A pronúncia de waffle: uáfol (ou uófol), não uêifol

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Um leitor quis saber qual é a pronúncia correta de waffle, a massa doce da foto à esquerda, acima, depois de ter muitas vezes ouvido brasileiros que a pronunciam “uêifel” / “uêifol”. Essa pronúncia está errada; mesmo em inglês (e em holandês, língua original da palavra), esse “a” de waffle  ou wafel tem mesmo o som de “a”. Em outras palavras, a pronúncia adequada da primeira sílaba, em português, é mesmo ““, e não “uei“.

Em inglês, a pronúncia pode chegar a soar-nos como “uófol“, pois a vogal exata usada não existe em português – é uma intermediária entre o nosso “a” e o nosso “ó”. É, por exemplo, a mesma vogal da palavra inglesa mother. Como pronúncia aportuguesada, portanto, serve tanto dizer “uáfol” quanto “uófol” (ou “uáfel” / “uófel”, “uáfou” / “uófou”, etc.. já que os sons finais também não têm correspondência exata em português). O que não faz nenhum sentido, nem em português nem em inglês (nem em holandês), é pronunciar a primeira sílaba como “uêi“.

Quem pronuncia “uêifel” pode estar fazendo confusão com os biscoitos sequinhos da foto acima à direita – as wafers -, em que a primeira sílaba de fato é pronunciada “uêi“.

O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

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Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado“. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto também abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

É também oxímoro, com acento, a grafia encontrada nos dicionários de Antenor Nascentes, Celso Luft, Estraviz e em todos os dicionários feitos por Aurélio enquanto vivo.

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. Mas o próprio dicionário informa que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona.

Some-se a isso o fato de oxímoro ser a única forma que se ouve nas faculdades de Letras e demais círculos em que de fato se usa a palavra. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, colhidas de usos reais por métodos técnicos, também só traz “oxímoro“, acentuada.

É uma grande contradição, portanto, o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra indicaria uma pronúncia proparoxítona (e que de longe é a pronúncia mais corrente ), mas ainda assim registrarem a palavra sem nenhum acento.

É um erro mais do Houaiss (e dos dicionários que, desde a publicação do Houaiss, não fazem mais que copiá-lo acriticamente). Como sempre insistimos: o Houaiss é um dos melhores e maiores dicionários já feitos em qualquer país de língua portuguesa, mas, como toda obra dessa magnitude, não pode ser tomada como verdade absoluta, pois tem muitos erros.

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A pronúncia de Aedes: “aédes”, e não “édes”

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O nome científico do mosquito que transmite a dengue, a zica e a chicungunha é Aedes aegipty – que sempre foi pronunciado pela imprensa brasileira, corretamente, “aédes egípti“.  Recentemente, numa terrível hipercorreção (o tipo de erro causado pela vontade de querer “falar bonito”), o gênero do mosquito Aedes (que em latim era pronunciado Aédes) começou a ser pronunciado “édes“, equivocadamente.

Primeiramente: a ideia moderna de que a forma “certa” de pronunciar palavras latinas é lendo “é” no lugar de “ae” é um erro, inventado nos últimos séculos e que nas últimas décadas finalmente se começou a corrigir, ao se revelar que, em latim clássico, as palavras se pronunciavam exatamente como se escreviam.

No tempo de Júlio César (Julius Caesar), seu nome era pronunciado como se escreve – isto é, “Cáesar” (Káezar), e não “César” (*Sézar) -, tanto que foi desse nome que surgiram o título alemão Kaiser (imperador) e o russo Czar.

Apenas muitos séculos mais tarde o ditongo “ae” passaria a ser pronunciado como uma só vogal. Foi essa pronúncia posterior, porém, a adotada quando modernamente se pretendeu recriar a pronúncia do latim – mas hoje já se sabe que a pronúncia moderna, usada por cientistas e pela Igreja Católica, é na verdade uma versão modernamente “italianizada” da língua, que não corresponde à pronúncia do latim do tempo dos romanos, em que as palavras se pronunciavam tal como se escreviam. Isto quer dizer que, sim, “Plantae” se pronunciava “plântae”, e não “plante”, como nos ensinam hoje nas escolas.

