A pronúncia de longevo e longeva

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Qual a pronúncia correta de longevo? “Longêvo” ou “longévo“? Com “e” aberto ou fechado? E de longeva: longêva ou longéva?

A pronúncia tradicional em português é longévolongéva, com “é” aberto. É a única pronúncia indicada pelo dicionário Aurélio (foto acima), pelo dicionário da Academia Brasileira de Letras, pelo dicionário Caldas Aulete (ver aqui) e, em Portugal, pelo Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves.

A palavra longevo vem do latim longaevus. Em regra, a sequência –ae– do latim resultou em “é”, aberto, em português.

A pronúncia “longêvo”, que se ouve com frequência tanto em Portugal quanto no Brasil, explica-se por se tratar de palavra muito mais usual na escrita do que na oralidade – o que significa que a maioria das pessoas a aprendem ao lê-la, e não ao ouvi-la de outros falantes -, e a forma escrita, que não leva acento, não permite ao leitor saber se esse “e” se deve pronunciar “é” ou “ê”.

“Gratuíto” ou “gratúito”: quem corrigia é que estava errado

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A maioria de nós em algum momento ouviu na escola que a pronúncia mais popular no Brasil da palavra gratuito – gra-tu-í-to, com acento no “i” – estaria errada, e que a pronúncia “correta” só podia ser “gratúito” (gra-túi-to), com força no “u”. A explicação seria que assim se pronunciava em latim.

Por si só já seria problemática a ideia de que quase toda a população naturalmente pronuncie errado uma palavra. A maneira considerada “correta” de pronunciar uma palavra, em qualquer língua, é geralmente simples reflexo da maneira como a maioria da população a pronuncia. Por essa razão, é mesmo normal que pronúncias “oficiais” mudem, de acordo mudanças de hábitos dos falantes.

Há 50 anos, por exemplo, a pronúncia “correta” de senhora era “senhôra”, com ô fechado, que é como até hoje se diz em Portugal. Mas no Brasil, de tanto as pessoas pronunciarem “senhóra”, essa acabou se tornando o modo correto de pronunciar senhora no Brasil. Trezentos anos antes, o “correto” em português era pronunciar “tchuva” e “tchave“, mas de tanto as pessoas pronunciarem “xuva” e “xave“, essas viraram as pronúncias corretas para chuvachave.

Ainda assim, professores corrigem quem pronuncia “gratuíto”, repetindo a lição de um gramático que, há mais de um século, escreveu que, uma vez que a palavra vinha do latim gratuĭtus, e que em latim esse “i” era breve, seria incorreto que falantes de português hoje dessem ênfase a esse “i”. Outro raciocínio já por si questionável.

Mas o problema não acaba aí: o problema maior é que o gramático que disse que a pronúncia correta deveria ser “gratúito” por causa do latim estava errado – como hoje admitem os estudiosos, houve um erro de quem recomendou “gratúito“: “gratuito” em latim não era grātuĭtus, com a marcação curva que indicaria que o “i” era breve, mas sim grātuītus, com o marcador reto que indicava que o “i” era longo. Ou seja: a pronúncia correta em latim (e isso pode ser hoje conferido em qualquer livro de latim) era gratuítus, com ênfase no “i”, e não gratúitus, com ênfase no “u”.

Se recordassem ainda que, ao contrário do que muitas vezes se ensina, o português não veio diretamente do latim, mas sim do galego, teria também servido darem uma olhada em nossa língua-mãe: em galego, até hoje, a pronúncia (e a grafia) oficial é gratuíto (ver aqui), e não o gratúito dos puristas equivocados.

Ou seja: por um erro de alguém (e também por culpa dos muitos gramáticos e professores que não verificaram a correção da falsa regra que ajudavam a disseminar), durante mais de um século se ensinou que a pronúncia mais popular no Brasil para a palavra gratuito estava errada, por supostamente divergir do latim – quando na verdade a pronúncia gratuíto é a exatamente a que respeita o latim.

E, como veremos em outros textos, não são poucos os casos como esse: em que, havendo divergência entre como fala o povo e o que ensinam alguns gramáticos, uma verificação responsável acaba por revelar que o povo é que tinha razão, e que, ao tentar “corrigir” à força algum suposto “erro de português”, gramáticos inadvertidos erraram, passaram adiante seu erro e acabaram por causar dano à língua e aos falantes.

