O acento de oxímoro (e não *oximoro): mais um erro do Houaiss

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Oxímoro, ensina o Dicionário da Academia Brasileira de Letras (foto abaixo), é a “figura que consiste na associação de termos contraditórios quanto ao seu significado“. O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (foto também abaixo) explica ainda que são exemplos de oxímoros os famosos versos de Camões “Amor é (…) ferida que dói e não se sente / É um contentamento descontente / É dor que desatina sem doer.

É também oxímoro, com acento, a grafia encontrada nos dicionários de Antenor Nascentes, Celso Luft, Estraviz e em todos os dicionários feitos por Aurélio enquanto vivo.

Quem procurar “oxímoro” no Houaiss, porém, só encontrará oximoro, sem acento. Mas o próprio dicionário informa que a palavra vem do grego, língua em que a palavra já era proparoxítona.

Some-se a isso o fato de oxímoro ser a única forma que se ouve nas faculdades de Letras e demais círculos em que de fato se usa a palavra. O Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba, feito com as palavras efetivamente mais usadas no Brasil, colhidas de usos reais por métodos técnicos, também só traz “oxímoro“, acentuada.

É uma grande contradição, portanto, o Houaiss (como outros dicionários, que, recentemente, passaram a não fazer mais que copiar o Houaiss) atestar que a etimologia da palavra indicaria uma pronúncia proparoxítona (e que de longe é a pronúncia mais corrente ), mas ainda assim registrarem a palavra sem nenhum acento.

É um erro mais do Houaiss (e dos dicionários que, desde a publicação do Houaiss, não fazem mais que copiá-lo acriticamente). Como sempre insistimos: o Houaiss é um dos melhores e maiores dicionários já feitos em qualquer país de língua portuguesa, mas, como toda obra dessa magnitude, não pode ser tomada como verdade absoluta, pois tem muitos erros.

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A pronúncia de Aedes: “aédes”, e não “édes”

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O nome científico do mosquito que transmite a dengue, a zica e a chicungunha é Aedes aegipty – que sempre foi pronunciado pela imprensa brasileira, corretamente, “aédes egípti“.  Recentemente, numa terrível hipercorreção (o tipo de erro causado pela vontade de querer “falar bonito”), o gênero do mosquito Aedes (que em latim era pronunciado Aédes) começou a ser pronunciado “édes“, equivocadamente.

Primeiramente: a ideia moderna de que a forma “certa” de pronunciar palavras latinas é lendo “é” no lugar de “ae” é um erro, inventado nos últimos séculos e que nas últimas décadas finalmente se começou a corrigir, ao se revelar que, em latim clássico, as palavras se pronunciavam exatamente como se escreviam.

No tempo de Júlio César (Julius Caesar), seu nome era pronunciado como se escreve – isto é, “Cáesar” (Káezar), e não “César” (*Sézar) -, tanto que foi desse nome que surgiram o título alemão Kaiser (imperador) e o russo Czar.

Apenas muitos séculos mais tarde o ditongo “ae” passaria a ser pronunciado como uma só vogal. Foi essa pronúncia posterior, porém, a adotada quando modernamente se pretendeu recriar a pronúncia do latim – mas hoje já se sabe que a pronúncia moderna, usada por cientistas e pela Igreja Católica, é na verdade uma versão modernamente “italianizada” da língua, que não corresponde à pronúncia do latim do tempo dos romanos, em que as palavras se pronunciavam tal como se escreviam. Isto quer dizer que, sim, “Plantae” se pronunciava “plântae”, e não “plante”, como nos ensinam hoje nas escolas.

Mas pronunciar o nome do mosquito “Aedes” como “édes” é um erro ainda maior porque “Aedes” sequer tem origem latina, mas sim grega: vem de a- (prefixo de negação ou de oposto) + (h)edos, “agradável” (forma também encontrada em hedonismo, etc.). Ou seja, Aedes significa desagradável.

Em latim, esse “A-” de negação, num empréstimo vindo do grego, não podia, nem mesmo no latim popular, juntar-se com o “e” seguinte e ser pronunciado “é” – razão pela qual, em latim moderno, seria mesmo usado um trema sobre o “e”, para indicar que o “a” e o “e”, nesse caso, devem ser pronunciados separadamente: Aëdes.

