Na imprensa: homens, pelo sobrenome; mulheres, pelo primeiro nome?

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As menções na imprensa à nova procuradora-geral da República, Raquel Dodge, exemplificam uma diferença recorrente de certos veículos na maneira como se referem a homens e a mulheres públicos. Rodrigo Janot, assim como todos os seus antecessores no cargo de procurador-geral (todos homens), é tratado pelos jornais brasileiros por seu sobrenome. Já Raquel Dodge é a única a ser tratada pelo primeiro nome – “Raquel”.

Referir-se a tão alta autoridade – e que sequer é uma política, que tenha, queira ter ou precise de apelo popular – por seu primeiro nome causa justificada estranheza – tanta quanto teria causado chamar, em manchetes de jornal, “Geraldo“, “Roberto” e “Rodrigo” aos procuradores-gerais que a mídia sempre tratou por Brindeiro, Gurgel e Janot.

Por que não dar à primeira procuradora-geral o mesmo tratamento que o dispensado a todos os seus antecessores homens? Escrever “Dodge afirma” ou “Dodge e Janot”, em lugar de “Raquel afirma” e “Raquel e Janot”, não apenas manteria a isonomia de tratamento – e um distanciamento saudável em relação a alguém que, afinal, não é nem deve ser íntima dos jornalistas nem do público. Além disso, os jornais ainda economizariam o espaço de uma letra (Dodge sendo menor que Raquel) a cada manchete ou menção.

Luxúria tem a ver com sexo, e não com luxo

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Na chamada acima, a revista Veja afirma que deitar sobre dinheiro, “como Tio Patinhas”, seria um ato de “luxúria“. Erraram. Luxúria, em português, nada tem a ver com dinheiro ou luxo; luxúria é sinônimo de lascívia, isto é, sensualidade excessiva, tendência excessiva ao desejo sexual.

Luxúria, em português, vem diretamente do latim luxuria, um dos sete pecados capitais do cristianismo – precisamente o pecado do desejo sexual exagerado ou imoral.

O uso de luxúria para se referir a luxo vem, por vezes, de tradução errada do inglês luxury – o inglês luxury significa, de fato, excesso de luxo, abundância de riquezas; já luxúria se traduz em inglês por lust (apetite sexual, lascívia, um dos sete pecados capitais).

É errado usar luxúria com esse sentido de “gosto pelo luxo” em português – língua em que os significados da palavra são outros, como se vê em qualquer bom dicionário, como o Aurélio, o Michaelis, o da Porto Editora ou o Houaiss:

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Embaixadora ou embaixatriz?

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Embaixatriz ou embaixadora? As duas palavras existem e são corretas, mas não são sinônimas – e é importante não confundi-las no uso.

Uma embaixadora é a diplomata graduada que chefia uma embaixada ou missão diplomática.

Já embaixatriz é a mulher de um embaixador. “Embaixatriz” está, portanto, para embaixador do mesmo modo que “primeira-dama” está para prefeito, governador ou presidente.

Também vale recordar que tanto embaixadora quanto embaixatriz (assim como embaixador, ministro, governador, presidente, etc.) se escrevem normalmente com iniciais minúsculas – a prática anterior, de escrever com iniciais maiúsculas os nomes de “altos postos e cargos“, era parte da norma ortográfica antiga, substituída pelo novo Acordo Ortográfico.

 

Ramallah, em português: Ramala, e não Ramalá

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O governo palestino tem como sede a cidade de Ramallah, na Cisjordânia (região da Palestina). Essa – Ramallah – é a grafia oficial da cidade em caracteres latinos – usada em árabe quando escrito com nosso alfabeto, e também em inglês, francês, alemão, italiano, etc. Pode também ser usada em português, já que a tendência atual é manter na forma original nomes estrangeiros sem aportuguesamentos tradicionais, como fazemos com Tel Aviv, Washington, Freetown, Buenos Aires, Kuwait (conforme indicado pelo Acordo Ortográfico) e tantas outras.

