Quem nasce em Bornéu é… bornéu

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No tabuleiro do jogo de estratégia, lê-se “Borneo“. Esqueceram-se de traduzir: Borneo é inglês; em português, o nome da ilha é Bornéu.

E quem nasce na ilha de Bornéu também se chama bornéu – os nascidos em Bornéu são os bornéus. E atenção: essas palavras não perderam o acento na reforma ortográfica.

Se foi feio o erro da fabricante do jogo, mais feio ainda é o erro de um bom dicionário, que simplesmente meteu um “o” no fim da palavra inglesa Bornean e inventou *borneano como se isso fosse português. Não: o gentílico (adjetivo pátrio) da ilha de Bornéu em português sempre foi bornéu – como se lê em bons dicionários, e como já se lia no mais que centenário dicionário de Cândido de Figueiredo – que cita que a palavra já era usada na Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (1509-1583).

Myanmar, em português; quem nasce em Myanmar é myanmarense

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Já vimos em texto anterior que o país que antigamente se chamava Birmânia (em inglês, Burma) mudou de nome há alguns anos para Myanmar. A língua oficial de Myanmar é o birmanês, mas nem todos os myanmarenses pertencem à etnia birmanesa.


Pelos motivos que vimos em texto anterior (ver aqui), devemos escrever Myanmar mesmo em português – não há motivo para tentar aportuguesar nomes de países novos (para, por exemplo, tirar dali aquele “y” que incomoda alguns puristas). Em primeiro lugar porque o novo Acordo Ortográfico expressamente recomenda o uso das letras “k”, “w” e “y”, bem como sequências gráficas estranhas ao português (como “nm”), em nomes próprios estrangeiros e em seus derivados. Em segundo lugar porque a “não invenção” de novas traduções para nomes estrangeiros é a recomendação internacional, reiteradamente expressa em resoluções das Nações Unidas, com o aval dos países membros (como Brasil e Portugal).

(O “y” de “Myanmar” soa como o nosso “i” mesmo – tanto em birmanês quanto em português, inglês, etc.; e não como “ai”).

Há, porém, os puristas da língua que, contrariamente às resoluções da ONU sobre nomes geográficos e a despeito do próprio Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (que reintroduziu o k, o w e o y justamente para a escrita, em português, de nomes estrangeiros), querem sempre a todo custo substituir na escrita “y” por “i”, sob a ilusão de que, com essa simples mudança, estariam “aportuguesando” um nome.

Os defensores de uma grafia como Mianmar, porém, revelam certa ignorância, pois não é simplesmente trocando “y” por  “i” que se aportuguesa um nome: a letra “y”, no fim das contas, é até menos estranha a palavras aportuguesadas do que a sequência “-nm-“, que não ocorre em português.

Um eventual aportuguesamento do nome Myanmar teria de substituir também essa sequência consonantal – escrevendo-se “Miãmar”, por exemplo. Já Mianmar é simplesmente um aportuguesamento capenga, feito pela metade.

O governo brasileiro, por sua vez, publicou em janeiro de 2015 decisão em que reconheceu “o Ministério das Relações Exteriores como instituição responsável por pronunciar-se em caráter definitivo sobre as questões envolvendo nomes geográficos de países” – e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil usa oficialmente a grafia “Myanmar“.

Myanmar é também a forma usada oficialmente pelo governo de Portugal.

O adjetivo pátrio myanmarense deve também ser escrito com “y”, exatamente como o nome do país. É o que diz também expressamente o novo Acordo Ortográfico, que pôs fim à regra das normas ortográficas anteriores de “aportuguesar” os derivados de nomes próprios estrangeiros. É por essa razão que o que antigamente se escrevia “taiuanês“, por exemplo, agora se escreve taiwanês (quem nasce em Taiwan). Assim, do mesmo modo que, segundo o Acordo, quem nasce no Kuwait é kuwaitiano e quem nasce no Malawi é malawiano, quem nasce em Myanmar só pode ser myanmarense.

Aportuguesamentos: traduzir ou não nomes de cidades e localidades estrangeiras?