Em resumo, tanto na pronúncia do latim clássico (em que “ae” sempre se pronunciava como duas letras separadas) quanto na pronúncia “moderna”, reconstituída, do latim falado após a queda do Império Romano (em que o ditongo “ae” já havia virado um simples “e“, o que justifica não pronunciar-se o “a” de aegipty), e em qualquer variedade do latim, o “a” de Aedes deve ser obrigatoriamente pronunciado e separado do “e” que lhe segue.

“Aterrizar” ou “aterrissar”: o que não existe é *aterrisar

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Tanto a palavra aterrissar quanto a palavra aterrizar existem e são corretas em português. As duas formas significam pousar (na terra) e estão registradas no Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, no dicionário Aurélio, no dicionário Houaiss, no dicionário Michaelis, etc. É correto, portanto, pronunciar e escrever de qualquer dos dois jeitos – com z ou com ss. O que é errado é escrever *aterrisar – forma inexistente, fruto da mistura das duas formas válidas (aterrissar aterrizar).

Além de “pousar”, outro sinônimo válido é aterrar, forma clássica e usada em Portugal.

Até não muito tempo atrás, os dicionários brasileiros só consideravam válida a forma aterrissar – forma derivada diretamente do francês -, e diziam ser errada a pronúncia  mais comum em todo o país, aterrizar. Pura ignorância dos acadêmicos: aterrizar é que é a forma condizente com a formação de verbos em português (radical + izar, como americanizar, batizar, canalizar, fertilizar, moralizar, otimizar, totalizar, etc.) – e não aterrissar, que é puro decalque do francês atterrisser. Recentemente, os dicionários e vocabulários finalmente passaram a aceitar, corretamente, a forma aterrizar.

A pronúncia de cóccix é “cóksis”

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É frequente a dúvida com relação à pronúncia de cóccix. A pronúncia recomendada pelo Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) e pelos dicionários brasileiros (como o Aurélio e o Houaiss) e portugueses é só uma: “cóksis(isto é, “cók-sis“).

Em geral, o “x” final em português soa como “ks” (tórax, ônix, códex, córtex, anticlímax, Pólux, triplex, xerox, fax), de modo que a pronúncia esperada da palavra seria “cók-siks“. Ao longo da evolução da língua portuguesa, porém, a repetição tão seguida de dois sons “ks” acabou levando à simplificação do som do “x” final para “s”, e /kóksis/ é hoje a pronúncia padrão em português, recomendada pelos dicionários, vocabulários e gramáticas.

O interessante é notar que o mesmo processo de simplificação da pronúncia ocorreu em espanhol – com a diferença de que, naquela língua, mudou-se também a escrita da palavra para acompanhar a nova pronúncia: em espanhol, refletindo a pronúncia, cóccix passou a ser escrito coxis:

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A pronúncia de extinguir, extingue, extinguiu…

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De acordo com a norma culta tradicional, não se pronuncia o “u” do verbo extinguir e de suas formas conjugadas (extinguiu, extinguimos, extinguiram, extinguem, extinguidos, extinguiria, etc.). Em todas essas palavras, o “u” é mudo.

Há algumas palavras que admitem dupla pronúncia – como “liquidar” e “liquidificador”, em que o “u” pode ou não ser pronunciado. Já o verbo “extinguir” não é desse tipo: os vocabulários e dicionários brasileiros e portugueses são unânimes ao dizer que a única pronúncia admitida na normal culta é com “u” mudo.

Se esse “u” fosse pronunciado, o verbo e seus derivados se escreveriam, até a recente reforma ortográfica, com trema – mas, precisamente porque esse “u” é mudo, não se escrevia “extingüir”, “extingüem”, “extingüiu”, “extingüível”, etc., mas sim extinguir, extinguem, extinguiu, extinguível – todos com “u” mudo.

A pronúncia de questão: ‘kestão’ ou qüestão (‘cuestão’)?

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Questão já teve trema? Pode-se pronunciar o “u” de questão? A pronúncia “qüestão” (“cuestão”/”kuestão”) está correta? A resposta às três perguntas é sim.

