O nome oficial da Rússia em português não é Federação Russa

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Outra tradução que revela que muito do que se escreve no Brasil e em Portugal sobre relações internacionais é pura tradução apressada do inglês é o tratamento geralmente dado à Rússia como “Federação Russa“. Esse não é o nome do país – é apenas a tradução direta do inglês Russian Federation, inapropriada em língua portuguesa.

Como a gramática russa é distinta da nossa, o nome do país pode ser traduzido como “Federação Russa” em algumas línguas, como o inglês, e como “Federação da Rússia” em outras, como as línguas latinas. É por isso que, nas traduções oficiais da constituição do país, se vê que, embora o nome oficial seja Russian Federation em inglês, em francês a forma oficial é Fédération de Russie; do mesmo modo, em espanhol, a forma oficial é Federación de Rusia; e em português, o nome do país é Federação da Rússia – e não Federação Russa.

É Federação da Rússia que usa o próprio governo russo em português, como se vê nas páginas de suas embaixadas no Brasilem Portugal, em Angola, etc.; é também a forma usada pelo governo brasileiro, pelo governo português, pelo governo angolano, etc.

Não existe, em português, a “Federação Russa” – apenas em traduções descuidadas do inglês.

Por outro lado, estão também errados os que acham que “Rússia” é uma nomenclatura incorreta ou informal, e que o correto é sempre usar, em vez de “Rússia”, a forma longa “Federação da Rússia”. “Rússia” é tão informal quanto “Brasil”, “Portugal” ou “Suécia” – que são os nomes comuns, ou formas curtas, das formas longas ou oficiais “República Federativa do Brasil”, “República Portuguesa” e “Reino da Suécia”. Nos mesmos contextos em que se usaria “Brasil” em vez de “República Federativa do Brasil”, portanto, é perfeitamente correto chamar simplesmente “Rússia” à Federação da Rússia.

Imprensa brasileira: Abbas é “presidente da Palestina” ou “presidente palestino” (e não “presidente da Autoridade Palestina”)

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É facílimo ver que praticamente inexiste cobertura jornalística brasileira de fatos internacionais – o que se lê nos jornais e portais brasileiros são quase sempre simples traduções semiamadoras da imprensa de língua inglesa.

Isso fica óbvio, por exemplo, na tradução errada, tão frequente em artigos preguiçosos na mídia brasileira, de “International law” como “lei internacional”. Não existe uma lei internacional; a tradução correta é “direito internacional”; o que frequentemente se viola é “o direito internacional” – do mesmo modo que estudar “Law” significa estudar Direito, e não “lei”.

A mesma técnica de tradução preguiçosa se revela em quase todos os textos brasileiros que mencionam Mahmoud Abbas como o suposto “presidente da Autoridade Nacional Palestina“, ou “presidente da Autoridade Palestina” – quando o título por ele usado é “presidente do Estado da Palestina”, que pode ser resumido como “presidente palestino”, ou “presidente da Palestina”.

A Organização das Nações Unidas e a maioria dos países do mundo, inclusive o Brasil, reconhecem o Estado da Palestina e, por essa razão, tanto a própria ONU quanto o governo brasileiro (e os da maioria dos países do mundo) naturalmente chamam seu presidente de “presidente palestino”, “presidente da Palestina”, “presidente do Estado da Palestina” – da mesma forma que chamam a Shimon Peres e a seu sucessores “presidente israelense”, “presidente de Israel” ou “presidente do Estado de Israel”. O Brasil, a ONU e a maioria dos países do mundo reconhecem igualmente o Estado de Israel e o Estado da Palestina.

Só os governos dos Estados Unidos e de alguns países da Europa ocidental, como o britânico, não reconhecem o Estado da Palestina, por pressão de Israel (e do mesmo modo que dezenas de países árabes e muçulmanos não reconhecem o Estado de Israel). Como os seus governos não reconhecem o Estado da Palestina, as imprensas americana e britânica não chamam Mahmoud Abbas de “presidente da Palestina” e nunca falam em “Estado da Palestina”, ou na Palestina como um país. Mas não faz o menor sentido que também a imprensa brasileira siga a prática americana e britânica, quando o governo brasileiro (e, reitera-se, a própria ONU) chama Abbas de “presidente da Palestina”, título de fato usado pelo próprio, e mantém mesmo relações diplomáticas com o Estado da Palestina.

Sobretudo porque isso sabidamente não se deve a um posicionamento político ou ideológico da imprensa brasileira, mas à simples tradução preguiçosa de notícias da imprensa de língua inglesa.