A pronúncia de Alsácia: “Alzácia”?

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Alsácia é uma região da França, na fronteira com a Alemanha e com a Suíça, e cuja maior cidade é Estrasburgo. A pergunta recebida é como se pronuncia Alsácia em português – o “s” tem som de “z” (“Alzácia”) ou de “ss” (“Alssácia”/”Alçácia”).

Em francês (Alsace) e em alemão (Elsass), esse “sa” seguido de “l” tem som de “z” nesse nome. Por essa razão, há quem diga, também em português, “Alzácia“.

Mas, de acordo com os dicionários portugueses e brasileiros que indicam a pronúncia correta das palavras, a pronúncia em português é mesmo “Alssácia“:  o “s” de Alsácia tem o som de ss – como, aliás, é regra em se tratando de “s” após consoante; o “s” de Alsácia tem o mesmo som de outras letras s na mesma situação, como em “valsa”, “Celso” ou “malsucedido”.

Pronúncia: Manchéster ou Mânchester?

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O recente atentado terrorista em Manchester, na Inglaterra, fez que o nome dessa cidade inglesa fosse citado ao longo da semana em todos os principais telejornais. Pouco habituados a tratar da cidade em outras situações, os repórteres brasileiros se referiram a ela com a pronúncia “Mânchester“, proparoxítona.

Em português, porém, o nome da cidade inglesa tradicionalmente sempre se pronunciou Manchéster – uma paroxítona, como a maioria das palavras portuguesas e aportuguesadas.

Era a lição, por exemplo, de Silveira Bueno, que em sua gramática, trazia o nome da cidade como exemplo de palavra paroxítona:

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Como prova da pronúncia tradicional paroxítona em português, o nome da cidade aparecia mesmo acentuado (“Manchéster”) em obras de renome como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e na compilação Obras de Eça de Queiroz, e mesmo em outras gramáticas antigas.

Terá sido sem dúvidas a popularidade do time de futebol da cidade – conhecido internacionalmente, inclusive em português, por seu nome original em inglês, Manchester United – o que fez que a pronúncia à inglesa, proparoxítona (“Mânchester“) tenha se disseminado no Brasil.

A pronúncia de waffle: uáfel (ou uáfol, ou uófol), mas não uêifol

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Um leitor quis saber qual é a pronúncia correta de waffle, a massa doce da foto à esquerda, acima, depois de ter muitas vezes ouvido brasileiros que a pronunciam “uêifel” / “uêifol”. Essa pronúncia está errada; mesmo em inglês (e em holandês, língua original da palavra), esse “a” de waffle  ou wafel tem mesmo o som de “a”. Em outras palavras, a pronúncia adequada da primeira sílaba, em português, é mesmo ““, e não “uei“.

Em inglês, a pronúncia pode chegar a soar-nos como “uófol“, pois a vogal exata usada não existe em português – é uma intermediária entre o nosso “a” e o nosso “ó”. É, por exemplo, a mesma vogal da palavra inglesa mother. Como pronúncia aportuguesada, portanto, serve tanto dizer “uáfol” quanto “uófol” – ou, melhor ainda, “uáfel”, já que essa é a pronúncia do termo original – wafel, em holandês. O alemão Waffel e o inglês waffle são adaptações do holandês wafel.

[É também por essa razão, aliás, que, já que não há aportuguesamento próprio e de qualquer modo se usará um termo estrangeiro, faz mais sentido usar a grafia wafel, a original holandesa, do que a forma inglesa waffle].

O que não faz nenhum sentido, nem em português nem em inglês (nem em holandês), é pronunciar a primeira sílaba como “uêi“.

Quem pronuncia “uêifel” pode estar fazendo confusão com os biscoitos sequinhos da foto acima à direita – as wafers -, em que a primeira sílaba de fato é pronunciada “uêi“.