Desde a sua primeira edição, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras trazia tanto a palavra questão quanto a palavra qüestão, indicando que ambas as pronúncias eram corretas (do mesmo modo que também trazia líquido e líqüido, antiguidade e antigüidade, etc.). Também a primeira edição do Dicionário Houaiss trazia, corretamente, as duas grafias – qüestão e questão.

Com a reforma ortográfica de 2009, o trema caiu – isto é, agora só se escreve questão (e líquido, antiguidade…). Mas, como o próprio Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras e o Dicionário Houaiss indicam, ambas as pronúncias continuam válidas: questão (“kestão“) ou qüestão (“cuestão“).

Mais que uma variante correta, a versão com o “u” pronunciado é a pronúncia mais antiga na língua portuguesa. Em latim, pronunciava-se o “u” em questionis e em seus derivados; até hoje o “u” é pronunciado em espanhol (cuestión), galego e italiano, três das línguas mais próximas do português.

Com o passar dos séculos, esse “u” acabou emudecendo na maioria das regiões – a pronúncia “kestão” é, por exemplo, a única que se ouve hoje em São Paulo e em grande parte do Brasil. Mas longe da megalópole brasileira – seja no Nordeste, seja no Rio Grande do Sul, seja em Brasília ou mesmo entre muitos falantes cariocas – é comum ouvir o “u” pronunciado na palavra questão e em seus derivados (como “qüestionar”).

E, reitere-se, essa pronúncia (com o “u” pronunciado) é considerada pela Academia Brasileira de Letras tão correta quanto as pronúncias com “u” mudo.

Como mostra o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), aliás, todas as seguintes palavras relacionadas a “questão” admitem as duas pronúncias – seja com o “u” mudo, seja com o “u” pronunciado:

questão (u ou ü) s.f.
questionabilidade (u ou ü) s.f.
questionação (u ou ü) s.f.
questionado (u ou ü) adj.
questionador (u ou ü) adj. s.m.
questionamento (u ou ü) s.m.
questionante (u ou ü) adj. s.2g.
questionar (u ou ü) verbo
questionário (u ou ü) s.m.
questionável (u ou ü) adj.2g.
questiúncula (u ou ü) s.f.
questiuncular (u ou ü) verbo
questor (u ou ü) s.m.
questorado (u ou ü) s.m.
questório (u ou ü) adj.
questuário (u ou ü) adj. s.m.
questuoso (u ou ü) adj.

Jabuticaba ou jaboticaba? O certo é jaboticaba ou jabuticaba?

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Jabuticaba ou jaboticaba? Quando se quer dizer que algo só acontece no Brasil, diz-se, popularmente, que a coisa é “uma jaboticaba“, em referência à pequena fruta brasileira, em forma de pequenas pelotas escuras, com doce polpa branca. Ou será o certo  dizer uma “jabuticaba”, com “u”? Resposta: tanto faz. As duas formas existem, estão corretas e são sinônimas, segundo os bons dicionários brasileiros, como o Aurélio, o Houaiss e o Michaelis.

A grafia com “u” – jabuticaba – é a mais usada, mas a grafia com “o”, jaboticaba, é mais correta etimologicamente: em tupi, língua da o português recebeu a palavra, a vogal era mesmo um “o”, não um “u”.

Segundo o Houaiss, a palavra pode vir seja de yawotikawa; seja de ïapotïkaba; ou pode ainda ter relação com o nome do animal brasileiro – a tartaruga terrestre chamada jabuti ou jaboti – que, como já vimos, também é, mais corretamente escrito com “o” do que com “u”.

A forma jaboticaba, com “o”, é, ademais, a mais adequada para manter a coerência com os nomes próprios de duas cidades brasileiras – Jaboticaba, no estado do Rio Grande do Sul, e Jaboticabal, no estado de São Paulo – cujos habitantes, respectivamente, são jaboticabenses jaboticabalenses.

A pronúncia, é claro, não muda: jaboticaba pode ser pronunciada, em perfeito português formal, da mesma forma que jabuticaba – do mesmo modo que mochila se pronuncia “muchila”, que costume se pronuncia “custume” ou que sovaco se pronuncia “suvaco”.