

Similarmente ao “apellido” espanhol, em Portugal o sentido mais usual de “apelido” é o de sobrenome, nome de família.

Já para o sentido mais usual no Brasil de apelido – o usado por “Amorzão” e “Princesona”, por exemplo -, os portugueses usam sobretudo o termo alcunha.

 

Madri ou Madrid? Na nova ortografia, o certo é sempre Madrid

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Pelo menos uma coisa a coordenadora Patrícia Lima Ferraz, que tirou licença médica e foi passear na Espanha, fez certo: escreveu corretamente o nome da capital espanhola, Madrid – com “d”,  como manda explicitamente o Acordo Ortográfico vigente (e não como, erroneamente, ainda escreve a imprensa brasileira, que se meteu a aplicar o Acordo, mas dele só leu o resuminho).

Qualquer pessoa que diga que o Acordo Ortográfico admite as duas formas – Madrid e Madri – ou não leu o texto do Acordo, ou, se o leu, entendeu exatamente o contrário do que está claramente escrito. Porque o texto do Acordo (vejam aqui a versão oficial, publicada na página do Palácio do Planalto) é explícito:


“5º) As consoantes finais grafadas b, c, d, g e t mantêm-se, quer sejam mudas, quer proferidas, nas formas onomásticas em que o uso as consagrou, nomeadamente antropônimos [nomes de pessoas] e topônimos [nomes de lugares] da tradição bíblica: Jacob, Job, Moab, Isaac; David, Gad; Gog, Magog; Bensabat, Josafat. 

Integram-se também nesta forma: Cid, em que o d é sempre pronunciado; Madrid e Valhadolid, em que o d ora é pronunciado, ora não; e Calecut ou Calicut, em que o t se encontra nas mesmas condições. 

Nada impede, entretanto, que dos antropônimos em apreço sejam usados sem a consoante final Jó, Davi e Jacó.”


Não há outra interpretação possível: o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, aprovado pelo Congresso Nacional e com força de lei no Brasil, determina que, independentemente de o “d” de Madrid ser pronunciado ou não, deve-se escrever Madrid.

“Seu”: dele, dela ou de você?

sub-buzz-5860-1476963521-1O pronome “seu” é ambíguo, pois pode querer dizer tanto “de você” quanto “dele” ou “dela”.

Na foto acima, vemos que a criança cometeu um erro de interpretação, causado por uma característica do português atual: hoje em dia, os pronomes “seu” e “sua” foram quase completamente substituídos pelas palavras “dele” e “dela” quando se referem a uma terceira pessoa, e são usados cada vez mais apenas para se referir a algo da pessoa com quem se fala (“a sua casa“: “a casa onde você mora“).

Originalmente, os pronomes referentes à pessoa com quem se fala eram “teu” e “tua“. Na medida em que o pronome “tu” foi substituído, em grande parte do Brasil, pela forma “você“, os pronomes “seu” e “sua” se tornaram ambíguos: “Vi o João com a sua mulher” pode querer dizer tanto que vi o João com a mulher do próprio João, ou com a mulher da pessoa com quem estou falando.

Por essa razão, na língua falada, para se referir à mulher de uma terceira pessoa, quase só se usam, hoje, construções com “dele”, “dela”, “deles”, “delas”. Mas a língua escrita ainda dá preferência ao pronome tradicional – o que às vezes pode causar confusão entre pessoas não habituadas a “seu”/”sua” com o sentido de “dele”, mas apenas “de você”:

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Chuchumeca, em Macau: fofoqueiro, coscuvilheiro, noveleiro, mexeriqueiro

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Uma palavra bastante típica do português de Macau é chuchumeca, que significa fofoqueiro (como dizemos no Brasil) ou, como dizem em Portugal, coscuvilheiro.

Outro sinônimo usado em Macau (e também em Portugal) para quem gosta de falar da vida dos outros é noveleiro.

Em Macau, existe até o verbo, chuchumecar – presente em muitos textos escritos em Macau, sempre com o significado de falar da vida dos outros, fofocar, mexericar – e não, como ensina, errado, o Houaiss, como “murmurar” nem como “reclamar“.

A crase: rumo ao desaparecimento no Brasil?

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Na campanha a prefeito da maior cidade do Brasil, o candidato em primeiro lugar nas pesquisas publica que está “rumo a vitória” (sic); o atual prefeito, em busca da reeleição, afirma estar “rumo a virada” (sic). Nos dois casos, o certo seria”rumo à“, com crase – afinal, há ali dois “aa”: o “a” preposição e o “a” artigo.