A pronúncia, porém, é Ramala, paroxítona, e esse é o aportuguesamento possível do nome da cidade – e não *Ramalá. A pronúncia errada advém da interpretação equivocada, que por vezes fazem brasileiros e portugueses, de que um “h” final em qualquer língua significa um acento agudo em português. Em línguas como o árabe e o hebraico, não é o caso: pense-se no nome Sarah, que se pronuncia Sara, ou Abdallah e Abdullah, aportuguesados (e pronunciados) como Abdala e Abdula.

Ramala corresponde à pronúncia do nome da cidade em árabe (e em hebraico, espanhol, inglês, português, etc.) e é a forma aportuguesada oficialmente usada pelo governo brasileiro, que tem um Escritório de Representação em Ramala.

O governo português usa a grafia Ramallah.

O aportuguesamento Ramala é também a forma mais usada pela imprensa brasileira – e portuguesa, angolana

É também Ramala a forma correta de escrever e pronunciar o nome dessa cidade palestina em espanhol, como se vê neste consultório linguístico espanhol, assessorado pela Real Academia Espanhola:

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¿Cuál es la grafía más correcta en español de esta ciudad palestina? También tengo dudas sobre su acentuación.

La escritura recomendable en español es Ramala y se pronuncia como se escribe, es decir, como palabra llana (paroxítona).

Lalau, sinônimo de ladrão… desde 1949

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No ano 2000, o Brasil acompanhou a revelação de escândalo de corrupção milionário que envolvia o juiz Nicolau dos Santos Neto. Quem acompanhava a imprensa brasileira à época recordará que, após meses de cobertura, o caso era já mencionado simplesmente como o caso “Lalau”, apelido pelo qual o juiz ficou nacionalmente conhecido.

A maioria das pessoas pode ter simplesmente achado que “Lalau” era simplesmente o apelido pessoal do juiz, o modo pelo qual amigos ou comparsas o chamavam. Na verdade, não – o juiz nunca usou o apelido.

“Lalau”, na verdade, é um antigo sinônimo brasileiro para ladrão. Há quem hoje, ao ouvir que alguém “deu uma de lalau”, pense que se está fazendo referência ao juiz condenado; na verdade, é o contrário: foi o juiz quem acabou, à época, recebendo da imprensa, como apelido, essa antiga gíria para ladrão.

É provável que a maior parte da imprensa não soubesse que foi induzida a erro, pois em geral se referiam ao juiz Nicolau como “conhecido como Lalau“, como se esse fosse de fato seu apelido. O que parece ter ocorrido é que o apelido “o juiz Lalau” tenha começado a ser usado em tom de piada por humoristas e colunas menos sérias que conheciam a antiga gíria, mas acabou sendo popularizada e adotada por toda a imprensa mais séria sem saber que estavam simplesmente repetindo – e dando ares de seriedade – a uma piada maldosa (ainda que merecida).

Lalau como sinônimo de ladrão ou malandro já vinha na primeira edição do dicionário Aurélio, de 1975; na primeira edição brasileira do dicionário Aulete, de 1958; e em A Gíria Brasileira, livro de Antenor Nascentes (autor do dicionário da Academia Brasileira de Letras), de 1953.

Embora a associação (e a rima) do nome do juiz Nicolau com a palavra tenha servido para reviver e nacionalizar a palavra, em 2000, o registro mais antigo da palavra que encontro é de 18 de junho de 1949, no jornal A Manhã:

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Entre dicionários e enciclopédias, um consenso: nazistas são de extrema direita

É um consenso entre historiadores, dicionários e enciclopédias da Alemanha, de Israel, da França, da Inglaterra, do Japão, dos Estados Unidos, do Brasil: o nazismo e o fascismo foram movimentos autoritários de extrema direita. Que nazistas são de extrema direita é o que diz o partido de Angela Merkel na Alemanha, que é de direita e conservador. É o que diz o atual governo do Reino Unido, que é de direita e conservador. É o que diz Israel, cujo governo também é de direita e conservador. E é o que dizem os próprios neonazistas, que se dizem, eles próprios, de direita.