Mas pronunciar o nome do mosquito “Aedes” como “édes” é um erro ainda maior porque “Aedes” sequer tem origem latina, mas sim grega: vem de a- (prefixo de negação ou de oposto) + (h)edos, “agradável” (forma também encontrada em hedonismo, etc.). Ou seja, Aedes significa desagradável.

Em latim, esse “A-” de negação, num empréstimo vindo do grego, não podia, nem mesmo no latim popular, juntar-se com o “e” seguinte e ser pronunciado “é” – razão pela qual, em latim moderno, seria mesmo usado um trema sobre o “e”, para indicar que o “a” e o “e”, nesse caso, devem ser pronunciados separadamente: Aëdes.

Em resumo, tanto na pronúncia do latim clássico (em que “ae” sempre se pronunciava como duas letras separadas) quanto na pronúncia “moderna”, reconstituída, do latim falado após a queda do Império Romano (em que o ditongo “ae” já havia virado um simples “e“, o que justifica não pronunciar-se o “a” de aegipty), e em qualquer variedade do latim, o “a” de Aedes deve ser obrigatoriamente pronunciado e separado do “e” que lhe segue.

“Aterrizar” ou “aterrissar”: o que não existe é *aterrisar

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Tanto a palavra aterrissar quanto a palavra aterrizar existem e são corretas em português. As duas formas significam pousar (na terra) e estão registradas no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, no dicionário Aurélio, no dicionário Houaiss, no dicionário Michaelis, etc. É correto, portanto, pronunciar e escrever de qualquer dos dois jeitos – com z ou com ss. O que é errado é escrever *aterrisar – forma inexistente, fruto da mistura das duas formas válidas (aterrissar aterrizar).

Além de “pousar”, outro sinônimo válido é aterrar, forma clássica e usada em Portugal.

Até não muito tempo atrás, os dicionários brasileiros só consideravam válida a forma aterrissar – forma derivada diretamente do francês -, e diziam ser errada a pronúncia  mais comum em todo o país, aterrizar. Pura ignorância dos acadêmicos: aterrizar é que é a forma condizente com a formação de verbos em português (radical + izar, como americanizar, batizar, canalizar, fertilizar, moralizar, otimizar, totalizar, etc.) – e não aterrissar, que é puro decalque do francês atterrisser. Recentemente, os dicionários e vocabulários finalmente passaram a aceitar, corretamente, a forma aterrizar.

A pronúncia de cóccix é “cóksis”

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É frequente a dúvida com relação à pronúncia de cóccix. A pronúncia recomendada pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) e pelos dicionários brasileiros (como o Aurélio e o Houaiss) e portugueses é só uma: “cóksis(isto é, “cók-sis“).

Em geral, o “x” final em português soa como “ks” (tórax, ônix, códex, córtex, anticlímax, Pólux, triplex, xerox, fax), de modo que a pronúncia esperada da palavra seria “cók-siks“. Ao longo da evolução da língua portuguesa, porém, a repetição tão seguida de dois sons “ks” acabou levando à simplificação do som do “x” final para “s”, e /kóksis/ é hoje a pronúncia padrão em português, recomendada pelos dicionários, vocabulários e gramáticas.

O interessante é notar que o mesmo processo de simplificação da pronúncia ocorreu em espanhol – com a diferença de que, naquela língua, mudou-se também a escrita da palavra para acompanhar a nova pronúncia: em espanhol, refletindo a pronúncia, cóccix passou a ser escrito coxis:

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A pronúncia de extinguir, extingue, extinguiu…

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De acordo com a norma-padrão tradicional, não se pronuncia o “u” do verbo extinguir e de suas formas conjugadas (extinguiu, extinguimos, extinguiram, extinguem, extinguidos, extinguiria, etc.). Em todas essas palavras, o “u” é mudo.

