“Estão melhor” ou “estão melhores”?

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Será que o jornal acima traduziu corretamente o que disse Obama? Terá dito ele que “os EUA estão melhores do que há oito anos” ou que “os EUA estão melhor do que há oito anos“?

Existe o adjetivomelhor“, que significa “mais bom” e tem plural (melhor amigo, melhores amigos); e existe o advérbio “melhor”, que significa “mais bem” e que, como todo advérbio, não tem plural.

Estaria perfeitamente correta, portanto, a frase “Os Estados Unidos estão melhor do que há oito anos” (isto é, os EUA estão “mais bem” do que estavam oito anos atrás). O que provavelmente ocorreu foi que quem fez a tradução cometeu uma hipercorreção: tentou corrigir algo que já estava certo, por achar que estava errado.

Do jeito que saiu no jornal, a frase (“Os EUA estão melhores do que há oito anos“) acabou significando que os “EUA estão ‘mais bons’ do que há oito anos” – não se pode dizer que esteja errada, mas definitivamente a forma sem o plural (“os EUA estão melhor“) era, além de mais natural, a mais apropriada no caso.

Ipuiuna ou Ipuiúna? A grafia de Ipuiuna, Minas Gerais

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Ipuiuna ou Ipuiúna? Um leitor mineiro pergunta se o nome da cidade de Ipuiuna, em Minas Gerais, deve ser escrito com ou sem acento agudo. Diz que, nos seus dicionários (Aurélio e Houaiss), encontra, no verbete ipuiunense, o nome acentuado (Ipuíuna), mas que não concorda com a necessidade desse acento.

O leitor está correto: Ipuiuna não leva acento. A grafia Ipuiúna, com acento, é a grafia antiga – até o Acordo Ortográfico atual entrar em vigor, era acentuado, no Brasil, o “u” tônico seguido de ditongo: feiúra, baiúcaBocaiúva, etc., que, na nova ortografia, se escrevem feiurabaiucaBocaiuva, sem acento. Foi uma boa mudança da reforma ortográfica – não havia necessidade daqueles acentos.

Como a mudança é relativamente recente, ainda se encontra de vez em quando a grafia antiga (Ipuiúna), mas cada vez menos. Os jornais e órgãos públicos ipuiunenses já usam a forma sem acento, Ipuiuna (fora alguns resquícios de conteúdos antigos).

O Houaiss em papel, de fato, ainda traz Ipuiúna com acento, erradamente; mas a versão eletrônica do Houaiss, atualizada na Internet, já traz a forma correta:

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O fato de mesmo dicionários de renome como o Aurélio e o Houaiss trazerem o nome de uma cidade escrito errado não deveria surpreender: em diferentes textos anteriores aqui na página, tratamos de casos de cidades cujos nomes vêm escritos de forma errada nos principais dicionários brasileiros – Bagé, Lages, Joinville, Chuí, Mogi das Cruzes, ParatyMassaranduba, Pirassununga, etc. Foi por essa razão que criamos a página Dicionário de gentílicos brasileiros, feita para ser o que até então não havia – uma fonte confiável dos nomes de cidades brasileiros e seus gentílicos, devidamente verificados e confirmados mediantes fontes oficiais.

E a página tem dado resultado: desde a publicação deste texto, do ano passado, em que apontamos grafias erradas constantes dos principais dicionários brasileiros, o dicionário Houaiss já fez a correção, em sua versão eletrônica, de quase todas essas formas que estavam escritas incorretamente e que haviam sido apontadas aqui na página (Bagé, Lages, Joinville, Chuí, Mogi das Cruzes, Paraty, Massaranduba, Pirassununga)… além da já mencionada Ipuiuna.

A expressão “no aguardo” está correta? Existe “aguardo”? (Claro que sim.)