Que o nazismo, o fascismo e os neonazismos e neofascismos são de extrema direita é o que dizem todas as grandes enciclopédias do mundo, desde a prestigiosa (e capitalista) Encyclopedia Britannica até a Wikipedia. É o que dizem também os dicionários – de inglês, alemão, francês e português -, vide, por exemplo, o Aurélio, cujo autor nunca foi em vida acusado de ser comunista:

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Até a VEJA, principal revista de direita do Brasil, chama de “bizarrice” a tentativa de associar nazismo à esquerda – vide reportagem “Hitler era de direita (mas por que se importar com isso?)

No Brasil (e só no Brasil), porém, pessoas de direita recentemente começaram a defender que o nazismo não era de direita, mas de esquerda. Uma “prova” dessa descoberta, que só teria sido feita pelos iluminados brasileiros de 2017, apesar de contrariar todos os cientistas políticos do mundo, é que o partido nazista se chamava “nacional socialista”. Se tinha socialista no nome, era socialista, não? O argumento faz tanto sentido quanto dizer que a Coreia do Norte, hoje a ditadura mais fechada do mundo, é com certeza democrática, já que o nome oficial do país é República Democrática Popular da Coreia. Ou basta lembrar que, em 1980, no meio do regime militar brasileiro, o partido de sustentação da ditadura mudou de nome, de ARENA para “Partido Democrático Social”. Nomes obviamente não significam nada.

Dizer que nazismo era de esquerda porque, como o stalinismo, defendia um estado grande, restrição da liberdades, ditadura – é admitir que não entende o que significam direita e esquerda. O que lhes falta é aprender que o espectro político não inclui apenas um eixo direita-esquerda, mas também um eixo “autoritarismo x liberalismo” – e que, desde sempre, existem regimes autoritários de direita e de esquerda, assim como existem os liberalismos de direita e de esquerda.

Faz sentido que alguém de direita liberal repudie o nazismo – e isso porque o nazismo (como direita autoritária que é) era não apenas oposto à esquerda, mas também igualmente oposto à direita liberal:

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Lendo as definições de “esquerda”, “direita”, “extrema esquerda” e “extrema direita” no dicionário Houaiss e nos melhores dicionários americanos e europeus, é possível identificar alguns elementos que distinguem cada um desses quadrantes políticos:

Direita liberal: foco na defesa da propriedade privada; o Estado deve ser mínimo, e não interferir na vida dos cidadãos; o capitalismo é o melhor sistema existente, e, sem interferência do Estado, funciona da melhor forma possível.

Esquerda liberal: foco na promoção da igualdade; o capitalismo é inerentemente falho e cria e mantém distorções, que devem ser corrigidas pelo Estado; a religião deve ser excluída dos processos políticos e de tomada de decisões; imigração não deve ser proibida.

Extrema direita: Estado deve ser grande; nacionalista; Estado deve proteger os valores da nação, inclusive a religião; imigração é ruim para a nação; capitalismo é o melhor sistema; socialistas e comunistas são inimigos.

Extrema esquerda: Estado deve ser grande; comunista; a promoção da justiça social é mais importante do que respeitar a propriedade privada; religião deve ser excluída dos processos políticos e de tomada de decisões.

Entendendo tudo isso, não há como não entender por que, no mundo todo, o nazismo era considerado um movimento antiliberal, antidemocrático – mas de extrema direita, e jamais de extrema esquerda. Embora compartilhe com a extrema esquerda a defesa de um Estado grande e totalitário, as ditaduras de extrema direita defendem sempre o nacionalismo e os valores da nação, inclusive sua história, religião e composição, ao meso tempo em que defendem o capitalismo; à diferença das ditaduras de esquerda, que repudiam o capitalismo, a propriedade privada e a religião.