Há muitas palavras que admitem dupla pronúncia – como “liquidar”, em que o “u” pode ou não ser pronunciado. Já o verbo “extinguir” não é desses: de acordo com os vocabulários e dicionários, tanto brasileiros quanto portugueses, a única pronúncia admitida na normal culta é com “u” mudo.

Em coerência com isso, o verbo adquirir e seus derivados nunca tiveram trema – nunca se escreveu “extingüir”, nem “extingüem”, “extingüiu”, “extingüível”, “extingüidor”, etc. Em todos elas, o “u” não se pronuncia.

Existe qüestão? ‘Kestão’ ou ‘cuestão’, a pronúncia de questão

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Questão já teve trema? Pode-se pronunciar o “u” de questão? A pronúncia “qüestão” (ou “cuestão”, ou “kuestão”) está correta? Sim, sim e sim. Veja a explicação abaixo.

Um leitor que diz nunca ter ouvido a palavra “questão” com o “u” pronunciado diz ter estranhado a pronúncia da cantora na bela versão de Pra que chorar, de Vinicius de Moraes, usada pela Rede Globo na abertura de uma telenovela:

Não há dúvida de que a pronúncia “kestão” seja a mais comum – é a única que se ouve hoje em São Paulo e em grande parte do Brasil. Mas fora da megalópole brasileira – seja no Nordeste brasileiro, seja no Rio Grande do Sul, seja em Brasília – é comum ouvir o “u” pronunciado na palavra questão e em seus derivados (como “qüestionar”). E, como pode ver-se no Dicionário Houaiss ou no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras (e isso desde a primeira edição, em 1981), ambas as pronúncias são válidas – com ou sem o “u”.

É impressionante, porém, a ignorância de alguns jornalistas paulistas, que, apenas por terem crescido em uma região onde a pronúncia “qüestão” não ocorre, afirmam categoricamente, Internet afora, que “a pronúncia kuestão está errada, porque questão nunca teve trema”. Impressiona mesmo a capacidade que têm de tirarem afirmações assim sabe-se lá de onde, sem se darem ao trabalho de abrir um dicionário ou vocabulário – onde veriam que estão simplesmente errados.

Já no primeiro Houaiss, pré-Acordo Ortográfico, lá estava, logo em seguida à palavra questão, a palavra qüestão, com trema, como opção válida. Com a reforma ortográfica (que eliminou o trema), a grafia passou a ser uma só – “questão” -, mas as duas pronúncias, com ou sem o “u”, continuam válidas – como se vê na indicação ortoépica do Houaiss, ou em uma simples pesquisa no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras.

Como mostra o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), aliás, todas as seguintes palavras relacionadas a “questão” admitem as duas pronúncias – seja com o “u” mudo, seja com o “u” pronunciado:

questão (u ou ü) s.f.
questionabilidade (u ou ü) s.f.
questionação (u ou ü) s.f.
questionado (u ou ü) adj.
questionador (u ou ü..) adj. s.m.
questionamento (u ou ü) s.m.
questionante (u ou ü) adj. s.2g.
questionar (u ou ü) v.
questionário (u ou ü) s.m.
questionável (u ou ü) adj.2g.
questiúncula (u ou ü) s.f.
questiuncular (u ou ü) v.
questor (u ou ü) s.m.
questorado (u ou ü) s.m.
questório (u ou ü) adj.
questuário (u ou ü) adj. s.m.
questuoso (u ou ü) adj.

A dupla possibilidade de pronunciação, recorde-se, nada tem de raro em português – pelo contrário, é admitida em palavras ainda mais comuns da língua, como líquido (que antes podia escrever-se com ou sem trema, e que continua a poder ser pronunciada das duas formas).

Por fim, para os puristas a quem possa incomodar a informação de que a pronúncia “qüestão” também é admitida, cabe recordar: a palavra nos veio do latim quaestiōne, e, em latim,  o “u” era obrigatoriamente pronunciado – como ainda o é em três de nossas línguas mais próximas: o galego, o espanhol e o italiano.

Etimologicamente, portanto, não há dúvida: a pronúncia “qüestão” é no mínimo tão legítima quanto a alternativa sem o “u“.