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Uruguay“, em português, escreve-se Uruguai; a cidade italiana de “Firenze” em português chama-se Florença; e Alemanha e Berlim são os aportuguesamentos de “Deutschland” e “Berlin“. Mas como escrever, em um texto formal em português, Myanmar? Malawi? Bangladesh?

Muitas pessoas sentem-se inseguras quando precisam escrever em português nomes de países e cidades estrangeiras que não têm uma tradução conhecida em português. A resposta, nesses casos, é: nunca inventar traduções e aportuguesamentos.

Diferentemente das regras ortográficas anteriores, o novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa expressamente autoriza o uso das letras “k”, “w”, “y” e de quaisquer combinações gráficas incomuns no português (como “sh”) na escrita de nomes próprios estrangeiros e de seus derivados. O próprio Acordo dá como exemplos Kuwait Malawi, que devem ser assim escritos, e cujos adjetivos pátrios são kuwaitianomalawiano.

O Acordo determina ainda que, “em congruência com” a reinserção das letras “k”, “w”, “y” no alfabeto português, a serem usados em nomes próprios (de pessoas e lugares) de origem estrangeira e em seus derivados, “mantêm-se nos vocábulos derivados eruditamente de nomes próprios estrangeiros quaisquer combinações gráficas ou sinais diacríticos não peculiares à nossa escrita que figurem nesses nomes”, dando como exemplos “comtista”, “garrettiano”, “jeffersônia”, “mülleriano” e “shakespeariano”.

Essa solução, de um lado, evita o antigo problema de como aportuguesar nomes estrangeiros: um verdadeiro problema, porque, se a solução a ser dada em alguns casos é óbvia (como Jakarta = Jacarta), em outros há inúmeras possibilidades concorrentes, muitas das quais a tal ponto deformadoras que dificultam a identificação do nome original: pense-se nos casos de Bangladesh, Kinshasa, Liechtenstein, Washington, Ottawa ou do próprio Kuwait.

(Especificamente sobre o Kuwait: antes dos tempos do Acordo Ortográfico, quando os puristas entendiam que, se o alfabeto português não tinha as letras “k”, “w” e “y”, puristas perderam tempo precioso imaginando – e defendendo – soluções das mais diversas: Cuvaite, Coveite, Kuait [porque aparentemente, para alguns, o “w” choca mais do que o “K”], Cuaite, Cuuaite, Quaite… O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa veio pôr fim ao dilema, ao estabelecer que Kuwait, em português, é Kuwait.)

De outro lado, essa mudança na normativa oficial da língua portuguesa apenas reflete um entendimento multilateral acerca do tema: desde a década de 1970, a ONU (Organização das Nações Unidas) realiza periodicamente as Conferências das Nações Unidas para a Padronização de Nomes Geográficos (United Nations Conferences on the Standardization of Geographical Names – UNCSGN), nas quais, ouvidos especialistas e técnicos da área da toponímia (a ciência que estuda dos nomes geográficos) de todo o mundo, os países membros da ONU aprovaram resoluções que reconhecem os inconvenientes causados pelo grande número de traduções de nomes geográficos.

Por resoluções aprovadas no contexto da ONU, os países membros da ONU – inclusive Brasil, Portugal e demais países lusófonos – comprometeram-se a restringir o uso de traduções (“aportuguesamentos”, no nosso caso) apenas aos casos de longa tradição e uso corrente e a, ademais, não criarem nem inventarem novas traduções para países ou localidades que viessem a surgir ou que não tivessem tradução tradicional e em uso.

É o que determina, por exemplo, a bastante direta resolução III/17 da Conferências das Nações Unidas para a Padronização de Nomes Geográficos:

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Pela resolução, os países membros da ONU, “reconhecendo ser desejável evitar a criação de novos exônimos” (isto é, traduções de nomes próprios de países, cidades e demais localidades), “recomenda que cada país use na sua língua, para novos países independentes, e para países que adotem novos nomes, até onde for possível, o nome oficial local usado pelo próprio país“.

É por essa razão que em português – do mesmo modo que em inglês, francês, espanhol, italiano, etc. – se têm, nas últimas décadas, adotado nas formas originais (sem tradução) nomes como Bangladesh, Kiribati, Kosovo, Ilhas Cook, Ilhas Marshall, Malawi, Myanmar, Sri Lanka, etc.