 

Luxúria tem a ver com sexo, e não com luxo

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Na chamada acima, a revista Veja afirma que deitar sobre dinheiro, “como Tio Patinhas”, seria um ato de “luxúria“. Erraram. Luxúria, em português, nada tem a ver com dinheiro ou luxo; luxúria é sinônimo de lascívia, isto é, sensualidade excessiva, tendência excessiva ao desejo sexual.

Luxúria, em português, vem diretamente do latim luxuria, um dos sete pecados capitais do cristianismo – precisamente o pecado do desejo sexual exagerado ou imoral.

O uso de luxúria para se referir a luxo vem, por vezes, de tradução errada do inglês luxury – o inglês luxury significa, de fato, excesso de luxo, abundância de riquezas; já luxúria se traduz em inglês por lust (apetite sexual, lascívia, um dos sete pecados capitais).

É errado usar luxúria com esse sentido de “gosto pelo luxo” em português – língua em que os significados da palavra são outros, como se vê em qualquer bom dicionário, como o Aurélio, o Michaelis, o da Porto Editora ou o Houaiss:

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Diferença, em português, entre crocodilo, jacaré, aligátor e caimão

imageA família Crocodilidae é a família dos crocodilos; outra família diferente é a Alligatoridae, cujos membros são chamados indistintamente jacarés, aligátores ou caimões.

Uma criança de dois anos foi morta na Disney, atacada por um Alligator mississippiensis. Nas caixas de comentários das notícias sobre o caso nas imprensas brasileira e portuguesa, uma constante: a estupidez de lusófonos que, mais que com a criança, se preocupavam em “corrigir” os repórteres que haviam se referido ao animal como um “jacaré“.

Houve, de um lado, ignorantes a dizer que não podia ser um jacaré, mas sim um crocodilo, pois nos EUA o que há são crocodilos. Errados. De fato, o que mais há nos EUA são crocodilos, que efetivamente são animais distintos dos jacarés, inclusive de famílias diferentes. Mas, especificamente no estado da Flórida, há, sim, jacarés. O estado da Flórida é, aliás, o único lugar do mundo em que se podem encontrar naturalmente jacarés e crocodilos no mesmo ambiente.

De outro lado apareceram os “especialistas” segundo os quais o animal não era crocodilo mas também não era um jacaré, “porque jacarés são os do Brasil”; segundo estes, o bicho que atacara a criança era um aligátor.

“Aligátor” nada mais é que o aportuguesamento de alligator, que é a tradução, em inglês de jacaré – do mesmo modo que os jacarés ou alligators são chamados, em espanhol, caimanes, de onde se criou ainda outro aportuguesamento, caimão.

As três palavras, de diferentes origens, referem-se exatamente aos mesmos animais: jacarés, aligátores caimões são sinônimos.

Biologicamente, os crocodilos pertencem à família Crocodylidae; outra família, diferente, é a família Alligatoridae, que inclui oito espécies – são portanto oito animais chamados, em inglês, alligators; em espanhol, caimanes; e, em português, jacarés. As oito espécies são:

As seis primeiras espécies são encontradas no Brasil e também em demais países da América Latina (nos países de língua espanhola são, em geral, chamados de caimanes). A penúltima das espécies mencionada acima é encontrada na Flórida e em outros estados dos EUA, onde é, em geral, chamado de alligator; e o último é encontrado apenas na China, onde é chamado de 學名.

Da mesma forma que, em português, não chamamos o jacaré-da-china de 學名, não há por que chamarmos os jacarés dos EUA de aligátores, assim como não necessariamente chamamos um jacaré colombiano de  caimão.

O significado de gitana (e gitano)

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Várias perguntas têm-nos chegado sobre o significado do termo gitana. Gitana significa cigana em espanhol; gitanos são ciganos. Também em português gitano é uma antiga palavra para cigano.

Gitana nada mais é que isso: um sinônimo (hoje pouco usado em português) para cigana. Por serem ainda as palavras em espanhol para cigano e cigano, gitanogitana são hoje usadas em português sobretudo em referência a ciganos de origem espanhola.

A palavra “gitano” vem de “egitano” – antigo sinônimo de “egípcio”, porque, segundo a crença, os primeiros ciganos na Europa seriam originários do Egito. Em inglês, a tradução para cigana ou cigano é gypsy, palavra que tem a mesma origem (de Egypt, Egito).

Já a forma que prevaleceu em português, cigano(s), vem, segundo o Dicionário Houaiss, do grego athígganos – “intocáveis”.