Insistir que nazismo é de esquerda, quando os próprios partidos e governos de direita na Alemanha, em Israel, no Reino Unido, nos EUA – no mundo todo – e os próprios neonazistas dizem exatamente o oposto é admitir não entender que a categorização política é mais complexa do que simplesmente “esquerda” e “direita”, e que é possível nazistas serem de direita (autoritária) e mesmo assim defenderem o oposto do que defende a direita liberal.

A pronúncia de avessas (em “às avessas”)

Um leitor perguntou qual a pronúncia correta da palavra “avessas“, na expressão “às avessas”.

Como adjetivo, não há controvérsia – todos pronunciamos com “ê” fechado “avesso”, seu feminino e seus plurais (“Elas são ‘avêssas‘ ao trabalho”, por exemplo). A polêmica é quanto ao substantivo feminino plural “avessas” (coisas contrárias), que praticamente só se usa na expressão “às avessas”.

Esse “avessas” é uma das palavras que se ouvem com dupla pronúncia entre falantes cultos brasileiros – do mesmo modo que poça (de água, por exemplo, que se pode pronunciar tanto “pôça” quanto “póça”) ou o particípio pego, de pegar (por exemplo em “ele foi pego”, caso em que se pode pronunciar tanto “pêgo” quanto “pégo”).

Na prática observa-se que falantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e dos estados da região Sul pronunciam “às avêssas“, enquanto falantes de Minas Gerais, Espírito Santo e de todo o Nordeste dizem “às avéssas” (Caetano Veloso, por exemplo, canta “avéssas” – ouça aqui).

Ao verificar o Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, uma surpresa – para a Academia Brasileira de Letras, a pronúncia é apenas “avêssas”:

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Isso significa que a única pronúncia correta é “avêssas“? Certamente não – até porque, como sabemos, o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras não tem valor oficial. E basta abrir um bom dicionário, como o tradicional dicionário Aulete, para ver que este traz, explicitamente, a indicação da pronúncia “avéssas“, com “é” (ver aqui).

O Houaiss e o Aurélio não trazem indicação de pronúncia para “avessas” – mas esse “silêncio” tende a indicar que reconhecem a pronúncia “avéssas”, já que ambos em geral trazem a pronúncia dos substantivos terminados em -essa apenas quando se pronunciam com ê (como condessa), e não nos pronunciados com é (como promessa).

Em Portugal, o tema é unânime: a única pronúncia lá existente é “avéssas”, segundo os dicionários portugueses (Priberam, Porto Editora e o da Academia das Ciências de Lisboas, homóloga da nossa Academia Brasileira de Letras).

O que se conclui disso tudo? Que a pronúncia original, vinda de Portugal, é “avéssas”, e que é a preservada ainda no Nordeste, em Minas Gerais e em outras partes do Brasil; mas que a pronúncia culta mudou para “avêssas” pelo menos no Rio de Janeiro, em São Paulo e nos estados do Sul (e provavelmente em áreas de influência destes, como as áreas de colonização sulista no Centro-Oeste).

A diferença de pronúncia leva, inclusive, a diferenças nas rimas possíveis para a palavra: a banda paulista 5 a Seco, por exemplo, rima “avessas” com “cabeça”, exatamente como o carioca Toni Garrido.

Já a capixaba Elisa Lucinda faz rimar “avessas” com “confessa”, enquanto o vocalista mineiro da banda Biquíni Cavadão rima “avessas” com “promessas”.

E essa dupla pronúncia não é errado – como visto acima, há várias palavras com dupla pronúncia na norma culta do português, como “pôça”/”póça”.

O que não faz sentido é a carioquíssima Academia Brasileira de Letras querer dizer que a pronúncia carioca, que sequer é a tradicional, é a única correta. Embora errada, na prática a ação não é tão grave porque acaba sendo apenas mais um dos casos em que os dicionários brasileiros escolhem ignorar o que diz a Academia, mas que não deixa de ser inconveniente por ainda haver muita gente no Brasil que acredita que a Academia (que é uma simples organização não governamental carioca) tem poder legal ou oficial sobre a língua – o que ela não tem.