O certo é fim de semana ou final de semana?

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O certo é fim de semana ou final de semana? É errado referir-se ao sábado e ao domingo como o final de semana?

A resposta rápida é que a forma tradicional para se referir ao sábado e ao domingo, em português, é fim de semana – mas a explicação que se dá para isso em muitas páginas por aí é que está errada.

Internet afora, há muitos metidos a sabichões que afirmam que a expressão final de semana é um erro, porque final não é substantivo; segundo eles, final é um adjetivo, o contrário de inicial, e o substantivo, contrário de início, é fim. Estão errados.

Estão errados, porque a palavra final é, sim, um substantivo, mas é também, é claro, um adjetivo; como nos casos de milhares de outras palavras da língua portuguesa, estamos diante de duas palavras idênticas, porém distintas. Assim, do mesmo jeito que jantar pode ser um verbo (Quero jantar) e um substantivo (Onde será o jantar?), também existem duas palavras diferentes que se escrevem, igualmente, final: o adjetivo final, contrário de inicial (a metade final do jogo), e o substantivo final, contrário de início, começo, princípio. Isto é, do mesmo modo que início tem sinônimos (começo, princípio), também a palavra fim tem um sinônimo perfeito, que é a palavra final.

É perfeitamente correto, portanto, falar sobre o final de um filme, o final de um jogo, o final de um século, etc.

Mas e quanto a final de semana? Nada há de errado em usar também a expressão, principalmente em seu sentido literal – como em “Devo terminar o trabalho mais para o final da semana” – isto é, lá pela quinta-feira, sexta-feira, sábado…

Já para se referir especificamente ao período de tempo entre o sábado e o domingo, o melhor efetivamente é dizer, em vez de final, fim de semana. Mas por quê?

Simplesmente porque fim de semana é a expressão consagrada em português; sim, fim e final são sinônimos, mas a expressão que se consagrou em português para chamar ao sábado e ao domingo é fim de semana (o que seria mesmo discutível de um ponto de vista exageradamente literal ou técnico, já que o domingo, em português, é o primeiro dia da semana).

Tanto é fim de semana a forma tradicional e consagrada que essas três palavrinhas chegaram a compor uma locução em português, e, por essa razão, escreviam-se (sobretudo em Portugal) com hifens até recentemente: o fim-de-semana. Por outro lado, nunca se escreveu final-de-semana, pois essas três palavras nunca chegaram a compor uma verdadeira locução. Cabe notar, porém, que o novo Acordo Ortográfico determinou a queda dos hifens em todas as locuções com “de” no meio – assim, do mesmo modo que mão-de-obra virou mão de obra e que sala-de-estar virou sala de estar, também fim-de-semana virou fim de semana.

Além da tradição, a razão para preferir fim de semana (e não final de semana) é simplesmente que a primeira é mais simples e direta – com uma sílaba a menos, é ligeiramente mais eficiente de um ponto de vista linguístico.

Já “final de semana” tem ares de hipercorreção: aquele fenômeno que faz que, muitas vezes, acabemos evitando a expressão mais natural e corriqueira em favor de uma menos natural, por acreditarmos no mito de que, se normalmente falamos de um jeito, o certo deve ser de outro jeito (é o que faz, por exemplo, muitos brasileiros dizerem recentemente que estão em férias ou que sairão em férias, em vez da mais tradicional, natural e correta forma “de férias, ou o que faz que tantos brasileiros – que, como os portugueses, sempre dizem num numa – achem mais “chique” escrever artificialmente “em um” e “em uma”).

Por tudo isso, não tenha dúvida: na hora de falar (ou escrever), dê preferência à forma fim de semana – mas nada de condenar quem use final de semana, que não chega a ser erro.

 

Quando usar “num” ou “em um”? “Numa” ou “em uma”?

Sans titreMachado de Assis (acima, em Memórias Póstumas de Brás Cubas), como todos os nossos bons escritores, sempre usou numnuma.


Há um tipo de pergunta sobre a língua que sempre me assusta – especialmente por chegar com alguma frequência: “quando posso usar “num” em lugar em “em um”?“; “existe mesmo a palavra “numa”?“; etc.

É, aparentemente, mais uma dessas “lendas urbanas” linguísticas dos tempos que correm: uma falsa ideia de que a contração “num” (ou, no feminino, “numa“) no lugar de “em um” (ou “em uma“) seria informal ou a ser evitada. Pois bem, não é verdade: da mesma forma que, em português, “em + o” dá “no”, “em + este” dá “neste”, etc., a preposição “em” seguida da palavra “um” resulta, em português culto, na forma contraída “num“.