“Ficar no aguardo” e “estar no aguardo” são expressões corretas, existentes em português desde o século retrasado e autorizadas pelos melhores dicionários (como o Aurélio, o Houaiss, o Michaelis e o Aulete) e gramáticos da nossa língua.

Pela Internet circulam, porém, falsos rumores, segundo os quais a expressão “no aguardonão existe ou é incorreta. Estão errados: a expressão “no aguardo” existe em português desde o século retrasado e é corretíssima.

Veja-se, por exemplo, já a primeira edição do Dicionário Aurélio:

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O Aurélio infelizmente não tem versão gratuita na Internet, mas bastaria conferir algum dos dicionários gratuitos existentes, como o Dicionário Michaelis (aqui) (ou o Priberam, o Aulete, o da Porto Editora, etc.) para encontrar o substantivo aguardo e a consagrada expressão “no aguardo” (fico no aguardoestou no aguardo).

Há também sempre os que charlatães linguísticos que dizem que a palavra até existe, mas que é “apenas” um “brasileirismo” – uma deturpação da língua portuguesa feita por brasileiros incultos. Como sempre, errados: o substantivo masculino aguardo já aparecia no século retrasado no dicionário do português Cândido de Figueiredo e no dicionário do também português Caldas Aulete, com a indicação de que era palavra que se usava muito na região portuguesa do Alentejo no vocabulário da caça:

aguardo s. m. || espera, permanência. || (Alent.) Lugar onde o caçador espera a caça.

Dicionário Aulete, versão portuguesa

O  mesmo já se via, aliás, no dicionário de Moraes:

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Convém notar que em espanhol também existe o substantivo masculino aguardo, com os mesmos significados (ver aqui).

Entre os charlatães linguísticos, há, por fim, os que dizem que a expressão até pode existir, mas que o certo tem de ser “ao aguardo“, porque se diz “estar à espera”, e não “na espera”.

Mas basta pensar um pouquinho para perceber que também se falar “estar na expectativa de”, etc.

Em conclusão: é correto e antiga em português o substantivo aguardo, em português, com o sentido de espera, e também a expressão no aguardo é absolutamente correta.

Concertina, um tipo de acordeão

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A concertina é um tipo de acordeão menor e com forma de hexágono ou octógono. É instrumento musical com papel relevante na tradição musical de vários países – Alemanha, Reino Unido, Portugal, partes do Brasil (sobretudo o estado do Espírito Santo), Argentina (onde deu origem ao bandoneón), etc.

Mas a linda concertina da foto acima não é uma concertina para os nossos principais dicionários: para os brasileiros Houaiss, Aulete e Michaelis e para os portugueses Priberam e Porto Editora, uma concertina tem de obrigatoriamente ter formato hexagonal. Errados, todos eles.

Quem se salva são o Aurélio (que nada fala do formato da concertina) e o Estraviz (“Instrumento musical de fole e palheta livre, de caixa poligonal, do grupo dos acordeões“).

Em espanhol, a Real Academia também acerta: “concertina: acordeón de forma hexagonal u octogonal“.

Apenas em português, concertinas são também as espirais do arame farpado, como as da foto a seguir:

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Sediar ou sedear? A diferença entre sediado e sedeado

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O certo é sediar ou sedear? Diz-se sedeado ou sediado?

Até existe o verbo “sedear“, com “e”: é um verbo antigo cujo significado é limpar ou lustrar com seda, ou com escova de seda, etc.

O verbo que se usa com o sentido de receber um evento, hospedar, ser sede (séde) de algo é sediar, com “i”, como sabemos todos (e como ensinam todos os dicionários portugueses e brasileiros). Sabemos todos, exceto alguns dos criadores de caso de sempre (por exemplo, aqui e aqui), que dizem que, se vem da palavra sede, o verbo deveria ser sedear (e o adjetivo, sedeado), e não sediar/sediado.