Também em consonância com as resoluções internacionais sobre o tema, com  a prática internacional e com o uso majoritário, mesmo as obras de referência (como dicionários e enciclopédias) têm substituído formas aportuguesadas que caíram em desuso pela forma original – como no caso de Dublin, capital da Irlanda, que os dicionários antigos traziam aportuguesada como “Dublim“.

E o que se percebe é que nem o português nem língua alguma sai prejudicada por isso. A língua portuguesa não fica mais ou menos fortalecida por, como fazem todas as grandes línguas de cultura do mundo hoje, usar nomes próprios estrangeiros – seja de pessoas, seja de lugares – em suas grafias originais, com exceção daqueles poucos casos com aportuguesamento tradicional de uso disseminado.

Não apenas a língua não resulta prejudicada, mas as vantagens são evidentes: a invenção, em pleno século XXI, de novas traduções para nomes de lugares representa, como bem notaram os países na ONU, inconvenientes e prejuízos de ordem técnica, financeira e no dia a dia, a viajantes, turistas, estudantes e mesmo ao funcionamento de programas de computador.

No fundo, a obsessão de certos puristas em tudo aportuguesar não é outra coisa que um capricho pessoal, mais que uma real preocupação com a defesa da língua – que não sofre nem sai prejudicada pela incorporação de nomes estrangeiros. Pelo contrário, as línguas mais “vigorosas” do mundo hoje, como o inglês e o francês, incorporam intocados quase todos os nomes estrangeiros, de “Liechtenstein” a “Fukushima”.

E, mais que tudo, essa obsessão aportuguesadora sempre se revelará insuficiente – um trabalho não apenas sem utilidade, mas sem conclusão possível – pois é impossível aportuguesar todos os nomes de todas as localidades, cidades, povoados, rios, estados, províncias, regiões, divisões de todos os países do mundo. Em outras palavras, sempre haverá nomes de localidades traduzidos (como “Alemanha” em vez de Deutschland, “Japão”, etc.) e nomes não traduzidos (como “Washington”, “Miami”, “Buenos Aires”), e aceitar isso é a primeira importante lição que precisa aprender qualquer pessoa que pretenda dedicar-se às ciências toponímicas, ao estudo dos nomes geográficos.

Por mais que se aportuguese, por mais que se inventem milhares de novos aportuguesamentos (insista-se: sem que isso no fim das contas acarrete qualquer utilidade real para os falantes da língua – muito pelo contrário), a verdade é que nunca se sairá da situação que já é a atual: a de coexistência de nomes geográficos aportuguesados com formas estrangeiras usadas sem tradução. Sempre foi assim, é assim em todas as línguas do mundo e sempre assim será. O melhor é aceitar que é assim que as línguas – e o mundo – funcionam, e que assim se está perfeitamente bem.

Taubateano, e não “taubateense”

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O caso da “grávida de Taubaté“, que com uma falsa gravidez colocou a si mesma e a sua cidade nos portais de notícias há alguns anos, deixou alguns jornalistas de fora de Taubaté com a dúvida sobre como se referir às pessoas nascidas naquela cidade do interior paulista. A resposta: os nascidos em Taubaté são taubateanos, e não taubateenses.

Taubateano (feminino: taubateana) é a forma usada pela população e pela imprensa local, pelos governos municipal e estadual, e a única que consta nos principais dicionários brasileiros – Aurélio, Houaiss e Michaelis.

A forma “taubateense“, que se vê em fontes menos confiáveis, simplesmente não tem uso na própria Taubaté.

E por que a forma usual é taubateano, e não taubateense? Há, como se sabe, diferentes sufixos que formam os gentílicos em português (porto-alegrense; curitibano; belo-horizontino; etc.), mas não há uma regra que explique qual sufixo se usa em cada caso; é preciso conhecer a forma usada no próprio local. É esse, aliás, o objetivo de nossa lista de gentílicos brasileiros, cuidadosamente elaborada para incluir apenas as formas de fato usadas (local e oficialmente) em cada cidade brasileira.

Desde já, agradecemos as contribuições dos leitores cujas cidades ainda não estejam ali elencadas – que poderão enviar suas sugestões na caixa de comentários, ao fim da página.