E, embora sejam erros de português do tipo que não se cometem em Portugal, quase ninguém no Brasil parece se importar com esses lapsos. Tem explicação? Tem, sim. A verdade é que a qualquer português chamaria a atenção um erro desses porque, lá, o erro não seria simplesmente ortográfico: para os portugueses, “a”, sem acento, e “à”, acentuado, pronunciam-se diferentemente.

Além das várias vogais que temos em comum (ê fechado, é aberto, ô fechado, ó aberto, etc.), os portugueses têm um “a” átono, que para eles é tão diferente do á tônico quanto ó é diferente de ô. Como os portugueses fazem a diferença na pronúncia, marcam a diferença na escrita – com facilidade e sem precisar pensar se há ali uma preposição somada a um artigo, etc.

Como no Brasil essa diferença de pronúncia há séculos desapareceu, e a diferença entre “à” e “a” passou a ser puramente gráfica, é cada vez mais comum que, mesmo entre brasileiros escolarizados e cultos, confundam-se os usos de “à” e “a”.

E confundem-se mesmo: quase tão comum quanto escrever “a” em lugar de “à” é hoje, no Brasil, o contrário: por hipercorreção, escrevem “à” quando se devia escrever “a” – como se vê, por exemplo, nas muitas placas de trânsito em que se usa, erradamente, “à” antes de números ou nomes de cidades (“Bem-vindo à São Paulo“, etc.).

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Cunilíngua (‘cunilingus’) e cunete são coisas diferentes

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Um leitor diz-se surpreso por ter apenas agora descoberto que cunilíngua (ou o seu equivalente em latim, também usado em inglês, cunilingus) se refere à prática do sexo oral na genitália feminina, e não no ânus, como sempre pensara.

Cunilíngua = língua no cu”, pensava ele. Faria sentido, mas a etimologia explica: o prefixo “cuni” de cunilingus não se referia o moderno “cu” (ânus); em latim, cunnus significava vulva, as partes externas da genitália feminina. É dessa palavra latina que surgiram as formas atuais conocona, que caíram em desuso no Brasil, mas que ainda significam vulva, como os dicionários podem atestar. Seus cognatos em espanhol (coño) e em italiano (conno) ainda são bastante usados para se referir à genitália feminina. Em Portugal e na Galiza, também ainda se usam cona e cono com esse sentido.

Para se referir à estimulação oral do ânus há outra palavra, muito mais recente – esta sim formada diretamente do elemento vulgar moderno “cu“: cunete, substantivo masculino, é um nome para a prática de estímulo oral no ânus.

Outros sinônimos para cunete (estimulação oral do ânus) são carocha e, em Portugal, botão de rosa (tradução do nome da prática em francês, fleur de rose).

Já um sinônimo de cunilíngua (estimulação oral da vulva), em Portugal, é minete – aportuguesamento do francês minet, que significa “gatinho”, provavelmente em referência ao uso da língua que fazem esses animais.

Colocação pronominal: o pior erro é a hipercorreção

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Uma das maiores diferenças entre o português brasileiro falado e o português padrão escrito é a colocação dos pronomes átonos. A colocação pronominal padrão no Brasil, em todos os meios orais, é apenas uma: a próclise ao verbo principal (Ele me viuOs dois se amam; Ele quis me derrubarJá tinha te dito isso).

Já no padrão oral de Portugal (que ainda é, para os gramáticos conservadores brasileiros, o que se deve tomar como a normal culta a ser copiada), os pronomes átonos tendem à ênclise: Ele viu-me;  Os dois amam-se. A colocação do enclítico após o verbo, porém, não se dá sempre: há diversos elementos que, presentes numa frase, fazem que portugueses obrigatoriamente coloquem o pronome átono antes do verbo, exatamente como na colocação intuitiva de todo brasileiro.

Assim, em todas as seguintes frases (que apresentam elementos ou palavras que obrigam a próclise), portugueses, como brasileiros, sempre usarão a próclise:

O lugar onde se conheceram” (e não *conheceram-se);

Nunca me falou desse tema” (e não *Nunca falou-me);

O que se viu foi o contrário” (e não *O que viu-se);

Mas é em casos como esses que se veem com frequência erros grosseiros cometidos, na escrita, por brasileiros cultos – que, por terem internalizado a ideia de que “o bonito é colocar o pronome depois do verbo”, usam a ênclise em casos em que mesmo a colocação culta portuguesa obriga o uso da próclise. É dizer, querendo “fazer bonito”, acabam cometendo erros que não cometeriam se escrevessem exatamente como falam diariamente.

É esse tipo de erro, em que o falante erra por tentar “falar difícil”, ao tentar “corrigir” algo que estava correto, que se chama de hipercorreção – um dos piores tipos de erros existentes, pois são erros que violam ao mesmo tempo a gramática culta tradicionalista e a gramática natural espontânea dos falantes.

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