A palavra num (e suas variantes numanunsnumas) são portanto formas corretas, históricas e formais – basta ler Machado de Assis (trecho acima) ou qualquer outro de nossos bons autores, brasileiros ou portugueses. Em Portugal, aliás, sempre se escreve “num” e “numa”, e essa obsessão por “desmanchar” todo num em em+um já é até vista como uma mania tipicamente brasileira e moderna (mas sem  justificativa gramatical, nem mesmo linguística, uma vez que, na fala, continua-se a dizer “num”).

Mas o fato é que, hoje, na imprensa brasileira, cada vez mais a contração “num” é substituída por “em um”, como se fosse mais “chique” escrever assim, separadamente. Pois bem, para que não fiquem dúvidas: não é; não é nem mais chique, nem mais elegante, nem mais formal escrever que alguém está “em um” lugar do que escrever que a pessoa está “num” lugar.

Pelo contrário, esse “desmanche” da contração, que hoje se vê no que se escreve no Brasil, nada mais é que uma clara hipercorreção – uma consciente e forçada tentativa de “corrigir” o que já estava absolutamente correto, achando, com isso, estar mais distante da língua falada e, portanto, mais próximo da língua culta.

Um grande erro, portanto, já que, como já dito, basta abrir nossos melhores textos de nossos melhores autores, de qualquer período, para ver que estes sempre usaram muito mais numnuma do que em umem uma.

Separar todos os nunsnumas, como parece ser a norma em certos jornais brasileiros, nada mais revela, portanto, que uma certa cafonice e uma insegurança linguística, ao inventar uma norma antinatural e que não é recomendada por nenhuma gramática ou bom autor.

A ironia é que, embora fujam sempre do “num” e “numa”, esses mesmos falantes inseguros não pensam em substituir “naquele” por “em aquele”, “neste” por “em este”, “nas” por “em as”.

(Isso leva a supor que o “medo” do num tenha uma origem diferente: pode ser o fato de que, popularmente, muitos brasileiros dizem num em vez de não – “eu *num quero“, o que é socialmente estigmatizado; talvez tenha sido o “medo” de deixar escapar um desse “num” (variante popular de não) que tenha feito que algum inseguro falante tenha optado por, pessoalmente, nunca mais usar num nenhum na escrita…)

Em resposta, portanto, à pergunta inicial – quando se pode usar “num” em lugar de “em um”, ou “numa” em lugar de “em uma” -, a resposta é: sempre. As formas contraídas num numa são as tradicionais da língua portuguesa, são de longe as mais usadas por nossos melhores escritores e não têm absolutamente nada de menos elegante, menos formal ou menos culto do que as menos naturais formas separadas “em um” e “em uma”.

“De férias” ou “em férias”: qual o certo?

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Estou de férias ou em férias? Diz-se sair de férias ou sair em férias? A forma gramaticalmente correta é “de férias” ou “em férias”?

A forma tradicional em português, tanto em Portugal quanto no Brasil, é de fériasestou de fériassaí de fériasestaremos de férias; etc. Nesse caso, porém, como em tantos outros, abundam pela Internet sites de qualidade duvidosa, que, sem absolutamente nenhum embasamento linguístico ou gramatical, ensinam (erradamente) que a forma correta, ou preferível, seria “em férias”. Mentira.

No Brasil, o único gramático tradicional que abordou diretamente a questão foi Paschoal Cegalla, que ensina que a expressão tradicional é “de férias”: diz-se, ensina o gramático, “estar de férias”, como também se diz “estar de luto”, “estar de atestado (médico)”, etc.

Em Portugal, o tema é tratado no Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (a correspondente portuguesa da nossa Academia Brasileira de Letras), que, no verbete “férias”, traz as expressões “estar de férias”, “entrar de férias”, “ir de férias” – todas com exemplos apenas com a preposição “de“, não “em“.

Por insegurança, porém, muitos brasileiros acabam cometendo uma hipercorreção (fenômeno que consiste em tentar “corrigir” algo que já estava correto, que não precisava de correção) e, quando querem falar “chique” ou escrever formalmente, trocam a corretíssima “de férias” por formas forçadas como “estar em férias”, “entrar em férias”. Embora tampouco esteja errada, “em férias” é menos usual, tem menos tradição e não é nem um pouco mais correta ou mais formal do que a tradicionalíssima forma “de férias“.

Diga (e escreva), portanto, sem medo: estou de fériasviajaremos de férias a Parisentrarei de férias na próxima segunda-feira; etc.