Aprendam: os galegos vêm da Galiza, não da Galícia

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Os jornais hoje dão notícia de um trágico acidente em uma ferrovia na Galiza, ao norte de Portugal. Sob um ponto de vista linguístico, triste também é que o maior jornal brasileiro erre o nome, em português, dessa região histórica fronteiriça com Portugal e que é considerada berço da própria língua portuguesa. É o que faz a Folha de S.Paulo ao noticiar, erradamente, que o acidente teria ocorrido na *Galícia.

Aprendam, jornalistas da Folha de S.Paulo: a terra dos galegos (chamada Galicia em espanhol e em inglês) em português sempre se chamou Galiza – e assim continua a chamar-se, segundo todos os bons dicionários e enciclopédias: basta olhar a palavra “galego” no dicionário da Academia Brasileira de Letras, no Aurélio, no Houaiss, no Michaelis, no Aulete ou em qualquer dos dicionários portugueses.

Galícia é, em português, o nome de outra região europeia, entre a Polônia e a Ucrânia, sem nenhuma relação com os galegos ou com a Espanha.

Os habitantes da Galícia, que nada têm a ver com os galegos, são chamados galicianos.

Kosovo, em português, não se pronuncia “Kôsovo”

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Estas foram as primeiras olimpíadas com uma delegação do Kosovo. Em português, o nome se escreve com “K”, como manda o novo Acordo Ortográfico; e quem nasce no Kosovo é chamado kosovar (como se vê nos dicionários brasileiros, como o Houaiss, o Aulete e o de Bechara, e nos portugueses, como o Priberam, o da Porto Editora e o da Academia das Ciências de Lisboa). Como ocorre com a  maioria dos países do mundo em português, o nome leva artigo definido: diz-se “do Kosovo”, “no Kosovo” (e não *em, *de).

O que é um erro grosseiro é a pronúncia proparoxítona que se ouve na televisão, por pura cópia do inglês. Se fosse proparoxítono, o nome precisaria de acento em português. Mas a pronúncia tradicional é paroxítona – inclusive no próprio Kosovo: em albanês, língua de 90% da população local (não existe uma “língua kosovar”), a pronúncia é paroxítona.

A pronúncia proparoxítona (Kôsovo ou Kósovo), portanto, é uma cópia do inglês. Em português, pronuncie-se mesmo de forma paroxítona.

Outro erro que cometem alguns brasileiros e portugueses puristas é deturpar o nome do país escrevendo-lhe com “C” (há puristas que querem que se escreva Cosovo ou Cossovo): – trata-se, ademais, de ignorância linguística: passados estão os tempos em que a letra “K” era banida da língua portuguesa. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em vigor no Brasil e em Portugal é explícito: a letra “K” deve ser usada, em português, precisamente para grafar os nomes próprios, de pessoas e localidades estrangeiras, que levem essa letra em sua versão original (o próprio acordo dá como exemplo “Kuwait”) – e deve ser usada, prossegue o texto do Acordo, também em seus derivados (como “kuwaitiano”): portanto, diga-se (e escreva-se), em português, kosovar, comum de dois gêneros, como já está nos dicionários atualizados:

ko·so·var
(Kosovo, topónimo + -ar)

adjetivo de dois géneros

1. Relativo ou pertencente ao Kosovo.

substantivo de dois géneros

2. Natural ou habitante do Kosovo.

“kosovar”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], http://priberam.pt/dlpo/kosovar [consultado em 22-08-2016].

A baía é de Guanabara, e não “da” Guanabara

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Não chega a ser um erro grave, mas é um erro, sim, e um erro que não há jornal que não tenha cometido em algum momento: a famosa baía carioca onde ocorrerão os esportes aquáticos nas olimpíadas deste ano é a baía de Guanabara, não “da Guanabara”.

A confusão deve vir da familiaridade com o antigo nome da hoje extinta unidade federativa que englobava a cidade do Rio de Janeiro: o estado da Guanabara.

Em tempo: quem nascia no então estado da Guanabara era guanabarino – palavra que também pode ser usada, ainda hoje, para se referir à baía homônima.