A “lógica” é simplesmente furada: existe em português a produtivíssima terminação “-iar”, que faz que, de chefe, se tenha criado o verbo chefiar (não *chefear); de lume, o verbo alumiar; de abade, o verbo abadiar; de judeu, o verbo judiar; de apreçoapreciar; de presençapresenciar, etc.

E, para variar, além de precisarem corrigir todos os dicionários brasileiros, portugueses (e até galegos), os sabichões precisariam corrigir a história da língua portuguesa: ao menos desde a década de 1930 se encontram exemplos de sediarsediado em decretos e textos oficiais – como o decreto-lei brasileiro 457, de 1938, pelo qual o então presidente Getúlio Vargas autorizou a doação de fazendas, a fim de “nelas sediar o novo quartel das forças federais“, ou o Boletim de 1934 do Ministério da Agricultura, que se referia aos “encarregados de postos sediados em zonas de caça“.

“Através” só se pode usar em sentido literal? Mentira de Internet!

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As melhores gramáticas da língua portuguesa usam “através de” como expressão perfeitamente sinônima de “por meio de” (como fazem todos os bons autores portugueses e brasileiros). Recentemente, porém, charlatães linguísticos começaram a espalhar a falsa lenda de que “através” só se usa em sentido literal. Não caia na deles!

Como já falamos vários vezes, o que não falta pela Internet são os charlatães da língua, criadores de erros de português. Um desses falsos erros que se acha fácil pela Internet é o de que a palavra “através” não poderia ser usada em sentido figurado. Em vez de obter algo através de uma ação, dizem os charlatães, o certo seria dizer que se obteve algo “por meio de” uma ação – ou “por intermédio de“, “mediante“, etc., mas não “através”. Segundo a tal mentira, só se poderia usar “através” em sentido físico – o que faria da palavra a única na língua portuguesa a só poder ser usada em sentido literal.

É obviamente uma invencionice, um falso erro (inventado). Todos os melhores autores e os melhores gramáticos do Brasil e de Portugal usam “através de” com o sentido figurado de “por meio de“, e sempre o fizeram.

Aurélio e Houaiss (e todos os demais dicionários) são inequívocos: “através (de)” é um sinônimo perfeito de “por meio (de)”, “por intermédio (de)” – e dão exemplos: “educar através de exemplos”; “conseguiu o emprego através de artifícios”.

Os gramáticos de verdade (Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso Luft) não apenas nada dizem proibindo o uso da expressão, como a usam repetidamente ao longo de suas gramáticas, exatamente do modo que a tal lenda urbana diz ser errado. Como se vê na célebre Moderna Gramática Portuguesa, de Evanildo Bechara (2015), imortal da Academia Brasileira de Letras:

Pág. 71: “Em português, como em muitas outras línguas, nota-se uma tendência para evitar o hiato, através da ditongação ou da crase.

Pág. 77: “O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior vivacidade através da aliteração, nos seguintes versos

Pág. 140: “surgem muitas dúvidas no uso do plural, além de alterações que se deram através da história da língua

Pág. 191: “O tipo “zero determinação” antes do substantivo seguido de “o mais” é menos enfático, e se valoriza através de uma inversão (o mais alto homem)”.

Pág. 457: “Grande é o número de radicais gregos que encontramos no vocabulário português. Muitos deles nos chegaram através do latim e são antiquíssimos.

Da mesma forma, na célebre Nova Gramática do Português Contemporâneo, de Celso Cunha e Lindley Cintra:

Pág. 18: “É só a partir do seculo IX que podemos atestar a sua existência através de palavras que se colhem em textos de latim bárbaro

Pág. 152: “No primeiro exemplo, o pronome está relacionado com o substantivo por meio da preposição ‘por’; no segundo, o substantivo relaciona-se com o adjetivo através da preposição ‘de’.”

