“No aguardo” está errado? Não acredite em tudo que lê na Internet…

“Ficar no aguardo” ou “estar no aguardo” de algo são expressões corretas, autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos. Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo o qual a expressão “no aguardo” não existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português há mais de um século e é corretíssima.

A Internet é terreno fértil para notícias falsas – de todos os tipos, inclusive linguísticas. Exemplo disso é a falsa afirmação, espalhada por sites na Internet e postagens em Facebook, de que a expressão “no aguardo” seria errada.

“No aguardo é expressão gramaticalmente correta, e a que registram os dicionários brasileiros desde o século passado. Vide, por exemplo, já na primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete ou o da Porto Editora) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas apenas como “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecias no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc. Em resumo, não sabem o que dizem. “No aguardo” é corretíssimo.

Regência do verbo “delegar”

Qual é afinal a regência verbal de delegar? O site português Ciberdúvidas afirma (mais de uma vez) que é incorreta a regência “delegar a”, e que o certo seria apenas “delegar em”, mas na vida toda só lembro de ter lido e ouvido “delegar” a reger a preposição “a”…

Pode ficar tranquila, cara consulente: sua intuição está certa, e as referidas respostas no tal site português é que estão erradas. Dicionários como o Houaiss e o Aurélio atestam, para o verbo delegar, a regência com a preposição “a”:

Dicionário Houaiss:
delegar
verbo ( 1391)
( t.d.bit. ) [prep.: a] realizar uma transmissão, concessão de (poderes)    ‹ em meio à crise, ele delegou todos os seus poderes (a uma comissão de emergência) ›

Dicionário Aurélio:
delegar
v.t.d.i. Transmitir poderes; investir na faculdade de obrar: O país delega ao Congresso a decisãoDelegou à comissão poderes especiais.

A regência com “a” é, aliás, a única registrada no primeiro dicionário de português da história – o de Bluteau, publicado em 1712:

Dicionário de Bluteau (1712): “Delegou o Sol sua luz à Lua.”

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De todos modos, embora seja claro que a regência “delegar algo a alguém”, a regência com a preposição “em” (“delegar algo em alguém” – possivelmente influenciada pelo espanhol, língua em que o verbo delegar sempre exige a preposição “en“) também é correta, tendo registra na língua portuguesa desde pelo menos a segunda edição do Dicionário de Moraes e Bluteau, de 1789.

É a regência que se encontra também na Gazeta de Lisboa, que em 1800 afirmava que Bonaparte agia “como se estivesse em Paris, não querendo delegar a outrem parte alguma de sua autoridade“.

Quem mais acerta, portanto, é o Dicionário Michaelis – o único a trazer ambas as regências do verbo: “A nação, pelo órgão dos seus representantes, delega em homens o poder executivoDelegara a chefia ao funcionário mais antigo“.

Diga (e escreva) que algo foi delegado em alguém ou a alguém, portanto – como quiser. Só não erre, supondo que quem usa a outra preposição incorre em erro.