[Para quem fala inglês, existe uma “regra” para saber por que wafer é uêi- mas waffle é uá-: é a regra das consoantes duplas x consoantes simples. Antes de consoante simples, como o f de wafer, a vogal se pronuncia em sua forma longa – no caso do “a”, ei. Antes de consoante dupla (em waffle: ff), a vogal se pronuncia em sua forma curta.]

O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

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Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado“. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto também abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

É também oxímoro, com acento, a grafia encontrada nos dicionários de Antenor Nascentes, Celso Luft, Estraviz e em todos os dicionários feitos por Aurélio enquanto vivo.

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. Mas o próprio dicionário informa que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona.

Some-se a isso o fato de oxímoro ser a única forma que se ouve nas faculdades de Letras e demais círculos em que de fato se usa a palavra. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, colhidas de usos reais por métodos técnicos, também só traz “oxímoro“, acentuada.

É uma grande contradição, portanto, o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra indicaria uma pronúncia proparoxítona (e que de longe é a pronúncia mais corrente ), mas ainda assim registrarem a palavra sem nenhum acento.

É um erro mais do Houaiss (e dos dicionários que, desde a publicação do Houaiss, não fazem mais que copiá-lo acriticamente). Como sempre insistimos: o Houaiss é um dos melhores e maiores dicionários já feitos em qualquer país de língua portuguesa, mas, como toda obra dessa magnitude, não pode ser tomada como verdade absoluta, pois tem muitos erros.

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A pronúncia de Aedes: “aédes”, e não “édes”

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O nome científico do mosquito que transmite a dengue, a zica e a chicungunha é Aedes aegipty – que sempre foi pronunciado pela imprensa brasileira, corretamente, “aédes egípti“.  Recentemente, numa terrível hipercorreção (o tipo de erro causado pela vontade de querer “falar bonito”), o gênero do mosquito Aedes (que em latim era pronunciado Aédes) começou a ser pronunciado “édes“, equivocadamente.

Primeiramente: a ideia moderna de que a forma “certa” de pronunciar palavras latinas é lendo “é” no lugar de “ae” é um erro, inventado nos últimos séculos e que nas últimas décadas finalmente se começou a corrigir, ao se revelar que, em latim clássico, as palavras se pronunciavam exatamente como se escreviam.

No tempo de Júlio César (Julius Caesar), seu nome era pronunciado como se escreve – isto é, “Cáesar” (Káezar), e não “César” (*Sézar) -, tanto que foi desse nome que surgiram o título alemão Kaiser (imperador) e o russo Czar.

Apenas muitos séculos mais tarde o ditongo “ae” passaria a ser pronunciado como uma só vogal. Foi essa pronúncia posterior, porém, a adotada quando modernamente se pretendeu recriar a pronúncia do latim – mas hoje já se sabe que a pronúncia moderna, usada por cientistas e pela Igreja Católica, é na verdade uma versão modernamente “italianizada” da língua, que não corresponde à pronúncia do latim do tempo dos romanos, em que as palavras se pronunciavam tal como se escreviam. Isto quer dizer que, sim, “Plantae” se pronunciava “plântae”, e não “plante”, como nos ensinam hoje nas escolas.

Mas pronunciar o nome do mosquito “Aedes” como “édes” é um erro ainda maior porque “Aedes” sequer tem origem latina, mas sim grega: vem de a- (prefixo de negação ou de oposto) + (h)edos, “agradável” (forma também encontrada em hedonismo, etc.). Ou seja, Aedes significa desagradável.

Em latim, esse “A-” de negação, num empréstimo vindo do grego, não podia, nem mesmo no latim popular, juntar-se com o “e” seguinte e ser pronunciado “é” – razão pela qual, em latim moderno, seria mesmo usado um trema sobre o “e”, para indicar que o “a” e o “e”, nesse caso, devem ser pronunciados separadamente: Aëdes.

Em resumo, tanto na pronúncia do latim clássico (em que “ae” sempre se pronunciava como duas letras separadas) quanto na pronúncia “moderna”, reconstituída, do latim falado após a queda do Império Romano (em que o ditongo “ae” já havia virado um simples “e“, o que justifica não pronunciar-se o “a” de aegipty), e em qualquer variedade do latim, o “a” de Aedes deve ser obrigatoriamente pronunciado e separado do “e” que lhe segue.