Outra palavra em português que soa parecido com “gitana” é xitana: no português de Moçambique, significa fábula ou lenda.

Marrakesh em inglês, Marrakech em francês: Marraquexe em português

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Em português, o nome da cidade marroquina que recebe o maior número de turistas é Marraquexe. Marraquexe? Sim, em português, Marraquexe – grafia incluída no Vocabulário de Nomes Próprios da Academia Brasileira de Letras (fotos abaixo) e usada nas boas enciclopédias brasileiras e portuguesas.

Como a maioria das grandes cidades históricas, internacionalmente conhecidas desde a antiguidade (como Londres, Roma, etc.), a cidade marroquina tem grafias tradicionais em diferentes línguas: em francês, seu nome é Marrakech; em inglês, Marrakesh (com a troca do “ch” francês pelo “sh” inglês, que representa o mesmo som); em alemão, Marrakesch (com “sch”, que representa em alemão o som do “sh” inglês ou do “ch” francês); em polonês, Marrakesz, pela mesma razão; em africâner, Marrakesj; em grego, Μαρακές; em basco, Marrakex – e, em português, Marraquexe – como se lê nas boas enciclopédias e dicionários de nomes próprios 

Sem títuloSó poderia ser Marraquexe em português, porque é uma regra da ortografia portuguesa que se usa a letra “x” (e não o dígrafo “ch“) para representar o som chiado, de “sh” (/ʃ/, no alfabeto fonético internacional), em todos os aportuguesamentos vindos de línguas que não usam o nosso alfabeto – o que inclui as palavras de origem árabeafricana, hebraica, persatupiturca.

São exemplos de palavras de origem tupi: abacaxi, guaxinimmacaxeirapixaimxamã, xaráde origem africana: xingarmaxixemuxoxoxaráquixima (poço d’água), orixá; de origem árabe: almoxarifado, xadrez; oxalá; xerife; xarife; xeque; xeiquexarope; de origem persa: (antigo rei da Pérsia ou Irã); xale (manto); xador, etc.

Além da regra ortográfica, sempre foi esse o uso: é Marraquexe, com xis, que se acha em boas enciclopédias portuguesas e brasileiras, como a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira; a Enciclopédia Melhoramentos (foto abaixo); a Encicloplédia Brasileira Mérito; em dicionários que trazem nomes de cidades, como o Dicionário Inglês-Português Webster (foto abaixo).

É, ainda, a forma usada pelo governo de Portugal e pelo governo brasileiro (incluída a imprensa nacional e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil); e a única forma aceita de acordo com o Vocabulário Onomástico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras, que traz os nomes de países, cidades e estados em língua portuguesa:

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Enciclopédia Melhoramentos:
Enciclopédia Melhoramentos (1)

Dicionário Inglês-Português Webster:Webster's Portuguese-English dictionary (1)

“Caucus”: bons jornais não escrevem assim

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Caucus, em inglês, é uma “convenção” (partidária) ou uma “prévia” (eleitoral)

Há jornais que parecem determinados a, mais que simplesmente transmitir notícias, ensinar inglês a seus leitores – às custas da língua portuguesa. Fala-se de créditos subprime, de stalkers, de think-thanks e de lame-ducks, sempre como se fossem palavras portuguesas, ou “intraduzíveis”. Hoje, alguns jornais nos brindaram em notícias e manchetes em português com outra palavra inglesa aleatória e absolutamente desnecessária: “Hillary vence caucus democrata em Iowa com margem apertada”.

Por favor, jornalistas: se não sabem o que é um caucus (e ninguém tem obrigação de o saber), basta olhar no Dicionário Michaelis Inglês-Portuguêsgrátis): “caucus: convenção de partido político”. 

Não é difícil. Bons jornais escreveram sobre a “convenção dos Democratas” e sobre os resultados na “convenção do Partido Republicano”.

Outra opção para se referir especificamente a convenções como as de hoje, em que se votava nos pré-candidatos de cada partido, é “prévia“; foi a forma elegantemente empregada pelo sempre cuidadoso Valor Econômico:”Ted Cruz vence prévia republicana em Iowa“.

Aí está – “prévia”, ocupa até menos espaço na manchete que “caucus“, e é uma palavra em português. Se não existisse tradução viável, ademais, todo bom jornalista sabe que a palavra estrangeira deveria vir destacada – por exemplocaucus ou “caucus” – ou aportuguesada (“cáucus”). Mas, existindo as equivalentes “convenção” e “prévia”, não existe desculpa (mais que preguiça) para o uso da forma estrangeira.