Nem mesmo aquele tradicionalmente considerado o mais conservador gramático brasileiro do século passado, Napoleão Mendes de Almeida, condenava esse uso que algumas pessoas por ignorância pretendem proibir:

“Não se deve cair no exagero de julgar que a locução “através de” só é possível quando significa “de um lado para o outro”, “de lado a lado”. Não vemos erro em: “A palavra veio-nos através do francês”, como não vemos na passagem de Herculano: “Através desses lábios inocentes murmuram durante alguns instantes as orações submissas””  (Napoleão Mendes de Almeida, Dicionário de questões vernáculas, 1981, pág. 33)

Ou seja: ao encontrar textos ou sabichões que dizem ser errado o uso de “através” em sentido não literal, o melhor é desconfiar de todo o resto que venha da mesma fonte, pois são grandes as chances de estar diante de um dos muitos inventores de falsos erros de português – ou, pior, de um coitado que apenas reproduz acriticamente o que “aprendeu” de um desses charlatões.

“Tinha” ou “havia” feito algo? A diferença entre “havia” e “tinha”

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Deve-se dizer (e escrever) “tinha feito” ou “havia feito”?  “Tinha ido” ou “havia ido”? Existe diferença entre “havia” e “tinha“?

O sentido é o mesmo – significa a mesmíssima coisa dizer que alguém já “tinha almoçado” ou que já “havia almoçado“. Mas muita gente acha (e ensina, errado, por aí) que “havia” seria uma forma mais antiga, tradicional, culta, literária, enquanto “tinha” seria uma forma mais popular, moderna, mais informal. Absolutamente errado.

A verdade é que a forma original e tradicional portuguesa foi sempre a que usa o verbo “ter” com particípios. Nos primeiros séculos da língua portuguesa, essa era, aliás, uma das marcas que a diferenciavam da língua espanhola: em português, a regra era o uso do verbo “ter” com particípios (tinha amadotínhamos sido), enquanto o espanhol exigia o verbo “haver” (había amado, habíamos sido).

Note-se que, com outros tempos verbais, até hoje em português só usamos o verbo “ter”: no passado, por exemplo, “tenho comido”, “(tu) tens cantado”, enquanto em espanhol o que se usa é o verbo “haver” (“he comido“, “(tú) has cantado“).

Em galego, nossa língua-mãe, até hoje só o verbo “ter” é considerado correto com particípios (tinha falado), sendo o eventual uso de “haver” considerado um erro causado por influência do espanhol (había hablado).

Para comprovar o que aqui se diz, basta abrir Os Lusíadas, de Camões, obra na qual se contam mais de 60 particípios com “tinha” (“o capitão tinha mandado“, “o mal que em Moçambique tinham feito“, “Meio caminho a noite tinha andado“) e um único com “havia” (“do licor que Lieu prantado havia“).

O mesmo se vê nas obras de Machado de Assis, três séculos mais tarde, em que também os particípios com “tinha” são muitíssimo mais numerosos que os com “havia“. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, lê-se, por exemplo: “Tinham-me dado razão os acontecimentos“; “Não tinha almoçado“; “As bexigas tinham sido terríveis“, “As bexigas tinham-lhe comido o rosto“, “Tínhamos falado na prata“.

O que facilmente se constata nas ruas de qualquer cidade brasileira ou portuguesa, portanto – que é muito mais comum o uso de “tinha” do que o de “havia” – não é, portanto, algo “moderno”, “novo”, “informal” ou “popular”: é a continuação do que sempre ocorreu em português, formal e culto, desde o surgimento da língua.

Ou seja: ainda que também sejam hoje consideradas corretas, em português, formas como “Havia feito” e “havíamos ido“, as formas mais tradicionais e conservadoras em português são as com o verbo “ter“: tinha feitotínhamos ido, etc. De modo que quem se força a escrever sempre “havia” em vez de “tinha“, achando estar “escrevendo chique”, na verdade está empregando uma construção originalmente estrangeira, que nada tem de mais elegante nem de melhor do que a corretíssima (e portuguesíssima) forma “tinha“.

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